sexta-feira, 13 de maio de 2016

Harmonia Vulcânica

Um frio latente vem tomando as ruas Ainda que estejamos na mais tropical das capitais Berço do Samba e dos Carnavais Um frio desigual, vertical Que nem pêlo, nem roupa, nem abraço esquentam (Mas consolam) Que nem voto Nem o que é posto enquanto democracia Quão pouco a hipocrisia Condenam Um frio latente vem tomando as ruas Mas um calor, ainda quieto, ainda profundo Que nem exército, nem léxico Definem Contudo A febre dessa brasa resiste a pisada Das botas que jamais calçamos O calor dessas praças tende a se espalhar E nem o Sol há de palpitar E nem seu governo vai impor medida Nem a errância e a impaciência de nossas vidas Nem nossa muralha, imposta Composta pela pedra mais milenar Nenhum acidente vai sufocar Nem oceano e o lugar Do litoral Na encosta desse vulcão Um frio latente vem tomando as ruas E que a chuva e o trovão caiam sob nossas cabeças E tragam a pneumonia E tragam a febre E traguem o cigarro E tragam a energia que só se descobre Diante da maior catástrofe Que já está aqui, dentre nós Embaraçando novos nós Não que jamais tenhamos sido retos Cadarços desamarrados e tropeços que damos O furor em mim, em ti, somos Justamente esta taquicardia Só que nem a fobia por gás e pimenta Paralisam Pois Quando esta lava solar Menos estrela, mais suburbana Espalhar nossa condição humana E em derradeiro contato com o mar Nos tornar inesperada rocha Indestrutível, roxa Nem menos frágil por ser feita de gente (Exibe, aliás, nisso, sua força) Porque o que há de humanidade em vocês É real, admitamos Mas em breve, aguardem em pé, outra vem se impôr Mesmo que façam o dia se pôr às dez da manhã Outra felicidade, que vá além de outra euforia Outra máxima Nos aguarda e estreita, e, ainda mais ácida, Lhes espreita.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Possibilidade

De tudo ao meu amor serei honesto
diante da saída apertada
depois que a tempestade gelada secar
antes de ser terra eu já fui mar
durante o farol nos houve um lar
depois da boca cheia de mentira esvaziar
cabendo aqui em mim uma forma
de ser concreto sem me afogar
respeitar cada pecado
transformar-se no que se é
que é pecado algum, é só
nascer, chorar, sangrar,
prometer, caber, correr
cair, erguer, cair, erguer
apressar, esperar, esperar,
confessar e pedir
despedir-se
ponto final e início
desaparecer dentro da noite
nunca do precipício.

Antes de retormarmos o mar
desaparecer assim que possível
com a honra de um corpo
que nunca se negou a dançar.

Sinal Verde

Às vezes caio na contramão
mas te ouço dizer
que todo caminho é caminho
e que cabe verdade aqui também
cabe a maçã e a gravidade
cabe todo sim, todo não
antes eu fosse sozinho
antes fosse esse um pedido de perdão
e bebesse café sem açúcar num gole só
porque essa mão gelada que eu uso aqui
pra te acariciar
já foi um pouco mais quente
foi um pouco mais firme
e me desculpa essas unhas mal aparadas
e me desculpa essa vontade de encontrar essa gente
na rua, calçada, falando da vida
falando demais
procurando emprego
trocando segredos
é que segredos são tão raros aqui
tudo é protocolo
tudo é terremoto
me lembro agora que existe uma coisa rara
chamada colo
é que a privacidade tem dificuldade
de se reencontrar
se desacelerar
não se pode ver sequer um sinal verde
sequer o amarelo, sequer o vermelho
já se corre pra atravessar
chegar do outro lado
por cima ou embaixo dos carros
que é pra ignorar, no frio
numa garrafa de vinho
que às vezes a gente cai na contramão
mas te ouço insistentemente dizer
que todo caminho é caminho.