Um frio latente vem tomando as ruas
Ainda que estejamos na mais tropical das capitais
Berço do Samba e dos Carnavais
Um frio desigual, vertical
Que nem pêlo, nem roupa, nem abraço esquentam
(Mas consolam)
Que nem voto
Nem o que é posto enquanto democracia
Quão pouco a hipocrisia
Condenam
Um frio latente vem tomando as ruas
Mas um calor, ainda quieto, ainda profundo
Que nem exército, nem léxico
Definem
Contudo
A febre dessa brasa resiste a pisada
Das botas que jamais calçamos
O calor dessas praças tende a se espalhar
E nem o Sol há de palpitar
E nem seu governo vai impor medida
Nem a errância e a impaciência de nossas vidas
Nem nossa muralha, imposta
Composta pela pedra mais milenar
Nenhum acidente vai sufocar
Nem oceano e o lugar
Do litoral
Na encosta desse vulcão
Um frio latente vem tomando as ruas
E que a chuva e o trovão caiam sob nossas cabeças
E tragam a pneumonia
E tragam a febre
E traguem o cigarro
E tragam a energia que só se descobre
Diante da maior catástrofe
Que já está aqui, dentre nós
Embaraçando novos nós
Não que jamais tenhamos sido retos
Cadarços desamarrados e tropeços que damos
O furor em mim, em ti, somos
Justamente esta taquicardia
Só que nem a fobia por gás e pimenta
Paralisam
Pois
Quando esta lava solar
Menos estrela, mais suburbana
Espalhar nossa condição humana
E em derradeiro contato com o mar
Nos tornar inesperada rocha
Indestrutível, roxa
Nem menos frágil por ser feita de gente
(Exibe, aliás, nisso, sua força)
Porque o que há de humanidade em vocês
É real, admitamos
Mas em breve, aguardem em pé, outra vem se impôr
Mesmo que façam o dia se pôr às dez da manhã
Outra felicidade, que vá além de outra euforia
Outra máxima
Nos aguarda e estreita, e, ainda mais ácida,
Lhes espreita.
sexta-feira, 13 de maio de 2016
quarta-feira, 11 de maio de 2016
Possibilidade
De tudo ao meu amor serei honesto
diante da saída apertada
depois que a tempestade gelada secar
antes de ser terra eu já fui mar
durante o farol nos houve um lar
depois da boca cheia de mentira esvaziar
cabendo aqui em mim uma forma
de ser concreto sem me afogar
respeitar cada pecado
transformar-se no que se é
que é pecado algum, é só
nascer, chorar, sangrar,
prometer, caber, correr
cair, erguer, cair, erguer
apressar, esperar, esperar,
confessar e pedir
despedir-se
ponto final e início
desaparecer dentro da noite
nunca do precipício.
Antes de retormarmos o mar
desaparecer assim que possível
com a honra de um corpo
que nunca se negou a dançar.
diante da saída apertada
depois que a tempestade gelada secar
antes de ser terra eu já fui mar
durante o farol nos houve um lar
depois da boca cheia de mentira esvaziar
cabendo aqui em mim uma forma
de ser concreto sem me afogar
respeitar cada pecado
transformar-se no que se é
que é pecado algum, é só
nascer, chorar, sangrar,
prometer, caber, correr
cair, erguer, cair, erguer
apressar, esperar, esperar,
confessar e pedir
despedir-se
ponto final e início
desaparecer dentro da noite
nunca do precipício.
Antes de retormarmos o mar
desaparecer assim que possível
com a honra de um corpo
que nunca se negou a dançar.
Sinal Verde
Às vezes caio na contramão
mas te ouço dizer
que todo caminho é caminho
e que cabe verdade aqui também
cabe a maçã e a gravidade
cabe todo sim, todo não
antes eu fosse sozinho
antes fosse esse um pedido de perdão
e bebesse café sem açúcar num gole só
porque essa mão gelada que eu uso aqui
pra te acariciar
já foi um pouco mais quente
foi um pouco mais firme
e me desculpa essas unhas mal aparadas
e me desculpa essa vontade de encontrar essa gente
na rua, calçada, falando da vida
falando demais
procurando emprego
trocando segredos
é que segredos são tão raros aqui
tudo é protocolo
tudo é terremoto
me lembro agora que existe uma coisa rara
chamada colo
é que a privacidade tem dificuldade
de se reencontrar
se desacelerar
não se pode ver sequer um sinal verde
sequer o amarelo, sequer o vermelho
já se corre pra atravessar
chegar do outro lado
por cima ou embaixo dos carros
que é pra ignorar, no frio
numa garrafa de vinho
que às vezes a gente cai na contramão
mas te ouço insistentemente dizer
que todo caminho é caminho.
mas te ouço dizer
que todo caminho é caminho
e que cabe verdade aqui também
cabe a maçã e a gravidade
cabe todo sim, todo não
antes eu fosse sozinho
antes fosse esse um pedido de perdão
e bebesse café sem açúcar num gole só
porque essa mão gelada que eu uso aqui
pra te acariciar
já foi um pouco mais quente
foi um pouco mais firme
e me desculpa essas unhas mal aparadas
e me desculpa essa vontade de encontrar essa gente
na rua, calçada, falando da vida
falando demais
procurando emprego
trocando segredos
é que segredos são tão raros aqui
tudo é protocolo
tudo é terremoto
me lembro agora que existe uma coisa rara
chamada colo
é que a privacidade tem dificuldade
de se reencontrar
se desacelerar
não se pode ver sequer um sinal verde
sequer o amarelo, sequer o vermelho
já se corre pra atravessar
chegar do outro lado
por cima ou embaixo dos carros
que é pra ignorar, no frio
numa garrafa de vinho
que às vezes a gente cai na contramão
mas te ouço insistentemente dizer
que todo caminho é caminho.
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