Quadros e posters promocionais, estátuas, paredes pintadas de pixe em referências à Banksy. Na altura da terceira rua à esquerda sentido Zona Sul da Avenida das Nações Unidas. Morreu espatifado por um carro a 80 por hora. As pessoas ainda morrem espatifadas. Morreu pensando em 8 coisas ao mesmo tempo. Tinha pressa, precisava chegar na Rua São Clemente com a Muniz Barreto, saltou por engano na praia, quis ir no meio da pista de qualquer jeito, ademais o atraso pensava em como ia dizer para sua esposa que gostava de homens um pouco mais do que mulheres, que preferia macarrão alho e óleo do que espaguete com almôndega. Pensava no vídeo game que já tava comprado pro filho. Pensava que tinha tomado dessa vez calmantes demais antes de sair pro almoço. Pensava que o chefe ia rescindir o contrato de grande parte do seu setor, pensava nos álibis que tinha para garantir o seu emprego. Pensava no câncer de úlcera que matou sua mãe dois anos antes.
O policial militar, esticando o lençol, esperando o médico do Samu chegar pra registrar a ocorrência, dava graças a deus ter escolhido almoçar às três da tarde. Achava graça do jornal popular que custava 60 centavos enrolado na mão do homem de cara formal e paletó e gravata. Via desgraça no celular prestes a descarregar. Ria da desgraça, do trânsito praticamente parado e consequente engarrafamento quilométrico. Deu graças aos céus de poder trabalhar de frente pra praia, e se indagou quanto estaria a água de côco na barraca do lado oposto da rua. O primeiro carro atravancado buzinava pro ônibus, que ficava parado, cujos passageiros irritados começavam a descer para pegar uma condução depois do túnel. Embora fizesse pouco sentido prático. A buzina do carro atrás do primeiro era customizada com os dizeres "sai da frente, côrno." 30% dos civis presentes acharam graça. O policial também. Ainda rindo, ajeitou os cones alaranjados e conseguiu abrir uma brecha da pista para os veículos passarem. As buzinas agudas tocavam enquanto iam embora.
O para-médico chegou atrasado. Tomou nota dos fatos, observou por cima o corpo estirado, tomou um gole d'água e percebeu a sorte da família teve pois o rosto do indivíduo não havia sido desfigurado. Economizariam uma nota no enterro. Meu ônibus passava voando na outra pista onde o tráfego estava normalizado. Cheguei no Aeroporto em três minutos. O policial militar comprou a água de côco. Ao fechar o saco plástico, sentiu uma camisinha no bolso do paletó do defunto. Riu dessa desgraça também. O dito cujo empacotou antes de transar. Devia estar a caminho do Hotel Panda, nas adjacências, onde devia ter marcado com uma garota de programa. O para-médico pediu agilidade, o pm começou a escrever a ocorrência. Tomou cuidado com as crases. Errou acentuação de duas sílabas tônicas. As paredes pintadas da passarela subterrânea que o falecido esqueceu que podia usar haviam sido pintadas com tinta bege dois dias antes. A marca de pixe fresco feita naquela manhã levava os dizeres "Desvirginando a Urbanitude: Quem nasceu pra águia rubra voa mais alto que marimbondo preto." Um casal de folga levando seu beagle pra passear passou por ali, leu e achou graça. Desgraça foi o dia seguinte no trabalho, todos de luto pela morte trágica do chefe do setor de correspondência. Piadas sussurradas. Pecado. Sorte que era quinta feira, véspera de feriado. Região dos Lagos. Só segunda saberiam dos fatos.
terça-feira, 13 de março de 2012
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