quarta-feira, 14 de março de 2012

Os Relógios

Do gás lacrimogêneo vem a lágrima que dói. Dói como doía a agulha do soro. Cicatriz em um vestígio no lado de dentro do pulso. As tardes no hospital passavam rápido pois tinha vários livros para ler. O soco na cara lembrou o tombo causado pela anemia. A multidão se arrastava, iriam descer a avenida, os policiais chegavam dando bom dia e apontando as armas. As balas de borracha lembraram vagamente as bolas coloridas que gostava de jogar ao chão, de tentar fazê-las quicar do azulejo ao teto. Do carpete ao teto, o chão era forrado com carpete. O primeiro soco aleatório que levou lembrou o tombo, o lábio ferido, o gosto de sangue lembrou o segundo beijo, que fora seguido por mordidas leves, leves que se intensificaram. Caído no chão, aproveitou o tumulto, a distração do policial, se jogou entre as pessoas, se lembrou que estava ali só olhando, que acabou de sair do trabalho, que hoje pelo calor permitiram que sua sessão fosse com roupas menos formais e quentes, se lembrou também que esses fatos tanto faziam para um trabalhador pago e mandado fazer o seu trabalho. Sua nova namorada encontrou em seguida, ela sim ativista, pegando ele pelo pulso, e mandando correr, correr para frente da multidão, multidão moderada, cerca de 1500 manifestantes, o jornal em breve palpitaria. Antes de conseguir, porém, o gás lacrimogêneo já estava sendo atirado, a vista ardeu. 20 metros adiante, encostados em uma marquise, Anne pegou um lenço de papel umidecido e limpou o rosto do namorado, que doía, e lembrou de quando limpava a remela de seus gatos, e realmente achou que namorava um gato, barrigudo, cinza, preguiçoso, de bom coração, lembrou da ponte no Brookylin onde ele havia tirado uma foto com olhos fechados, incomodado pelo vento. Nesta foto abraçava uma amiga, entre aspas, provavelmente uma "ex", evitou tocar no assunto. Assim recuperado, o pegou novamente pelo pulso e continuaram a caminhar para frente e para longe do tumulto, que após o susto, a confusão, uma leva começou a efetivamente ocupar a avenida. Caminhariam até o hotel mais famoso da cidade, onde o presidente dos Estados Unidos estava hospedado. Outra guerra tinha sido declarada semanas antes, o Brasil tinha jurado apoio incondicional aos EUA, as pessoas começaram a cantar, a polícia agora passiva observava. Anne lembrou da sessão da tarde, lembrou de Forrest Gump, a cena que ele reencontra Jenny em frente à Casa Branca no pós-guerra do Vietnam. Aplausos eram raros aqui, aplaudidos, digo, eram os cantos e cânticos gritados contra os Estados Unidos. Uma nova ameaça nuclear se aproximava, ele, tirando a camisa enxarcada de suor, de sangue, lembrou do desenho japonês que passava de madrugada naquele canal, Akira era o nome. A idéia de apocalipse lhe agradava. A idéia de ficar sem chuveiro quente era incômoda. A cidade era quente demais. Após duas horas de protesto, a Limousine do presidente ia tentar sair ilesa. A polícia recebeu reforços, estava disposta agredir quem fosse necessário. Os lábios coçavam, lembrou que agulha saia do pulso durante o sono no hospital porque ele inconscientemente coçava a ferida. Prende seu braço na cintura de Anne que ouve falar de uma menina de rosto pintado de vermelho que a primeira confusão se deveu a um dos afiliados do partido ter perguntado que horas eram para os policiais que vigiavam a cena. "Perguntar as coisas ofende esse dia. Pensam que tudo é ironia." Isso lembrou Anne que sua mãe era meio avessa à conversas. Achava que faziam piada dela inclusive quando perguntavam se tinha manteiga na geladeira. Odiava barulho. Destestava dar satisfações. E amava relógios.

terça-feira, 13 de março de 2012

Livre

Quadros e posters promocionais, estátuas, paredes pintadas de pixe em referências à Banksy. Na altura da terceira rua à esquerda sentido Zona Sul da Avenida das Nações Unidas. Morreu espatifado por um carro a 80 por hora. As pessoas ainda morrem espatifadas. Morreu pensando em 8 coisas ao mesmo tempo. Tinha pressa, precisava chegar na Rua São Clemente com a Muniz Barreto, saltou por engano na praia, quis ir no meio da pista de qualquer jeito, ademais o atraso pensava em como ia dizer para sua esposa que gostava de homens um pouco mais do que mulheres, que preferia macarrão alho e óleo do que espaguete com almôndega. Pensava no vídeo game que já tava comprado pro filho. Pensava que tinha tomado dessa vez calmantes demais antes de sair pro almoço. Pensava que o chefe ia rescindir o contrato de grande parte do seu setor, pensava nos álibis que tinha para garantir o seu emprego. Pensava no câncer de úlcera que matou sua mãe dois anos antes.

O policial militar, esticando o lençol, esperando o médico do Samu chegar pra registrar a ocorrência, dava graças a deus ter escolhido almoçar às três da tarde. Achava graça do jornal popular que custava 60 centavos enrolado na mão do homem de cara formal e paletó e gravata. Via desgraça no celular prestes a descarregar. Ria da desgraça, do trânsito praticamente parado e consequente engarrafamento quilométrico. Deu graças aos céus de poder trabalhar de frente pra praia, e se indagou quanto estaria a água de côco na barraca do lado oposto da rua. O primeiro carro atravancado buzinava pro ônibus, que ficava parado, cujos passageiros irritados começavam a descer para pegar uma condução depois do túnel. Embora fizesse pouco sentido prático. A buzina do carro atrás do primeiro era customizada com os dizeres "sai da frente, côrno." 30% dos civis presentes acharam graça. O policial também. Ainda rindo, ajeitou os cones alaranjados e conseguiu abrir uma brecha da pista para os veículos passarem. As buzinas agudas tocavam enquanto iam embora.

O para-médico chegou atrasado. Tomou nota dos fatos, observou por cima o corpo estirado, tomou um gole d'água e percebeu a sorte da família teve pois o rosto do indivíduo não havia sido desfigurado. Economizariam uma nota no enterro. Meu ônibus passava voando na outra pista onde o tráfego estava normalizado. Cheguei no Aeroporto em três minutos. O policial militar comprou a água de côco. Ao fechar o saco plástico, sentiu uma camisinha no bolso do paletó do defunto. Riu dessa desgraça também. O dito cujo empacotou antes de transar. Devia estar a caminho do Hotel Panda, nas adjacências, onde devia ter marcado com uma garota de programa. O para-médico pediu agilidade, o pm começou a escrever a ocorrência. Tomou cuidado com as crases. Errou acentuação de duas sílabas tônicas. As paredes pintadas da passarela subterrânea que o falecido esqueceu que podia usar haviam sido pintadas com tinta bege dois dias antes. A marca de pixe fresco feita naquela manhã levava os dizeres "Desvirginando a Urbanitude: Quem nasceu pra águia rubra voa mais alto que marimbondo preto." Um casal de folga levando seu beagle pra passear passou por ali, leu e achou graça. Desgraça foi o dia seguinte no trabalho, todos de luto pela morte trágica do chefe do setor de correspondência. Piadas sussurradas. Pecado. Sorte que era quinta feira, véspera de feriado. Região dos Lagos. Só segunda saberiam dos fatos.

segunda-feira, 12 de março de 2012

"Idiossincrasia"

Virgínia, você está ai? Atende. Acabei de sair do banho. Na parede do banheiro tinha um mosquito esparramado. Inválido, faltando 2 das 6 pernas, inseto. Enroscado em um fio invisível, devia ser teia de aranha. Aracnídea. Como escorpiões são aracnídeos também. Tinha só uma asa. Um outro mosquito também tava quase morrendo, no box onde ficam os shampoos. Esse eu matei sem querer quando fui lavar o cabelo, mal tive tempo de prestar atenção nele. Meu médico, meu psiquiatra mandou te ligar. Precisamos conversar assim que possível. Se você tiver aí, atende logo. Se tiver dormindo, acorda. Tenho comido demais. Dormido muito. Trabalho o dia inteiro, chego em casa, janto as panelas, volto à dormir e só acordo na hora do trabalho. Será que tenho realmente um problema, Gi? Que nem aquele gordinho do trabalho, você dele lembrar dele. Gordinho é apelido, ele deve estar pesando quase 200kg agora, coitado. Sério, ele tem sérios problemas. Há 7 meses que ninguém vê ele comendo no trabalho, digo, digo comendo mesmo, tirando as barrinhas de cereal, e uma salada de verduras estranha que ele tira do nada. Ele continua com o mesmo peso, inacreditável. Deve comer um pote de sorvete à cada janta e faz pose de dieta durante o trabalho. Gosto da idéia da morte. Essa noite sonhei que morri outra vez. Dessa vez com uma sequência de facadas na barriga. Virgínia, você pensa na forma que irá morrer? Meu intestino saia suavemente pelos buracos abertos pela faca, a sensação era boa. Li uma matéria sobre as Olímpiadas no Rio de Janeiro hoje. Querem construir um tunel submerso à Avenida Rio Branco. Tipo como já é na Praça XV. Falaram que é pra dar vazão. Vão é foder com a minha vida e o trânsito vai ficar caótico por, sei lá, um ano? O metrô só chega aqui em 2014. Grande bosta. Meu São Pedro mentiu pra mim hoje. Falou que era garoa, e dei de cara com uma enchente. Preciso me mudar da Tijuca assim que der. Minha mãe que falava assim, só saiu de lá pro cemitério. Anoitece cada vez mais cedo, meu amor. Já são 9 e 11 da noite, tenho a sensação que é 6 da tarde. Viu, cheguei ao final da gravação sem falar de sexo. Vi na Globo que teve outro arrastão esses dias no seu bairro. Você devia se mudar desse cafofo de putas, velhos irritantes e cachorros idiossincráticos. Você sempre adorou essa palavra. Idiossincrasia. Ainda adora? Se muda logo daí. Terça passada tive que entregar uns documentos por aí, tinha uma velha no ponto pedindo ajuda para saber que ônibus ela pegava pra descer no Centro da cidade. Eu ia ajudar se a louca parasse de xingar qualquer um que dirigisse a palavra à ela. Esquizofrênica, quando o meu busu chegou ela abriu um berreiro. Senti vergonha alheia. Odeio velho. Seu bairro fede, sai daí. Se quiser pode ficar uns dias aqui em casa, pode ficar. Falo de boa. Tem umas casas boas aqui pelo Grajaú. Pega o 422, serve. Tá dando uma pontada na garganta, deve ser inflamação. Vontade de meter uma colher de pau guela abaixo pra parar a coceira. Sei lá, fica o conselho, Virgínia. Faça que nem Dirceu, compre um carro e vá embora. Desculpa, eu ligo mais tarde.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Quitutes

A história a seguir aconteceu de fato esta manhã na Avenida Presidente Vargas:

-Eu não aguento mais
-Como?
-Essa porra
-Que foi?
-Essa, essa porra
-...
-Ó lá, lá vem outra porra de ônibus, olha, olha, olha, filho da puta, passou direto.
-Eles não respeitam mais ninguém, não sei pra que fazem essas sinalizações e...
-Se a buceta do próximo ônibus passar direto de novo, eu vou pegar, eu vou pegar, eu vou pegar...

Nesse momento, o desconhecido de terno e gravata estava procurando no chão um objeto pesado. Compreendi em seguida. Encontrou, por bizarrice do acaso, uma viga de metal enfiada na lixeira alaranjada da prefeitura.

-Pronto.
-...
-Vamos ver, agora eu quero. Agora eu quero que o próximo ônibus passe direto. Vai ser melhor ainda se ele encontrar o sinal fechado. HA, como eu quero.
-...
-Lá vem outro, vamos ver, vamos ver, vem, vou fazer sinal, pera, não acredito, parou, filho da puta, viado, parou. Não, me recuso a pegar esse. Vou pegar o próximo.
-...
-Viu, você viu como ele parou? Devia estar adivinhando que eu ia fazer merda.
-É.
-Vamos ver, ó, 455, nem serve pra mim essa porra, vamos ver se ele vai parar ou não.
-Esse serve pra mim, vou pegar.
-Não, cala a boca, Á LÁ, não parou, o sinal vai fechar, fecha, sinal, porra, caralho! Passou direto. Espero o próximo.

Nesse momento eu só conseguia pensar em simplesmente pegar outro ônibus, em outro ponto. Acontece que a curiosidade mórbida de ver o circo pegar fogo em uma segunda feira às vezes é forte demais.

-Agora, pronto, agora assim, agora é meu ônibus. Vou fazer sinal, com cara normal, ó, escondi o pau, escondi o pau, ó, Á, passou direto! Eu vou atrás! Sinal fechado, é agora, é agora, seu fil...

Bem, à seguir o homem de paletó e gravata começou a bater com socos e pontapés na porta do coletivo, para em seguida quebrar seus vidros com a barra de ferro. As pessoas do ônibus, que estava lotado, começaram a gritar desesperadas. O motorista estava com cara de apavorado, tentou gritar, decidiu manter as portas fechadas e o homem de paletó começou a espancar a lataria, ainda com a barra. Antes que ele chegasse na porta de trás do veículo, por onde os passageiros começaram a sair assustados, três guardas municipais se aproximaram. Como um deles já chegou por trás, batendo o cacetete nas pernas do Michael Douglas wanna be, rapidamente conseguiram o imobilizar. A barra de ferro voou rapido das mãos, acredito que por ser escorregadia por tanto suor que o homem suava.

-Me solta, porra! Me solta dessa porra, prende o motorista viado, prende esse filho da puta que ele que é o criminoso, porra, não para na merda do ponto!
-Se acalme, senhor, vamos precisar levá-lo! Se acalme!
-Me solta, filho da puta arrombado, me solta...

Já enfraquecido, vejo um dos pequenos caminhões da guarda se aproximar, vindo direto pela Avenida Passos. À essa altura o trânsito já estava parado na pista do meio da Presidente Vargas, sentido Zona Sul. Uma equipe de notícias parecia estar passando, raridade, e pelo visto iam querer filmar a situação. Eu atravessei a rua, me dirigi à tia que vende doces em frente ao ponto de ônibus que fica ao lado do Metrô Uruguaiana, e, além de pegar 5 paçocas por 1 real, percebi que ela vendia um quitute raro:

-Deus em vida, dona, não sabia que ainda vendia balas de Tamarindo!
-Pois é.
-Tá quanto?
-10 centavos.
-Me vê cinco.

Coloquei uma na boca para lembrar o sabor e logo fiz cara de bunda.

-São amargas, né?
-Sim, como a vida
-Bobagem, menino
-Sim, brincadeira. Me vê mais cinco. E me vê dez dessa de caramelo redondinha também. Vou fazer um experimento no trabalho.

quarta-feira, 7 de março de 2012

As Bicicletas

Andávamos de bicicleta, digo, elas andavam, eu ficava andando atrás, correndo, ou só caminhando, pois pouca pressa tínhamos. Minhas irmãs tentaram me ensinar 4 ou 3 vezes, mas meu talento parecia estar para outras coisas. Pegar insetos. Ter boa memória. Sempre ganhava o jogo da memória. Certo, às vezes Cecília ganhava, mas ela tinha 8 anos a mais que eu. Voltava da escola, caía nos livros, já Lígia era diferente, era mais confiante, fisicamente falando e estudava menos. Aos 15, só queria saber de festas, digo, as festas que pessoas de sua idade podiam ir, embora depois ela fosse se jogar em festas de faixa etária inapropriada também. Bem, andávamos de bicicleta, os subúrbios onde morávamos lembravam os subúrbios de filmes americanos e canadenses, com um paperboy distribuindo jornal e correndo de cachorros. Comparando com a realidade do que os noticiários identificavam como subúrbio carioca, paulista, mineiro, morávamos em outro país. Na época entendia pouco sobre essas nomenclaturas, rotulações de bairros, mas com o tempo entendi que cada canto da cidade tem um papel diferente. De qualquer forma, andávamos de bicicleta.

Lembrando agora, lembro bem dos gritos que vinham da casa vizinha, Luigi, amigo nosso saía para jogar bola e quando se atrasava haviam os gritos. Também lembro de como eu achava magra a perna direita do senhor que morava na frente, senhor Quintana, grande homem que sempre gritava bom dia quando tocávamos sua campanhia e saíamos correndo. Duas pessoas do nosso quarteirão raramente saiam de casa, me refiro principalmente a um outro jovem, cujo nome me foge a memória, pouco mais velho que eu. Nos aventuramos à jogar video-game e falar de desenhos animados duas ou três vezes em seu quarto, sua mãe havia sido receptiva, ou assim pensávamos. Sua família se distanciou em seguida. Uma pena, andava e brincava sempre com Sócrates, que morava no fim do quarteirão, há 15 minutos a pé. Pai e mãe professores de história e filosofia, Sócrates tinha poucos cartuchos de jogo, e ainda assim jogava muito bem qualquer coisa que colocava na frente dele. Lembro que ele olhava com carinho para Lígia, Sócrates 3 anos mais velho que eu, via essas coisas de forma diferente. Cecília namorou uma época, antes de nos mudarmos, Paulo Ricardo, que morava mais perto de Sócrates do que a gente, e ele ficava me contando dos horários que minha irmã entrava e saia da casa do dito cujo, talvez com esperança de eu disser algo para meus pais e eles intervirem. Ignorava a sua situação a este respeito. Aos 10 anos só queria treinar para ser o melhor jogador da escola.

Tinha vários esportes em mente: futebol, basquete, Street Fighter; só consegui ser o melhor jogador de xadrez. Inclusive porque ninguém mais jogava na escola, Sócrates mesmo com pai viciado no desporto, só sabia as regras, sem prática ou agilidade. Queria ser meia e atacante, como o jogador de futebol homônimo, contrariando sua família Palmeirense. Cecília era boa no vôlei, apaixonada por um jogador da seleção daquele ano, colou postêr na parede do quarto, Lígia fugia das aulas de educação física para ler revistas feministas e sobre moda. Lembro que aos doze tentei andar de bicicleta outra vez, Cecília já havia terminado suas leituras de férias do semestre, e decidiu me dar mais uma chance. Andamos na sua própria, porque era pequena, nessa época eu já tinha quase sua altura, Cecília que mantinha os seus 1m e 60cm desde os 13 anos. Foi mais um fracasso, pois mal conseguia tirar os dois pés no chão e evitar a sensação de que cairia de lado como uma tábua indefesa no asfalto. A lembrança que me vem deste evento, contudo, se refere à um caminhão de mudança parado na esquina. Eu era empurrado pela nonagésima vez por Cecília, e outra vez meus pés paralisados sem pedalar me obrigavam ao desespero de desistir. Angustiado notei o veículo, que tinha ao redor homens carregando cadeiras, caixas, objetos em estoque. Era a casa de Tatiane, cujo nome sem referência literária me arrepiava cada vez que sua mãe a mandava voltar, lanchar ou tomar banho. Brincávamos de Lego, com a mixaria de Lego que nossos pais podiam comprar e nos presentear de aniversário ou Natal, no meu jardim. No meu Jardim porque lá tinha menos planta, era quase cimento puro, com menos chance de perdermos as pecinhas. Brincávamos também de mangueira, piscina, e uma vez ficamos até relativamente tarde na rua contando histórias e rindo do fato dela poder fazer barulho das axilas e eu com as mãos. À propósito, eu estava tentando aprender a andar de bicicleta porque Tatiane, rindo do fato, me encorajara a aprender de vez. Se eu conseguisse aprender a andar logo, no fim de semana ela me levaria para o terreno onde estavam construindo o primeiro Shopping de nossa cidade.

Caminhei, agora a pé, na direção do caminhão, e encontrei a mãe de Tati dando ordens aos homens. Esta senhora sempre foi antipática comigo e toda minha família desde sempre. Cecília, logo atrás, desejou bom dia e perguntou se a mudança era definitiva, e a mãe, cujo nome me foge a memória, disse que sim, que iriam para capital de outro Estado. O pai de Tati, militar, havia sido transferido novamente, dessa vez para Manaus, Acre, tanto fazia, porque ela em seguida disse que na noite anterior Tatiane já havia viajado na frente, com seu pai. Faltava uma semana para as aulas começarem, e ela queria que apesar da mudança inesperada de planos, sua filha ficasse em dia com os estudos. Virou as costas, nos desejou boa tarde e logo em seguida passou a nos ignorar ao dar mais ordens sobre como a mudança deveria ser organizada dentro do caminhão. Enquanto isso, Cecília me puxava pelo braço para voltarmos a praticar antes que o almoço ficasse pronto.

Eu tentei outras vezes, logo a comida ficou pronta e guardamos as bicicletas. Agora penso que vi a situação entristecido, com certo drama, consolado pelo videogame com Sócrates do final de tarde e pelo sorvete de flocos de sobremesa. Ele resmungou uma coisa nova a respeito de minha irmã, Lígia estava trancada em seu quarto no telefone com uma amiga, Cecília passava os canais, amaldiçoava as novelas da TV, e me gritou para lavar a louça. Pratos e talhares depois, Ceci prometeu me levar para o terreno onde estavam construindo o tal do Shopping no fim de semana, como se soubesse dos planos entre eu e Tatiane. Na verdade, o drama a que me refiro é que eu tinha cloro na vista. Mentira, naquele próximo Sábado, na verdade, eu planejava matar Tati. Queria matá-la, ela, Tatiane Gonçalves, morena de olhos verdes, meu primeiro amor, simplesmente porque ela havia dito três dias antes que estava apaixonada por Teobaldo, quem sequer citei na história até aqui. Veja só como são as crianças. Planejava o assassinato por asfixia ou empurrá-la desfiladeiro abaixo, pois o Shopping se encontrava em um pequeno planalto. Acreditava conseguir o feito com facilidade, aproventando o cansaço de Tati e seu problema de asma. O drama disso, repito, é que sua mudança repentina para além do inferno foi minha sorte, sinal, intervenção divina afim de evitar que me tornasse um psicopata. O que me faz rir é a sensação de que em certo ponto, lá no fundo, Tatiane queria ser morta por mim. Exatamente por isso ela queria se encontrar a sós comigo, em um lugar deserto, de difícil acesso. Eu juro que a idéia havia sido dela, à princípio.

Posso ouvir gritos que fantasio vir de Tati de vez em quando, momentos antes de pegar no sono. Devo ter tido sonho recente a respeito, e meia xícara de café, diarréia e insônia me fizeram escrever esse testemunho neste papel higiênico, com caneta Bic. Minha esposa dorme como uma ursa polar no ar condicionado de nosso quarto. Sabia que só as ursas polares fêmeas hibernam, e durante a gravidez? Do quarto ao lado, posso ouvir as crianças chorar. Gabriel e Saramago estão com fome. Eu queria que chamassem Freud e Saramago. Minha esposa odiou a idéia, queria Gabriel e Raphael. Nomes de anjo. Dividimos.

terça-feira, 6 de março de 2012

Para Uma Avaliação Psiquiátrica

Hoje acordei meio excitado
Me masturbei mas tive que cortar meu pênis
Por conta de um câncer maligno
Que tive entre minha uretra
E testículos
Hoje acordei meio excitado
Nunca mais acordarei assim
Nunca mais cometerei crimes
Contra a humanidade
Daqui há 30 anos
Quando sair da prisão
Comprarei uma casa no campo
Um caminhão de sorvete
Daqui há 20 anos
Serei tão mulher quanto você
Aqui de óculos me avaliando
Com belas pernas
E batom
Daqui há 10 anos
Serei tão criança quanto você
Apaixonada por sorvete de baunilha
Chorando com uma colher bem grossa na boca
Hoje eu acordei meio excitado
Daqui há algumas horas
Aprenderei a sentir prazer anal
Um dia, não ter mais um pênis não me será mais um problema
Só espero viver até lá
Hoje eu acordei mutilado
Sem saber rimar.

Para Uma Aula de Literatura Moderna

Hoje acordei meio excitado
De pau duro, suado
Lavei os dentes, saí do quarto
Vi minha irmã e mãe na sala
Não, isso é incesto
Já pronto pra escola
Na varanda, vi nossa cachorra
Jeitosinha, bem branquinha
Não, é zoofilia
Pro Amendoeiro, nossa escola
Já vim sem muita alegria

Hoje acordei meio excitado
E o ônibus lotado passou às 7
Minhas colegas de classe
O que acontece?
Cresceram rápido
Já rabudas
Estreando sutiã
As mais velhas, mais gostosas
Saia curta, Juliana
De Collant
É meu sonho, professora
Ela faz balé
Eu jogo video game
Do terceiro ano ela é
Eu sou do primeiro
Hoje acordei meio excitado
Veio quente o fevereiro

No intervalo, eu o lanche
Desejamos a moça da cantina
Mas me contive
De matina tanto fogo
Me explica isso, professora?
Por que tanto jogo
Se o desejo é simples?
Aliás, ajeito o zíper
Mas suas pernas grossas, professora
São muito lindas
Seu rabão, seu peitão
Até seu óculos dá Tesão
Seus olhos verdes
Como abacates bem maduros
Me lembram o Verão

Hoje eu acordei meio excitado
Pra onde vai meu corpo inteiro?
Te entrego agora esse poema
E vou me trancar lá no banheiro
Pra te prestar uma homenagem e
Dizer adeus ao Amendoeiro.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Vírgula

Deixa eu me lavar de vez. Ele goza, já vira pro lado, dorme, é um puto mesmo. Tem sorte que eu amo. Whatever, já tinha gozado duas vezes mesmo. Velho, não acredito que a pasta de dente já tá acabando, essa mania de comprar a mais barata que tem. As águas de março levando o verão uma ova, já é abril, a chuva não vem, essa cidade nunca esteve tão seca, tão quente. Batata frita ainda me salva a vida. Vegetariano sofre. Que mais tem pra fazer nesse muvuca? Vai ser um saco achar minha roupa no meio dessa bagunça, é guitarra, é tênis, é roupa suja, é mala inteira jogada espalhada, é livro, ainda bem que não é o que eu dei pra ele, senão ele ia tomar na cara, é chave, mp3, gravata, remédio, dvd, pandeiro... que raio de pandeiro é esse? Quer saber, esquece. Desisto. Porra, tô falando que nem minha mãe. Nunca liguei pra bagunça, mas ele é o cúmulo. Praticamente estou morando aqui também, preciso ver se Sophia precisa de ajuda no nosso cafofo, mas pra ela tanto faz também, trabalha direto, quando fica lá é só pra dormir. Deixa eu ver se tem ligação ou email dela. Nada. Lara, não me olha com essa cara, já botei sua comida. Escuta, vai fazer cocô no jornalzinho, né? Bom. Odeio suco de caju, ele adora, jogar isso fora. Estragou. Lara, já falei pra ir pra lá, não fiz carne, não tem carne, é só o cheiro do miojo. Preciso comer mais devagar, esse microondas velho, comprar um novo, esse miojo fica pronto nunca. Tá, chega, vou comer do jeito que tá. Pronto, agora vou pegar minha Heineken, o cigarro, o Sucrilhos de sobremesa. Preciso beber café também. Será que faz mal? Breakfest com janta, maravilha, preciso dar um jeito na minha vida. Precisamos fazer compras. Que horas são, tá cedo, relaxa, Isabela, vai dar tempo. Tenso é a Barra Funda agora de manhã. Olha que lindo ele, dormindo agora de barriga pra cima, chupando dedo. Da primeira vez que vi ele fazendo isso achei bizarro, mas agora é até fofo. Vou tirar uma foto. Não, deixa, ele me mata. Se pá ele nem sabe que faz isso. Tá cedo, mas já tá quente, que horas são? Não acredito! Abre essa janela, Lara. É madrugada ainda! Maldito relógio que atrasa a hora. Era pra eu estar em pé só daqui há 2 horas. Acordo ele pra uma rapidinha, fazemos, mas ele também nem se liga. Ah, dane-se, deixa eu ver a rua um pouco, não vou dormir, já bebi café. Misturei tudo que dava pra misturar, acho que vou ter dor de barriga ao longo do dia.

Minha mãe sempre dizia que eu dizia "não" demais, acho que ela tinha razão. Me vê mais um cigarro, a cerveja já esquentou, Lara, vem cá, fica quietinha, larga de ser fogueteira. Parece que você que bebeu cafeína. Sobe aqui, fica na grade. Isso. Olha que céu lindo, minha bebê. Pera, Tiago? Vai levantar? Não, esse puto só tem que acordar às dez. Trabalhar do lado de casa é fácil. Quero ver fazer tour pela cidade de segunda à sexta, além de faculdade. Não devia ter bebido tanto café com cerveja, minha cabeça tá doendo. Precisamos ver quando vamos ver papai no interior. Próximo feriado já dá, eu acho. Agora que lembrei que escovei dente antes de ter comido, lá vou escovar de novo, sem pasta, porque você não me lembrou disso, Lara? Brincadeira, amor. A rua, um mendigo ou dois, algumas pessoas voltando do trabalho, olha ali, o cara que vende sanduíche com café chega no ponto cedo assim? O sanduba de atum dele era até bom, mas agora não como carne. Isso me lembra que. Lara, olha, vê a lua no céu? O amor começa no chão. Dois pés, um na cozinha, outro no colchão. Tô falando demais que nem minha mãe hoje. Ela ia adorar saber que tô citando poema dela. Ela escrevia, sabia? Devia acertar a bateria desse celula. Devia falar menos vezes não. Cacofonia? Nem lembro o que é isso. O mundo ia ser melhor se tivesse gente que falasse mais sim do que não. Isso é uma letra de música do Lulu Santos, não é, Lara? Odeio Lulu Santos.

domingo, 4 de março de 2012

Sagitário

Com a arma na cabeça me gritando passa a grana ai, filho da puta, e eu de susto gaguejando dizendo calma, não é bem assim, e a arma roçando a minha nuca, estávamos no ônibus, o ditocujo veio por trás, passa, passa logo, e eu calma, calma, sou trabalhador, tenho nada, vim do trabalho agora, só tem nessa sacola aqui, aqui tem leite que estou levando pode ver, e o cara foda-se, foda-se passa a porra do relógio, o celular, o celular, tu deve ter, anda, anda, e eu, tá bom, toma, toma, é o que eu tenho, e ele pergunta e dinheiro? dinheirodinheiro, deve ter alguma coisa também, anda logo caralho antes que o motorista se ligue, até então apesar de exaltado ele falava sussurrando e a quebra das lombadas, as curvas que o ônibus fazia ajudavam na abordagem, o ônibus vazio salvo eu, ele, o trocador e o motorista, que ficavam ambos do lado esquerdo, e ele parecia estar sob efeito de drogas, falando muito rápido eu passapassapassa o que tu tem, e eu disse já dei, já dei, e ele anda, anda, vou te furar todo filho da puta, tenho uma faca também, gosto de ver sangue, quero te ver sangrar, e eu pela mordedeus eu tenho filho e, ele cala boca, filho eu também tenho, vai tomar no cu, acha que é melhor do que eu, seu viadinho? vou rasgar teu cu com essa faca, puxar rasgar tua costas toda, dessa vez a voz dele começava a ficar mais alta, estávamos no canto e no fundo esquerdo do coletivo, como é de se imaginar, nem o trocador nem o motorista conseguiriam ver pelo retrovisor, e voltando, ele dizia fica manso senão vou te comer de porrada, te furar todo, e esfregou a lâmina gelada da faca na minha nuca, repetindo volta e meia não olha pra trás, não olha pra minha cara, e dizia isso enquanto fungava o nariz pra dentro, e eu disse, sei lá porque diabos, até hoje não sei, meudeus, calma, calma, veja, hoje é meu aniversário, tenta aliviar meu lado, já te dei o que tinha, e ele exaltado ainda mais, vai tomarnocu, aniversário é o caralho, que porra é essa, se é teu aniversário mesmo, seu viado, fala ai qual teu signo, se tu errar eu vou te matar agora, te ver sangrar nessa porra de ônibus, filhodaputa, agora definitivamente gritando, o trocador e o motorista deviam estar com fone de ouvido, não era possível, e eu desesperado pensando naquele momento que porra de idéia tinha sido aquela de mentir que era a porra do meu aniversário, eu pensei pensei, e ele fala logo, viado, tá mentindo, filho da puta, e apertou de leve a ponta da faca nuca, e eu chutei de susto sou sagitário, sou sagitário, e ele parou, respirou, ainda fungando o nariz, provavelmente de catarro ou sangue, pensou e falou tá certo, tá certo isso? que porra de dia é hoje? e eu respondi, hoje é dia 23 de dezembro, e ele botou as mãos na cabeça, dessa vez eu me virei pra encará-lo, e eu vi que faca ele tinha, mas a porra da arma era um guarda chuva pequeno, agora jogado no banco ao lado, antes que eu esboçasse uma reação a respeito, ele gritou, gritou dessa vez alto o bastante para o motorista notar a situação e frear o ônibus bruscamente, eu quase jogado no chão e ele meio apoiado com as pernas contra o banco, e após o freio continuou a gritar que putaquepariu, amanhã é Natal e eu tô aqui chapado fazendo merda, vacilação do caralho, porra, piloto, abre essa merda aqui atrás, abre agora senão eu te mato porra, porra, e o motorista assustado abriu, nada mais podíamos fazer, estávamos no meio da Brasil, o assaltante, o cara saiu correndo se jogando pela janela do ônibus mesmo, por mais que a porta já estivesse aberta, e ainda antes de sair correndo, gritou um desafinado feliz aniversário, filho da puta, batendo com a ponta da faca no vidro do lado que eu estava, continuou correndo, deixando tudo pra trás, até seu guarda chuva, que, ironicamente quando cheguei no ponto de casa, usei, pois abria uma garoa. Quando sentei no sofá, tentando processar o que aconteceu, minha esposa me abraçou, deu boa noite, perguntou do guarda chuva novo, e me jogou o jornal do dia para eu dar uma olhada enquanto ela terminava de pôr a comida pra esquentar microondas. Ao folhear eu abri justamente na página dos horóscopos, li, comecei a rir, e ela, voltando da cozinha, me perguntou porque que eu ria tanto, e eu disse que quem nasce em 23 de dezembro é Capricórnio, você, Clarice, é de Gêmeos, e eu sou de Touro. Sem entender nada, ela passou a mão pelas minhas costas, sentiu o meu suor, me mandou dar boa noite pro Guilherme e tomar banho. Mais tarde, já na janta, me contou sobre o seu dia cheio e pediu que assim que virasse a semana eu ligasse de vez pra administradora do cartão de crédito para mudar a data de vencimento da fatura.