Um monstro de poeira e ódio nasce no meio da praça. Começa sussurrando racismos, depois o sussurro vira frase em plena voz, e fala de corrupção, roubalheira, as pessoas ficam desacreditadas mesmo. Segue gritando, e parece que as pessoas gostam porque tem uma afeição ao berro e o utilizam mais do que como forma de expressão: algo dito mais alto que o saudável parece ter mais sustentação que qualquer argumento, independente de sintaxe, de lógica, de ética. E agora os culpados são os índios, são os homossexuais, são os imigrantes.
Esgoelando-se em coro com o monstro de poeira e ódio, as pessoas se esquecem de opressores reais. Aliás, estes, que oprimem, estão ali do lado dos oprimidos que concordam também com a criatura, porém com mais propriedade, e vão gritando, juntos. Desacreditados, mas agora desintimidados.. A descoberta nova coragem realmente se sustenta no ato de gritar por si só. Esquecem, por exemplo, de reclamar também do patrão, que está ali com eles, que lhes faz trabalhar a hora extra mas evita de pagá-la, que assedia diariamente, que os minimiza.
Não que estejam satisfeitos, estes oprimidos, mas estão desanimados, e na tentativa de reanimação o grito de tentar retocar alguma ordem nas coisas. Como arrumar o quarto destroçando ele com uma serra elétrica. Tem que prender todo mundo mesmo. Tem que matar todo mundo mesmo. Tem que derreter geral num gole de lava porque estão decepcionados mesmo, e nessa brincadeira, vão tornar o monstro de poeira e ódio na maior decepção de suas vidas desde que nos prometeram pra sempre tardes de temperatura amena e noites de abraços quentes.
