sábado, 24 de setembro de 2011

Lamparina

-Põe o café na batedeira.
-Quê?
-Nada, você não devia beber tanto café.
-Isso não é problema seu.
-Tá.
-Já estou atrasada, me fecha a geladeira, e, pela mor de deus, não bota nada no fogo até eu voltar.
-Tá.
-R... já deve estar pronto há eras, já deve tá pra chegar.
-Vocês vão pra onde hoje?
-Shopping, normal, usual stuff, e depois vamos encontrar uns amigos no bar. Mas antes devo comprar pra ele um tênis novo, definitivamente ele está precisando.
-Você não devia dar tanta confiança pra ele...
-Isso também não é problema seu.
-...gastando dinheiro, fazendo tudo por ele, inscrevendo ele no vestibular, daqui a pouco se ele não passar ou conseguir bolsa, você vai pagar uma particular também, e me diz que que ele fez até hoje por você, isso é...
-Já te falei que odeio falar com você sobre isso, ainda mais nesse tom. Você sabe que ele é fodido de dinheiro, e, repito, no mais, isso não é problema seu e...
-...é ridículo e não adianta usar a desculpa do dinheiro, porque na vida se tem várias maneiras de se contribuir o carinho de alguém sem ser por dinheiro, ele podia estar aqui quando você precisava, podia lembrar do seus aniversários, podia ter vindo aqui quando você teve Dengue te visitar...
-...e pára de falar ao mesmo que eu! E como ele faria isso? Nós estávamos terminados na época, não teríamos coragem e...
-Mas você ligou pra ele quando ele foi atropelado, quando a mãe dele morreu, quando...
-Tá, tá, cala a boca!
-...quando seu pai morreu ele sabia muito bem o que tinha acontecido, por intermédio de amigos, e, ainda assim, nunca deu sinal de vida, definitivamente ele...
-Já falei pra você falar a boca.
-Tá. Chega. Vou voltar a dormir.
-Melhor mesmo, se for dormir com a televisão ligada, tente não deixá-la muito alta, os vizinhos acabam ouvindo, acabam batendo na porta, você acaba não atendendo, e eles acham que é de propósito.
-Desde quando você se importa com o que os vizinhos acham.
-Quer saber, T..., foda-se, preciso sair agora.
-Então saia.
-Tem comida na geladeira, é só botar no microondas. Não use o forno, repito, nunca.
-Tá.
-Pronto, as chaves, na bolsa, o guarda-chuva, parece que vai chover de novo...
-T...
-Diga, T...
-Tem sangue no canto da sua boca.
-Quê? Não, pera... Isso é, batom.
-Agora tem.
-Para com essas brincadeiras estranhas, vai dormir, vai, vai ver TV.
-Você sabe que aqui não tem televisão.
-EU SEI.
-E você sabe que você está apenas ficando esquizofrênica.
-Claro.
-Bem, só queria te lembrar disso. Boa sorte.
-Obrigada.
-Não traga maconha da rua, você sabe que eu parei com essas coisas.
-Claro.
-E está ventando demais, tente não respirar demais.
-Tá.
-Agora vai embora.
-Não fale assim comigo.
-Vai embora, você sabe que tanto faz.
-Cala a boca.
-Dá um check-in no Facebook quando vocês chegarem no shopping.
-Vou tentar lembrar.
-Você devia namorar alguém de verdade.
-Eu sei.
-Você não vai mais sair?
-Acho que não.
-Por quê?
-Acho que vou aproveitar que está chovendo e ler alguma coisa, ou escrever, ou ligar pra minha Tia.
-Boa idéia.
-E você?
-Daqui a pouco eu desapareço.
-Tá bom.
-Quer alguma coisa da rua?
-Você vai pra rua?
-Não, mas você quer alguma coisa da rua?
-Quero.
-O quê.
-Cimento fresco.
-Ótima idéia. Pena que eu não posso ir pra rua, pena que não posso ir pra muito longe de você.
-Realmente, é uma pena.
-...
-Vou fazer café, quer?
-Não, obrigada.
-Queria ter um gato amarelo, queria saber escrever bem, queria trabalhar com artesanato e viver de maconha no Largo da Cidade.
-Seria divertido.
-Queria ter ido pra Europa quando jovem...
-Você não está velha.
-...e ter saltado de paraquedas montada numa bicicleta, aliás, até hoje não sei andar de bicicleta.
-Você não está velha. E nunca é tarde.
-Queria aprender fazer pão de queijo, queria poder viver só de pão de queijo. E de amendoim com cerveja.
-...
-Queria também aprender a fazer café sem precisar de cafeteira italiana, queria aprender a respirar debaixo d'água pra sempre e queria aprender a voar.
-Então você queria ser uma mexicana das montanhas, um peixe de aquário dourado e um canário?
-Mexicana, talvez, mas queria ser mais uma baleia e uma águia.
-Baleias não respiram debaixo d'água.
-É, é verdade.
-O que mais você queria?
-Queria ter o Sol preso em uma lamparina no meu quarto.
-Mais alguma coisa?
-Isso não é problema seu.
-Nem seu.
-Essa vida aí fora, não é problema nosso.
-Talvez.

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