Me sinto velho
não da velhice que seus museus retratam
ou como certos tataravós podiam se sentir velhos se ainda estivessem vivos
vou velho e cansado como o vão da porta que bate e fecha todos os dias
ou como alguma metáfora de cabelo branco jogada na cama do avesso
Me vejo velho
a despeito dos trinta e sete anos que ainda não tenho
e ouço suas orações em silêncio crucificarem o meu silêncio
te vejo assim mais velha do que eu me chamando ao Cinema
eu esqueço o seu aniversário, você esquece o meu
te vejo assim parada na esquina me olhando azul enquanto o céu que nós amamos se apressa
E me vejo velho e gasto como um cancêr benigno guardado no pulso que nunca matou ninguém
me vejo fácil e triste como maionese vencida da década passada
me vejo fazendo piadas óbvias sobre doenças que já me mataram
me vejo um dia nada como nada sou agora
porque o tempo e a idade são um casal de sem tetos
Me sinto preto e branco
não como preto e branco é o cinema mudo
ou como bobos são os testamentos bíblicos escritos por pessoas fictícias
vou velho e parado como a pedra parada que eu pego, te jogo e miro no peito
vou assim pela a sua raiva entediada por eu descompartilhar da sua crença
Me vejo um beco
e além do beco, eu vejo o chão que sustenta o beco
pr'além do chão, só vejo eu
quando poças d'água começam a contar histórias
como um substantivo próprio que as pessoas esqueceram de escrever em letras maiúsculas
como um bom cristão
eu esqueci de te contar porque te amava
sou um segredo guardado há muito tempo
quietos, eu e o ventilador do teto
e a goteira constante do chuveiro diante da chuva que na minha cabeça cai lá fora
você deixou sua casa aqui na cama
você esqueceu meu aniversário, e eu também.