quarta-feira, 1 de junho de 2016

Ausência Anunciada


19 de abril de 1996, a pequena Juçara dormia em seu berço enquanto caía do céu um pedaço de pedra vindo de uma parte distante de fora do Sistema Solar porém ainda da própria Via Láctea. Caía em um baque tão leve quanto uma bola de futebol faria caindo sobre a grama pois a nossa atmosfera já havia dissolvido e queimado a maior parte do composto rochoso ao tocar nosso solo. Pouco maior que uma cabeça de alfinete, passaria esta rocha 15 anos neste quintal tendo arruinadas as chances de sua natureza extraordinária ser descoberta no dia que a grama, as plantas e tudo mais foram cobertas por cimento, quando o novo dono da casa, agora vendida, intuísse construir uma garagem naquele espaço. Mas então Juçara moraria há 3 anos em outro bairro, da mesma cidade, cujo nome nos é irrelevante agora ou depois. Juçara, nascida dia primeiro de abril, teria que aturar piadas sobre o dia da mentira durante toda sua vida. Mas agradecida por não ter nascido dia 29 de fevereiro, este que fora sua primeira previsão de dia que viria ela mesma à luz dada pelos médicos, avistada a possibilidade real de ser parto ser prematuro, devido a complicações que sua mãe teria passado durante a gravidez.  

Contudo, superadas as dificuldades, viera nascer no dia apropriado para saúde de ambas, madre e cria, e nesta noite de 19 de abril de 1996 Juçara dormia em seu berço enquanto seu pai estava em outra cidade, com outra mulher, esta lhe espremendo os cravos do rosto, porém, sem ser isto necessariamente um caso de adultério, visto seus pais não estarem mais morando juntos há cerca de 2 anos e terem mais ou menos acertadas as questões do divórcio assim que os cuidados financeiros com a nova casa se fizerem estabilizados. Sua mãe, sua mãe de fato, dormia ao seu lado, o berço instalado ao lado de sua cama, e seu irmão, 12 anos mais velho, jogava alguma plataforma de videogames, hoje cultuada nostalgicamente, em seu quarto que ficava do outro lado da sala, que separava ambos. Sua avó, ainda viva hoje em dia, fazia bordados, costurava um par de meias para a neta, técnica que nunca conseguira influenciar gosto algum em sua própria filha, mas resguardava esperanças e expectativas sobre a outra, recém já vinda, dormindo, enquanto um relógio de pulso digital em cima da cômoda ainda indicava 8 da noite quando na verdade era 7, visto não ter sido ajustado de volta do horário de verão, findado cerca de 2 meses antes. Enquanto Juçara dormia, apoiava ela seu dedo indicador na testa, da mesma forma que faria pelo resto de sua vida inteira, por todas as noites, praticamente, exceto aquelas, claro, quando embriagada de alguma festa da faculdade chegaria e muito mal conseguiria achar o caminho entre o corpo e a cama, quanto mais entre dedo e rosto.

Juçara se cria taurina pois sua mãe não entendia direito de Astrologia. Isto até os 16 anos de idade, quando ao deparar-se com os horóscopos de uma sessão de jornal de Domingo, daqueles tempos quando ainda não havia aprendido a gostar de café e ainda bebia achocolatado ou leite puro, ou mesmo suco de laranja, e que até se via com uma pequena ponta de orgulho moralista por ainda não ter cedido aos vícios da vida adulta que tanto via em irmão, mãe, tios, parentes, e alguns amigos, da época que até jurava que nunca ia botar um cigarro na boca, bem, nesta bela manhã viu que seu signo correspondia, de fato, à uma ariana. Logo ela que sempre odiava pessoas do signo de Áries. Via agora seus desesperos de adolescência todos correspondidos à impulsividade deste que é de fogo. Via-se perdendo as certezas que o signo da terra lhe garantiriam até então. Juçara que estava tão bem começou assim a primeira crise existencial em sua vida, dentre outras que viriam posteriormente. Para além de dramas de primeiro beijo, primeira bebedeira, primeira experiência sexual, primeira e última experiência de sexo em público embriagada, os alicerces de crise, intensidade, instabilidade que Juçara travaria pelos próximos anos começariam neste dia, e, claro, no dia que seu pai morrera de insuficiência renal como decorrência de seu problema com alcoolismo, mas isto dava outra novela. Talvez me estendendo um pouco ainda neste assunto, antes disto, Juçara não travava um relacionamento estável e proveitoso com seu pai e madrasta. A antipatia datava desde os 8 anos de idade, quando esta investia em diversas tentativas de espremer os cravos de nossa protagonista, por mais que ela relutasse e fugisse. A ausência do pai e o clima de rotina em todos os encontros, a posterior queda de número de encontros semanais para mensais, bimestrais, semestrais, também contribuíram para a distância corrente. Apesar do pai viver em outra cidade, trabalhando com petróleo, concursado, Juçara herdara do irmão mais velho metade da indiferença sob as figuras paternas inclusas em suas vidas, incluindo avôs, tios, exceto cachorros do sexo masculino.

Seu irmão mais velho, a propósito, Joca, apelido de João, nunca soube explicar como surgira o apelido, era temporão, nascido 12 anos antes, em 1984, no dia 1º de outubro, coerente com a tradição prosseguida por sua irmã caçula de se nascer no primeiro dia do respectivo mês, seu irmão sempre estranharia a idade de sua irmã, agora às vésperas de completar 18 anos. O ano de 1996, o ano em que ele fora atropelado e perdera a memória por uma semana, o ano que ele fumaria maconha pela primeira vez para nunca mais, para nunca mais até os 21 anos, o ano que vira seu time, Vila de Taquatirim, ser campeão do campeonato estadual pela primeira e única vez, este ano fora tão claro, parecia ontem, semana passada, quando muito, parecia estar tão distante quanto a caneca de café quente está, na cozinha,, desta mesa de computador agora. Joca sempre se soubera libriano, embora não lembrasse quem havia lhe dito, mas não se importava com Astrologia. Por outro lado, também não dispensava suas crises existenciais, uma das principais não estar casado agora aos 30 anos de idade, ou sequer namorando, ou de sequer ter tido uma namorada séria durante todo este período, e soaria engraçado se ele dissesse isso para mãe e irmã, ou avó, coisa que ele nunca fizera, mas mesmo sendo homem, mesmo sendo a tal sociedade muito mais complacente com suas exigências para com o sexo masculino que para o feminino, todos estes detalhes não deixavam de incomodar. Sobretudo quando lembrava que sua irmã, aos 16, atara namoro mais longo e real, embora já findo, durara um ano, porém tal período já fora mais do que seus estranhos affairs com rapazes que conhecera em diferentes festas, trocara contato para sexo casual, mas não que isso acontecesse com a frequência que, ao colocar-se os fatos assim, possa parecer. Também se incomodava com o fato de não ter um sobrenome diferente. Não pela importância simbólica familiar de prestígio, mas pela sonoridade estética, sempre se se imaginava um ator de teatro, coisa que nunca foi, imaginaria um nome artístico, mas ficava frustrado por entre Almeidas, Silvas, Alves. Mas não se sentia elitista, sendo este o único contexto com o qual se incomodava a respeito do assunto. 

Sua mãe, Ana, nesta mesma noite de abril, em 1996, acordaria 2 horas depois do pequeno, pequenino meteoro cair desconhecido no quintal. Sem sono, por conta do pesadelo que acabara de ter, se sentaria na escrivaninha e escreveria sobre coisas aleatórias, ela, professora adjunta de uma universidade, também se dedicaria à literatura para fins de usos criativos pessoais. "Sentada e desesperada", fora um conto que viera a sua mente. Por sua vez, também tinha seus medos. Medos do romance com sua colega de trabalho vir a tona, medo de sua mãe morrer em breve e ter de lidar com o divórcio, com um filho adolescente, com uma filha recém nascida, com um romance escondido, e encontrar dificuldades emocionais para passar do estágio probatório e garantir estabilidade para família. Tinha também seu problema com nomes de ex namoradas ou namorados, e agradecida estava de não ter levado adiante um romance passado com uma outra Juçara, caso contrário não teria batizado sua filha com a palavra. Aprendera este costume de tomar aversão por nomes de pessoas que lhe marcavam negativamente. Graças a isso, nomes comuns como Renata, Fernanda, Roberto, Ricardo, arrepiavam-lhe a espinha. Um milagre estatístico "João" ter passado ileso à pré seleção.  A propósito, sobre o futuro presente ex-marido, Ana lembrava sempre que tinha que fazer comida em casa, recorrendo ao micro-ondas, pois só isso que os dois sabiam fazer na cozinha.

Juçara, na última semana, bebera seu primeiro gole de bebida alcoólica, com sua avó, Jovina, ainda viva, durante uma madrugada qualquer. A mãe estava de viagem com a atual namorada, que não é o mesmo affair de quase 18 anos atrás. Em um ato de rebeldia para com sua filha, Ana, que sempre questionava e tentava controlar, embora lesada e preguiçosamente, as atividades de sua caçula, sua avó resolvera furar a largada legal dos 18 anos ao abrir uma garrafa de whisky escocês guardada há 2 anos em seu armário. Juntas, neta e avó, sentaram-se, não antes de Jovina espremer uma laranja com uma colher pequena de açúcar para quebrar a acidez do drinque para o paladar de sua neta, que, mesmo com o aparato, não conseguiu evitar a careta durante seu primeiro gole. Jovina se preocupava com quase nada, outra servidora aposentada por uma partição do Ministério da Fazenda, nunca dependeu muito de seu marido, ex-militar que fez questão de abandonar no final da década de 70 por divergências políticas óbvias. O mesmo também desanimado com o casamento, aproveitou a deixa para se envolver com uma antiga colega de trabalho da então esposa, mas o paradeiro de ambos se tornou irrelevante para família como nos é agora. Jovina não teria vindo de fora do país, não teria sobrenome italiano ou alemão, sua família era na verdade do Mato Grosso, e passara para o emprego público com uma nomeação que lhe caíra do céu em outra história que valeria uma novela se me coubesse a criatividade e paciência de descrevê-la agora. Fã de Beatles e Roberto Carlos, fizera questão de comprar o primeiro violão de João, seu neto, que logo abandonara a empreitada, mas que seria retomado por Juçara alguns anos depois, ela, que agora estava passando a limpo "All My Loving", canção cantada por Paul McCartney, enquanto sua avó não prestava atenção ao encher seu segundo copo e ao perguntar para sua neta sobre seus namorados, "ou namoradas, porque tá todo mundo muito moderno nessa casa", e que tinha uma surpresa guardada por muito tempo para ela. Sua avó sempre fora obcecada por datas aleatórias, por isso escrevera em seu diário o dia, a data, e a hora de 19 de abril de 1996, e por isso se levantava agora para pegar o diário daquele referido ano, enterrado em uma das caixas debaixo da cama, que ela fizera questão de organizar cuidadosamente após a mudança, para dissertar a respeito.

Na noite referida, quando Juçara ainda era um bebê, enquanto a mãe dormia para acordar em seguida e escrever, enquanto o irmão jogava o videogame que venderia em uma feira por um sete-avos do preço 5 anos depois, apenas para se arrepender passados mais 7 anos, naquela noite Jovina teria tido um sonho, um sonho influenciado por um gole de uma vodka que ganhara de uma antiga colega de trabalho que teria voltado da Rússia dois meses antes e que lhe trouxera como souvenir a bebida, e, naquele sonho, sua neta seria uma grande mulher, foi quando acordou, e tamanho devaneio lhe fez lembrar que ainda guardava o seu último dente natural desde quando caíra de sua boca e o mantinha em uma gaveta. Naquela data decidira aguardar sua neta ter seus primeiros dentes de leite, que cairiam, também, no mesmo 19 de abril, porém de 2001, 5 anos depois. Se dissesse que o último dente de Jovina tivesse caído na mesma data se trataria de uma mentira, pois tal estatística foge a realidade cotidiana, mas fora noutra data, também interessante, que o fato se sucedera: 1º de Janeiro de 1994, data importantíssima para o histórico Movimento Zapatista. Infelizmente, Jovina nunca chegaria a conhecer o México. No mais, passados 17 anos, quase 18, relembrada tal memória de acordo com o registrado no diário,  a avó de Juçara entrega uma caixa com o seu último dente, caído no dia descrito, junto com o primeiro dente da Juçara, que caíra também na exaustiva data repetida aqui. Juçara ao encarar a caixa com dois dentes, com manchas secas e escuras de sangue, olhava para avó esperando alguma explicação, mas, Jovina, já embriagada, além da caixa, apenas entregava o diário com a página em questão aberta. Enquanto sua neta lia, Jovina, sentava novamente em sua cadeira pensando que já não se importava muito com aquela simbologia sentimentalista que ela tinha pensado uma década e meia antes, mas que deveria manter o compromisso assumido consigo mesma. Pensava na janta, lembrando que havia bacalhau pronto, e com isso abria um sorriso. Vendo este sorriso, a carta, e o silêncio repentino de sua avó, Juçara pensava que ela estava lhe propondo alguma metáfora profundo a respeito do ciclo da vida, mas confusa pois a anotação no diário em questão apenas trazia os dizeres "juntar dente da Ju. olhar na caixa de joias mais tarde." Neste momento sentira material e literalmente, para si, que sua avó havia cruzado a linha da sanidade e passara a ser oficialmente senil, logo ela sempre com tanta energia. Porém, custou e falhou a evitar as lágrimas pois não conseguia deixar de crer e ver bela a intenção desta senhora, e arrepiou-se ao ter em suas mãos mais de 70 anos de história. No final das contas, contudo, jamais abriu novamente a caixa, pois lhe dava nervoso ter um pedaço de sua avó guardado no armário e seria de mal querer se livrar para sempre do objeto.

Jovina se levantaria e caminharia até o quarto, após dado um beijo na testa de sua neta, lhe desejando boa noite e boa viagem, visto que passaria um mês fora pois ganhara uma viagem de presente da família como prêmio por ter passado no vestibular. Nunca a teria visto sair do quarto, pois durante a viagem sua avó viria a falecer de enfarto. Porquanto decidira manter a porta fechada sempre que possível e que sozinha em casa, mesmo quando viriam reaproveitar o quarto para para hóspedes durante a Copa do Mundo e Olimpíada na cidade, uma vez, inclusive, trancando sem querer uma italiana que dormia no quarto em uma manhã de Domingo.

Este conteúdo fora escrito no dia 19 de março de 2014. Falta menos de um mês para o aniversário de Juçara, porém ainda não decidi o que lhe dar de presente. Daria este conto se ela existisse ou fosse verdade o que eu disse.

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