Me mente, ao pé d'ouvido
se chegar tarde de novo
me beija, termina de me cobrir
me leva o café na cama
abre minha janela
coloca meu terço de volta
no pé da santa
pega meu dente sob
o travesseiro e põe uma moeda.
Se eu acordar
me conta do bar, do trânsito
do trâmite, do contrato
da outra, das outras
e se eu acordar
diz que ainda é cedo e me põe
pra dormir
De novo.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
domingo, 29 de novembro de 2009
Essa tal de poesia
Que visto que vivo
Que espirro que respiro
E essa tal de boemia
De bares e becos de família
Que convento
A vida minha que frequento
Fazer de fazer de conta que nem se janta
Antes de sair de casa
O que se canta mesmo
Noite à fora, o que se é
O desconchavo de agora ir embora
A morte
A vontade de amanhecer sem hora
Antes que se perceba a disritmia
Que mais quem se quer
(e que se pode querer) é a ironia:
A paz.
Que visto que vivo
Que espirro que respiro
E essa tal de boemia
De bares e becos de família
Que convento
A vida minha que frequento
Fazer de fazer de conta que nem se janta
Antes de sair de casa
O que se canta mesmo
Noite à fora, o que se é
O desconchavo de agora ir embora
A morte
A vontade de amanhecer sem hora
Antes que se perceba a disritmia
Que mais quem se quer
(e que se pode querer) é a ironia:
A paz.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Uno
Feliz, cria que o amor do mundo inteiro cabia no bolso (furado) da lateral das calças, dos cados de beijinhos, brigadeiros e tamarindos que caiam sem doer. E que a próxima, e que toda, viela sempre daria em bares lotados de vozes e sambas altos, de demais andar pelas mesmas ruas da Lapa. E, antes de aprender quem se deve abraçar vida à fora, evitara quaisquer braços, inclusive os próprios, e bancava à Vênus, sem Milo. E de tanto sorrir arrastado para tanta parede e tanta gravura estatelada no tempo, deu de gargalhar para o firmamento. Contra o firmamento, digo. Para ver se, do desespero escancarado, ainda que mascarado para o lado de lá do espelho, brotava razão à mais para continuar à se esperar. "Se esperar", com toda ambiguidade do termo, sem beiço e sem trema.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Cantiga de Mô
Joguei
a felicidade na beira do rio
o rio vai indo pro mesmo lugar
o mar de horizonte à me amparar
do tempo, da morte, e que nem mesmo o frio
ou a distância há de congelar
Voltei
pra beira da cama, fiz o sono fácil
me embrulhei em você e no silêncio bom
que a tarde que faz e mantém o tom
do riso e do beijo, afoga o lábio
entre eu e você, preenche os vãos
Pequei
e te trouxe aqui pra abafar o medo
do constrangimento a se enlaçar
palavra que digo e protejo, enredo
que se quer negar
Mas o adeus que eu quero dizer
É só um peito a se emudecer
A vida que eu rio em ti desaguar
O calor que seca no céu, teu lugar.
a felicidade na beira do rio
o rio vai indo pro mesmo lugar
o mar de horizonte à me amparar
do tempo, da morte, e que nem mesmo o frio
ou a distância há de congelar
Voltei
pra beira da cama, fiz o sono fácil
me embrulhei em você e no silêncio bom
que a tarde que faz e mantém o tom
do riso e do beijo, afoga o lábio
entre eu e você, preenche os vãos
Pequei
e te trouxe aqui pra abafar o medo
do constrangimento a se enlaçar
palavra que digo e protejo, enredo
que se quer negar
Mas o adeus que eu quero dizer
É só um peito a se emudecer
A vida que eu rio em ti desaguar
O calor que seca no céu, teu lugar.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Tuberculose
Rabisco o sol e o céu nublado na marca no guardanapo que a cerveja deixa, tusso a noite que já foi no trago que ela deposita no meu céu da boca enquanto faz que me beija e quer. A hora passa, o sono passa, ela acorda com tosse e tenta abrir a porta do quarto que eu tranquei ontem ao entrarmos à cópula e procura a chave que engoli enquanto ela se despia. O quarto se aquece mais conforme o meio dia se aproxima, e toca a ebulição quando ela me joga para fora da cama com socos, calcanhares e garras. Com 8 ou 12 riscos avermelhados se juntando aos outros das minhas costas, eu rastejo rumo a pia resmungando a dor que infla minha cabeça enquanto ela grita sem parar até parar. Começo a tossir também. Levanto a tampa da privada, cago, lembro do que fiz, e tento devolver a chave de volta ao mundo. Provavelmente as misturas químicas ingeridas da noite anterior são de grande ajuda, e a chave volta, esverdeada, para palma de minha mão. Ela já está quieta, dormindo e arquejando mais tranquilamente, à pose fetal na beira da cama. Deixo a gravidade deitar minha cabeça contra os lençois e espero o teto voltar e me dizer que horas são. O sol que rabisquei concretiza sua vingança, brilhando branco sob minha face, o céu resolve ficar azul por teimosia: ela, levantada, sonâmbula, nauseada, escancara as venezianas novas do hotel de qualquer jeito, e se arremessa de um qualquer jeito novo em cima do meu corpo que eu mal dera por falta antes daquele determinado instante. Ao lamber meu busto e pescoço ela acaba por adormecer outra vez, bem no meio de mais um acesso de tosse.
Os corpos dos pobres coitados suam seus rios e a camareira os desperta enfim ao espancar a porta do quarto. Na beira da rua, ele levanta seu pescoço para tentar ver que horas eram no relógio da Central. Ela já caminha por conta própria numa direção contrária, e, quando ele nota, já deve estar lá há uns 15, 17 metros de distância. Daria tempo de perguntar aonde ela vai, o que deseja, o que tem feito, afinal de contas. Mas as únicas notas que suas cordas vocais solfejam se perdem em mais uma tísica e seca convulsão, talvez seguidas de um quase ininteligível "desculpe".
Os corpos dos pobres coitados suam seus rios e a camareira os desperta enfim ao espancar a porta do quarto. Na beira da rua, ele levanta seu pescoço para tentar ver que horas eram no relógio da Central. Ela já caminha por conta própria numa direção contrária, e, quando ele nota, já deve estar lá há uns 15, 17 metros de distância. Daria tempo de perguntar aonde ela vai, o que deseja, o que tem feito, afinal de contas. Mas as únicas notas que suas cordas vocais solfejam se perdem em mais uma tísica e seca convulsão, talvez seguidas de um quase ininteligível "desculpe".
Assinar:
Comentários (Atom)
