Após 7 anos de vício fiel, concluiu que não havia chances de não haver um cigarro perdido dentro do quarto, amassado que fosse, esfarelado que estivesse. Assim começou sua missão, e mergulhou em bolsos de calças, nas arestas insuspeitadas de suas paredes e quinas, embaixo de móveis, cadeiras, cama, colchão, fronhas; quem sabe de dentro de um livro, um tabaco achatado surgisse em surpresa? Obviamente dissecou as dezenas de maços findados espalhados, todos religiosamente vazios, por conta de buscas anteriores similares. Mas já são 7 anos de vício fiel, deve haver, nessa casa, que inferno!, pensou; e os bares fechados, as lojas de conveniência inconvenientemente trancadas, a madrugada e os amigos que jamais respondem o telefone a partir de certa hora; tudo só aumentava a agonia. E a salvação veio do banheiro, do cesto de lixo revirado. Debaixo do mal cheiro inesperadamente óbvio um cinzeiro esvaziado dias atrás tinha um cigarro quase inteiro, apagado provavelmente por conta de qualquer banho, telefonema ou atraso. Sentou no azulejo gelado mesmo, riscou o isqueiro e deu seu trago: seu último trago, depois de 7 anos.
domingo, 5 de junho de 2016
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