quarta-feira, 7 de março de 2012

As Bicicletas

Andávamos de bicicleta, digo, elas andavam, eu ficava andando atrás, correndo, ou só caminhando, pois pouca pressa tínhamos. Minhas irmãs tentaram me ensinar 4 ou 3 vezes, mas meu talento parecia estar para outras coisas. Pegar insetos. Ter boa memória. Sempre ganhava o jogo da memória. Certo, às vezes Cecília ganhava, mas ela tinha 8 anos a mais que eu. Voltava da escola, caía nos livros, já Lígia era diferente, era mais confiante, fisicamente falando e estudava menos. Aos 15, só queria saber de festas, digo, as festas que pessoas de sua idade podiam ir, embora depois ela fosse se jogar em festas de faixa etária inapropriada também. Bem, andávamos de bicicleta, os subúrbios onde morávamos lembravam os subúrbios de filmes americanos e canadenses, com um paperboy distribuindo jornal e correndo de cachorros. Comparando com a realidade do que os noticiários identificavam como subúrbio carioca, paulista, mineiro, morávamos em outro país. Na época entendia pouco sobre essas nomenclaturas, rotulações de bairros, mas com o tempo entendi que cada canto da cidade tem um papel diferente. De qualquer forma, andávamos de bicicleta.

Lembrando agora, lembro bem dos gritos que vinham da casa vizinha, Luigi, amigo nosso saía para jogar bola e quando se atrasava haviam os gritos. Também lembro de como eu achava magra a perna direita do senhor que morava na frente, senhor Quintana, grande homem que sempre gritava bom dia quando tocávamos sua campanhia e saíamos correndo. Duas pessoas do nosso quarteirão raramente saiam de casa, me refiro principalmente a um outro jovem, cujo nome me foge a memória, pouco mais velho que eu. Nos aventuramos à jogar video-game e falar de desenhos animados duas ou três vezes em seu quarto, sua mãe havia sido receptiva, ou assim pensávamos. Sua família se distanciou em seguida. Uma pena, andava e brincava sempre com Sócrates, que morava no fim do quarteirão, há 15 minutos a pé. Pai e mãe professores de história e filosofia, Sócrates tinha poucos cartuchos de jogo, e ainda assim jogava muito bem qualquer coisa que colocava na frente dele. Lembro que ele olhava com carinho para Lígia, Sócrates 3 anos mais velho que eu, via essas coisas de forma diferente. Cecília namorou uma época, antes de nos mudarmos, Paulo Ricardo, que morava mais perto de Sócrates do que a gente, e ele ficava me contando dos horários que minha irmã entrava e saia da casa do dito cujo, talvez com esperança de eu disser algo para meus pais e eles intervirem. Ignorava a sua situação a este respeito. Aos 10 anos só queria treinar para ser o melhor jogador da escola.

Tinha vários esportes em mente: futebol, basquete, Street Fighter; só consegui ser o melhor jogador de xadrez. Inclusive porque ninguém mais jogava na escola, Sócrates mesmo com pai viciado no desporto, só sabia as regras, sem prática ou agilidade. Queria ser meia e atacante, como o jogador de futebol homônimo, contrariando sua família Palmeirense. Cecília era boa no vôlei, apaixonada por um jogador da seleção daquele ano, colou postêr na parede do quarto, Lígia fugia das aulas de educação física para ler revistas feministas e sobre moda. Lembro que aos doze tentei andar de bicicleta outra vez, Cecília já havia terminado suas leituras de férias do semestre, e decidiu me dar mais uma chance. Andamos na sua própria, porque era pequena, nessa época eu já tinha quase sua altura, Cecília que mantinha os seus 1m e 60cm desde os 13 anos. Foi mais um fracasso, pois mal conseguia tirar os dois pés no chão e evitar a sensação de que cairia de lado como uma tábua indefesa no asfalto. A lembrança que me vem deste evento, contudo, se refere à um caminhão de mudança parado na esquina. Eu era empurrado pela nonagésima vez por Cecília, e outra vez meus pés paralisados sem pedalar me obrigavam ao desespero de desistir. Angustiado notei o veículo, que tinha ao redor homens carregando cadeiras, caixas, objetos em estoque. Era a casa de Tatiane, cujo nome sem referência literária me arrepiava cada vez que sua mãe a mandava voltar, lanchar ou tomar banho. Brincávamos de Lego, com a mixaria de Lego que nossos pais podiam comprar e nos presentear de aniversário ou Natal, no meu jardim. No meu Jardim porque lá tinha menos planta, era quase cimento puro, com menos chance de perdermos as pecinhas. Brincávamos também de mangueira, piscina, e uma vez ficamos até relativamente tarde na rua contando histórias e rindo do fato dela poder fazer barulho das axilas e eu com as mãos. À propósito, eu estava tentando aprender a andar de bicicleta porque Tatiane, rindo do fato, me encorajara a aprender de vez. Se eu conseguisse aprender a andar logo, no fim de semana ela me levaria para o terreno onde estavam construindo o primeiro Shopping de nossa cidade.

Caminhei, agora a pé, na direção do caminhão, e encontrei a mãe de Tati dando ordens aos homens. Esta senhora sempre foi antipática comigo e toda minha família desde sempre. Cecília, logo atrás, desejou bom dia e perguntou se a mudança era definitiva, e a mãe, cujo nome me foge a memória, disse que sim, que iriam para capital de outro Estado. O pai de Tati, militar, havia sido transferido novamente, dessa vez para Manaus, Acre, tanto fazia, porque ela em seguida disse que na noite anterior Tatiane já havia viajado na frente, com seu pai. Faltava uma semana para as aulas começarem, e ela queria que apesar da mudança inesperada de planos, sua filha ficasse em dia com os estudos. Virou as costas, nos desejou boa tarde e logo em seguida passou a nos ignorar ao dar mais ordens sobre como a mudança deveria ser organizada dentro do caminhão. Enquanto isso, Cecília me puxava pelo braço para voltarmos a praticar antes que o almoço ficasse pronto.

Eu tentei outras vezes, logo a comida ficou pronta e guardamos as bicicletas. Agora penso que vi a situação entristecido, com certo drama, consolado pelo videogame com Sócrates do final de tarde e pelo sorvete de flocos de sobremesa. Ele resmungou uma coisa nova a respeito de minha irmã, Lígia estava trancada em seu quarto no telefone com uma amiga, Cecília passava os canais, amaldiçoava as novelas da TV, e me gritou para lavar a louça. Pratos e talhares depois, Ceci prometeu me levar para o terreno onde estavam construindo o tal do Shopping no fim de semana, como se soubesse dos planos entre eu e Tatiane. Na verdade, o drama a que me refiro é que eu tinha cloro na vista. Mentira, naquele próximo Sábado, na verdade, eu planejava matar Tati. Queria matá-la, ela, Tatiane Gonçalves, morena de olhos verdes, meu primeiro amor, simplesmente porque ela havia dito três dias antes que estava apaixonada por Teobaldo, quem sequer citei na história até aqui. Veja só como são as crianças. Planejava o assassinato por asfixia ou empurrá-la desfiladeiro abaixo, pois o Shopping se encontrava em um pequeno planalto. Acreditava conseguir o feito com facilidade, aproventando o cansaço de Tati e seu problema de asma. O drama disso, repito, é que sua mudança repentina para além do inferno foi minha sorte, sinal, intervenção divina afim de evitar que me tornasse um psicopata. O que me faz rir é a sensação de que em certo ponto, lá no fundo, Tatiane queria ser morta por mim. Exatamente por isso ela queria se encontrar a sós comigo, em um lugar deserto, de difícil acesso. Eu juro que a idéia havia sido dela, à princípio.

Posso ouvir gritos que fantasio vir de Tati de vez em quando, momentos antes de pegar no sono. Devo ter tido sonho recente a respeito, e meia xícara de café, diarréia e insônia me fizeram escrever esse testemunho neste papel higiênico, com caneta Bic. Minha esposa dorme como uma ursa polar no ar condicionado de nosso quarto. Sabia que só as ursas polares fêmeas hibernam, e durante a gravidez? Do quarto ao lado, posso ouvir as crianças chorar. Gabriel e Saramago estão com fome. Eu queria que chamassem Freud e Saramago. Minha esposa odiou a idéia, queria Gabriel e Raphael. Nomes de anjo. Dividimos.

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