domingo, 28 de agosto de 2011

Meus heróis
Morreram, sem atendimento médico
De câncer, tuberculose, dengue hemorrágica
Respectivamente
Na praça da Cruz Vermelha


domingo, 14 de agosto de 2011

É engraçado como mesmo uma gata amarela caída no chão e sorrindo parece mais linda porque de alguma forma me remete a você, porque, sei lá, por ser amarela. Mesmo sabendo que gatos e gatas não sorriem, é engraçado pensar que eu vejo esses sorrisos até mesmo em buracos de tomada, em restos de farelos de pão espalhados no prato esquecido em cima da mesa, na forma que as poucas estrelas visíveis do centro da cidade se arranjam no céu, toda e cada vez que saio do seu apartamento e aperto o térreo e caminho pela rua olhando pra cima e reparando nas coisas. É engraçado perder a vontade de fumar, voltar a acreditar na infinitude do universo e até sentir um ímpeto voluntário quase indomável de ajeitar a minha cama, varrer a sala e arrumar minha escrivaninha, se eu lembro que no próximo fim de semana é você quem vai dormir aqui. É engraçado passar limão no cabelo pra tentar acabar com a caspa só porque você sempre me diz pra fazer isso mas eu nunca faço, embora com certeza eu tomarei vergonha ainda esse mês e darei um jeito nessa história. É engraçado ver vestidos em você, e ver você nos vestidos alheios, vestidos ou não vestidos, é engraçado comprar flores e deixá-las morrer porque não era isso o que eu queria e iria te dizer.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Mesmo se chovesse sobre mim
Havia como acreditar em chuvas
Bebendo livre da boca que me sorria
Havia como acreditar em sede
Correndo livre pela casa que me prendia
Havia como crer em paredes?
Tatear abraços que já não estavam ali
Quando escuros estavam os olhos
Que antes se viam em luz e sal
Que antes se cortavam como se corta
À alegria com a verdade
Havia sim como se esquecer da vida
E rir com preguiça junto à preguiça
Beber duas vezes do mesmo copo
Embora já sem sede física
Embora já sem água na face da Terra
Ou na face dela
Havia sim como se esquecer da vida
Estender lençóis, amanhecer terraços
Tecer e vestir vestidos cuja dança
Amanhecia o mundo
Cuja Lua ainda se intrometia ao par
Havia sim como se esquecer da vida
Ir com a banda cigana dançar varandas
Embora varandas já não há.