quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Monólogo em Areia e Dedo: 36 - Aceno de Longe

A quase distância do conhecido que acena de longe;

A quase proximidade do amor antigo que sorri amarelo, puxa o dispositivo móvel para lhe evitar o olhar, atravessa para a outra calçada e para a pessoa do outro da tela acena de longe;

A quase saudade da doença que quase lhe matou e você sente a falta porque aquela coisa de quase morte até fazia bem porque você bebia mais, ou porque você comia melhor, ou porque você escrevia tal fúnebre, embora, nunca realmente próxima, esta morte apenas acenava de longe;

A quase rua que tu virou e era na verdade uma viela e tu te pegou jogando bola com as crianças que te pediram para tocar, tio, toca, pra mim, tio e tu tocou, e tentou fazer uma embaixadinha, mas tu calçava sapatos, mas teus ossos e articulações não são mais os mesmos, e a bola escapou, e tu riu, e a molecada nem viu porque já corria no contra-ataque e o gol marcado por entre os chinelos foi como outro sorriso amarelo, acenando de longe;

O frio quase calor que lhe força a deixar os pés de fora da cama mas com o corpo ainda coberto e você poderia fechar a janela para que se tornasse de vez calor e justificasse o ar condicionado, mas tem a conta de luz, e você podia escancarar a janela e aceitar de vez o calor da ponta dos lábios pontudos dos pernilongos teimosos, mas tem sua alergia, ou você podia pular pela janela para que fosse você a se tornar de vez calor em si pelo impacto no asfalto,
num calor de um
baque
só,
mas a preguiça, de toda forma é maior e você assim permanece, com os pés de fora da cama, com o resto de corpo ainda coberto, e você, para a janela, só acena de longe;

Um filme quase bom na sessão Coruja, ruim o bastante pra você não se empolgar, bom o bastante procê não se levantar, tipo Dança com Lobos, e o sono, quase, quase chegando, e você bocejando e o sono enfim chegando e você sonhando ouvia os gritos mais horríveis, e são como seus familiares gritando, só que são centenas de vocês pois você está se vendo e contemplando sua existência através do momento de horror que deve ser quando formigas são carbonizadas vivas pela água quente, e você a formiga, é a sua avó humana que joga essa água quente, e é outro você, minúsculo e humano, assistindo você, minúsculo e inseto, sofrer, e você não sabe se o pavor vem de se afogar ou de ser dilacerado como num vulcão, como no centro da Terra, mas você acorda com alguém falando alto e é só aquela cena daquele moço Índio Lakota acenando ao longe para o Kevin Costner; 

A quase madrugada, estúpida e desesperada, quase madruga porque tornou a ser as onze horas do dia anterior, ou a noite anterior, um domingo que voltou a ser sábado, horário de Verão e você vagando pelo Centro, sem prever fins lucrativos, vê uma criança desequilibrada e desastrada cair de um muro, que que essa criança está fazendo na rua? e esta metáfora lhe angustia então você agarra forte a mão da noite escura, e você e as baratas sobem para a Lapa Selvagem, sobem a Joaquim Silva, sobe a Celaron, aqui as baratas seguem outro rumo, mas você vai e sobe uns 70 degraus e então depois você finalmente se cansa de subir; você se cansa de viver mas ainda assim acena de longe, do fundo da fotografia do casal de turistas que da base da escadaria se retrata pelas mãos e pela câmera de um terceiro desconhecido, você acena de longe, acena de muito longe para uma memória que não vai ser sua.

E, para esta quase carta que você nunca vai ler, de um longínquo ponto possível do universo, ofuscado por estrelas que não nos permitem lhe ver, você, ainda assim, nos acena. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Sentença

Havia calor debaixo do abraço
E o pedido de desculpas sob o estrondo
da porta batendo após a despedida
rompeu-se no escuro da noite,
partido em dois

Havia uma mão levantada, uma faca afiada,
uma marca de soco na parede
cujo golpe não mirava o azulejo

Havia uma mancha de sangue no canto da pia,
no canto da boca,
e neste canto alto que agora vara a madrugada
também há:
desafia a própria cicatriz

Havia a morte, e ela, sempre ela,
correndo perigo sob o afago razo,
por um triz
cambaleia entre a guerra
e a gagalhada

Havia calor debaixo daquele vestido,
havia amor em cada fio de tecido e cabelo
e ainda há
mas tal o conjunto não é mais "seu"
(abra e feche as aspas, pois nunca foi)
envie pro inferno seus pronomes possessivos
e sua arma recém utilizada
contrariada, hipócrita
em forma de adeus

Há ainda muito terremoto por tremer
e deve caber você no seu lugar
que jamais haverá este rio
desaguando no seu mar.

Carta Aberta a uma certa Luiza

Luiza, me diz se esse é seu nome mesmo, me diz se é esse seu nome. Eu ando confuso, ansioso, atarefado, embora geralmente só fique de barriga pra cima esperando o Sol nascer às seis - aliás, quando chega o horário de Verão mesmo? porque eu não aguento mais levantar 5 e pouca da manhã achando que tô atrasado. Eu ando chato, eu minto muito mas minto mal, me desminto mais rápido do que o transformador aqui da rua dando problema depois que chove forte. E quando eu penso em me jogar no mundo, vem mais um boleto pra pagar ou outra fatura atrasada do catão. Espero, sinceramente, que você receba essa carta aberta de coração aberto, porque o mundo e a gravidade não cabem na tela de celular nenhum. E o perigo estúpido de ser feliz está sempre ali latente, como quando a gente fuma, e diz que fuma só quando bebe, mas corta a cena a gente se pega abrindo uma lata de cerveja embaixo do banho, embaixo da cama, só pra puder fumar alis também. Eu te mando essa mensagem, Luiza, daqui do fim do mundo, daqui do tédio dessa fila do Mundial, acabou a luz aqui também e as pessoas ameaçaram quebrar o mercado inteiro, mas ninguém faz isso, né? Carioca mais ladra que morde. E o gerente, assustado, veio gritando calma-calma, e as pessoas palavreando palavreados, e a moça do caixa, estressada, aproveitou o furdunço pra acender um cigarro, e ninguém, pela adrenalina, se tocou que ela tava fumando em lugar fechado, a não ser eu, claro, porque eu que cedi o isqueiro. E eu aqui, frustrado em ter que deixar umas compras pra trás, derreteu o sorvete, rançou a carne; e ansioso para abrir logo a janela do quarto pra tirar o cheiro de guardado; e hoje parece que ninguém vai beber porque amanhã é dia útil de novo. Poxa, Luiza, hoje parece que não vou fazer nada-nada outra vez. O ano já tá acabando, réveillon, carnaval tá aí na porta e a gente aqui perdido em alguma capa de caderno Tilibra-década-de-90. A cafeteira explodiu, deixei o miojo queimar a ponto de estar indissociável da panela e recebi um recado de um ex-namorado, ou seja; vamos morrer aqui, rapidinho?
Escrevi muito pouco esses últimos meses; parece que eu só consigo escrever sozinho, o que é angustiante porque tem mais 9 pessoas lá em casa. Mas Luiza, vem, me diz aí seu sobrenome, me diz seu telefone, por mais que imaginária você deve ter familiares, você deve estar também conectada. Descobri uma ferida no céu da boca e não faço ideia de onde ela surgiu; descobri também outra ferida do lado de dentro da cuca, mas essa eu imagino bem de onde veio. Lembra daquele dia, você reclamando da sua família, você ameaçando incendiar a Presidente Vargas com seus movimentos de polidance no primeiro poste que aparecesse na frente? Pois é, eu lembro, e sinto sua falta. Vamos beber um café qualquer dia desses pra eu te mostrar minha tatuagem nova? Fica tranquila que eu desisti de tatuar os três porquinhos e a casa de tijolos no pescoço. Na real tatuei no peito um lobo enorme e tô aqui pensando que vai ser muito engraçado quando eu for soprar as velinhas do bolo do meu aniversário no ano que vem.

domingo, 19 de junho de 2016

Crônicas da Micro-política Carioca #1

Cumprimente todos os dias o motorista do bus e seja raramente retribuído; esqueça de fazê-lo um dia e receba, no instante seguinte em que perguntar se o veículo passará no antigo Jardim Zoológico, um sonoro "BOM DIA PRA VOCÊ TAMBÉM, DESGRAÇADO".
(Não passava, aliás.)

domingo, 5 de junho de 2016

One More Cup of Coffee For The Road

Após 7 anos de vício fiel, concluiu que não havia chances de não haver um cigarro perdido dentro do quarto, amassado que fosse, esfarelado que estivesse. Assim começou sua missão, e mergulhou em bolsos de calças, nas arestas insuspeitadas de suas paredes e quinas, embaixo de móveis, cadeiras, cama, colchão, fronhas; quem sabe de dentro de um livro, um tabaco achatado surgisse em surpresa? Obviamente dissecou as dezenas de maços findados espalhados, todos religiosamente vazios, por conta de buscas anteriores similares. Mas já são 7 anos de vício fiel, deve haver, nessa casa, que inferno!, pensou; e os bares fechados, as lojas de conveniência inconvenientemente trancadas, a madrugada e os amigos que jamais respondem o telefone a partir de certa hora; tudo só aumentava a agonia. E a salvação veio do banheiro, do cesto de lixo revirado. Debaixo do mal cheiro inesperadamente óbvio um cinzeiro esvaziado dias atrás tinha um cigarro quase inteiro, apagado provavelmente por conta de qualquer banho, telefonema ou atraso. Sentou no azulejo gelado mesmo, riscou o isqueiro e deu seu trago: seu último trago, depois de 7 anos.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Aquelas Canções

Canções são como gatos de rua
Não adianta correr pra abraçar
Menos ainda agarrar pelo rabo
Que ambos nos contra-atacam
Retalhando

Solução?
Resta sentar, esperar
Beber seus tragos
Até elas virem nos cheirar os pés
Roçar nas pernas
E, talvez, sentar no colo

Nunca nossos, nunca nossas
Mas da rua, soltos
Ninguém é de ninguém
Nem as canções
Muito menos os gatos
Ainda mais aqueles
E aquelas
Do centro da cidade.

Ausência Anunciada


19 de abril de 1996, a pequena Juçara dormia em seu berço enquanto caía do céu um pedaço de pedra vindo de uma parte distante de fora do Sistema Solar porém ainda da própria Via Láctea. Caía em um baque tão leve quanto uma bola de futebol faria caindo sobre a grama pois a nossa atmosfera já havia dissolvido e queimado a maior parte do composto rochoso ao tocar nosso solo. Pouco maior que uma cabeça de alfinete, passaria esta rocha 15 anos neste quintal tendo arruinadas as chances de sua natureza extraordinária ser descoberta no dia que a grama, as plantas e tudo mais foram cobertas por cimento, quando o novo dono da casa, agora vendida, intuísse construir uma garagem naquele espaço. Mas então Juçara moraria há 3 anos em outro bairro, da mesma cidade, cujo nome nos é irrelevante agora ou depois. Juçara, nascida dia primeiro de abril, teria que aturar piadas sobre o dia da mentira durante toda sua vida. Mas agradecida por não ter nascido dia 29 de fevereiro, este que fora sua primeira previsão de dia que viria ela mesma à luz dada pelos médicos, avistada a possibilidade real de ser parto ser prematuro, devido a complicações que sua mãe teria passado durante a gravidez.  

Contudo, superadas as dificuldades, viera nascer no dia apropriado para saúde de ambas, madre e cria, e nesta noite de 19 de abril de 1996 Juçara dormia em seu berço enquanto seu pai estava em outra cidade, com outra mulher, esta lhe espremendo os cravos do rosto, porém, sem ser isto necessariamente um caso de adultério, visto seus pais não estarem mais morando juntos há cerca de 2 anos e terem mais ou menos acertadas as questões do divórcio assim que os cuidados financeiros com a nova casa se fizerem estabilizados. Sua mãe, sua mãe de fato, dormia ao seu lado, o berço instalado ao lado de sua cama, e seu irmão, 12 anos mais velho, jogava alguma plataforma de videogames, hoje cultuada nostalgicamente, em seu quarto que ficava do outro lado da sala, que separava ambos. Sua avó, ainda viva hoje em dia, fazia bordados, costurava um par de meias para a neta, técnica que nunca conseguira influenciar gosto algum em sua própria filha, mas resguardava esperanças e expectativas sobre a outra, recém já vinda, dormindo, enquanto um relógio de pulso digital em cima da cômoda ainda indicava 8 da noite quando na verdade era 7, visto não ter sido ajustado de volta do horário de verão, findado cerca de 2 meses antes. Enquanto Juçara dormia, apoiava ela seu dedo indicador na testa, da mesma forma que faria pelo resto de sua vida inteira, por todas as noites, praticamente, exceto aquelas, claro, quando embriagada de alguma festa da faculdade chegaria e muito mal conseguiria achar o caminho entre o corpo e a cama, quanto mais entre dedo e rosto.

Juçara se cria taurina pois sua mãe não entendia direito de Astrologia. Isto até os 16 anos de idade, quando ao deparar-se com os horóscopos de uma sessão de jornal de Domingo, daqueles tempos quando ainda não havia aprendido a gostar de café e ainda bebia achocolatado ou leite puro, ou mesmo suco de laranja, e que até se via com uma pequena ponta de orgulho moralista por ainda não ter cedido aos vícios da vida adulta que tanto via em irmão, mãe, tios, parentes, e alguns amigos, da época que até jurava que nunca ia botar um cigarro na boca, bem, nesta bela manhã viu que seu signo correspondia, de fato, à uma ariana. Logo ela que sempre odiava pessoas do signo de Áries. Via agora seus desesperos de adolescência todos correspondidos à impulsividade deste que é de fogo. Via-se perdendo as certezas que o signo da terra lhe garantiriam até então. Juçara que estava tão bem começou assim a primeira crise existencial em sua vida, dentre outras que viriam posteriormente. Para além de dramas de primeiro beijo, primeira bebedeira, primeira experiência sexual, primeira e última experiência de sexo em público embriagada, os alicerces de crise, intensidade, instabilidade que Juçara travaria pelos próximos anos começariam neste dia, e, claro, no dia que seu pai morrera de insuficiência renal como decorrência de seu problema com alcoolismo, mas isto dava outra novela. Talvez me estendendo um pouco ainda neste assunto, antes disto, Juçara não travava um relacionamento estável e proveitoso com seu pai e madrasta. A antipatia datava desde os 8 anos de idade, quando esta investia em diversas tentativas de espremer os cravos de nossa protagonista, por mais que ela relutasse e fugisse. A ausência do pai e o clima de rotina em todos os encontros, a posterior queda de número de encontros semanais para mensais, bimestrais, semestrais, também contribuíram para a distância corrente. Apesar do pai viver em outra cidade, trabalhando com petróleo, concursado, Juçara herdara do irmão mais velho metade da indiferença sob as figuras paternas inclusas em suas vidas, incluindo avôs, tios, exceto cachorros do sexo masculino.

Seu irmão mais velho, a propósito, Joca, apelido de João, nunca soube explicar como surgira o apelido, era temporão, nascido 12 anos antes, em 1984, no dia 1º de outubro, coerente com a tradição prosseguida por sua irmã caçula de se nascer no primeiro dia do respectivo mês, seu irmão sempre estranharia a idade de sua irmã, agora às vésperas de completar 18 anos. O ano de 1996, o ano em que ele fora atropelado e perdera a memória por uma semana, o ano que ele fumaria maconha pela primeira vez para nunca mais, para nunca mais até os 21 anos, o ano que vira seu time, Vila de Taquatirim, ser campeão do campeonato estadual pela primeira e única vez, este ano fora tão claro, parecia ontem, semana passada, quando muito, parecia estar tão distante quanto a caneca de café quente está, na cozinha,, desta mesa de computador agora. Joca sempre se soubera libriano, embora não lembrasse quem havia lhe dito, mas não se importava com Astrologia. Por outro lado, também não dispensava suas crises existenciais, uma das principais não estar casado agora aos 30 anos de idade, ou sequer namorando, ou de sequer ter tido uma namorada séria durante todo este período, e soaria engraçado se ele dissesse isso para mãe e irmã, ou avó, coisa que ele nunca fizera, mas mesmo sendo homem, mesmo sendo a tal sociedade muito mais complacente com suas exigências para com o sexo masculino que para o feminino, todos estes detalhes não deixavam de incomodar. Sobretudo quando lembrava que sua irmã, aos 16, atara namoro mais longo e real, embora já findo, durara um ano, porém tal período já fora mais do que seus estranhos affairs com rapazes que conhecera em diferentes festas, trocara contato para sexo casual, mas não que isso acontecesse com a frequência que, ao colocar-se os fatos assim, possa parecer. Também se incomodava com o fato de não ter um sobrenome diferente. Não pela importância simbólica familiar de prestígio, mas pela sonoridade estética, sempre se se imaginava um ator de teatro, coisa que nunca foi, imaginaria um nome artístico, mas ficava frustrado por entre Almeidas, Silvas, Alves. Mas não se sentia elitista, sendo este o único contexto com o qual se incomodava a respeito do assunto. 

Sua mãe, Ana, nesta mesma noite de abril, em 1996, acordaria 2 horas depois do pequeno, pequenino meteoro cair desconhecido no quintal. Sem sono, por conta do pesadelo que acabara de ter, se sentaria na escrivaninha e escreveria sobre coisas aleatórias, ela, professora adjunta de uma universidade, também se dedicaria à literatura para fins de usos criativos pessoais. "Sentada e desesperada", fora um conto que viera a sua mente. Por sua vez, também tinha seus medos. Medos do romance com sua colega de trabalho vir a tona, medo de sua mãe morrer em breve e ter de lidar com o divórcio, com um filho adolescente, com uma filha recém nascida, com um romance escondido, e encontrar dificuldades emocionais para passar do estágio probatório e garantir estabilidade para família. Tinha também seu problema com nomes de ex namoradas ou namorados, e agradecida estava de não ter levado adiante um romance passado com uma outra Juçara, caso contrário não teria batizado sua filha com a palavra. Aprendera este costume de tomar aversão por nomes de pessoas que lhe marcavam negativamente. Graças a isso, nomes comuns como Renata, Fernanda, Roberto, Ricardo, arrepiavam-lhe a espinha. Um milagre estatístico "João" ter passado ileso à pré seleção.  A propósito, sobre o futuro presente ex-marido, Ana lembrava sempre que tinha que fazer comida em casa, recorrendo ao micro-ondas, pois só isso que os dois sabiam fazer na cozinha.

Juçara, na última semana, bebera seu primeiro gole de bebida alcoólica, com sua avó, Jovina, ainda viva, durante uma madrugada qualquer. A mãe estava de viagem com a atual namorada, que não é o mesmo affair de quase 18 anos atrás. Em um ato de rebeldia para com sua filha, Ana, que sempre questionava e tentava controlar, embora lesada e preguiçosamente, as atividades de sua caçula, sua avó resolvera furar a largada legal dos 18 anos ao abrir uma garrafa de whisky escocês guardada há 2 anos em seu armário. Juntas, neta e avó, sentaram-se, não antes de Jovina espremer uma laranja com uma colher pequena de açúcar para quebrar a acidez do drinque para o paladar de sua neta, que, mesmo com o aparato, não conseguiu evitar a careta durante seu primeiro gole. Jovina se preocupava com quase nada, outra servidora aposentada por uma partição do Ministério da Fazenda, nunca dependeu muito de seu marido, ex-militar que fez questão de abandonar no final da década de 70 por divergências políticas óbvias. O mesmo também desanimado com o casamento, aproveitou a deixa para se envolver com uma antiga colega de trabalho da então esposa, mas o paradeiro de ambos se tornou irrelevante para família como nos é agora. Jovina não teria vindo de fora do país, não teria sobrenome italiano ou alemão, sua família era na verdade do Mato Grosso, e passara para o emprego público com uma nomeação que lhe caíra do céu em outra história que valeria uma novela se me coubesse a criatividade e paciência de descrevê-la agora. Fã de Beatles e Roberto Carlos, fizera questão de comprar o primeiro violão de João, seu neto, que logo abandonara a empreitada, mas que seria retomado por Juçara alguns anos depois, ela, que agora estava passando a limpo "All My Loving", canção cantada por Paul McCartney, enquanto sua avó não prestava atenção ao encher seu segundo copo e ao perguntar para sua neta sobre seus namorados, "ou namoradas, porque tá todo mundo muito moderno nessa casa", e que tinha uma surpresa guardada por muito tempo para ela. Sua avó sempre fora obcecada por datas aleatórias, por isso escrevera em seu diário o dia, a data, e a hora de 19 de abril de 1996, e por isso se levantava agora para pegar o diário daquele referido ano, enterrado em uma das caixas debaixo da cama, que ela fizera questão de organizar cuidadosamente após a mudança, para dissertar a respeito.

Na noite referida, quando Juçara ainda era um bebê, enquanto a mãe dormia para acordar em seguida e escrever, enquanto o irmão jogava o videogame que venderia em uma feira por um sete-avos do preço 5 anos depois, apenas para se arrepender passados mais 7 anos, naquela noite Jovina teria tido um sonho, um sonho influenciado por um gole de uma vodka que ganhara de uma antiga colega de trabalho que teria voltado da Rússia dois meses antes e que lhe trouxera como souvenir a bebida, e, naquele sonho, sua neta seria uma grande mulher, foi quando acordou, e tamanho devaneio lhe fez lembrar que ainda guardava o seu último dente natural desde quando caíra de sua boca e o mantinha em uma gaveta. Naquela data decidira aguardar sua neta ter seus primeiros dentes de leite, que cairiam, também, no mesmo 19 de abril, porém de 2001, 5 anos depois. Se dissesse que o último dente de Jovina tivesse caído na mesma data se trataria de uma mentira, pois tal estatística foge a realidade cotidiana, mas fora noutra data, também interessante, que o fato se sucedera: 1º de Janeiro de 1994, data importantíssima para o histórico Movimento Zapatista. Infelizmente, Jovina nunca chegaria a conhecer o México. No mais, passados 17 anos, quase 18, relembrada tal memória de acordo com o registrado no diário,  a avó de Juçara entrega uma caixa com o seu último dente, caído no dia descrito, junto com o primeiro dente da Juçara, que caíra também na exaustiva data repetida aqui. Juçara ao encarar a caixa com dois dentes, com manchas secas e escuras de sangue, olhava para avó esperando alguma explicação, mas, Jovina, já embriagada, além da caixa, apenas entregava o diário com a página em questão aberta. Enquanto sua neta lia, Jovina, sentava novamente em sua cadeira pensando que já não se importava muito com aquela simbologia sentimentalista que ela tinha pensado uma década e meia antes, mas que deveria manter o compromisso assumido consigo mesma. Pensava na janta, lembrando que havia bacalhau pronto, e com isso abria um sorriso. Vendo este sorriso, a carta, e o silêncio repentino de sua avó, Juçara pensava que ela estava lhe propondo alguma metáfora profundo a respeito do ciclo da vida, mas confusa pois a anotação no diário em questão apenas trazia os dizeres "juntar dente da Ju. olhar na caixa de joias mais tarde." Neste momento sentira material e literalmente, para si, que sua avó havia cruzado a linha da sanidade e passara a ser oficialmente senil, logo ela sempre com tanta energia. Porém, custou e falhou a evitar as lágrimas pois não conseguia deixar de crer e ver bela a intenção desta senhora, e arrepiou-se ao ter em suas mãos mais de 70 anos de história. No final das contas, contudo, jamais abriu novamente a caixa, pois lhe dava nervoso ter um pedaço de sua avó guardado no armário e seria de mal querer se livrar para sempre do objeto.

Jovina se levantaria e caminharia até o quarto, após dado um beijo na testa de sua neta, lhe desejando boa noite e boa viagem, visto que passaria um mês fora pois ganhara uma viagem de presente da família como prêmio por ter passado no vestibular. Nunca a teria visto sair do quarto, pois durante a viagem sua avó viria a falecer de enfarto. Porquanto decidira manter a porta fechada sempre que possível e que sozinha em casa, mesmo quando viriam reaproveitar o quarto para para hóspedes durante a Copa do Mundo e Olimpíada na cidade, uma vez, inclusive, trancando sem querer uma italiana que dormia no quarto em uma manhã de Domingo.

Este conteúdo fora escrito no dia 19 de março de 2014. Falta menos de um mês para o aniversário de Juçara, porém ainda não decidi o que lhe dar de presente. Daria este conto se ela existisse ou fosse verdade o que eu disse.

Tomates Secos

Biscoitos de goiabada com cada vez menos goiaba. Nem adianta confirmar as horas: é sabido que quando se está atrasado de nada adianta encarar o relógio que não se vai chegar mais cedo nem o motorista do Ônibus vai passar dos sessenta quilômetros por hora quanto mais nesse trecho da avenida, repleto de guardas eletrônicos nos postes. Mesmo sentindo mais o gosto da farinha que da goiaba, o pacote durou menos de 3 minutos em suas mãos. Embalagem enfiada devidamente no canto do assento do ônibus, no embalo do corpo para este esforço lembrou da mochila no colo e do pote de vidro guardando tomates secos que comprara na mesma empreitada do biscoito. Tentaria uma receita indicada por uma amiga, só amiga, seria com tapioca. Uma aventura na cozinha por semana, pensava consigo. 

Amor passado enquanto um susto bem dado. Esse verso veio na cabeça de sacanagem bem logo depois que entrou na agência bancária para pagar a conta e teve de encarar a fila do caixa humano pois o eletrônico apresentava defeito. Isso bem logo depois de exatos 3 minutos para tentar convencer o guarda da porta giratória que a única coisa de metal que poderia estar atiçando de dentro da mochila o sistema de segurança era a cobertura de alumínio que guardava a tampa do tomate seco. Começou a considerar a possibilidade de aparar a barba com mais frequência. Como dizia, esse verso veio na cabeça bem de putaria quando de relance, bem de relance o arrepio de duração de três segundos e meio no instante em que depois de 15 minutos esperando sua vez viu certa pessoa de costas. Certa pessoa maiúscula, tão maiúscula que fez questão de sair da fila ao fingir que mudou de ideia sobre a espera e que, repentinamente, pareceu ser de sapiência maior falar rapidamente com o atendente do caixa para sanar determinada dúvida antes de aguardar seja lá quanto tempo necessário para ser atendido. Mas era o rosto errado pregado na frente daquela cabeça que estava de costas: estava de volta e oficialmente no último lugar pois a agência acabara de fechar e outros clientes não adentrariam o recinto para assumir seu posto de lanterna da fila. 

Começou ajeitar a carteira de cigarros pois tempo é o que lhe sobrava ali, agora, e uma senhora, igualmente preenchida pelo tédio e que podia estar na reservada fila preferencial, mas não estava, observava com reprovação o seu gesto. Como o intervalo era de apenas uma pessoa de distância, sua reprovação era óbvia para qualquer visão periférica, e o estalido da boca para qualquer um não surdo. Fingiu estar mais distraído do que a realidade ao continuar a passar os cigarros do maço para sua carteira de alumínio. A senhora com naturalidade sucumbiu ao seu papel narrativo de cortar o silêncio, como se era previsto de acontecer, com a frase pouco menos óbvia: "você devia parar de fumar." Concentrando-se ainda na tarefa que agora faz questão de estender, contudo, ela continua o monólogo de forma definitivamente inesperada: "É, meu marido adorava também, três maços por dia, morreu com 47. Sorte que me deixou uma porra duma pensão, se não eu estava é na merda. Dois marmanjos para criar, um, com uma cabeça desse tamanho, me desculpe o termo, mas me arrombou a boceta toda." Segurando o ataque histérico de riso porque desde cedo aprendeu que não se deve dar corda à louco, apertou o bico de um cigarro com a mão, o que não cabe na carteira e vai parar no bolso para ser aceso no primeiro passo fora do recinto. Uma certa alma caridosa e sorridente, provavelmente pelo humor da frase proferida do que por simpatia, atenta para senhora que estão chamando o próximo na preferencial, e, como não há outros idosos na espera, ela muda de ideia sobre sua urgência e se dirige para ser atendida. Ele se arrepende de ter ficado calado, e pensa que quereria dizer "É? eu devia parar de fumar? Pois a senhora não devia votar no PSDB!" A falta de réplica com certeza justificaria o acerto e o afio de seu comentário. O monólogo perdeu a oportunidade de se tornar um diálogo e a senhora, inclusive, já havia sido atendida e se retirado. Boas respostas só surgem depois.  

Depois de 50 minutos no banco, morrer atropelado porque não quis esperar o sinal fechar definitivamente não estava nos planos. Detalhe que naquela esquina, naquele específico sinal, que ele desconhecia pois raramente andava neste bairro, o farol durava apenas 50 segundos para se abrir e fechar. Para ser mais preciso ainda, no exato instante em que, já impaciente pela demora na agência bancária, parou para observar o movimentos dos carros e o transeunte marcado com a luz vermelha no alto do outro lado da rua indicando que devereria esperar, neste exato instante que descrevo faltavam meros 15 segundos para o sinal se abrir novamente. Mas já se havia perdido 50 minutos dentro de uma agência bancária, e é uma rua estreita, devia dar para atravessar em um pique só.

Era apaixonado, além de por biscoitos de goiaba apesar de sua consistência cada vez mais errática, pela arquitetura de caixas de correio. E nem nunca foi carteiro, sequer tinha parentes carteiros. Morava numa rua de casas relativamente antigas, localizadas em uma das vielas do centro da cidade que um dia já foram cercadas de cortiços e depois cercas de prostíbulos e que agora a especulação imobiliária trazia novos moradores, a maioria comerciantes de pequenos empreendimentos das redondezas, e também universitários fugindo dos altos preços da Zona Sul, e imigrantes de outros países da américa do sul, Colombianos, presumia, que tocam nas ruas do Centro aproveitando o fluxo de turistas europeus. Claro, prostíbulos ainda haviam, qualquer um que anda no Centro sabe o que é uma lâmpada vermelha seguida de uma escada que leva para um segundo andar de janelas lacradas. Portanto, a arquitetura da região o despertava a atentar para caixas de Correio, frequentava lojas de marcenarias e ultimamente acontecia um "revival" de caixas de correio retrô sendo vendidas com as convencionais de alumínio. Reparava que no andar de baixo do prostíbulo da rua havia uma caixa bem bonita, vermelha, para combinar com a lâmpada que se acendia de noite. Combinava com a embalagem do biscoito de goiaba.

Depois de 50 minutos no banco, morrer atropelado porque não quis esperar o sinal fechar definitivamente não estava nos planos. O carro bateu de quina na perna esquerda, a direita já pisava a calçada, se recuperando do pique. O corpo girou de banda, quebrando a perna em três pedaços e, mais importante, quebrando o pote de tomate seco dentro da mochila e rachando o coco do vidro do vasilhame contra as costas. A ambulância chegou, por acaso, em 2 minutos, pois vinha de outro atendimento por perto, muitos idosos na região, sempre acontecia uma emergência. Da perna nem sangue saia, mas o formato definitivamente era pouco usual para uma parte do corpo que geralmente é quase reta. O atendimento rápido impediu que gangrenasse, pensou,embora nada gangrene fácil. Pensou na morbidade de conjugar o verbo gangrenar. E dois meses de fisioterapia depois lembrou que perdeu a mochila no susto do evento, mas nunca recordou de tentar novamente a receita com tomate seco. A tal da amiga, de qualquer forma, indicou outra sugestão bem mais segura: cupcake de microondas em caneca. Na adrenalina do evento nunca lembrou de comentar que tinha sim comprado o pote e tinha, sim, ensaiado uma tentativa de seguir a receita recomendada. No mesmo caos de eventos esqueceu de citar que partiu a perna, vida atribulada, esqueceu, ela pensou que lhe fora indiferente e seguiu os pensamentos para outro lado, um lado chamado Rebeca Santos, colega sua de faculdade. Uma pena pois teria sido inclusive uma grande revolução em suas vidas a abortada parceria culinária. "Nem adianta confirmar as horas que você almoçou agora há pouco" e "se quiser vai lá e faz porque eu não sou sua empregada" se tornariam refrão entre esse casal se chegassem a sê-lo.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Harmonia Vulcânica

Um frio latente vem tomando as ruas Ainda que estejamos na mais tropical das capitais Berço do Samba e dos Carnavais Um frio desigual, vertical Que nem pêlo, nem roupa, nem abraço esquentam (Mas consolam) Que nem voto Nem o que é posto enquanto democracia Quão pouco a hipocrisia Condenam Um frio latente vem tomando as ruas Mas um calor, ainda quieto, ainda profundo Que nem exército, nem léxico Definem Contudo A febre dessa brasa resiste a pisada Das botas que jamais calçamos O calor dessas praças tende a se espalhar E nem o Sol há de palpitar E nem seu governo vai impor medida Nem a errância e a impaciência de nossas vidas Nem nossa muralha, imposta Composta pela pedra mais milenar Nenhum acidente vai sufocar Nem oceano e o lugar Do litoral Na encosta desse vulcão Um frio latente vem tomando as ruas E que a chuva e o trovão caiam sob nossas cabeças E tragam a pneumonia E tragam a febre E traguem o cigarro E tragam a energia que só se descobre Diante da maior catástrofe Que já está aqui, dentre nós Embaraçando novos nós Não que jamais tenhamos sido retos Cadarços desamarrados e tropeços que damos O furor em mim, em ti, somos Justamente esta taquicardia Só que nem a fobia por gás e pimenta Paralisam Pois Quando esta lava solar Menos estrela, mais suburbana Espalhar nossa condição humana E em derradeiro contato com o mar Nos tornar inesperada rocha Indestrutível, roxa Nem menos frágil por ser feita de gente (Exibe, aliás, nisso, sua força) Porque o que há de humanidade em vocês É real, admitamos Mas em breve, aguardem em pé, outra vem se impôr Mesmo que façam o dia se pôr às dez da manhã Outra felicidade, que vá além de outra euforia Outra máxima Nos aguarda e estreita, e, ainda mais ácida, Lhes espreita.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Possibilidade

De tudo ao meu amor serei honesto
diante da saída apertada
depois que a tempestade gelada secar
antes de ser terra eu já fui mar
durante o farol nos houve um lar
depois da boca cheia de mentira esvaziar
cabendo aqui em mim uma forma
de ser concreto sem me afogar
respeitar cada pecado
transformar-se no que se é
que é pecado algum, é só
nascer, chorar, sangrar,
prometer, caber, correr
cair, erguer, cair, erguer
apressar, esperar, esperar,
confessar e pedir
despedir-se
ponto final e início
desaparecer dentro da noite
nunca do precipício.

Antes de retormarmos o mar
desaparecer assim que possível
com a honra de um corpo
que nunca se negou a dançar.

Sinal Verde

Às vezes caio na contramão
mas te ouço dizer
que todo caminho é caminho
e que cabe verdade aqui também
cabe a maçã e a gravidade
cabe todo sim, todo não
antes eu fosse sozinho
antes fosse esse um pedido de perdão
e bebesse café sem açúcar num gole só
porque essa mão gelada que eu uso aqui
pra te acariciar
já foi um pouco mais quente
foi um pouco mais firme
e me desculpa essas unhas mal aparadas
e me desculpa essa vontade de encontrar essa gente
na rua, calçada, falando da vida
falando demais
procurando emprego
trocando segredos
é que segredos são tão raros aqui
tudo é protocolo
tudo é terremoto
me lembro agora que existe uma coisa rara
chamada colo
é que a privacidade tem dificuldade
de se reencontrar
se desacelerar
não se pode ver sequer um sinal verde
sequer o amarelo, sequer o vermelho
já se corre pra atravessar
chegar do outro lado
por cima ou embaixo dos carros
que é pra ignorar, no frio
numa garrafa de vinho
que às vezes a gente cai na contramão
mas te ouço insistentemente dizer
que todo caminho é caminho.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Ante-ontem

Não machuca, não me aperta assim
Não pega no sono bem na minha boca
Vê se não esquece a sua saliva e seu casaco
Enxuga esse suor da parede
E me deixa um abraço na geladeira
Não, não, bota no freezer
Que é pra não estragar
Que é pra quando a saudade apertar
Quando me der vontade
Daqui algumas semanas
10 minutos no microondas bastarem
Pra esquentar de novo.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Micropoesia para Dispositivos Móveis: Vinte e Dois

Se eu pudesse ser canarinho eu seria. Quem sabe um dia. Assim como se eu pudesse não ter medo de qualquer barulho, seja saco plástico ou móvel estalando pela mudança de temperatura, eu não tinha e continuava andando no escuro. Mas eu não sou, não tenho, não posso. Quando era pequeno meus irmãos me perturbavam com alguns desses medos. Uma vez estava apertado para fazer um número dois e corri pra fazer mas eles me juraram que viram uma barata fazendo a água da privada de piscina. Eu duvidava e sentava do mesmo jeito. Daí insistiam me apressavam da porta para fazer o ato logo, que o objeto ia acertar a dita cuja e ela ia afundar de vez. Então eu ficava nervoso e não descia nada. E de curiosidade levantava, olhava e nada dela aparecer. Explicavam que ela havia mergulhado e devia estar nadando pelos canos, que eu devia terminar e descarregar a descarga. Fiquei uns 3 dias sem voltar pro banheiro. Se eu pudesse ser canarinho eu seria e cagava em qualquer canto, voando e ainda por cima cantando. 

Micropoesia para Dispositivos Móveis: Vinte e Um

Tomei café era sete, ou era seis? Sabe lá que hora vou pregar o olho. Embora hoje a menstruação dela desceu, alivio a mais, estresse a menos. E eu perguntando, tem certeza, certeza? E ela confirmando repetidamente que sim, como minha irmã e mãe também confirmavam que sim, sem demônio dentro do armário, sem Mula ou Curupira debaixo da cama. Não sei de onde tirava essas superstições, família, filhos, queria ter vários, cheguei a perguntar pralguma tia como se embalava nenéns nos braços, e pegava as bonecas velhas da irmã até que daí veio o dia que meu pai por trás me deu um tapa no rosto que o dedo indicador dele quase me entrou na vista. Só voltei a praticar o colo uns bons 15 anos depois quando um amigo da rua engravidou antes do que devia a namorada e veio mostrar pra gente a sua cria. Já não era recém nascido, devia ter um ano e meio, a criança ficou segundo e meio comigo e emendou a chorar, que nem o pai dava conta da cachoeira. Óbvio que nem o pai, o bebê ficou com a mãe, naquela tarde em diante, o casal nem chegou a casar, casar.  

O teto descascando, a noite maldita, essa angústia escrota que só sabe se contorcer lá da boca do estômago. As manhãs tem ou tinham uma gota de alegria, esperança, de canção mid-tempo em sol ou dó maior, mas acho que era só efeito do açúcar do Sucrilhos no sangue. Uma sensação de que se podia fazer algo que prestasse antes que o dia acabasse, como bater bola e ficar duas horas e meia assistindo animações. Mas isso quando tu tem quase 30 é balela e depois das seis da tarde cai a ficha e bate aquela bad, que nem o jantar de qualquer merda apressada e nem a programação pirata da luz da tela de um dispositivo móvel ou imóvel saciam. Aliás, nenhum conhecido da minha geração assiste mais a Globo mas a rotina é a mesma, mudou só quem recebe os royalities de audiência. No mais, até o escuro é o mesmo, e essa certeza de que mais um dia nada se fez que mudasse! "Mas que mudasse o quê?", uma gota inquisidora que é outra parte minha mesma me retruca. Ah! Que mudasse o ventilador escolioso que insiste em tombar cada vez que faz sua viagem giratória de 190 graus de volta. Que desse um jeito e uma revisão no currículo pra procurar outra coisa ou aquela lida no edital daquele concurso. Que desempoeirasse o violão e praticasse em caso da necessidade de viver de música na rua Uruguaiana ou Largo da Carioca.

Às vezes penso que definitivamente preciso tentar viver um pouco mais como a galera dos anos 50 vivia. Menos noiado, menos conectado, só que pagando os mesmos salários para homens e mulheres e sem uma média de 5 filhos por família. Acho que por isso inventaram a cerveja: para distrair esses e outros pequenos fracassos diários. Somos uma geração de alcoólatras conformados porque tem muita droga pior por aí. Tipo cocaína. Tipo Coca-cola. O café inventaram para os idiotas como eu beberem na hora e na quantidade errada pra em seguida perderem sono e alegria demais pensando as próprias úlceras. Nessas horas geralmente nosso universo amostral se restringe da cabeça à ponta dos dedos e isso já causa bastante estrago.  

Micropoesia para Dispositivos Móveis: Vinte

Ia digitar "balde" mas o corretor automático do dispositivo móvel me corrigiu "baile"
BAILE
Considerando-se a sexta-feira,
concluo que este logaritmo é mais poeta e boêmio do que eu.