quarta-feira, 1 de junho de 2016

Tomates Secos

Biscoitos de goiabada com cada vez menos goiaba. Nem adianta confirmar as horas: é sabido que quando se está atrasado de nada adianta encarar o relógio que não se vai chegar mais cedo nem o motorista do Ônibus vai passar dos sessenta quilômetros por hora quanto mais nesse trecho da avenida, repleto de guardas eletrônicos nos postes. Mesmo sentindo mais o gosto da farinha que da goiaba, o pacote durou menos de 3 minutos em suas mãos. Embalagem enfiada devidamente no canto do assento do ônibus, no embalo do corpo para este esforço lembrou da mochila no colo e do pote de vidro guardando tomates secos que comprara na mesma empreitada do biscoito. Tentaria uma receita indicada por uma amiga, só amiga, seria com tapioca. Uma aventura na cozinha por semana, pensava consigo. 

Amor passado enquanto um susto bem dado. Esse verso veio na cabeça de sacanagem bem logo depois que entrou na agência bancária para pagar a conta e teve de encarar a fila do caixa humano pois o eletrônico apresentava defeito. Isso bem logo depois de exatos 3 minutos para tentar convencer o guarda da porta giratória que a única coisa de metal que poderia estar atiçando de dentro da mochila o sistema de segurança era a cobertura de alumínio que guardava a tampa do tomate seco. Começou a considerar a possibilidade de aparar a barba com mais frequência. Como dizia, esse verso veio na cabeça bem de putaria quando de relance, bem de relance o arrepio de duração de três segundos e meio no instante em que depois de 15 minutos esperando sua vez viu certa pessoa de costas. Certa pessoa maiúscula, tão maiúscula que fez questão de sair da fila ao fingir que mudou de ideia sobre a espera e que, repentinamente, pareceu ser de sapiência maior falar rapidamente com o atendente do caixa para sanar determinada dúvida antes de aguardar seja lá quanto tempo necessário para ser atendido. Mas era o rosto errado pregado na frente daquela cabeça que estava de costas: estava de volta e oficialmente no último lugar pois a agência acabara de fechar e outros clientes não adentrariam o recinto para assumir seu posto de lanterna da fila. 

Começou ajeitar a carteira de cigarros pois tempo é o que lhe sobrava ali, agora, e uma senhora, igualmente preenchida pelo tédio e que podia estar na reservada fila preferencial, mas não estava, observava com reprovação o seu gesto. Como o intervalo era de apenas uma pessoa de distância, sua reprovação era óbvia para qualquer visão periférica, e o estalido da boca para qualquer um não surdo. Fingiu estar mais distraído do que a realidade ao continuar a passar os cigarros do maço para sua carteira de alumínio. A senhora com naturalidade sucumbiu ao seu papel narrativo de cortar o silêncio, como se era previsto de acontecer, com a frase pouco menos óbvia: "você devia parar de fumar." Concentrando-se ainda na tarefa que agora faz questão de estender, contudo, ela continua o monólogo de forma definitivamente inesperada: "É, meu marido adorava também, três maços por dia, morreu com 47. Sorte que me deixou uma porra duma pensão, se não eu estava é na merda. Dois marmanjos para criar, um, com uma cabeça desse tamanho, me desculpe o termo, mas me arrombou a boceta toda." Segurando o ataque histérico de riso porque desde cedo aprendeu que não se deve dar corda à louco, apertou o bico de um cigarro com a mão, o que não cabe na carteira e vai parar no bolso para ser aceso no primeiro passo fora do recinto. Uma certa alma caridosa e sorridente, provavelmente pelo humor da frase proferida do que por simpatia, atenta para senhora que estão chamando o próximo na preferencial, e, como não há outros idosos na espera, ela muda de ideia sobre sua urgência e se dirige para ser atendida. Ele se arrepende de ter ficado calado, e pensa que quereria dizer "É? eu devia parar de fumar? Pois a senhora não devia votar no PSDB!" A falta de réplica com certeza justificaria o acerto e o afio de seu comentário. O monólogo perdeu a oportunidade de se tornar um diálogo e a senhora, inclusive, já havia sido atendida e se retirado. Boas respostas só surgem depois.  

Depois de 50 minutos no banco, morrer atropelado porque não quis esperar o sinal fechar definitivamente não estava nos planos. Detalhe que naquela esquina, naquele específico sinal, que ele desconhecia pois raramente andava neste bairro, o farol durava apenas 50 segundos para se abrir e fechar. Para ser mais preciso ainda, no exato instante em que, já impaciente pela demora na agência bancária, parou para observar o movimentos dos carros e o transeunte marcado com a luz vermelha no alto do outro lado da rua indicando que devereria esperar, neste exato instante que descrevo faltavam meros 15 segundos para o sinal se abrir novamente. Mas já se havia perdido 50 minutos dentro de uma agência bancária, e é uma rua estreita, devia dar para atravessar em um pique só.

Era apaixonado, além de por biscoitos de goiaba apesar de sua consistência cada vez mais errática, pela arquitetura de caixas de correio. E nem nunca foi carteiro, sequer tinha parentes carteiros. Morava numa rua de casas relativamente antigas, localizadas em uma das vielas do centro da cidade que um dia já foram cercadas de cortiços e depois cercas de prostíbulos e que agora a especulação imobiliária trazia novos moradores, a maioria comerciantes de pequenos empreendimentos das redondezas, e também universitários fugindo dos altos preços da Zona Sul, e imigrantes de outros países da américa do sul, Colombianos, presumia, que tocam nas ruas do Centro aproveitando o fluxo de turistas europeus. Claro, prostíbulos ainda haviam, qualquer um que anda no Centro sabe o que é uma lâmpada vermelha seguida de uma escada que leva para um segundo andar de janelas lacradas. Portanto, a arquitetura da região o despertava a atentar para caixas de Correio, frequentava lojas de marcenarias e ultimamente acontecia um "revival" de caixas de correio retrô sendo vendidas com as convencionais de alumínio. Reparava que no andar de baixo do prostíbulo da rua havia uma caixa bem bonita, vermelha, para combinar com a lâmpada que se acendia de noite. Combinava com a embalagem do biscoito de goiaba.

Depois de 50 minutos no banco, morrer atropelado porque não quis esperar o sinal fechar definitivamente não estava nos planos. O carro bateu de quina na perna esquerda, a direita já pisava a calçada, se recuperando do pique. O corpo girou de banda, quebrando a perna em três pedaços e, mais importante, quebrando o pote de tomate seco dentro da mochila e rachando o coco do vidro do vasilhame contra as costas. A ambulância chegou, por acaso, em 2 minutos, pois vinha de outro atendimento por perto, muitos idosos na região, sempre acontecia uma emergência. Da perna nem sangue saia, mas o formato definitivamente era pouco usual para uma parte do corpo que geralmente é quase reta. O atendimento rápido impediu que gangrenasse, pensou,embora nada gangrene fácil. Pensou na morbidade de conjugar o verbo gangrenar. E dois meses de fisioterapia depois lembrou que perdeu a mochila no susto do evento, mas nunca recordou de tentar novamente a receita com tomate seco. A tal da amiga, de qualquer forma, indicou outra sugestão bem mais segura: cupcake de microondas em caneca. Na adrenalina do evento nunca lembrou de comentar que tinha sim comprado o pote e tinha, sim, ensaiado uma tentativa de seguir a receita recomendada. No mesmo caos de eventos esqueceu de citar que partiu a perna, vida atribulada, esqueceu, ela pensou que lhe fora indiferente e seguiu os pensamentos para outro lado, um lado chamado Rebeca Santos, colega sua de faculdade. Uma pena pois teria sido inclusive uma grande revolução em suas vidas a abortada parceria culinária. "Nem adianta confirmar as horas que você almoçou agora há pouco" e "se quiser vai lá e faz porque eu não sou sua empregada" se tornariam refrão entre esse casal se chegassem a sê-lo.

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