19 de abril de 1996, a pequena Juçara dormia em
seu berço enquanto caía do céu um pedaço de pedra vindo de uma parte distante
de fora do Sistema Solar porém ainda da própria Via Láctea. Caía em um baque
tão leve quanto uma bola de futebol faria caindo sobre a grama pois a nossa
atmosfera já havia dissolvido e queimado a maior parte do composto rochoso ao
tocar nosso solo. Pouco maior que uma cabeça de alfinete, passaria esta rocha
15 anos neste quintal tendo arruinadas as chances de sua natureza extraordinária
ser descoberta no dia que a grama, as plantas e tudo mais foram cobertas por
cimento, quando o novo dono da casa, agora vendida, intuísse construir uma
garagem naquele espaço. Mas então Juçara moraria há 3 anos em outro bairro, da
mesma cidade, cujo nome nos é irrelevante agora ou depois. Juçara, nascida dia
primeiro de abril, teria que aturar piadas sobre o dia da mentira durante toda
sua vida. Mas agradecida por não ter nascido dia 29 de fevereiro, este que fora
sua primeira previsão de dia que viria ela mesma à luz dada pelos médicos,
avistada a possibilidade real de ser parto ser prematuro, devido a complicações
que sua mãe teria passado durante a gravidez.
Contudo, superadas as dificuldades, viera nascer
no dia apropriado para saúde de ambas, madre e cria, e nesta noite de 19 de
abril de 1996 Juçara dormia em seu berço enquanto seu pai estava em outra
cidade, com outra mulher, esta lhe espremendo os cravos do rosto, porém, sem
ser isto necessariamente um caso de adultério, visto seus pais não estarem mais
morando juntos há cerca de 2 anos e terem mais ou menos acertadas as questões
do divórcio assim que os cuidados financeiros com a nova casa se fizerem
estabilizados. Sua mãe, sua mãe de fato, dormia ao seu lado, o berço instalado
ao lado de sua cama, e seu irmão, 12 anos mais velho, jogava alguma plataforma
de videogames, hoje cultuada nostalgicamente, em seu quarto que ficava do outro
lado da sala, que separava ambos. Sua avó, ainda viva hoje em dia, fazia
bordados, costurava um par de meias para a neta, técnica que nunca conseguira
influenciar gosto algum em sua própria filha, mas resguardava esperanças e
expectativas sobre a outra, recém já vinda, dormindo, enquanto um relógio de
pulso digital em cima da cômoda ainda indicava 8 da noite quando na verdade era
7, visto não ter sido ajustado de volta do horário de verão, findado cerca de 2
meses antes. Enquanto Juçara dormia, apoiava ela seu dedo indicador na testa,
da mesma forma que faria pelo resto de sua vida inteira, por todas as noites,
praticamente, exceto aquelas, claro, quando embriagada de alguma festa da
faculdade chegaria e muito mal conseguiria achar o caminho entre o corpo e a
cama, quanto mais entre dedo e rosto.
Juçara se cria taurina pois sua mãe não entendia
direito de Astrologia. Isto até os 16 anos de idade, quando ao deparar-se com
os horóscopos de uma sessão de jornal de Domingo, daqueles tempos quando ainda
não havia aprendido a gostar de café e ainda bebia achocolatado ou leite puro,
ou mesmo suco de laranja, e que até se via com uma pequena ponta de orgulho
moralista por ainda não ter cedido aos vícios da vida adulta que tanto via em
irmão, mãe, tios, parentes, e alguns amigos, da época que até jurava que nunca
ia botar um cigarro na boca, bem, nesta bela manhã viu que seu signo
correspondia, de fato, à uma ariana. Logo ela que sempre odiava pessoas do
signo de Áries. Via agora seus desesperos de adolescência todos correspondidos
à impulsividade deste que é de fogo. Via-se perdendo as certezas que o signo da
terra lhe garantiriam até então. Juçara que estava tão bem começou assim a
primeira crise existencial em sua vida, dentre outras que viriam
posteriormente. Para além de dramas de primeiro beijo, primeira bebedeira,
primeira experiência sexual, primeira e última experiência de sexo em público
embriagada, os alicerces de crise, intensidade, instabilidade que Juçara
travaria pelos próximos anos começariam neste dia, e, claro, no dia que seu pai
morrera de insuficiência renal como decorrência de seu problema com alcoolismo,
mas isto dava outra novela. Talvez me estendendo um pouco ainda neste assunto,
antes disto, Juçara não travava um relacionamento estável e proveitoso com seu
pai e madrasta. A antipatia datava desde os 8 anos de idade, quando esta
investia em diversas tentativas de espremer os cravos de nossa protagonista,
por mais que ela relutasse e fugisse. A ausência do pai e o clima de rotina em
todos os encontros, a posterior queda de número de encontros semanais para
mensais, bimestrais, semestrais, também contribuíram para a distância corrente.
Apesar do pai viver em outra cidade, trabalhando com petróleo, concursado,
Juçara herdara do irmão mais velho metade da indiferença sob as figuras
paternas inclusas em suas vidas, incluindo avôs, tios, exceto cachorros do sexo
masculino.
Seu irmão mais velho, a propósito, Joca, apelido
de João, nunca soube explicar como surgira o apelido, era temporão, nascido 12
anos antes, em 1984, no dia 1º de outubro, coerente com a tradição prosseguida
por sua irmã caçula de se nascer no primeiro dia do respectivo mês, seu irmão
sempre estranharia a idade de sua irmã, agora às vésperas de completar 18 anos.
O ano de 1996, o ano em que ele fora atropelado e perdera a memória por uma
semana, o ano que ele fumaria maconha pela primeira vez para nunca mais, para
nunca mais até os 21 anos, o ano que vira seu time, Vila de Taquatirim, ser
campeão do campeonato estadual pela primeira e única vez, este ano fora tão
claro, parecia ontem, semana passada, quando muito, parecia estar tão distante
quanto a caneca de café quente está, na cozinha,, desta mesa de computador
agora. Joca sempre se soubera libriano, embora não lembrasse quem havia lhe
dito, mas não se importava com Astrologia. Por outro lado, também não
dispensava suas crises existenciais, uma das principais não estar casado agora
aos 30 anos de idade, ou sequer namorando, ou de sequer ter tido uma namorada
séria durante todo este período, e soaria engraçado se ele dissesse isso para
mãe e irmã, ou avó, coisa que ele nunca fizera, mas mesmo sendo homem, mesmo
sendo a tal sociedade muito mais complacente com suas exigências para com o
sexo masculino que para o feminino, todos estes detalhes não deixavam de
incomodar. Sobretudo quando lembrava que sua irmã, aos 16, atara namoro mais
longo e real, embora já findo, durara um ano, porém tal período já fora mais do
que seus estranhos affairs com rapazes que conhecera em diferentes festas,
trocara contato para sexo casual, mas não que isso acontecesse com a frequência
que, ao colocar-se os fatos assim, possa parecer. Também se incomodava com o
fato de não ter um sobrenome diferente. Não pela importância simbólica familiar
de prestígio, mas pela sonoridade estética, sempre se se imaginava um ator de
teatro, coisa que nunca foi, imaginaria um nome artístico, mas ficava frustrado
por entre Almeidas, Silvas, Alves. Mas não se sentia elitista, sendo este o
único contexto com o qual se incomodava a respeito do assunto.
Sua mãe, Ana, nesta mesma noite de abril, em
1996, acordaria 2 horas depois do pequeno, pequenino meteoro cair desconhecido
no quintal. Sem sono, por conta do pesadelo que acabara de ter, se sentaria na
escrivaninha e escreveria sobre coisas aleatórias, ela, professora adjunta de
uma universidade, também se dedicaria à literatura para fins de usos criativos
pessoais. "Sentada e desesperada", fora um conto que viera a sua
mente. Por sua vez, também tinha seus medos. Medos do romance com sua colega de
trabalho vir a tona, medo de sua mãe morrer em breve e ter de lidar com o divórcio,
com um filho adolescente, com uma filha recém nascida, com um romance
escondido, e encontrar dificuldades emocionais para passar do estágio
probatório e garantir estabilidade para família. Tinha também seu problema com
nomes de ex namoradas ou namorados, e agradecida estava de não ter levado
adiante um romance passado com uma outra Juçara, caso contrário não teria
batizado sua filha com a palavra. Aprendera este costume de tomar aversão por
nomes de pessoas que lhe marcavam negativamente. Graças a isso, nomes comuns
como Renata, Fernanda, Roberto, Ricardo, arrepiavam-lhe a espinha. Um milagre
estatístico "João" ter passado ileso à pré seleção. A
propósito, sobre o futuro presente ex-marido, Ana lembrava sempre que tinha que
fazer comida em casa, recorrendo ao micro-ondas, pois só isso que os dois
sabiam fazer na cozinha.
Juçara, na última semana, bebera seu primeiro
gole de bebida alcoólica, com sua avó, Jovina, ainda viva, durante uma
madrugada qualquer. A mãe estava de viagem com a atual namorada, que não é o mesmo
affair de quase 18 anos atrás. Em um ato de rebeldia para com sua filha, Ana,
que sempre questionava e tentava controlar, embora lesada e preguiçosamente, as
atividades de sua caçula, sua avó resolvera furar a largada legal dos 18 anos
ao abrir uma garrafa de whisky escocês guardada há 2 anos em seu armário.
Juntas, neta e avó, sentaram-se, não antes de Jovina espremer uma laranja com
uma colher pequena de açúcar para quebrar a acidez do drinque para o paladar de
sua neta, que, mesmo com o aparato, não conseguiu evitar a careta durante seu
primeiro gole. Jovina se preocupava com quase nada, outra servidora aposentada
por uma partição do Ministério da Fazenda, nunca dependeu muito de seu marido,
ex-militar que fez questão de abandonar no final da década de 70 por
divergências políticas óbvias. O mesmo também desanimado com o casamento,
aproveitou a deixa para se envolver com uma antiga colega de trabalho da então
esposa, mas o paradeiro de ambos se tornou irrelevante para família como nos é
agora. Jovina não teria vindo de fora do país, não teria sobrenome italiano ou
alemão, sua família era na verdade do Mato Grosso, e passara para o emprego
público com uma nomeação que lhe caíra do céu em outra história que valeria uma
novela se me coubesse a criatividade e paciência de descrevê-la agora. Fã de
Beatles e Roberto Carlos, fizera questão de comprar o primeiro violão de João,
seu neto, que logo abandonara a empreitada, mas que seria retomado por Juçara
alguns anos depois, ela, que agora estava passando a limpo "All My
Loving", canção cantada por Paul McCartney, enquanto sua avó não prestava
atenção ao encher seu segundo copo e ao perguntar para sua neta sobre seus
namorados, "ou namoradas, porque tá todo mundo muito moderno nessa
casa", e que tinha uma surpresa guardada por muito tempo para ela. Sua avó
sempre fora obcecada por datas aleatórias, por isso escrevera em seu diário o
dia, a data, e a hora de 19 de abril de 1996, e por isso se levantava agora
para pegar o diário daquele referido ano, enterrado em uma das caixas debaixo
da cama, que ela fizera questão de organizar cuidadosamente após a mudança,
para dissertar a respeito.
Na noite referida, quando Juçara ainda era um
bebê, enquanto a mãe dormia para acordar em seguida e escrever, enquanto o
irmão jogava o videogame que venderia em uma feira por um sete-avos do preço 5
anos depois, apenas para se arrepender passados mais 7 anos, naquela noite
Jovina teria tido um sonho, um sonho influenciado por um gole de uma vodka que
ganhara de uma antiga colega de trabalho que teria voltado da Rússia dois meses
antes e que lhe trouxera como souvenir a bebida, e, naquele sonho, sua neta
seria uma grande mulher, foi quando acordou, e tamanho devaneio lhe fez lembrar
que ainda guardava o seu último dente natural desde quando caíra de sua boca e
o mantinha em uma gaveta. Naquela data decidira aguardar sua neta ter seus
primeiros dentes de leite, que cairiam, também, no mesmo 19 de abril, porém de
2001, 5 anos depois. Se dissesse que o último dente de Jovina tivesse caído na
mesma data se trataria de uma mentira, pois tal estatística foge a realidade
cotidiana, mas fora noutra data, também interessante, que o fato se sucedera:
1º de Janeiro de 1994, data importantíssima para o histórico Movimento
Zapatista. Infelizmente, Jovina nunca chegaria a conhecer o México. No mais,
passados 17 anos, quase 18, relembrada tal memória de acordo com o registrado
no diário, a avó de Juçara entrega uma caixa com o seu último dente,
caído no dia descrito, junto com o primeiro dente da Juçara, que caíra também
na exaustiva data repetida aqui. Juçara ao encarar a caixa com dois dentes, com
manchas secas e escuras de sangue, olhava para avó esperando alguma explicação,
mas, Jovina, já embriagada, além da caixa, apenas entregava o diário com a página
em questão aberta. Enquanto sua neta lia, Jovina, sentava novamente em sua
cadeira pensando que já não se importava muito com aquela simbologia
sentimentalista que ela tinha pensado uma década e meia antes, mas que deveria
manter o compromisso assumido consigo mesma. Pensava na janta, lembrando que
havia bacalhau pronto, e com isso abria um sorriso. Vendo este sorriso, a
carta, e o silêncio repentino de sua avó, Juçara pensava que ela estava lhe
propondo alguma metáfora profundo a respeito do ciclo da vida, mas confusa pois
a anotação no diário em questão apenas trazia os dizeres "juntar dente da
Ju. olhar na caixa de joias mais tarde." Neste momento sentira material e
literalmente, para si, que sua avó havia cruzado a linha da sanidade e passara
a ser oficialmente senil, logo ela sempre com tanta energia. Porém, custou e
falhou a evitar as lágrimas pois não conseguia deixar de crer e ver bela a
intenção desta senhora, e arrepiou-se ao ter em suas mãos mais de 70 anos de
história. No final das contas, contudo, jamais abriu novamente a caixa, pois
lhe dava nervoso ter um pedaço de sua avó guardado no armário e seria de mal
querer se livrar para sempre do objeto.
Jovina se levantaria e caminharia até o quarto,
após dado um beijo na testa de sua neta, lhe desejando boa noite e boa viagem,
visto que passaria um mês fora pois ganhara uma viagem de presente da família
como prêmio por ter passado no vestibular. Nunca a teria visto sair do quarto,
pois durante a viagem sua avó viria a falecer de enfarto. Porquanto decidira
manter a porta fechada sempre que possível e que sozinha em casa, mesmo quando
viriam reaproveitar o quarto para para hóspedes durante a Copa do Mundo e
Olimpíada na cidade, uma vez, inclusive, trancando sem querer uma italiana que
dormia no quarto em uma manhã de Domingo.
Este conteúdo fora escrito no dia 19 de março de
2014. Falta menos de um mês para o aniversário de Juçara, porém ainda não
decidi o que lhe dar de presente. Daria este conto se ela existisse ou fosse verdade o que eu disse.

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