quarta-feira, 14 de março de 2012
Os Relógios
Do gás lacrimogêneo vem a lágrima que dói. Dói como doía a agulha do soro. Cicatriz em um vestígio no lado de dentro do pulso. As tardes no hospital passavam rápido pois tinha vários livros para ler. O soco na cara lembrou o tombo causado pela anemia. A multidão se arrastava, iriam descer a avenida, os policiais chegavam dando bom dia e apontando as armas. As balas de borracha lembraram vagamente as bolas coloridas que gostava de jogar ao chão, de tentar fazê-las quicar do azulejo ao teto. Do carpete ao teto, o chão era forrado com carpete. O primeiro soco aleatório que levou lembrou o tombo, o lábio ferido, o gosto de sangue lembrou o segundo beijo, que fora seguido por mordidas leves, leves que se intensificaram. Caído no chão, aproveitou o tumulto, a distração do policial, se jogou entre as pessoas, se lembrou que estava ali só olhando, que acabou de sair do trabalho, que hoje pelo calor permitiram que sua sessão fosse com roupas menos formais e quentes, se lembrou também que esses fatos tanto faziam para um trabalhador pago e mandado fazer o seu trabalho. Sua nova namorada encontrou em seguida, ela sim ativista, pegando ele pelo pulso, e mandando correr, correr para frente da multidão, multidão moderada, cerca de 1500 manifestantes, o jornal em breve palpitaria. Antes de conseguir, porém, o gás lacrimogêneo já estava sendo atirado, a vista ardeu. 20 metros adiante, encostados em uma marquise, Anne pegou um lenço de papel umidecido e limpou o rosto do namorado, que doía, e lembrou de quando limpava a remela de seus gatos, e realmente achou que namorava um gato, barrigudo, cinza, preguiçoso, de bom coração, lembrou da ponte no Brookylin onde ele havia tirado uma foto com olhos fechados, incomodado pelo vento. Nesta foto abraçava uma amiga, entre aspas, provavelmente uma "ex", evitou tocar no assunto. Assim recuperado, o pegou novamente pelo pulso e continuaram a caminhar para frente e para longe do tumulto, que após o susto, a confusão, uma leva começou a efetivamente ocupar a avenida. Caminhariam até o hotel mais famoso da cidade, onde o presidente dos Estados Unidos estava hospedado. Outra guerra tinha sido declarada semanas antes, o Brasil tinha jurado apoio incondicional aos EUA, as pessoas começaram a cantar, a polícia agora passiva observava. Anne lembrou da sessão da tarde, lembrou de Forrest Gump, a cena que ele reencontra Jenny em frente à Casa Branca no pós-guerra do Vietnam. Aplausos eram raros aqui, aplaudidos, digo, eram os cantos e cânticos gritados contra os Estados Unidos. Uma nova ameaça nuclear se aproximava, ele, tirando a camisa enxarcada de suor, de sangue, lembrou do desenho japonês que passava de madrugada naquele canal, Akira era o nome. A idéia de apocalipse lhe agradava. A idéia de ficar sem chuveiro quente era incômoda. A cidade era quente demais. Após duas horas de protesto, a Limousine do presidente ia tentar sair ilesa. A polícia recebeu reforços, estava disposta agredir quem fosse necessário. Os lábios coçavam, lembrou que agulha saia do pulso durante o sono no hospital porque ele inconscientemente coçava a ferida. Prende seu braço na cintura de Anne que ouve falar de uma menina de rosto pintado de vermelho que a primeira confusão se deveu a um dos afiliados do partido ter perguntado que horas eram para os policiais que vigiavam a cena. "Perguntar as coisas ofende esse dia. Pensam que tudo é ironia." Isso lembrou Anne que sua mãe era meio avessa à conversas. Achava que faziam piada dela inclusive quando perguntavam se tinha manteiga na geladeira. Odiava barulho. Destestava dar satisfações. E amava relógios.
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