Mesmo se chovesse sobre mim
Havia como acreditar em chuvas
Bebendo livre da boca que me sorria
Havia como acreditar em sede
Correndo livre pela casa que me prendia
Havia como crer em paredes?
Tatear abraços que já não estavam ali
Quando escuros estavam os olhos
Que antes se viam em luz e sal
Que antes se cortavam como se corta
À alegria com a verdade
Havia sim como se esquecer da vida
E rir com preguiça junto à preguiça
Beber duas vezes do mesmo copo
Embora já sem sede física
Embora já sem água na face da Terra
Ou na face dela
Havia sim como se esquecer da vida
Estender lençóis, amanhecer terraços
Tecer e vestir vestidos cuja dança
Amanhecia o mundo
Cuja Lua ainda se intrometia ao par
Havia sim como se esquecer da vida
Ir com a banda cigana dançar varandas
Embora varandas já não há.