domingo, 18 de dezembro de 2011

Trégua

Preciso desaparecer num rastro de pressa e deixar em branco o desespero que eu tracei com giz e régua no verso do cheiro que ficou pra trás e que por estar tão mais lá do que aqui é beijo que não se beija mais.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Siamês

No meio do caminho havia,
um gato de óculos,
sem botas,
siamês,
nato,
cão,
grato,
ronronando em vírgulas:
o gato de óculos sorria,
estendido na entrada do brechó,
mas a doçura do seu riso era tímida e não se atrevia a cortar o riso alheio que mal se deixava ver no espelho porque essa gente aguada e rala água tanto o próprio doce que se acumula naturalmente ao lado esquerdo da boca e já sorri tão pouco o fim do mundo que tampouco que esse tipo se permitiria sair de casa neste verão sem seus guarda-chuvas abertos em pleno sol.

E imagina só, se esse povo descontente ficasse aqui, deitado no meio do chão azul de azulejo fresco, esperando a vida passar em plena terça feira? Imagina só se essa vida passa assim, criminosa, impune, sem doer? Imagina que desespero que ia ser.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Blue Whale

Toda pressa existe
Em cada canto apressado que diz que não
Os beijos assimétricos
A declaração de amor
Compartilhada em códigos binários
Como foi seu dia ontem?
De onde veio essa ressaca?
Queria ser azul
Como azul é sua nova calça jeans
Como azuis são as baleias azuis
Quando a maré não tá pra sangue
Queria ter a vontade
Queria ter vontade de dizer logo a verdade
Esse mundo que não acaba di'uma vez
O desespero de chegar logo em casa
E abraçar a saudade com um braço só.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Vera

Quando Vera me perguntava em que estação estávamos
Eu lhe lembrava que morávamos no Brasil;

Volta meia ela também citava que a maioria dos deuses
Jamais tirou seu pé da Terra firme;

Certo dia extendeu um cartaz na traseira da Kombi
Com os dizeres:
"Pernas finas também amam!"
E abriu desfile pela cidade
Virou bloco e marcha de carnaval;

Cada vez que Vera me perguntava como eu me chamava
Eu inventava um novo nome;

Assim se vivia a vida naqueles tempos: sem pretensão de viver ou ser importante. Ou de fazer do desespero cotidiano algum poema, ou prosa ou conto. Embora a diferença entre poema ou prosa ou conto, segundo Vera, é só uma questão de parágrafo ou não parágrafo. De ponto-vírgula em lugar de reticência.



segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Do Desespero

Do desespero de morrer de novo
Da saudade quase natural que dá
Quando se aperta a vida
Quando sufoca o mundo
Quando quase se engasga o gole de ar
Dos pontos finais que se estendem em reticências
Admito:
P'ra sempre nunca mais
Que cada gota de saliva se suspenda pairante
Por décadas ou
O instante que seja
Antes de cair da minha boca
P'ra sua.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Reveillon

Acerca das cercas
Que entrincheiram e trincam os quintais
Distância concreta
Entre os dentes de cima e os de baixo
Da boca que já secou diante
Do verde seco há ainda mais tempo
Sola de ferida na beira da pele
Costas marcadas (por quem?)
A mais nova cicatriz que debuta
No rosto marcado que ainda assim encanta
Distância concreta
Entre a vida e a mímica
Debaixo e acima dos ossos
Que repousam na Terra
Da Terra dentro de mim
Da Terra dentro de ti
Da erudição bem aquém erudita
(bem a quem já maldita?)

Quão sempre a separação
O Belo parecido com templos e pedras
Com pedras e sangue
Cal e cimento
Compondo os corações, dos próprios corações
Cantada a abdicação
Pelo desajeitado doce que se amarga
Nos trechos e becos
Soltos nas vielas do corpo humano
Contada a absolução
Cada suspiro marcado
Na esperança perdida
Da saída errada
O perdão que veio em atraso
Machucar o seio afastado
Ou que veio ferir a necessária marca de silêncio
Dependurada nas paredes ainda cinzas desta morada
Conclui-se:
O destino não cabe no bolso
Tãopouco cabe nosso passado.

sábado, 12 de novembro de 2011

Os Pães

Até quando essa casa vai nascer quadrada? Queria que chovesse logo. Queria que você me ligasse logo. Por que você diz que eu não deveria comer tanto pão de queijo? Por que você acha que eu devia malhar mais? 'Tô sentindo cheiro de café o dia inteiro. Passei em frente a um prédio em obras, muita poeira, muito cimento, homens sujos de cal, e mesmo assim eu dei pra sentir cheiro de café. Mas agora 'tô sentindo cheiro de chuva, só que o tempo está tão limpo. Isso me lembra que ainda preciso estrear um futuro novo.

Recebi sua carta ontem, e a li e reli, mas, meu amor, parece tanto que você me diz as mesmas coisas que dizia há 12 meses atrás, quando juramos não tocar mais nesse assunto. Comprei uma câmera nova, ontem a noite sonhei que o mundo estava acabando e as pessoas não corriam nem gritavam, apenas levantavam suas câmeras lomográficas e polaroids para fotografar as tsunamis, os vulcões, os meteoros, as crianças nascendo com tentáculos de polvo, as mulheres parindo cachorros, os homens com seus pintos que viravam linguiça e os cachorros recém nascidos correndo atrás deles. Ainda se vende polaroid? A vida sempre parece mais bela pelas fotografias. Ninguém costuma fotografar desgraça, só fotógrafo de jornal popular que gosta de fotografar defunto morto no chão sangrando pra estampar na capa. Por que eu não deveria ter um filho? Sempre quis engravidar, ter família, cuidar das minhas crianças, mas já me disseram que isso é anti-feminista, que eu preciso me impor, me livrar da dominação machista, masculina. Me disseram numa mesa de bar. Chegaram a me chamar de machista uma vez, mas foi só uma vez, e não guardo mágoa. Antes disso, preciso saltar de paraquedas.

Ah, já são 23 anos de praia, embora eu me sinta 30 anos mais velha só de usar esse termo. Queria ter uma penca de gatos. E uma penca de filhos. Uma casa cheia de gatos e filhos. Ainda sobre esse assunto, pena que é tão caro se criar criança hoje em dia, minha avó, ela mesma sempre dizia; ela, filha caçula de uma ninhada de 9 crianças que minha bisavó tinha desatado a parir. Lá no Mato Grosso, no meio do século passado, as coisas pareciam ser diferentes. Mesmo minha cidade, quase toda mudou. Agora respirar é difícil, meu nariz entope por qualquer coisa, agora-agora, embora pra mim tenha sido sempre assim, é que tudo piora. Meus pais também comentam, minha avó ainda viva, claro!, mais sadia do que eu, também. Quem tocou no assunto outro dia foi a tia da Isabella, a tia avó, essa por parte de pai, pouco antes de falecer e nascer de novo na véspera de feriado do Dia do Comércio. O neto mais velho dela agora estuda em Brasília, vai tentar concurso público. Não sei porque comentei, acho que é porque tenho pavor de concurso público. Meus pesadelos sempre envolvem cargos públicos e programas de televisão. Queria ter pra mim uma cidade de praia. Cidade particular, praia particular. Ou talvez eu não fosse querer coisa nenhuma mesmo se fossem meus o Rio de Janeiro ou a Califórnia, e quisesse na verdade ser dona da Lua. Isso me lembra turma da Mônica. Por que você me pergunta que horas são mesmo estando de relógio? Esse seu jeito agressivo de fazer perguntas...

Já que passado novo não se vende em loja, eu devia comprar um sapato novo, acho que tenho esse desde o ensino médio. Esse e aquelas chinelas, uma pra tomar banho, outra pra padaria. Eu devia aprender a andar de Bicicleta. Acho que faz uns 9 meses que não bebo Coca-cola. Daqui a pouco faz um ano. Será que vou morrer de câncer? Eu devia aprender a nadar. Nadar direito, porque eu só engano. Só nada no nada quem nada no vácuo, essa frase me veio na cabeça nesse instante. Devia pintar meu cabelo de azul, e esquecer que um dia eles já foram castanhos. Por que você me diz que eu devia ser feliz? Quem que viveu até agora a vida fazendo de conta que queria viver? Eu sei muito bem que dia cai o feriado de São Cosme e Damião. Queria aprender a voar, ou reencarnar uma passarinha mesmo. Ser perseguida por gatos que tentariam me fazer de almoço, de segunda à sexta, ao meio dia. Embora eu ache que a vida em geral já seja meio assim. Já faz uns anos que não acredito em nada - políticos, fadas, religião e outros mitos, sexo, orgasmo, vida extraterrestre, fada do dente, ah... já falei de fadas. Por que eu deveria sair com rapazes mais altos que eu? De onde veio essa mancha no braço? Tenho uma música na ponta da língua desde cedo, mas esqueci quem canta. Eu não consigo espirrar de olhos abertos. Acho que ninguém consegue. Eu queria ter um pedaço de Matéria Negra no aquário. Por que você não está aqui?

Parece que sempre tem pessoas estranhas paradas em baixo das árvores do centro da cidade. Pessoas sozinhas, falando sozinhas, olhando pro nada. Eu mesma me pego às vezes querendo falar sozinha, que "a culpa não foi minha, a culpa não foi minha." Isso me lembra da vez que eu estava voltando de uma festa qualquer, já de manhã, e percebi que numa das vielas da rua que levam até a minha casa havia um homem andando com um saco de pano. Parei pra prestar atenção, e notei que ele marcava o seu caminho com migalhas de isopor, que tirava de dentro do saco. Usei a palavra "migalhas" porque pensei que eram de pão, mas se ele fosse um morador de rua, como parecia ser, não desperdiçaria comida. Segui por certa parte do caminho e notei que ele cantava uma música durante o ritual, mas que eu não reconheci direito, pelo visto minha memória musical é péssima. Ele passou por uma transversal movimentada, carros pararam buzinando, ele causou uma certa confusão, então. Mas pelo visto, ficou bem. Esses dias encontrei ele de novo, dessa vez marcando seu caminho com pedaços de envelopes rasgados de discos de vinil. Reconheci uns recortes de uma capa famosa do U2, e eu só soube que era deles porque era bem a cara do Bono, em preto e branco, boiando na poça d'água do buraco do asfalto.

E você toca no assunto da carta de novo, e eu digo pra quê, me diz? Pra que o rio tem tantas pedras pontiagudas quando a gente tira os sapatos pra pisar na água? Na verdade, só Jesus pisa na água, então, o homem que é o homem só pode mergulhar os pés. Como eu sou mulher, vou tentar dar um jeito. E quando você insiste que eu devia ser feliz, eu digo que já sou, e você insiste que eu não sou. Mesmo se eu mentisse, o que importa é que a mentira que eu faço comigo, é um presente próprio, de mim para mim, só meu, que eu compro e guardo e que não te diz respeito. Pra você, sempre, só houve verdade da minha parte. Parece que a dor que doía debaixo do peito, doída só de pensar que eu estava dando o melhor de mim ao criar estrelas do meu próprio quarto, ao construir os foguetes que construí pra instalar no terraço de casa e jogar essas estrelas para além do campo gravitacional da Terra, e fazê-las brilhar pelo resto da História restante, para humanidade inteira ver o quão importante era, para mim, ser você; parece que essa dor já vai passar.

Por que essa cara engraçada? Amanhã já é domingo. Acontece comigo sempre de eu secar antes de beber. Percebi esses dias que me encanto facilmente por pessoas que poderiam estar no elenco de uma novela mexicana. O que me lembra a minha infância, quando pães de sal eram mais em conta. Parece que hoje eu trouxe a chuva comigo. Pena que não se inventam coisas como marquises de bolso. Que que isso na sua mão? Por que você ri toda vez que falo sério? Eu sei que meus cadarços estão desamarrados. Tem um tumor perdido em algum canto dentro de mim e eu ainda nem sei seu nome.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Três Nós

Chega de céu neste chão
Vivendo aos poucos que se vive mais
Que a noite acaba e emenda o dia
Com o Sol e a Lua partindo em dois
A terra cega e o infindo à vista

Firmamento firme no peito
Cheia essa cena de vidas inéditas
Basta o sangue seco
O beijo breve passado
A queimadura do Cigarro marcada no pulso
O horizonte apertado

Basta o rio nascer, por nós
D'uma boca nascente e só
Ria que ainda está medo
Chega de pena
De vida vivida a sós.

domingo, 6 de novembro de 2011

;

Quando enclausurarmos o céu no fundo de nossos bolsos
Saibamos pois: somos os nós
E não "nós", os pronomes
"Nós" de nós, do que se ata, e desata
Saibamos, também, contudo
Que a luz que é Luz não cabe assim nas mãos
De quem quer sempre o mundo de todos nas mãos
Pois estas quais que me refiro
Mirando o bolso próprio
São as mais pequenas.

O Silêncio II

O silêncio sagrado
das poucas coisas que ainda eram sagradas
agora catalogado
acadêmico, como todas as relações sexuais
feitas à quatro paredes

Um minuto de silêncio
pela morte do silêncio
que eu amava estragar com o tal bocejo
esse, sim, ainda, por enquanto
livre do cálculo
ou da certeza da razão
por não ter explicação

Uma boca aberta
vale mais do que duas caladas
Façamos um minuto de silêncio
antes da minha boca se calar
diante da sua.

Quase

Me sinto velho
não da velhice que seus museus retratam
ou como certos tataravós podiam se sentir velhos se ainda estivessem vivos
vou velho e cansado como o vão da porta que bate e fecha todos os dias
ou como alguma metáfora de cabelo branco jogada na cama do avesso

Me vejo velho
a despeito dos trinta e sete anos que ainda não tenho
e ouço suas orações em silêncio crucificarem o meu silêncio
te vejo assim mais velha do que eu me chamando ao Cinema
eu esqueço o seu aniversário, você esquece o meu
te vejo assim parada na esquina me olhando azul enquanto o céu que nós amamos se apressa

E me vejo velho e gasto como um cancêr benigno guardado no pulso que nunca matou ninguém
me vejo fácil e triste como maionese vencida da década passada
me vejo fazendo piadas óbvias sobre doenças que já me mataram
me vejo um dia nada como nada sou agora
porque o tempo e a idade são um casal de sem tetos

Me sinto preto e branco
não como preto e branco é o cinema mudo
ou como bobos são os testamentos bíblicos escritos por pessoas fictícias
vou velho e parado como a pedra parada que eu pego, te jogo e miro no peito
vou assim pela a sua raiva entediada por eu descompartilhar da sua crença

Me vejo um beco
e além do beco, eu vejo o chão que sustenta o beco
pr'além do chão, só vejo eu
quando poças d'água começam a contar histórias
como um substantivo próprio que as pessoas esqueceram de escrever em letras maiúsculas
como um bom cristão
eu esqueci de te contar porque te amava
sou um segredo guardado há muito tempo
quietos, eu e o ventilador do teto
e a goteira constante do chuveiro diante da chuva que na minha cabeça cai lá fora
você deixou sua casa aqui na cama
você esqueceu meu aniversário, e eu também.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Repente (Ela Me Ligou Da Beira do Trilho do Trem)

Ela me ligou da beira do trilho do trem
Embora não passem mais trens na via, aqui na Capital
Ela me perguntou que mal havia
em querer chover aos sábados, gritou que era engano
E discou outro ramal.

Ontem sonhei que eu só tinha um pulmão
Que eu entupia em nicotina
Uma fada, sobrada, na mochila
Na véspera do fim do mundo
Eu bebia um gole seu e atacava o porto errado
Declarava a guerra errada
Parava no ponto errado
Pegava a charrete errada
Cantava o repente errado
Minha sorte, moribunda
Nem sabia que horas eram
Eu beijava um beijo torto
Na boca do meu passado

Quando acordei, ereto o corpo
Dez ligações perdidas
No silencioso celular
Acendi o fogo, cigarro
Fucei o espelho e descobri
Que acordei dessa vez em outro lugar
Desrespeito não se aprende
Alegria é nascer sabendo
Tristeza é morrer querendo
Morrer a morte mais perfeita.

Jurei vingança à manhã recém nascida
Que já pedia a saideira
Mal sabia do dia a cor
E do fundo do último copo de cerveja
Já rachado a noite inteira
Eu respirava e entendia:
Ela me ligou da beira do trilho do trem
Cheia de drogas, libido, cupidos e promessas
Pra me querer e fazer bem
Foi quando o sol me passou despercebido
A pé, o dia inteiro já vivido
Não tinha como dar de ré.

sábado, 15 de outubro de 2011

Prólogo: É preciso a morte dos amores perdidos. É preciso a morte do seu próprio amor quando já morto e renascer por algum outro. Não qualquer outro.

Com um certo coração empapado, de desespero por cafeína e esperança.
Urgência.
Estrelas cadentes,
Precisa-se do céu em outro lugar acima do teto
Cada milagre que já existiu, se faz necessário existir novamente, mesmo se enchente entre quatro paredes e às tragédias que deste fato viriam.
E se necessário desviver o viver ideal, deve se parir o mal se apenas pelo mal se ama. Por mais que os deuses que sangram jurarem o contrário.

Epílogo: Deveria o amor perfeito de cada Maria se embriagar de Cachaça barata e trair sua família. No final de cada conta, indicado seria amar devagar a vida porque pressa se tem desde já p'ra viver. Pois não se faz do próprio coração um Cálice e dele se bebe o sangue como se houvesse sede no mundo p'ra tanto.

domingo, 9 de outubro de 2011

Estanque

Havia perdido um lago
um lago de sal e terra
havia perdido um riso
uma dança
um feriado
e uma mão
sem pedras.

Um rio, sem metáfora, um rio
cortava minha casa
e além da ribeira
do banho
e da sede
havia também
Quem bebesse.

Sem se esconder da luz ou manhã
nem disfarçar abraço em promessa
havia uma cidade ensaiada
naquela casa
esperando a tarde passar.

Agora à noite
sem metáfora, estanque
um rio de saudade escorre dos seus olhos
e seca.

domingo, 2 de outubro de 2011

Não se meta com o Sol alheio.

sábado, 24 de setembro de 2011

Lamparina

-Põe o café na batedeira.
-Quê?
-Nada, você não devia beber tanto café.
-Isso não é problema seu.
-Tá.
-Já estou atrasada, me fecha a geladeira, e, pela mor de deus, não bota nada no fogo até eu voltar.
-Tá.
-R... já deve estar pronto há eras, já deve tá pra chegar.
-Vocês vão pra onde hoje?
-Shopping, normal, usual stuff, e depois vamos encontrar uns amigos no bar. Mas antes devo comprar pra ele um tênis novo, definitivamente ele está precisando.
-Você não devia dar tanta confiança pra ele...
-Isso também não é problema seu.
-...gastando dinheiro, fazendo tudo por ele, inscrevendo ele no vestibular, daqui a pouco se ele não passar ou conseguir bolsa, você vai pagar uma particular também, e me diz que que ele fez até hoje por você, isso é...
-Já te falei que odeio falar com você sobre isso, ainda mais nesse tom. Você sabe que ele é fodido de dinheiro, e, repito, no mais, isso não é problema seu e...
-...é ridículo e não adianta usar a desculpa do dinheiro, porque na vida se tem várias maneiras de se contribuir o carinho de alguém sem ser por dinheiro, ele podia estar aqui quando você precisava, podia lembrar do seus aniversários, podia ter vindo aqui quando você teve Dengue te visitar...
-...e pára de falar ao mesmo que eu! E como ele faria isso? Nós estávamos terminados na época, não teríamos coragem e...
-Mas você ligou pra ele quando ele foi atropelado, quando a mãe dele morreu, quando...
-Tá, tá, cala a boca!
-...quando seu pai morreu ele sabia muito bem o que tinha acontecido, por intermédio de amigos, e, ainda assim, nunca deu sinal de vida, definitivamente ele...
-Já falei pra você falar a boca.
-Tá. Chega. Vou voltar a dormir.
-Melhor mesmo, se for dormir com a televisão ligada, tente não deixá-la muito alta, os vizinhos acabam ouvindo, acabam batendo na porta, você acaba não atendendo, e eles acham que é de propósito.
-Desde quando você se importa com o que os vizinhos acham.
-Quer saber, T..., foda-se, preciso sair agora.
-Então saia.
-Tem comida na geladeira, é só botar no microondas. Não use o forno, repito, nunca.
-Tá.
-Pronto, as chaves, na bolsa, o guarda-chuva, parece que vai chover de novo...
-T...
-Diga, T...
-Tem sangue no canto da sua boca.
-Quê? Não, pera... Isso é, batom.
-Agora tem.
-Para com essas brincadeiras estranhas, vai dormir, vai, vai ver TV.
-Você sabe que aqui não tem televisão.
-EU SEI.
-E você sabe que você está apenas ficando esquizofrênica.
-Claro.
-Bem, só queria te lembrar disso. Boa sorte.
-Obrigada.
-Não traga maconha da rua, você sabe que eu parei com essas coisas.
-Claro.
-E está ventando demais, tente não respirar demais.
-Tá.
-Agora vai embora.
-Não fale assim comigo.
-Vai embora, você sabe que tanto faz.
-Cala a boca.
-Dá um check-in no Facebook quando vocês chegarem no shopping.
-Vou tentar lembrar.
-Você devia namorar alguém de verdade.
-Eu sei.
-Você não vai mais sair?
-Acho que não.
-Por quê?
-Acho que vou aproveitar que está chovendo e ler alguma coisa, ou escrever, ou ligar pra minha Tia.
-Boa idéia.
-E você?
-Daqui a pouco eu desapareço.
-Tá bom.
-Quer alguma coisa da rua?
-Você vai pra rua?
-Não, mas você quer alguma coisa da rua?
-Quero.
-O quê.
-Cimento fresco.
-Ótima idéia. Pena que eu não posso ir pra rua, pena que não posso ir pra muito longe de você.
-Realmente, é uma pena.
-...
-Vou fazer café, quer?
-Não, obrigada.
-Queria ter um gato amarelo, queria saber escrever bem, queria trabalhar com artesanato e viver de maconha no Largo da Cidade.
-Seria divertido.
-Queria ter ido pra Europa quando jovem...
-Você não está velha.
-...e ter saltado de paraquedas montada numa bicicleta, aliás, até hoje não sei andar de bicicleta.
-Você não está velha. E nunca é tarde.
-Queria aprender fazer pão de queijo, queria poder viver só de pão de queijo. E de amendoim com cerveja.
-...
-Queria também aprender a fazer café sem precisar de cafeteira italiana, queria aprender a respirar debaixo d'água pra sempre e queria aprender a voar.
-Então você queria ser uma mexicana das montanhas, um peixe de aquário dourado e um canário?
-Mexicana, talvez, mas queria ser mais uma baleia e uma águia.
-Baleias não respiram debaixo d'água.
-É, é verdade.
-O que mais você queria?
-Queria ter o Sol preso em uma lamparina no meu quarto.
-Mais alguma coisa?
-Isso não é problema seu.
-Nem seu.
-Essa vida aí fora, não é problema nosso.
-Talvez.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Vago

Meu corpo vago gostaria encarecidamente de morrer na mesma cama sua onde há de morrer o seu. Meu corpo largo aberto como aberta está a boca de quem vê chover sangue com sorvete no meio do passeio público quer ser a queda e o paraquedas do mesmo colo seu enquanto este espera pacientemente que seja desta vez do céu que caia água para lavar os cantos empoeirados e das paredes externas da casa. Meu corpo pago vende o próprio sono meu corpo que nem é sol nem satélite natural brilha mas brilha como brilham apenas os interruptores de luz no escuro na esperança de você os tocar com seus dedos. Meu corpo mago bruxo faz milagres mas nem tanto insiste e se apega ao pedido encarecido de morrer quando for a hora e somente quando for a hora nos braços seus que ele viu salvando a noite da imensa e cruel tempestade que trazia aquela manhã seguinte. Teu corpo vago gostaria encarecidamente de viver na mesma cama minha onde há de viver o meu.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Há sempre o perigo de se querer demais o que jamais se quis, de se respirar com a boca aberta e engolir um elefante alado. Há sempre risco ao assumir riscos, ao rimar amor e dor. Há sempre um risco na parede se você a risca de giz de cera. Há sempre um risco de cicatriz na face que se passa faca, se se passa com força. Se lhe for conveniente, há uma corda no banheiro, e você pode se enforcar, e a banheira já está cheia d'água, há remédios pesados para se fazer dormir na primeira gaveta à sua esquerda da cômoda da sala. Mas há sempre o perigo do teto cair, de lhe dar dor de barriga, do telefone ou da campainha tocar, e você se levantar ensanguentado para atender, e, então, haverá o maior perigo de todos: o entregador pode ter esquecido o troco pra pizza.

domingo, 28 de agosto de 2011

Meus heróis
Morreram, sem atendimento médico
De câncer, tuberculose, dengue hemorrágica
Respectivamente
Na praça da Cruz Vermelha


domingo, 14 de agosto de 2011

É engraçado como mesmo uma gata amarela caída no chão e sorrindo parece mais linda porque de alguma forma me remete a você, porque, sei lá, por ser amarela. Mesmo sabendo que gatos e gatas não sorriem, é engraçado pensar que eu vejo esses sorrisos até mesmo em buracos de tomada, em restos de farelos de pão espalhados no prato esquecido em cima da mesa, na forma que as poucas estrelas visíveis do centro da cidade se arranjam no céu, toda e cada vez que saio do seu apartamento e aperto o térreo e caminho pela rua olhando pra cima e reparando nas coisas. É engraçado perder a vontade de fumar, voltar a acreditar na infinitude do universo e até sentir um ímpeto voluntário quase indomável de ajeitar a minha cama, varrer a sala e arrumar minha escrivaninha, se eu lembro que no próximo fim de semana é você quem vai dormir aqui. É engraçado passar limão no cabelo pra tentar acabar com a caspa só porque você sempre me diz pra fazer isso mas eu nunca faço, embora com certeza eu tomarei vergonha ainda esse mês e darei um jeito nessa história. É engraçado ver vestidos em você, e ver você nos vestidos alheios, vestidos ou não vestidos, é engraçado comprar flores e deixá-las morrer porque não era isso o que eu queria e iria te dizer.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Mesmo se chovesse sobre mim
Havia como acreditar em chuvas
Bebendo livre da boca que me sorria
Havia como acreditar em sede
Correndo livre pela casa que me prendia
Havia como crer em paredes?
Tatear abraços que já não estavam ali
Quando escuros estavam os olhos
Que antes se viam em luz e sal
Que antes se cortavam como se corta
À alegria com a verdade
Havia sim como se esquecer da vida
E rir com preguiça junto à preguiça
Beber duas vezes do mesmo copo
Embora já sem sede física
Embora já sem água na face da Terra
Ou na face dela
Havia sim como se esquecer da vida
Estender lençóis, amanhecer terraços
Tecer e vestir vestidos cuja dança
Amanhecia o mundo
Cuja Lua ainda se intrometia ao par
Havia sim como se esquecer da vida
Ir com a banda cigana dançar varandas
Embora varandas já não há.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Ultravioleta Blues

Minhas raízes são as asas das cutias
Da praça São Salvador
Meu lar doce lar fica no vão
Entre minha cama e a tua
No meu teto e parede eu instalo um ralo
Meu chão com meu carpete
Leva um lustre de decoração

Minha fonte é arial black
Times New Roman
Comic Sans
Minha praça não seca
Embora eu tenha sede às vezes

Embora escureça às vezes
Minhas pernas amputadas
Minhas raízes são
Os pés alheios
Em movimento
Em translação
- Em
torno *desenhe um Sol aqui* Sol
- do

Tobias

Hoje cedo deixaram um pedaço seu na porta de casa
Junto com os panfletos de igrejas e propagandas políticas
Já fazia um certo tempo que eu não te via tão magra assim
E pálida
Mas você me parecia bem, e, em anexo, vinha o seguinte bilhete:
"Meu amor, já faz tempo, aqui jaz meu sorriso
Que você sempre adorou
Por favor me perdoe por qualquer imprevisto
Me ame pra sempre
Embora a recíproca não seja verdadeira
Se cuida
Aliás, se quiser, pode ficar com meu gato
O Tobias
Ele ainda está lá em casa, meio velho
Mas não deve te dar trabalho."
Eu fechei o bilhete e guardei no bolso de trás da calça
Deixei seu sorriso encostado em um canto de quintal
E segui pro trabalho.

Quando cheguei de casa pro trabalho, dormi
Bebi café, me sentei em minha mesa não tão minha
Dormi de novo
O almoço veio e então o lanche vespertino
A tarde daqui de dentro parece mais azul que lá de fora
A janela e as venezianas entreabertas mais prometem do que cumprem
Até que hoje não me testaram a paciência
Porque hoje não me cobraram paciência
Guardo as coisas, fecho a vida na mochila
Espero o próximo elevador com uma canção qualquer -
"Ohh is there a time to wait
When the only thing that does not wait
Is time
Ohh is there a time to wait
When the only thing that does not wait
Is time?"
- E já era hora de voltar pra rua

E na rua havia uma passeata inusitada
Formada por gente branca, chata, lutando pelos direitos humanos
Os direitos dos brancos, caucasianos, arianos, uma multidão
Uma outra multidão de gente hétero, ou que se afirmava hétero
Bradando o orgulho hétero, hétero, hétero
Ou qualquer coisa
Estava correndo atrás do ônibus
O céu escurecia, uma manada, frota, uma matilha
Seja lá qual o coletivo, de dragões roxos
Surgiram, alados, cuspindo fogo contra as pessoas e gerando tumulto
Ainda bem que ali só tinha umas 100 cabeças
Já no ônibus, a rádio pouco conveniente, a tocar música alheia
Uma jovem que era só piercings
Abraçada a uma folha amarela e gigante de árvore
Cantava a seguinte canção:
"Why we cannot fly - if we belong to the skies
Why we cannot swim - if we belonged to the sea
Or is it only me?"

Já em casa, peguei seu sorriso do quintal, cheirando a mijo de bicho
Passei uma água
Liguei e desliguei a TV
Liguei e desliguei o PC
Liguei e deixei o rádio
Já tirando a roupa, eu gritei que já cheguei: "Já cheguei!"
Mas lembrei que você não mora mais aqui
O chuveiro já aberto, dando choque, me lembra
Que às vezes morremos, que às vezes vivemos
Um pagode tocava alto na casa da vizinha
Vindo da janela do banheiro, que eu fechei
E fica só o rádio tocando alto no repeat
Aliás, não devia ser o rádio
Aliás, eu não vou criar seu gato.

P.S: E das vezes que amanhecia
- das poucas vezes que amanhecia -
eu pensava que você talvez
muito provavelmente
nunca viesse a saber que eu escrevi essa canção sobre você
E eu bem imagino você desligando o rádio
Antes de chegarmos neste verso.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Vai

Quão cedo ou tão tarde
Há de se saber a verdade? -

- A verdade surgirá
Num samba enredo de Carnaval passado
Num bloco vindo que já passou por essa rua
No suor doce que suou mas já secou na tua blusa
No beijo bom que já beijou sua vida
E agora quer sossego e bom bom bocado -

- O sossego virá numa rima crua
No bilhete grudado à imã na porta da geladeira
Sossego será um adeus dado - porém silêncio
Será o choro preso na boca que mastiga o pão,
Engole o café queimado e a certeza:
"Saibamo-nos pois, estamos nus" -

- A nudez e o pudor que prova a pele que sentencia
À canção, à pátria, à língua, à Deus se anistia
De tão baixo - o grito se grita e escorre
De tão verdade - a verdade se estampa a testa
Mas tanto faz este amor parachoque
Paraquedas - há tanto cai e há pouco voa
Se neste céu particular - verdades tuas
Se neste corpo só que se goza só
Se neste ou naquele sonho tanso sem plural
Há tempos são os sóis que se escurecem
Raiando cedo a manhã devida pra amanhã -

- Quão cedo e tão tarde
Da vida
Há de se saber a metade.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

For The Marimbondos

Prefeito passado me bateu a porta
Me pediu a identidade
Me brindou a sorte
Governador passado me jurou de morte
Invadiu minha sede
Me tatuou à força mentiras nas costas
Presidente passado
E o retrasado também
Me fincaram uma faca no pescoço
Me fizeram o sangue de tinta
E tingiram as ruas em meu nome
E quem saiu de gótico fui eu
E quem saiu de louco fui eu
E a tal da violência
O tal do crime
Foi de mim que veio
Mas de mim quem veio
Além de mim
Além da boca calada
Aquém da boca gritada e da garganta cortada
Que hora é marcada
Se a hora marcada não tem secretária certa
Não tem precisão
Tem necessidade
Não tem dia certo pra dizer não
E hoje eu digo não, chega
Chega
Quem manda na minha boca sou eu
Quem corta minha garganta sou eu
Quem estanca o sangue
E quem levanta sou eu.

sábado, 11 de junho de 2011

Quitutes Matutinos Num Jardim Qualquer

O seu pão de queijo
Boca aberta enquanto pouco
Café: percevejos

Canção Nenhuma

Amor de perdição
Amor de caridade
Amor dorme na calçada
E pede esmola nas manhãs
Amor não é bossa nova
E nem carnaval
Amor não é latino
Nem estadonidense
E é ainda menos
Parisiense
Amor não é
Uma necessidade
Ou vontade
Amor não é
Uma declaração de amor
Mas pode até ser
Algum filme do Almodovar
Só que só
Os da década de oitenta

Amor de salvação
Amor não é coisa alguma
Nem essa canção
É canção nenhuma
Amor só no ponto final
No pingo dos i's
Pingos de chuva
Gotas de suor, ou sal
Ou água e água-ardente
Pão de Açúcar e Coca-cola
Ou gordura e pão de queijo
Pingos de chocolate
Testemunhas
No canto da boca dela
Na barra do vestido
Amor é o que sobrou do seu perfume
Por dentro à minha blusa
É este céu escancarado
Incrédulo
Nublado
Amor, gotas de lágrima
E sorvete
Não tem diferença.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Haikai que Já Foi Meu

E teu
Moranguinho
Lavanda se entregando a página o caderno
Mancha de tinta da caneta tua
Nas unhas minhas

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Crisálidas

Esse sorriso preso
na barra da calça
seus pés mordem minha boca
você me fez ferida
e beijou pra me sarar
que tipo de fé eu acredito
vir de bonde e só, caiada
atraso o tchau pra te fazer ficar
mas parece que acabou
o nosso tempo aqui
parece que acabou
o nosso tempo aqui
eu vou jurar por zeus
que eu vou te construir
um relógio novo
só pra ele quebrar
e o tempo parar de vez
mas não faz
esse abraço preso assim
por dentro da blusa
me tira pra dançar
me tira pra transar
me tira pra viver
me tira pra chorar
me tira pra encenar
aquela cena cortada
do filme de nós dois
mas não faz assim
não faz frio e beiço
não deixa nevar por nós dois
deixa essa enchente pra lá
abre esse céu
que tá um dia tão bonito lá fora
abre esse céu da boca
e me devolve aquele riso
esse sorriso preso
na barra da calça
arrastando atrás de ti
enquanto você vai embora.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Plurais

Não se beija mais o amor com mesmas bocas
De cor, a sílaba aberta, a noite recita os versos guardanapos
Os braços cruzados aguardar um bonde velho
Ninguém mais anda o bonde por estas bandas e a noite é só
A noite e só
Poucas bandas andam e tocam pelas vielas do subúrbio
Amor de perdição, amor de reza e pecado
Há de passar, então, no ônibus já lotado
Direto do ponto
E há você, implorar, carona
Tropeçar, ralar, correr, atrás
Se perder de graça sem graça pela acuidade
Pela cidade perdida parida em seu ventre
Enfim pedir bater entrar pela porta de trás
O ponto
Final
Bem quando o tédio tinha em mãos passaporte
Viagem
Sua Nova Iorque, já passada e curta metragem curto
Sua Paris, dos retratos analógicos de jamais ser de novo
A vida inteira

De que estética beberia este amor moderno?
Que trem bala perdido cortaria o ar e o som das bocas que estalam
"Até logo"
Impaciência
Narizes a fungar os fungos nos bastidores de cada lágrima já secada
Pares e pares de íris cujo plural não há
Não há
Cuja cor castanha
Nos tempos de agora
De pressa e de cólera
Encara o vilipêndio do próprio espelho que a fita
Já tão poucos os lençóis
Tão poucas manchas de sangue
De virgindades metafóricas
Ou lenços, fronhas, papéis dobráveis
Pra aquecer a superfície encharcada
As Íris
Sós na quietude do bairro esquecido
Que fica por debaixo do cais do porto
Indiferentes suor que luz do dia transpira em si

Mas amor estende saudade
Sob mesmo chão que sol castiga
Que seus joelhos desconhecem
Mas mesmo amor faz artigos indefinidos se definirem
Apurar gramática, recitar Camões
O amor se renova em cólera
Perfura mais fundo o corpo fundo
Até, das profundezas, emergir o firmamento
E o amor reconhece, neste, velho estimado cartão postal
Deitado, estirado neste céu
Cujas estrelas...
Ah, as estrelas!
Cujas estrelas tem na nuca tatuado o seu nome.

domingo, 5 de junho de 2011

(Poema à) Moda Antiga

Até temos as palavras
Porém, demasiado
O silêncio

sábado, 28 de maio de 2011

Lumaquela

A espera na sala de espera
O cigarro que acabou
O seu sobrinho nascido
Com síndrome de Down
O beijo que falou que beijava e que vinha
Mas não beijou e nem veio
A gravidez da menina mais nova da sua rua
O grande amor de infância
Que viciou em cocaína e morreu
O relógio da Central do Brasil
Que não marca a hora certa
Quando isso vai ser problema meu?

O meio sim, o meio não
Ou o se cale para sempre
Os cracudinhos cheirando cola no sinal
Os cachorros estranhos
Das dondocas do Leblon
E das velhinhas de Ipanema
Ou de Copacabana
Os 45 graus de febre
Do filho da vizinha
A tartaruga que caiu no esgoto
E se afogou
A formiguinha na parede que se perdeu
Tantos carros na Avenida Brasil
Tanta chuva pra pouco guarda-chuva
Quando isso vai ser problema meu?

A sala de jantar, art nouveau
A exposição de Arte Moderna
No Museu de Arte Moderna, ou no CCBB
A vontade de viver e o beijaço Gay
Em todas capitais
O José Bolsonaro, o bon vivant
Que se engasgou com a espinha do peixe
Enquanto você estava jantando
A cor de sangue manchada
No uniforme da PM
O velho cego e sem perna
Implorando por esmola
No Largo da Carioca
Os crentes na esquina
Fazendo feira, e festa
Comendo cachorro quente
E cantando alegremente:
Aleluia

Aleluia

Aleluia
O show do Pearl Jam que o seu filho perdeu
O show do Led Zeppelin que você nunca vai ver
O Brasil Império
O Brasil Colônia
As Capitanias Hereditárias
Que o Coronel herdou
O padre do catecismo que queria te comer
O messias que ainda não veio
O fim do mundo que ainda não veio
A paz de espírito que ainda não veio
O sangue que é só seu:
E que nem assim
Eu estou disposto a doar
Quando isso vai ser problema meu?

A cura do câncer
A cura da AIDS
O tumor que eu tenho na perna esquerda
Mas não descobri ainda
O meu vizinho do 315
Morrendo de tesão por minha filha de 10 anos
O palácio do planalto
As férias em Brasília
O medo de arranjar emprego público
O medo de ir no Maracanã
O medo da torcida do Flamengo
O medo de ouvir seguir e concordar
Com o palpite alheio
O medo de pretos
Pretos, pobres e quase pretos
Medo também dos quase pretos de tão pobres
O medo de gostar de Caetano e Gil
O medo de precisar de outro fígado
O medo de caminhões de lixo
O medo de cavalos
O medo da diabetes
E medo dá diabetes?
A vontade de comer sorvete de baunilha
A vontade de trocar de marido
A vontade de voltar a fumar
A vontade de matar o trabalho amanhã
E medo dá diabetes?

A pornochanchada tão brega
Reprisada no Canal Brasil
O segredo que não era seu
Que você explanou no Twitter
O gole de saliva que você já bebeu
O gole de porra que você já engoliu
E sua esposa nem suspeita
A comida fria que cabe no prato
O sangue quente que cabe no quarto
O corpo livre que não cabe na casca
O riso solto que não cabe na casa
O mais cedo ou o mais tarde
A fé política da Inquisição
O céu e o telescópio de Galileu
A lumaquela é uma rocha calcária formada
Por conchas aglomeradas
Mas quando isso vai ser problema seu?

Porque Deus Quis

Deus já tá cansado de falar de deus
De discutir relação
De ter DR
De TPM
De sua própria TPM
Demasiado estranho, Deus ainda é megalomaníaco
De vez em quando me fala do Apocalipse
De Armaggedon
De como gosta daquela música do Aerosmith
Deus pensou num verso bem bonito pra botar nesta prosa fajuta: mas esqueceu
Defendeu-se dizendo que toda memória do mundo já foi dada aos Elefantes
De caridade, porém, nos inventou este refrão:
"De todo Kinder Ovo se espera uma surpresa"
De cara, me disse, "quem veio primeiro foi a Eva!"
Declarando: "Adão é o caralho! Lugar de sonho é padaria!"
Deus acabou de citar André Dahmer
De brinks, falou que qualquer dia desses ia se transfigurar num cineasta:
Deus agora se chama Woody Allen!
"All I have in life is my imagination!"
Deus não é cristão
Deus não é espírita
Deus não é Judeu, Jesus que era
Dedé dedica à Japeri esse refrão:
"De todo Kinder Ovo se espera uma supresa"
Deus só ouve Heavy Metal, Zeca Baleiro sabe
Deus não gosta de ser chamado de Senhor
Demora, mas Deus aprende:
De que amor verdadeiro e câncer são como azia: vem de dentro
Deus me falou que eu devia tentar caminhar sobre as águas da Guanabara
Deu que quase eu me afoguei
Deus me pediu desculpas
Deus não é perfeito, nem eu
Deus me curou do mal olhado
Deus me curou uma afta em três dias úteis e eu voltei a ser crente:
"De todo Kinder Ovo se espera uma surpresa."

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Obviamente um Recital às Cores

De que cor é a tua bicicleta quebrada?
De que cor é a tua bicicleta roubada?
De que cor ficou a tua blusa desbotada?
Que cor fica quando o lábio ressacado?
A cor que eu visto é vermelho e preto
A cor que eu visto é cor-de-pele
Você me diz o que é cor-de-pele?
Qual é a cor da cor da cor-de-pele?
Você me diz?
A cor que insisto ser a cor que eu visto
A cor que eu minto ver no alto, o firmamento

O que que o arco íris tá fazendo ali no acostamento
Se envolvendo, misturando com a poça de água e gasolina
O que o arco íris faz com o sol ali no alto, ali no morro?
O que o arco íris tá fazendo ali debaixo da ponte?

De que cor é o sexo da semana passada
De que cor eram aquelas pernas?
De que cor que é o hexa-campeão de Tênis
E de Fórmula 1
E da Maratona de São Silvestre
De que cor que é a sua caneta esferográfica
Pela qual você escreve agora?
Azul!

E quantas cores tem a bandeira do Brasil?
Quantas cores tem a bandeira dos States
Que cor que sangra do corpo que encontra a bala perdida
Que cor se perde e se bebe à noite, na balada
Que cor se perde no meio do caos dos olhos dela
De que cor é esse corpo extendido no chão?

Que cor trabalha 12 horas por dia
Na lavanderia
Que cor que compôs a sua canção favorita?
Que cor que limpa o seu chão?
E de que cor é seu all star?
E de que cor é seu all star?
E de que cor é seu all star?
Que você tá calçando agora?
Verde.



Valsinha S/N

Desde o primeiro beijo
O primeiro ensejo
A primeira cor brilhando azul
A primeira árvore sorrindo verde
A primeira rede
A primeira ciesta
Desde o primeiro agarra-agarra
No banco do metrô
Do primeiro cheiro na nuca
Da primeira mão invadindo a blusa

A primeira lembrança
Lembrancinha, o cartão postal
Do primeiro bilhete na cabeceira
Desde o primeiro sms
Do primeiro toque a cobrar
Desde aquele papo
No meio da madruga
Desde os seus primeiros dentes
A morde-lhe as costas
O primeiro embate
Sobre política externa
E sobre a legalização do aborto
Desde o primeiro olhar
Desde o primeiro clichê
Desde a primeira canção
Dedicada no rádio
Mas já quase ninguém
Ouve rádio hoje em dia

O primeiro final de mês
O primeiro pôr-do-sol no Arpoador
Desde a primeira trilha ao Alto do Corcovado
A primeira bebedeira no meio da Lapa
O primeiro piercing pregado na Augusta
Desde o primeiro agosto
E do primeiro desgosto
Desde a primeira rima
A primeira prece
Que ninguém rezou
Desde a primeira oração ao Deus Sol
A Shiva
Odin
E a outros deuses pagões

Desde o primeiro gole de sangue
Da primeira gota de saliva dela
Que sobrou na sua boca
Desde a primeira manhã
Do primeiro café preto
Com pão, com requeijão
Desde a primeira marca de pasta de dente
Que ela tirou do canto da sua bochecha
Desde a primeira sessão de cinema
Da primeira carícia nas suas genitálias

Desde o fim do primeiro calendário Maia
Desde o primeiro fim do mundo
Desde da primeira noite fora
Das primeiras férias na Europa
Do primeiro dia de Casados
Do primeiro filho
Da primeira filha
Do primeiro cão
E da primeira Iguana mexicana

Desde o primeiro segundo
Desde a primeira foda e do consequente unilateral gozo
Desde o primeiro sim
Ele sabia: amor não era
Nem era amor
E vice-versa
E versa-vice.


quarta-feira, 25 de maio de 2011

Fandangos

Plurais
Concorde comigo
Sou seu advérbio
Pro nome da rosa ficar mais bonito:
O adjetivo
Dois pontos amarelos pulando do prédio
Um par de fandangos
Um par de fandangos suicidas
Um par de beiços se coçando
Um par de narizes se beijando
Um isqueiro aceso
Balançante durante a balada romântica
No show da Ivete
Um isqueiro roubado
No bolso de ambos
Cúmplices do mesmo crime
O mesmo crime de amar
O mesmo crime de amar
O mesmo crime de amar comer pão de queijo
O mesmo crime de amar e apertar um beque
O mesmo crime de amar recusar um beijo
Pra dar três em seguida
Quero que sejamos a primeira pessoa a furar o sinal
Quero que sejamos a primeira pessoa a sim dizer não
Quero que sejamos a primeira pessoa do plural

Nós.

No meio da rua fazendo sinal
O busão não passa mas já tanto faz
A canção que ensaiamos com um pouco de cachaça são nosso ponto final.
(Eu juro)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

De quem é a voz que me acorda da noite no meio do susto
De quem são as mãos a me empurrar pra fora da cama
E de quem é esse monstro que estava dormindo debaixo de mim?
Quem diz que o que mais fácil se corta é o silêncio, nunca esteve neste quarto
Nunca esteve deste ou d'outro lado da linha
Tampouco se constrangeu pela cruel indiferença do telefone que não toca mais:

Quem calou esse olhar fui eu
Quem calou esse abraço também fui eu
Mas de quem é o grito que me acorda antes da hora de sonhar?
De quem são os braços que me amputam as janelas
De quem é a chuva que entra sem ser chamada
por cada fresta que se permite:
Cada fresta dessa casa que não é só minha.



Deus No 6

Deus deixou um bilhetinho na mesa de cabeceira:
"Heaven knows I'm miserable now, mas ainda te amo"
Deus dançou comigo ontem pela sacada
Quando apertamos um Beck, discutimos Woody Allen e Dirty Dancing
Onde falamos sobre e fizemos sexo
Pouco antes de quebrarmos um ou dois vasos da portaria
E de comprarmos uma lingerie qualquer em um posto de gasolina 24 horas

Deus está morto
Nietzsche também
Deus, de coma alcóolico no chão do meu banheiro
Deus, com seus 54kg, 87cm de busto, 67 de cintura, 95 de quadris
E com seu par de olhos ora castanhos, ora azuis
Deus jura que me ama, mas eu não levo fé
eu sou ateu.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Panfleto

Falar de liberdade é um jeito fácil de se fazer de livre
E desaparecer na noite com o que sobrou do corpo
e do copo de cachaça de semana passada:

De quem é o riso torto e o beijo vago que você
tem me empurrado desde que pisou aqui?
A pista tá cheia, o mundo tá acabando, e só você aqui não está gritando:

Eu faço de sua corrente, meu pingente, minha arma, punhal, e declaro guerra, guerra, guerra, guerra pois:

O direito de calar, e o direito de ferir, tem o mesmo peso do direito de ir embora, desligar o telefone, de mandar pro raio que o parta e de sumir sem dar notícia:

Chega de prego nesses pulsos ou de culpa nesse sexo, ou de paz de discurso, quero o caos, o caos que eu vivo agora e sempre e a vida que há de ser vida independente de eu vivê-la, eu quero o caos que sou só eu e eu fingia ser ninguém:

Já que é assim, faço desse meu remorso e rancor, meu suspense, minha trama, meu enredo agridoce, e meu caos, minha guerra, guerra, guerra: eu declaro guerra a minha preguiça, a minha fadiga, ao meu sono, a minha falta de vontade de:

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Pronto Enredo

Serei seu milagre passageiro
A chuva de um ano inteiro
Numa madrugada só
E quando você estiver tentando respirar
no metrô lotado: você vai lembrar de mim

Sempre serei o carnaval no qual você não saiu de casa
O feriado, o fiasco, o carro quebrado na beira da estrada
Quando você, apressada, tentar caminhar
Serei o campo gravitacional Lunar
E quando você, meu bem, aprender a dizer NÃO, NÃO, CHEGA, CHEGA
Eu vou também

Serei a época que ainda nos banhávamos na praia de Botafogo
O cobrador que ficou te devendo o troco
E o salva vidas vesgo
que lhe abriu a boca não pra lhe fazer respirar
Mas para lhe roubar o ar
E o beijo

A previsão do fim do mundo, Armagedom
O talvez, o sim e o não, ao mesmo tempo
Serei a canção: triste, de Smiths à Calcanhotto
Adriana, serei seu beiço, seu mal
Serei, deste canto, o enredo pronto
E o ponto final.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Se

A cidade estava inundada e o oposto do descaso era a audiência e eu poderia me casar com este silêncio que a palavra certa causa poderia me calar diante da boca boquiaberta prestes a dizer o que devia ser dito e não o que eu gostaria de ouvir e me congelar e me embriagar de vinho tinto com animais já extintos poderia sangrar a mão neste aperto de mãos e cortar a garganta de tanto cantar uma canção e poderia correr descalço pelado com frio com pressa e fadiga e chegar mais cedo onde eu deveria estar desde sempre e eu poderia retomar minha crença na Páscoa no Natal e nas promessas de um mundo novo feitas por Bono Vox e pelo Papa Bento XVI e poderia voltar a atrás e deixar de ser o que me sobrou ser ou eu poderia pular para o última página deste livro ao invés de arrancá-la e eu poderia estar errado e poderia poder voar e saltar por prédios sem me render a justiça cega da gravidade e eu poderia suspirar por filmes que não passam mais na Sessão da Tarde eu poderia beber só agua e respirar por luz solar numa vida saudável e perfeita onde eu estrelasse não o céu mas uma novela das seis e poderia fazer sexo com a mocinha sem a beijar de verdade e poderia desligar a televisão ao invés de trocar de canal eu poderia abrir um livro de Saramago e lê-lo até o fim e eu poderia fechar o tempo e jogar a chave fora e poderia esquecer de ter que ir ao trabalho quando isso me conviesse e poderia ser astronauta para roubar constelações e fazer de refém poemas baratos para em troca ter de volta o amor da minha amada e eu definitivamente poderia ser um animador de platéia no Domingão do Faustão bem quando aos fins de semana entediado eu pudesse voltar a te amar e finalmente eu poderia calar a porra da boca mas eu não.

domingo, 24 de abril de 2011

Ode ao Imperativo

Tire suas mãos desse sorriso
Fira suas mãos neste domingo
Tire suas mãos desse gatilho
Fira suas mãos nesta segunda
Ponha suas mãos nesta virilha
Quebre suas mãos neste sorriso
Fira seu sorriso nestas mãos
Tire seu gatilho destas mãos
Mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de avestruz confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de sabiá confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de crocodilo confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de Cobra confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de crocodilo confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de macaco confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de crocodilo confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de Pokémons confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie não leia este texto na íntegra e tire férias.


segunda-feira, 18 de abril de 2011

Custo

Ela passou aqui mais cedo hoje, e deixou, por debaixo da porta, o seguinte bilhete; o qual eu confesso, compreendi muito pouco conteúdo; inclusive acredito que não foi escrito pra mim, agora, mas para um outro eu, um eu que a dita cuja acha que morou aqui dentro, neste corpo, anos atrás:

Já estou sem noite, e meu dia vai nascer mais claro, mais cedo
Quando você chegar, se aparece lá em cima, lá em casa
Quebra um prato, uma janela
Pergunta minha idade
Pede meu açúcar já roubado, pega meu sexo emprestado
E não devolve não
P'ra falar a verdade
Já estou sem dia, e minha noite vai nascer mais escura, tardia
Estou sem paciência p'ra minha própria poesia
P'ro meu próprio amor
Se me ligar, vou te desligar o telefone à cara e te desejarei o inferno
E te darei o inferno
E Arnaldo Jabor
Amor é bossa nova
Sexo é Heavy Metal
Te morderei a boca, e quererei cortar o seu riso à faca
Arrancar à mão seu siso e
Outras coisas que a lei me pune
Mas sorte sua: não lido bem com sangue - nunca lidei -
Por conta disso, me manterei calada
Você vai fingir que nunca leu
Terei certeza: escrevi nada.



ps;provavelmente ela tem alguma razão.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Chocolate Nº 2

"A vida bate aqui - pede doces e travessuras - essa parte do céu nunca fora tão escura - a cor dos lábios que embranqueceu - o brinquedo novo que não é mais seu"

"Acho que vou sempre ser partido, um coração - pedindo doce de São Cosme e Damião - batendo a beiço na porta de estranhos - me apaixonando por olhos castanhos. "

"O dente cai, tão cedo e tão tarde - mesmo suor de quem joga bola e joga o corpo - contra a parede, a ferida arde - a lágrima que cai no ombro que já foi beijado, cai no chão - a boca suja de sorvete se suja de batom - não falo do chocolate, nem de mágoa, não, não falo mais de chocolate, nem de páscoa."

"O riso se abre mesmo sem dentes, e esta tarde, esta noite, essa risada de quem mente, esta noite chegou tarde demais, e esta falta, a falta da mão que se abre para apertar se contra a outra, do abraço que se abre pra se abraçar o mundo... mas todo abraço se fecha alguma hora, e uma hora essa hora chega, e uma hora essa hora já chegou, e, nessa hora, Deus que ore por nós, e uma hora já é uma manhã e é hora de dormir. A sós."

terça-feira, 5 de abril de 2011

As Coisas Que Eu Te Diria Se Eu Soubesse Mentir

Meu amor
O que você quer de mim
Claro, claro que pode ser
Acende o incenso de jasmim
Abre o seu email
Que lhe mandei boas notícias

Vou te dizer
Você me dá mais do que o bastante
Embora seu rosto seja meio torto
Embora eu não te queira mais
Não te queira mais

Não quero mais seu pão de queijo
Só quero seu corpo
Queime todas as fotos da nossa viagem pra Buenos Aires
E pra Madrid
E formate seu HD
Formate seu HD

Não, não vou escrever canção alguma sobre você
Não, não vou recitar poema algum sobre você
Não, não vou dizer mais não pra você
Não, não vou dizer mais não pra você

domingo, 3 de abril de 2011

Café Nº 3

A minha cachorra resmungando sobre provavelmente um gato no meio do quintal, a passar no muro da vizinha ou a se jogar com ela, aloitando, por pedaços perdidos de ração que acabaram de acabar e que levarão um certo tempo até eu ter tempo de comprar mais e reabastecê-los; um mendigo mexendo na lixeira de 15 metros depois do meu portão, e morar no Centro da cidade tem lá suas características inusitadas, até porque provavelmente o indivíduo nem deve estar procurando por comida, afinal, o restaurante a um real em torno da Central do Brasil é a nona maravilha do mundo moderno; ele deve estar a procura de latas de alumínio para reciclar e então, de uma vez por todas, financiar seu próprio Apê em Realengo; um ponto de ônibus, o 455 passando direto do ponto, sorte que qualquer carroça que passe aqui me deixa na porta do trabalho, e eu pego o ônibus, lotado como sempre, e tenho que ver e ouvir, logo pela manhã, e isso me irrita profundamente, pessoas xingando e resmungando porque alguém furou a fila, porque um lugar para idosos/obesos/deficientes físicos não foi dado a quem o merecia por direito, ou simplesmente irritados porque suas digníssimas esposas não lhe ofereceram carne na noite anterior, e jogando suas maletas irritados sobre a mesa do trocador, e este pedindo calma, e a pessoa dizendo "foda-se, eu já estou irritado, me deixa em paz", e o trocador (ou "cobrador," depende de em qual estado tu, tu que estás a me ler agora, foi culturalizado), naturalmente, dizendo que não se trata de problema dele, e de qualquer forma, é irritante ver pessoas enxendo-se os sacos uma das outras, desculpem-me as damas, aliás, mas é assim que as coisas funcionam numa manhã de segunda feira; mas já é quarta, o mesmo ônibus, um cheiro de cigarro que também já me foi irritante mas com o qual hoje em dia já me encontro familiarizado, e a orla de Botafogo, e as pessoas andando com seus cachorros de raça exótica, e um caro desconhecido sentado ao chão com o seu Beagle, googleiem por favor, e, então, deixem me dissertar um pouco acerca desta figura: esporadicamente venho notando que este indíviduo se encontra sentado ao chão, geralmente cabisbaixo, em expressão desolada, acompanhado sempre do referido cachorro que vos falei; sempre ao mesmo local, sempre a mesma hora, ou eu suponho que seja assim, anyhow, eu, este que vos fala, me via sempre contornando a mim mesmo a questionar a origem da tal figura inusitada - permitam-me descrevê-lo, seria um homem adulto de não muito mais de 30 anos, nem gordo nem magro, sempre vestido de branco com, sei lá, bermuda ou calça, 5 segundos de vista ao passar de ônibus por ele não me são o bastante para mais detalhes afinco, mas, contudo, claro, incoerentemente, são me o bastante para dissertar sobre sua natureza: me pergunto se se trataria de um fantasma, e essa é a hipótese mais interessante, acompanhado sempre por seu Beagle, este talvez fantasma ou não, talvez não, talvez sim, quer dizer, talvez sim, porque é um cachorro carismático e com certeza, se este fosse vivo, alguém o já teria levado consigo - de qualquer forma, um fantasma, que morreu há poucos anos, que perdeu sua esposa, seu grande amor, e desde então morreu de tristeza, sendo assim acompanhado por passeios matutinos com seu cachorro - não, claro, eu moro no Rio de Janeiro, metrópole, e se eu estiver errado culpem meus finados professores de Geografia, mas então, Rio, a hipótese mais provável, seria esta, dele se tratar de um doido, maluco, "lhouco", sendo assim, não tão interessante, visto ser algo relativamente comum por estas bandas; assim, o homem em questão podia se tratar apenas de um homem meio lêlé, que de manhã não tem mais o que fazer senão passear com o seu cachorro e sentar no nada, no meio da grama, acho que ainda não havia dito isso, mas ele se encontra na grama, de frente pra praia, bem próximo ao túnel que dá de frente pro Rio Sul; gosto de jogar com a possibilidade, também, dele ser um veterinário, que sai todas as manhãs pra ver outros cachorros, levando consigo o seu mascote favorito; também há a possibilidade dele não existir, e ser reflexo do excesso de café matutino que uma ilusão de ótica me causaria, mas você sabem que esta possibilidade não é pra ser levada a sério, por mais que, de fato, o meu consumo diário de café seja acima do nível considerado saudável pelos médicos que palpitam no Jornal Hoje.

Deixem-me falar do tal do meu emprego, é um emprego comum, nem chato, nem excitante, desafiador, no mínimo, porém, valendo mais a pena pelos colegas de trabalho em si, e por nossa convivência informal, descontraída, do que pelo prazer da labuta ou por boa remuneração que esta nos daria; e dali, seus arredores, Ipanema, Arpoador, ah, a zona nobre do Rio de Janeiro, trabalhar na Zona Sul tem lá seu o seu Glamour, não é mesmo, gente? tão idolatrada, tão bela e citada e recitada, em canções de amor, novelas das 9 e cartões postais - ali perto, e deixe-me me falar também do Leblon, da Lagoa, da vista linda, do cheiro de fossa, das dondocas que acham que ainda pertencem a High Society citada por Rita Lee em canção, com certeza, esta, inspirada por estas, outras, figuras, e de qualquer forma, é bom seguir pela manhã, e ver estas senhoras, não todas, sejamos justos, muitas são simpáticas e acessíveis, mas em geral, estas, outras, a quems me refiro pejorativamente, apontando o firmamento com a ponta de seus narizes, desconhecendo a palavra obrigado, e despencando-se de seus prédios, que, como elas, estão em estado de decomposição avançada; mas deixem-me falar dessa vida que ninguém vive, e da sexta feira, quando esta realmente, finalmente, redundamente, chega; das construções do Centro da cidade que sempre demoram o tempo do mandato do atual prefeito em questão para ficarem prontas; da Estação Cidade Nova, do lixo reciclável, também já citados em canção terceira; enfim, não perdamos o foco, deixe-me falar de amor, de beijos, de sexo casual, enfim, o que importa é que já não importa o que importa, já diria Sérgio Sampaio, quem está no fogo é pra se queimar, então, pra que chorar? esta cidade não vai chorar por mim, e acho que já passei da idade de chorar à toa pelas coisas, agora é rir, ironizar, deixar pra lá, afinal, desencontro, morte, desapego, e, porque deixar de citar?, o encontro, a vida e o apego, estas coisas todas fazem parte do pacote que chamamos de vida; mas me perdoem a filosofia barata, mas estou nesta mesa de bar, como havia lhes dito, atualizando meu blog antes de cair na noite, pelo celular high-tech que nem meu é, anyways, hoje é uma sexta feira, vou cair na noite, beber pra caralho, tô sem aula na faculdade a noite, porque algum fusível do prédio onde tenho aulas soltou faísca e a fez pegar fogo, e só, sei lá, só deus sabe quando terei aula novamente; mas, digamos que grande banda está por vir ao nosso estado no próximo mês? sim, naturalmente, eu também odeio cambistas, ainda bem que tenho meus contatos, e de qualquer forma, estou aqui escrevendo em meu blog e atualizando meu twitter, e a noite mal começou; sim, é bom aproveitar enquanto ainda se sabe escrever corretamente, é bom aproveitar enquanto ainda se consegue falar sem embolar-se as palavras e soltar asneiras; vamos pintar o Bar da Cachaça! e as poesias? lembro-me de quando era estudante de Letras, dos recitais no pátio, sob poucos ouvintes; e lembro-me, de quando era estudante de História, das bandas de rock, das rodas de samba, das pessoas dançando e, ouvindo pouco, porém, contudo, o mais importante, bebendo, bebendo mesmo, pra valer; lembro-me de tudo isso, e hoje já é sexta, o fim de semana vai passar como bala perdida, mas disso já estamos acostumados, e o domingo? que fazer do domingo? que fazer além de odiá-lo, de falar mal do Faustão, do Gugu, de desligar a TV, que ultimamente serve apenas pra decoração da sala, que fazer das terças feiras, dos programas de Humor óbvio dos quais já estamos cansados desde os 12 anos de idade?; que fazer da boca que se abre sem inspiração pra dizer "bom dia, em que posso ajudar"? que fazer das loucas bipolares pelas quais eu e em geral, os homens da minha geração, acabam se apaixonando? que fazer da louça suja? que fazer quando está abafado demais para ficar sem ventilador mas morno o bastante para sentir frio na pele enquanto ele está ligado? que fazer desta foto que me dá arrepios, tesão? desta boca que eu queria morder? do baseado que eu apertei mas não fumei? da ressaca que eu sei que vai me acontecer? (deus está neste instante me proibindo de ser irônico.) Novamente, que fazer da boca, em segunda pessoa, que eu quero morder? E que fazer do excesso de perguntas? Deitar e dormir.



sábado, 2 de abril de 2011

Paranóia

Por isso eu quero ficar
por isso eu quero ficar calado
no silêncio, me firo pouco
na ausência, me exponho menos
porém, se você me chamar
pra sair de braço dado com a noite
se cair uma gota de chuva
ou suor
ou lágrima
se você me chamar pra viver
eu vou.

Do Lado de Fora

Estava prestes a abrir a porta sem olhar quem me chamava, a rua estava vazia, ao menos pelo olho mágico, mas meus ouvidos ouviam uma voz ofegante que solfejava o meu nome, enfim, do lado de fora, a chuva estava por cair, o vento se metia pela minha respiração, e, apressado, eu corri em direção a voz que eu ouvia e que agora sussurava um segredo, um segredo que eu precisava ouvir de perto, e esta voz, macia que só, passou a cantar, e a canção que esta voz cantava passou a crescer, a ser seguida por uma orquestra, filarmônica, completa, e esta orquestra se silenciou por uns instantes, dando espaço ao som de uma banda, uma banda de rua, destas que passam a tocar marchinhas tradicionais, e estas marchinhas voltaram a ser seguidas pela orquestra, e o volume passara a crescer mais e mais, enfim, agora, novamente, a voz macia tornara a surgir, e esta voz retomara o cantar da canção, da canção sem nome, sem letra, secreta, a canção que me dizia um segredo, um segredo que sem medo, eu queria pra mim, eu queria em mim, e assim que tomei nota, no bloco de notas, do que se tratava este segredo, eu tratei de guardá-lo pra sempre no canto mais arejado, melhor servido pelo sol, cercado de plantas, de água fresca - eu tratei de guardá-lo no melhor pedaço da casa onde eu vivia - eu tratei de guardá-lo, estampado, na minha ferida mais aberta - eu tratei de guardá-lo, em todo pedaço de mim que eu chamava de vida - eu tratei de guardá-lo e cantá-lo em todo e qualquer canto.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Calotas Polares

Escrevo um auto manifesto contra a hipocrisia:
A hipocrisia deste que vos fala
Deste que vos costumava abrir a voz com intuito de apontar mazelas do planeta.
Este que vos fala está exausto de cansar sua beleza em discursos que pregam a verdade
E, tampouco, está disposto a recitar uma, reciclada, Ode à mentira:
Não há mais mares para se navegar
O homem já sabe voar há quase duzentos anos
Contudo, este ainda desconhece os métodos pára se parar uma chuva,
De como tornar água em vinho,
E de como erigir, de fios de cobre de televisão, algodões doce:
Chega de sonhar
Chega de dormir
O mundo que está ai fora não pode ser tocado
Mas, desde o berço, estamos tateando por ele às escuras
E pedindo à terceiros que nos atravessem essas ruas
Não posso querer idolatrar os engajados políticos
Embora profundamente os respeite
Menos posso, portanto, aprovar os que não se coçam
Porque sei o quanto minhas costas precisam de unhas e das feridas que estas podem e devem fazer:
Só o que quero é evitar o silêncio
É isso:
Evitem o silêncio
Evitem a boca calada, caída de lado por conta de um AVC
Eu juro:
Eu prometo ir de joelhos, da Lapa Carioca à Catedral de Aparecida do Norte, se sair, de qualquer forma, desta boca, destes dedos, uma palavra que não seja inspirada pela profunda ofensa e revolta causada pelas manhãs doces de domingo; uma palavra: que não seja regada tenra, calma e docemente pela raiva causada pela descoberta de que se acabou o pó de Café; esta mesma raiva que declara guerra:
Eu declaro guerra:
ao silêncio
ao racismo
à homofobia
à Televisão em dia de Domingo
ao medo
ao fim do mundo:
O fim do mundo não vai acontecer:
Em 2013 nos veremos caídos de braços dados, na areia da Praia do Forte da Barra, a fitar o firmamento que estará a brilhar calmamente sobre a Baía de Todos Os Santos; assim estaremos, desenhando sorrisos perenes em nossos lábios e nos perguntando:
"Por
que,
tanto
tempo,
nós
ainda
duvidávamos
das
estrelas?"


sábado, 26 de março de 2011

Cold Blood

"Ontem pela manhã, você me ofereceu um gole de sangue.
Já sem sono, recusei e agradeci,
mas quando percebi, vi que era do meu que se tratava
Era meu sangue pingando frio em seu copo
Sobrando, doce, no canto de sua boca
.
.
.
Só o que sei é que me senti culpado por não ter sentido sede àquela hora."

A Day In The Life

Ela se encontrava emaranhada entre as palavras que ela mesma pensava. Ela se chamava Clarice, mas preferia se chamar Virgínia, embora seus pais realmente lhe houvessem registrado em cartório o nome Lygia (todas escritoras, filha de professores de literatura, também influenciada por esta modalidade de cultura, naturalmente). Enfim, se encontrava enrolada dentre suas palavras, mas ela não escrevia. Digo, alfabetizada era, mas não se permitia escrever, até pensava em, mas de insegurança ou falta de impulso, se mantia controlada, sob remédios, séries televisivas ou bandas de rock, se mantia controlada diante de qualquer tentativa incisiva contra aquilo que ela ainda não sabia o nome mas suspeitava fortemente se chamar o "óbvio".

O "óbvio" era o nome próprio de um monstro, de um monstro de nome próprio, embora eu prefira grafá-lo, e ele mesmo concordaria com esta grafia assim, com letra minúscula; e, claro, nós estamos aqui a tratar de uma metáfora, mas vamos seguindo como se assim não fosse, como se este fosse o sentido literal das coisas. Ele vivia e dormia em geral debaixo de sua cama desde que ela saíra do berço para dormir em cama sozinha no próprio quarto, embora muitas vezes gostasse de se esconder em seu guarda roupa, em suas mochilas, bolsas e inclusive dentro de sua calcinha, de onde o "óbvio" gritava alto quando era contrariado, esperneava, ensaiava solos desafinados de um trompete que às vezes carregava consigo, contudo, em geral, era bem passivo, visto que sua obsediada em referência não era das mais dedicadas transgressoras; assim, este usualmente limitava-se apenas a beber café pela manhã, ler seu segundo caderno do Globo, acompanhar as dicas matutinas da Ana Maria Braga para cozinha, sala e varanda, disparava um ou outro adjetivo agressivo para com o papagaio Louro José, com cuja figura já se cansara, para então partir e acompanhar os afazeres diários de nossa protagonista. Nesse dado instante eu trato mais especificamente da faculdade, visto que Lygia-Clarice-Virgínia se encontra nesta narrativa aos 19 anos, cursando o quinto período de um curso de humanas de uma faculdade pública de uma das maiores capitais do Brasil. Assim, estamos na parte matutina do dia, e esta jogara a pilha de textos para estudo xerocados aleatoriamente na sua mochilha e partira pra mais um dia que terminaria cedo, visto que a sexta feira ainda se encontrava milênios distante. Cá entre nós, sendo lhes bastante sincero, e retomando a figura chamada "óbvio" que fora descrita há pouco, ela mesmo se negaria e me repreenderia ao saber que lhe dei tanta importância descritiva, me puxaria a orelha por ter lhe gastado tantas palavras assim neste parágrafo, porém, mesmo nestas circunstâncias, admito que eu a ignoraria e continuaria à assim fazê-lo, visto que a única verdade que posso assumir no momento é que ele já estava novamente lá, debaixo da narina dela, se ajeitando por entre os textos de sua mochila, sem que ela notasse.

Além deste indivíduo chamado "óbvio", que aliás tinha duas patas, dois olhos e orelhas, um órgão sexual e pernas, como não poderia deixar de ser, ela carregava consigo dentro da mochila seu inseparável Ipod, e o fio dos fones levavam até seus ouvidos as canções dos Beatles, Smiths, Strokes, White Stripes, Los Hermanos e Blink 182, estes os quais ela costumava esconder dos amigos ainda manter gosto por - porém, nesse belo dia, a meio caminho da faculdade, a reparar o quão estranhos e despropositados podem parecer às vezes os prédios do centro da cidade, ela acabara de lembrar que precisava comprar ingressos no Cine Fulanon, cinema cultuado por jovens do seu ciclo social, pois à sexta feira haveria a estréia de uma atriz que adorava e que apesar de há muito tempo não fazer um trabalho realmente à altura de seus clássicos, por ela mantinha afeto e admiração; de qualquer forma, após comprar de antemão os ingressos referidos, ela percebera, como diria sua avó, um "furdunço" à ocorrer na próxima esquina: mais uma passeata organizada por membros do PSTU, PSol e partidos afins (embora não tão 'afins' assim)!!! Nossa personagem principal até concordava com alguns argumentos e se identificava com um parágrafo e argumento ou outro defendido por esses grupos jovens, também, em geral, estudantes de cursos de humanas de universidades públicas, contudo, sua atitude padrão era agir com indiferença para com estas manifestações e engajamentos políticos, digamos, mais "práticos". Bem, justamente hoje, esta sua indiferença que carregava consigo não poderia ter lhe pegado mais despreparada: quando estava passando próxima aos manifestantes, espremendo-se pelo o que sobrara de uma das calçadas ocupadas por cartazes, tintas e pessoas, um indivíduo aleatório com blusa enrolada na cabeça, à lembrar aquela figura clássica de Banksy que, nestas vestes, ameaçava jogar um bouquet de flores contra seus inimigos, porém, neste caso, o bouquet estava sendo substituído, literalmente e sem metáforas agora, por um coquetel molotov, sendo apontado e atirado por este indivíduo contra um dos pontos de ônibus da avenida, aparentemente em gesto "simbólico" (eufemismo de minha parte) protestante ao recente aumento do preço das passagens dos transportes públicos da cidade.

Após o ato que acabei de descrever ter ocorrido, a multidão começara a se alvoroçar e, a polícia, que acabara de chegar com seus escudos de plástico e cacetetes na mão, gás de pimenta, e bombas de efeito moral, começou a avançar sobre os manifestantes, com pouca cordialidade. Acontece que Clarice-Virgínia-Lygia estava ainda parada no lugar que eu havia citado anteriormente, pasma, vendo tudo acontecer, mas, em um ataque de adrenalina e susto, começara a correr em sentido oposto neste instante para se afastar daquela confusão toda. Graças a algumas discretas (a.k.a 'escondidas') horas dedicadas a academia nos últimos meses, ela fora bem sucedida em sua fuga, e se afastara o bastante e a tempo de manter sua integridade física intacta, contudo, a imagem do ponto de ônibus pegando fogo - o vidro transparente que costuma compor a arquitetura destes pontos se aquecera com a bomba até partir-se em vários pedaços, e a propaganda do mais recente musical em cartaz na zona sul da cidade derretera com a face em folha de papel da atriz principal, agora distorcida pelas chamas - assim como a imagem da multidão reprimida pelas autoridades policiais, das câmeras de TV desviando suas lentes para outros pontos, talvez para os pombos e nuvens misturadas à fumaça do fogo, enfim: a imagem de uma causa que ela mesma vagamente acreditava misturada à esse breve porém bem definido caos e descaso urbano, havia sensibilizado ela, o que, natural e concomitantemente, incomodava o indivíduo "óbvio", que o tempo inteiro permanecera apertado e apreensivo em sua mochila.

Acontece que após o incidente, a jovem Clarice-Lygia-Virgínia passara o restante do dia na faculdade, então dirigindo-se de volta pra casa, subindo às escadas para o quarto sem falar com ningúem, batendo a porta e jogando se na cama, não antes de despejar os textos, anotações, em cima da cama, com isto fazendo cair - e soterrando - o monstro "óbvio", que como eu já disse, estava achando aquele dia um tanto quanto absurdo. Eis que a jovem enquanto deitada, além de ter remetido a esta situação que ela vivia à algum filme muito antigo que passava na Sessão da Tarde cujo nome lhe seria impossível lembrar, mesmo após consulta no Google, começara a sentir uma angústia torturante, com a qual nem a critura "óbvio" estava contando. Assim, de repente, como se riscasse um fósforo numa sala de estar com vazamento de gás, e desculpem o exagero de mais esta metáfora, mas diante das circunstâncias, esta figura de linguagem é a mais cabível, finalmente, em um impulso praticamente inédito e só comparável à desesperada sensação de correr para geladeira quando se descobre que seus pais compraram e lá guardaram um pote sorvete de flocos... fezes!, desculpem-me novamente a metáfora adicional, mas a situação requer estas delongas e caracteres a mais; enfim: eis que a jovem levantara-se de impulso da cama e se sentara na mesa do computador, puxara o teclado pra fora, arrancando-o e jogando sobre a cama, e, com uma caneta, começou a escrever, desesperada e de próprio cunho, no colo da mesa, os seguintes dizeres:

"Pra quem não pára (com acento) no ponto
Pra quem pede perdão e se ajoelha - mas não beija os pés
Pra quem se pergunta quem foi que apagou as luzes
Pra mim e pra quem ainda orienta sua navegação pelas estrelas mesmo que seja insuportavelmente difícil enxergá-las na escuridão do céu de uma cidade como São Paulo
Pra mim e pra quem ainda prefere o pão de queijo mineiro ao pão francês
Pra mim, pra quem e pra ninguém que prefira morrer de enfarto durante um salto de paraquedas sem paraquedas
Sobre qualquer outro tipo de morte."

Escrevera bem assim, de uma vez, e diante de sua mesa assim rabiscada, sentira-se estranhamente excitada, livre. Não livre na definição de Jack Kerouac, aleatório, virtualmente sem moral, andando randomicamente pelo seu país num fusca velho sem saber como pagará a próxima refeição - um livre cuja definição não saberia palpar, um "livre" cujos filósofos, pelo menos os filósofos que ela lera até então, ainda não se atreveram a descrever. Jantara escondida salada de batata com repolho e maionese, porque este prato não estava servido como janta àquela noite, e sim era sobra do almoço; comera esta refeição com enorme prazer, e, antes de dormir, permanecera horas plantada na janela de seu quarto vendo as pessoas passarem pela calçada - sua casa se encontrava paralela a uma rua movimentada, na zona sul de sua cidade - vendo a meia dúzia de pivetes sondando às bolsas das senhoras; encantando-se com a imagem de um acidente de carro que ocorrera horas mais cedo ao contemplar a carcaça dos veículos que ainda se encontravam no mesmo local esperando reboque, imaginando os motoristas envolvidos no acidente discutindo e se caindo aos tapas; observando os cachorros de raças elegantes como huskies e bulldogs franceses, além de outras raças inusitadas das quais ela nem suspeitava o nome, mijando na calçada ao caminhar com seus donos idosos em seus passeios vespertinos diários; vendo um jovem franzino que costumava tocar as mesmas músicas óbvias no violino, em troca de esmola, desafinar cada vez que tentava exagerar demais o tema principal de um de seus números; e admirando, principalmente, a Lua, com "L" maiúsculo, que estava anormalmente grande e amarela naquela noite.

P.S: então, acontece que durante a madrugada, o monstro "óbvio", possuído de fúria, após ser ignorado pela maior parte do dia, conseguira se desamaranhar das palavras tecidas por nossa heroína e da pilha de textos pelos quais estava soterrado; este abominável vilão, munido de um pano branco e álcool etílico, fizera o ato maléfico de apagar o texto escrito por ela na superfície da mesa, voltando à se aconchegar debaixo de sua cama, e lá ele permanecera até a última vez que se tem notícia. Apesar de embasbacada, na manhã seguinte, Virgínia-Clarice-Lygia não se perguntou muito além ao notar que o tal do escrito não estava mais lá, e agira como se nunca tivesse escrito nada, como se aquele ato de vandalismo privado tivesse sido um sonho estranho causado pela maionese do dia anterior. Mas, bem -desculpem meu acesso de tosse e riso, por mais que vocês, senhores e senhoras, não possam escutá-los nesse instante -mas, bem, a parte curiosa é que numa noite, umas semanas depois, em um ataque de sonambulismo inédito, nossa protagonista entrara no quarto de seus pais, pegara uma chave de fenda e um martelo de seu digníssimo pai e dirigira-se para a sala de estar, onde e quando, em sua parede que dava de frente pra mesa de jantar e refeições matutinas, redigira novamente o poema em prosa anteriormente descrito, esculpindo-o, com fidelidade, palavra por palavra. Desnecessário dizer que, durante o café da manhã seguinte, a sua família teve esta surpresa inusitada. E, mesmo sob ameaça de internação médico-hospitalar no sanatório administrado por um tio bem próximo, Virgínia informara seus pais que à partir de agora só aceitaria ser chamada assim, por esse nome, "Virgínia", e que muito em breve iria ao cartório apropriado modificar seu nome de registro para este; porém, acrescentando o adendo para seus pais não se preocuparem, informara que manteria seus sobrenomes de batismo. No final das contas, ela achara muita graça do poema esculpido na parede, principalmente, porque, não se lembrava mais dele.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A gente tem um mundo inteiro pra esquecer lá fora esperando que a gente se recorde dele pra que ele nos mostre o lado da moeda que caiu pra cima então vamos nos trancar aqui deixar de comprar comida e nos jogar as chaves fora assistir Discovery Channel 24 horas e acabar com todos os doces que temos em casa mas vamos abrir a janela só um pouco sim eu juro só um pouco para deixar o cheiro da chuva entrar e empestear as salas e os quartos e vamos dormir e vamos dormir querida esperando muito mesmo que não precisemos ter que levantar mais uma vez jamais a não ser para fazer mais café porque acabou.

Pra me Consolar

Sou afrodescendente, preto, crioullo
Sou judeu, ou já fui, ou ainda sou, ou sempre o serei
Brasileiro, me visto que nem inglês, e só ouço roque japonês
E industrial alemão
Tenho certa simpatia por religiões e filosofias indianas
Faz tempo que Jesus me deixou
Lembro que estava na Sessão da Tarde
Sonhando com Neve, Pinheiros e Santa Claus
Do céu escuro as estrelas gritavam "presente" à lista de chamada
Um beijo me era roubado na porta do Walmart
Tratava-se do novo longa do Woody Allen
Confuso, eu gostava do contraste
Abria as portas do paraíso de voadora
Desligava o meu Nintendo e ia dormir
Na dúvida, eu batucava
Na certeza, desfiria o acorde
Do Ukulelê elétrico que eu comprara no Ebay
Mas me redimia com meus ancestrais
E seguia o batuque do Oludum até dois de fevereiro
Odoiá, mãe Iemanjá
As estrelas do céu escuro gritavam "PRESENTE" à lista de chamada
Só eu que não ouvia.

domingo, 20 de março de 2011

eu canto inglês pra você me entender melhor
eu canto inglês porque quero espelho
quero ser isso ai que eu juro que vejo
canto porque canto
e eu quebro janelas

Shine On Me Crazy Moon

Erro meu de querer paz
Erro meu de me estirar na calçada esperando o mundo passar por cima
E à parte disso, o final da frase é sempre o mesmo: objeto direto
A despeito de eu querer, o final do mundo ainda está lá, estampado, nos Classificados
E na última página do Segundo Caderno

Tanta luz vindo de suas palavras, e se quer tens fé ou razão
Tanto calor vindo de teus abraços, e sabes bem: és como o Sol
Queima-me a face e fere me a pele, mas sem ti não me resta vida
Resta me, sim, sombra e dúvida
Resta me, mim, memória e saliva
Saliva tua que -ainda - é só o que me deixaste
Além de dúzia e meia de metáforas embrulhadas com papel de pão:

Quem sabe a Lua, noite que vem, aqui me sobrevoando o quintal
Traga me benção sem as mãos de Deus
Traga me brilho sem dose de cachaça
Traga romance sem soar Clarice
Traga me um riso sem tua presença.


segunda-feira, 14 de março de 2011

Sim

Peco em flor e peco também porque palito os dentes com seu espinho. Não peco de medo, peco por saber pecar, e por saber errar, quando devo e quando quero. Peco porque me firo, porque me tiro da chuva antes que chova mas porque também sei me molhar.








(isso é meio que dedicado à Clarice Lispector e ao Caio Fernando Abreu, acho. E ao Dia Nacional da Poesia)

terça-feira, 8 de março de 2011

Cores

A câmera Lomográfica
Que tiro do bolso
Colore meu mundo de sonhos e gostos
Gostos que posso sentir da ponta dos dedos
Desta cor, meia cinza
Meia preta
Meia lilás
Meia verde púrpura
Meia azul petróleo
Meia linda, de tênis, quase arrastada
Meia calça, calça inteira
O mundo por esta câmera Lomográfica
O mundo pela testa franzida
O mundo que só é o que eu quero que ele seja.

terça-feira, 1 de março de 2011

Tema para Samba Enredo de Carnaval Carioca dos Anos '10

Eu vou pegar Metrô
Vou reciclar meu lixo
Na estação Cidade Nova
Vou pra Ipanema, Leblon
Pro Posto Nove
Inspirar meu verso e prosa

Eu vou mentir, que minto
E sinto orgulho dessa cidade
Tirar foto pro cartão postal
Beber na Lapa
Esbanjar minha mocidade

Mas esse Rio, quem tem?
(Que vem, nenem)
Quem ri de tanta felicidade
Nem vem que não tem
No fundo ou raso
Essa tal modernidade

Já vão quase 500 anos
De luta, amor, suor
E procrastinação
E aquela tal muralha
Não é mais de pedra
É de cimento e papelão

Já fui turista, já fui plebeu
E, Carioca
minha independência já quis declarar
Eu rio, eu suo, e faço coro
Pois, não nego
A vida samba aqui em qualquer lugar

Mas cansei de beiço
E Rede Globo
Quero ver essa cidade sair do papel
O Baile Funk, o morro todo
Com voz no peito e peito aberto
Apontando pro céu

E esse grito (por hora) me satisfaz:
Não bebo sangue, eu bebo paz
Não bebo sangue, eu bebo paz
A paz do livro (e não) da propaganda
Carmen Miranda aqui não jaz
Não basta o samba, eu quero mais
Não bebo sangue, eu bebo paz.