domingo, 4 de março de 2012
Sagitário
Com a arma na cabeça me gritando passa a grana ai, filho da puta, e eu de susto gaguejando dizendo calma, não é bem assim, e a arma roçando a minha nuca, estávamos no ônibus, o ditocujo veio por trás, passa, passa logo, e eu calma, calma, sou trabalhador, tenho nada, vim do trabalho agora, só tem nessa sacola aqui, aqui tem leite que estou levando pode ver, e o cara foda-se, foda-se passa a porra do relógio, o celular, o celular, tu deve ter, anda, anda, e eu, tá bom, toma, toma, é o que eu tenho, e ele pergunta e dinheiro? dinheirodinheiro, deve ter alguma coisa também, anda logo caralho antes que o motorista se ligue, até então apesar de exaltado ele falava sussurrando e a quebra das lombadas, as curvas que o ônibus fazia ajudavam na abordagem, o ônibus vazio salvo eu, ele, o trocador e o motorista, que ficavam ambos do lado esquerdo, e ele parecia estar sob efeito de drogas, falando muito rápido eu passapassapassa o que tu tem, e eu disse já dei, já dei, e ele anda, anda, vou te furar todo filho da puta, tenho uma faca também, gosto de ver sangue, quero te ver sangrar, e eu pela mordedeus eu tenho filho e, ele cala boca, filho eu também tenho, vai tomar no cu, acha que é melhor do que eu, seu viadinho? vou rasgar teu cu com essa faca, puxar rasgar tua costas toda, dessa vez a voz dele começava a ficar mais alta, estávamos no canto e no fundo esquerdo do coletivo, como é de se imaginar, nem o trocador nem o motorista conseguiriam ver pelo retrovisor, e voltando, ele dizia fica manso senão vou te comer de porrada, te furar todo, e esfregou a lâmina gelada da faca na minha nuca, repetindo volta e meia não olha pra trás, não olha pra minha cara, e dizia isso enquanto fungava o nariz pra dentro, e eu disse, sei lá porque diabos, até hoje não sei, meudeus, calma, calma, veja, hoje é meu aniversário, tenta aliviar meu lado, já te dei o que tinha, e ele exaltado ainda mais, vai tomarnocu, aniversário é o caralho, que porra é essa, se é teu aniversário mesmo, seu viado, fala ai qual teu signo, se tu errar eu vou te matar agora, te ver sangrar nessa porra de ônibus, filhodaputa, agora definitivamente gritando, o trocador e o motorista deviam estar com fone de ouvido, não era possível, e eu desesperado pensando naquele momento que porra de idéia tinha sido aquela de mentir que era a porra do meu aniversário, eu pensei pensei, e ele fala logo, viado, tá mentindo, filho da puta, e apertou de leve a ponta da faca nuca, e eu chutei de susto sou sagitário, sou sagitário, e ele parou, respirou, ainda fungando o nariz, provavelmente de catarro ou sangue, pensou e falou tá certo, tá certo isso? que porra de dia é hoje? e eu respondi, hoje é dia 23 de dezembro, e ele botou as mãos na cabeça, dessa vez eu me virei pra encará-lo, e eu vi que faca ele tinha, mas a porra da arma era um guarda chuva pequeno, agora jogado no banco ao lado, antes que eu esboçasse uma reação a respeito, ele gritou, gritou dessa vez alto o bastante para o motorista notar a situação e frear o ônibus bruscamente, eu quase jogado no chão e ele meio apoiado com as pernas contra o banco, e após o freio continuou a gritar que putaquepariu, amanhã é Natal e eu tô aqui chapado fazendo merda, vacilação do caralho, porra, piloto, abre essa merda aqui atrás, abre agora senão eu te mato porra, porra, e o motorista assustado abriu, nada mais podíamos fazer, estávamos no meio da Brasil, o assaltante, o cara saiu correndo se jogando pela janela do ônibus mesmo, por mais que a porta já estivesse aberta, e ainda antes de sair correndo, gritou um desafinado feliz aniversário, filho da puta, batendo com a ponta da faca no vidro do lado que eu estava, continuou correndo, deixando tudo pra trás, até seu guarda chuva, que, ironicamente quando cheguei no ponto de casa, usei, pois abria uma garoa. Quando sentei no sofá, tentando processar o que aconteceu, minha esposa me abraçou, deu boa noite, perguntou do guarda chuva novo, e me jogou o jornal do dia para eu dar uma olhada enquanto ela terminava de pôr a comida pra esquentar microondas. Ao folhear eu abri justamente na página dos horóscopos, li, comecei a rir, e ela, voltando da cozinha, me perguntou porque que eu ria tanto, e eu disse que quem nasce em 23 de dezembro é Capricórnio, você, Clarice, é de Gêmeos, e eu sou de Touro. Sem entender nada, ela passou a mão pelas minhas costas, sentiu o meu suor, me mandou dar boa noite pro Guilherme e tomar banho. Mais tarde, já na janta, me contou sobre o seu dia cheio e pediu que assim que virasse a semana eu ligasse de vez pra administradora do cartão de crédito para mudar a data de vencimento da fatura.
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