quarta-feira, 27 de julho de 2011

Ultravioleta Blues

Minhas raízes são as asas das cutias
Da praça São Salvador
Meu lar doce lar fica no vão
Entre minha cama e a tua
No meu teto e parede eu instalo um ralo
Meu chão com meu carpete
Leva um lustre de decoração

Minha fonte é arial black
Times New Roman
Comic Sans
Minha praça não seca
Embora eu tenha sede às vezes

Embora escureça às vezes
Minhas pernas amputadas
Minhas raízes são
Os pés alheios
Em movimento
Em translação
- Em
torno *desenhe um Sol aqui* Sol
- do

Tobias

Hoje cedo deixaram um pedaço seu na porta de casa
Junto com os panfletos de igrejas e propagandas políticas
Já fazia um certo tempo que eu não te via tão magra assim
E pálida
Mas você me parecia bem, e, em anexo, vinha o seguinte bilhete:
"Meu amor, já faz tempo, aqui jaz meu sorriso
Que você sempre adorou
Por favor me perdoe por qualquer imprevisto
Me ame pra sempre
Embora a recíproca não seja verdadeira
Se cuida
Aliás, se quiser, pode ficar com meu gato
O Tobias
Ele ainda está lá em casa, meio velho
Mas não deve te dar trabalho."
Eu fechei o bilhete e guardei no bolso de trás da calça
Deixei seu sorriso encostado em um canto de quintal
E segui pro trabalho.

Quando cheguei de casa pro trabalho, dormi
Bebi café, me sentei em minha mesa não tão minha
Dormi de novo
O almoço veio e então o lanche vespertino
A tarde daqui de dentro parece mais azul que lá de fora
A janela e as venezianas entreabertas mais prometem do que cumprem
Até que hoje não me testaram a paciência
Porque hoje não me cobraram paciência
Guardo as coisas, fecho a vida na mochila
Espero o próximo elevador com uma canção qualquer -
"Ohh is there a time to wait
When the only thing that does not wait
Is time
Ohh is there a time to wait
When the only thing that does not wait
Is time?"
- E já era hora de voltar pra rua

E na rua havia uma passeata inusitada
Formada por gente branca, chata, lutando pelos direitos humanos
Os direitos dos brancos, caucasianos, arianos, uma multidão
Uma outra multidão de gente hétero, ou que se afirmava hétero
Bradando o orgulho hétero, hétero, hétero
Ou qualquer coisa
Estava correndo atrás do ônibus
O céu escurecia, uma manada, frota, uma matilha
Seja lá qual o coletivo, de dragões roxos
Surgiram, alados, cuspindo fogo contra as pessoas e gerando tumulto
Ainda bem que ali só tinha umas 100 cabeças
Já no ônibus, a rádio pouco conveniente, a tocar música alheia
Uma jovem que era só piercings
Abraçada a uma folha amarela e gigante de árvore
Cantava a seguinte canção:
"Why we cannot fly - if we belong to the skies
Why we cannot swim - if we belonged to the sea
Or is it only me?"

Já em casa, peguei seu sorriso do quintal, cheirando a mijo de bicho
Passei uma água
Liguei e desliguei a TV
Liguei e desliguei o PC
Liguei e deixei o rádio
Já tirando a roupa, eu gritei que já cheguei: "Já cheguei!"
Mas lembrei que você não mora mais aqui
O chuveiro já aberto, dando choque, me lembra
Que às vezes morremos, que às vezes vivemos
Um pagode tocava alto na casa da vizinha
Vindo da janela do banheiro, que eu fechei
E fica só o rádio tocando alto no repeat
Aliás, não devia ser o rádio
Aliás, eu não vou criar seu gato.

P.S: E das vezes que amanhecia
- das poucas vezes que amanhecia -
eu pensava que você talvez
muito provavelmente
nunca viesse a saber que eu escrevi essa canção sobre você
E eu bem imagino você desligando o rádio
Antes de chegarmos neste verso.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Vai

Quão cedo ou tão tarde
Há de se saber a verdade? -

- A verdade surgirá
Num samba enredo de Carnaval passado
Num bloco vindo que já passou por essa rua
No suor doce que suou mas já secou na tua blusa
No beijo bom que já beijou sua vida
E agora quer sossego e bom bom bocado -

- O sossego virá numa rima crua
No bilhete grudado à imã na porta da geladeira
Sossego será um adeus dado - porém silêncio
Será o choro preso na boca que mastiga o pão,
Engole o café queimado e a certeza:
"Saibamo-nos pois, estamos nus" -

- A nudez e o pudor que prova a pele que sentencia
À canção, à pátria, à língua, à Deus se anistia
De tão baixo - o grito se grita e escorre
De tão verdade - a verdade se estampa a testa
Mas tanto faz este amor parachoque
Paraquedas - há tanto cai e há pouco voa
Se neste céu particular - verdades tuas
Se neste corpo só que se goza só
Se neste ou naquele sonho tanso sem plural
Há tempos são os sóis que se escurecem
Raiando cedo a manhã devida pra amanhã -

- Quão cedo e tão tarde
Da vida
Há de se saber a metade.