sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Vera

Quando Vera me perguntava em que estação estávamos
Eu lhe lembrava que morávamos no Brasil;

Volta meia ela também citava que a maioria dos deuses
Jamais tirou seu pé da Terra firme;

Certo dia extendeu um cartaz na traseira da Kombi
Com os dizeres:
"Pernas finas também amam!"
E abriu desfile pela cidade
Virou bloco e marcha de carnaval;

Cada vez que Vera me perguntava como eu me chamava
Eu inventava um novo nome;

Assim se vivia a vida naqueles tempos: sem pretensão de viver ou ser importante. Ou de fazer do desespero cotidiano algum poema, ou prosa ou conto. Embora a diferença entre poema ou prosa ou conto, segundo Vera, é só uma questão de parágrafo ou não parágrafo. De ponto-vírgula em lugar de reticência.



segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Do Desespero

Do desespero de morrer de novo
Da saudade quase natural que dá
Quando se aperta a vida
Quando sufoca o mundo
Quando quase se engasga o gole de ar
Dos pontos finais que se estendem em reticências
Admito:
P'ra sempre nunca mais
Que cada gota de saliva se suspenda pairante
Por décadas ou
O instante que seja
Antes de cair da minha boca
P'ra sua.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Reveillon

Acerca das cercas
Que entrincheiram e trincam os quintais
Distância concreta
Entre os dentes de cima e os de baixo
Da boca que já secou diante
Do verde seco há ainda mais tempo
Sola de ferida na beira da pele
Costas marcadas (por quem?)
A mais nova cicatriz que debuta
No rosto marcado que ainda assim encanta
Distância concreta
Entre a vida e a mímica
Debaixo e acima dos ossos
Que repousam na Terra
Da Terra dentro de mim
Da Terra dentro de ti
Da erudição bem aquém erudita
(bem a quem já maldita?)

Quão sempre a separação
O Belo parecido com templos e pedras
Com pedras e sangue
Cal e cimento
Compondo os corações, dos próprios corações
Cantada a abdicação
Pelo desajeitado doce que se amarga
Nos trechos e becos
Soltos nas vielas do corpo humano
Contada a absolução
Cada suspiro marcado
Na esperança perdida
Da saída errada
O perdão que veio em atraso
Machucar o seio afastado
Ou que veio ferir a necessária marca de silêncio
Dependurada nas paredes ainda cinzas desta morada
Conclui-se:
O destino não cabe no bolso
Tãopouco cabe nosso passado.

sábado, 12 de novembro de 2011

Os Pães

Até quando essa casa vai nascer quadrada? Queria que chovesse logo. Queria que você me ligasse logo. Por que você diz que eu não deveria comer tanto pão de queijo? Por que você acha que eu devia malhar mais? 'Tô sentindo cheiro de café o dia inteiro. Passei em frente a um prédio em obras, muita poeira, muito cimento, homens sujos de cal, e mesmo assim eu dei pra sentir cheiro de café. Mas agora 'tô sentindo cheiro de chuva, só que o tempo está tão limpo. Isso me lembra que ainda preciso estrear um futuro novo.

Recebi sua carta ontem, e a li e reli, mas, meu amor, parece tanto que você me diz as mesmas coisas que dizia há 12 meses atrás, quando juramos não tocar mais nesse assunto. Comprei uma câmera nova, ontem a noite sonhei que o mundo estava acabando e as pessoas não corriam nem gritavam, apenas levantavam suas câmeras lomográficas e polaroids para fotografar as tsunamis, os vulcões, os meteoros, as crianças nascendo com tentáculos de polvo, as mulheres parindo cachorros, os homens com seus pintos que viravam linguiça e os cachorros recém nascidos correndo atrás deles. Ainda se vende polaroid? A vida sempre parece mais bela pelas fotografias. Ninguém costuma fotografar desgraça, só fotógrafo de jornal popular que gosta de fotografar defunto morto no chão sangrando pra estampar na capa. Por que eu não deveria ter um filho? Sempre quis engravidar, ter família, cuidar das minhas crianças, mas já me disseram que isso é anti-feminista, que eu preciso me impor, me livrar da dominação machista, masculina. Me disseram numa mesa de bar. Chegaram a me chamar de machista uma vez, mas foi só uma vez, e não guardo mágoa. Antes disso, preciso saltar de paraquedas.

Ah, já são 23 anos de praia, embora eu me sinta 30 anos mais velha só de usar esse termo. Queria ter uma penca de gatos. E uma penca de filhos. Uma casa cheia de gatos e filhos. Ainda sobre esse assunto, pena que é tão caro se criar criança hoje em dia, minha avó, ela mesma sempre dizia; ela, filha caçula de uma ninhada de 9 crianças que minha bisavó tinha desatado a parir. Lá no Mato Grosso, no meio do século passado, as coisas pareciam ser diferentes. Mesmo minha cidade, quase toda mudou. Agora respirar é difícil, meu nariz entope por qualquer coisa, agora-agora, embora pra mim tenha sido sempre assim, é que tudo piora. Meus pais também comentam, minha avó ainda viva, claro!, mais sadia do que eu, também. Quem tocou no assunto outro dia foi a tia da Isabella, a tia avó, essa por parte de pai, pouco antes de falecer e nascer de novo na véspera de feriado do Dia do Comércio. O neto mais velho dela agora estuda em Brasília, vai tentar concurso público. Não sei porque comentei, acho que é porque tenho pavor de concurso público. Meus pesadelos sempre envolvem cargos públicos e programas de televisão. Queria ter pra mim uma cidade de praia. Cidade particular, praia particular. Ou talvez eu não fosse querer coisa nenhuma mesmo se fossem meus o Rio de Janeiro ou a Califórnia, e quisesse na verdade ser dona da Lua. Isso me lembra turma da Mônica. Por que você me pergunta que horas são mesmo estando de relógio? Esse seu jeito agressivo de fazer perguntas...

Já que passado novo não se vende em loja, eu devia comprar um sapato novo, acho que tenho esse desde o ensino médio. Esse e aquelas chinelas, uma pra tomar banho, outra pra padaria. Eu devia aprender a andar de Bicicleta. Acho que faz uns 9 meses que não bebo Coca-cola. Daqui a pouco faz um ano. Será que vou morrer de câncer? Eu devia aprender a nadar. Nadar direito, porque eu só engano. Só nada no nada quem nada no vácuo, essa frase me veio na cabeça nesse instante. Devia pintar meu cabelo de azul, e esquecer que um dia eles já foram castanhos. Por que você me diz que eu devia ser feliz? Quem que viveu até agora a vida fazendo de conta que queria viver? Eu sei muito bem que dia cai o feriado de São Cosme e Damião. Queria aprender a voar, ou reencarnar uma passarinha mesmo. Ser perseguida por gatos que tentariam me fazer de almoço, de segunda à sexta, ao meio dia. Embora eu ache que a vida em geral já seja meio assim. Já faz uns anos que não acredito em nada - políticos, fadas, religião e outros mitos, sexo, orgasmo, vida extraterrestre, fada do dente, ah... já falei de fadas. Por que eu deveria sair com rapazes mais altos que eu? De onde veio essa mancha no braço? Tenho uma música na ponta da língua desde cedo, mas esqueci quem canta. Eu não consigo espirrar de olhos abertos. Acho que ninguém consegue. Eu queria ter um pedaço de Matéria Negra no aquário. Por que você não está aqui?

Parece que sempre tem pessoas estranhas paradas em baixo das árvores do centro da cidade. Pessoas sozinhas, falando sozinhas, olhando pro nada. Eu mesma me pego às vezes querendo falar sozinha, que "a culpa não foi minha, a culpa não foi minha." Isso me lembra da vez que eu estava voltando de uma festa qualquer, já de manhã, e percebi que numa das vielas da rua que levam até a minha casa havia um homem andando com um saco de pano. Parei pra prestar atenção, e notei que ele marcava o seu caminho com migalhas de isopor, que tirava de dentro do saco. Usei a palavra "migalhas" porque pensei que eram de pão, mas se ele fosse um morador de rua, como parecia ser, não desperdiçaria comida. Segui por certa parte do caminho e notei que ele cantava uma música durante o ritual, mas que eu não reconheci direito, pelo visto minha memória musical é péssima. Ele passou por uma transversal movimentada, carros pararam buzinando, ele causou uma certa confusão, então. Mas pelo visto, ficou bem. Esses dias encontrei ele de novo, dessa vez marcando seu caminho com pedaços de envelopes rasgados de discos de vinil. Reconheci uns recortes de uma capa famosa do U2, e eu só soube que era deles porque era bem a cara do Bono, em preto e branco, boiando na poça d'água do buraco do asfalto.

E você toca no assunto da carta de novo, e eu digo pra quê, me diz? Pra que o rio tem tantas pedras pontiagudas quando a gente tira os sapatos pra pisar na água? Na verdade, só Jesus pisa na água, então, o homem que é o homem só pode mergulhar os pés. Como eu sou mulher, vou tentar dar um jeito. E quando você insiste que eu devia ser feliz, eu digo que já sou, e você insiste que eu não sou. Mesmo se eu mentisse, o que importa é que a mentira que eu faço comigo, é um presente próprio, de mim para mim, só meu, que eu compro e guardo e que não te diz respeito. Pra você, sempre, só houve verdade da minha parte. Parece que a dor que doía debaixo do peito, doída só de pensar que eu estava dando o melhor de mim ao criar estrelas do meu próprio quarto, ao construir os foguetes que construí pra instalar no terraço de casa e jogar essas estrelas para além do campo gravitacional da Terra, e fazê-las brilhar pelo resto da História restante, para humanidade inteira ver o quão importante era, para mim, ser você; parece que essa dor já vai passar.

Por que essa cara engraçada? Amanhã já é domingo. Acontece comigo sempre de eu secar antes de beber. Percebi esses dias que me encanto facilmente por pessoas que poderiam estar no elenco de uma novela mexicana. O que me lembra a minha infância, quando pães de sal eram mais em conta. Parece que hoje eu trouxe a chuva comigo. Pena que não se inventam coisas como marquises de bolso. Que que isso na sua mão? Por que você ri toda vez que falo sério? Eu sei que meus cadarços estão desamarrados. Tem um tumor perdido em algum canto dentro de mim e eu ainda nem sei seu nome.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Três Nós

Chega de céu neste chão
Vivendo aos poucos que se vive mais
Que a noite acaba e emenda o dia
Com o Sol e a Lua partindo em dois
A terra cega e o infindo à vista

Firmamento firme no peito
Cheia essa cena de vidas inéditas
Basta o sangue seco
O beijo breve passado
A queimadura do Cigarro marcada no pulso
O horizonte apertado

Basta o rio nascer, por nós
D'uma boca nascente e só
Ria que ainda está medo
Chega de pena
De vida vivida a sós.

domingo, 6 de novembro de 2011

;

Quando enclausurarmos o céu no fundo de nossos bolsos
Saibamos pois: somos os nós
E não "nós", os pronomes
"Nós" de nós, do que se ata, e desata
Saibamos, também, contudo
Que a luz que é Luz não cabe assim nas mãos
De quem quer sempre o mundo de todos nas mãos
Pois estas quais que me refiro
Mirando o bolso próprio
São as mais pequenas.

O Silêncio II

O silêncio sagrado
das poucas coisas que ainda eram sagradas
agora catalogado
acadêmico, como todas as relações sexuais
feitas à quatro paredes

Um minuto de silêncio
pela morte do silêncio
que eu amava estragar com o tal bocejo
esse, sim, ainda, por enquanto
livre do cálculo
ou da certeza da razão
por não ter explicação

Uma boca aberta
vale mais do que duas caladas
Façamos um minuto de silêncio
antes da minha boca se calar
diante da sua.

Quase

Me sinto velho
não da velhice que seus museus retratam
ou como certos tataravós podiam se sentir velhos se ainda estivessem vivos
vou velho e cansado como o vão da porta que bate e fecha todos os dias
ou como alguma metáfora de cabelo branco jogada na cama do avesso

Me vejo velho
a despeito dos trinta e sete anos que ainda não tenho
e ouço suas orações em silêncio crucificarem o meu silêncio
te vejo assim mais velha do que eu me chamando ao Cinema
eu esqueço o seu aniversário, você esquece o meu
te vejo assim parada na esquina me olhando azul enquanto o céu que nós amamos se apressa

E me vejo velho e gasto como um cancêr benigno guardado no pulso que nunca matou ninguém
me vejo fácil e triste como maionese vencida da década passada
me vejo fazendo piadas óbvias sobre doenças que já me mataram
me vejo um dia nada como nada sou agora
porque o tempo e a idade são um casal de sem tetos

Me sinto preto e branco
não como preto e branco é o cinema mudo
ou como bobos são os testamentos bíblicos escritos por pessoas fictícias
vou velho e parado como a pedra parada que eu pego, te jogo e miro no peito
vou assim pela a sua raiva entediada por eu descompartilhar da sua crença

Me vejo um beco
e além do beco, eu vejo o chão que sustenta o beco
pr'além do chão, só vejo eu
quando poças d'água começam a contar histórias
como um substantivo próprio que as pessoas esqueceram de escrever em letras maiúsculas
como um bom cristão
eu esqueci de te contar porque te amava
sou um segredo guardado há muito tempo
quietos, eu e o ventilador do teto
e a goteira constante do chuveiro diante da chuva que na minha cabeça cai lá fora
você deixou sua casa aqui na cama
você esqueceu meu aniversário, e eu também.