Como o silêncio das crianças magrinhas morrendo de fome
Como o grito do macaco morrendo atropelado
no Jardim Botânico
Como uma passeata pelos direitos humanos
Como um voto nulo em dia de eleição
Eu sempre voto no 69
Eu sempre saio de casa sexta pra voltar segunda de manhã
Como um aspirador de pó
If you know what I mean
Como o pecado muito grave
Mas mais parecido com o monte de prece que se faz pelo perdão
Como um broche do Greenpeace pendurado na mochila daquela menina
Como um cara que te dá um panfleto no meio da rua no Centro do Rio, tanto o "Empréstimo Já" como a Propaganda Política do PMDB
Como uma daquelas placas penduradas em gentes na Uruguaiana e eu digo e afirmo que eu "Vendo Ouro"
Como também um Baile Funk que rola lá às sextas
Como um botão do controle remoto que se aperta fazendo o canal mudar quando anunciam uma tragédia
E também como um botão que aumenta o volume quando a anunciam
Como a vontade de mijar que dá no meio do engarrafamento
Eu sempre quero ir embora mais cedo - mas nem sempre quero que dê logo a hora
Como a fobia de alguém lembrar de que é meu aniversário e cantarem parabéns
E como aquela vontade de me ligarem hoje, afinal já faz vinte e três...
Como aqueles que dizem ser tudo quando na verdade não são nem vinte por cento
Eu sempre finjo que filosofo
Eu finjo mesmo
Como o desejo de comer pizza em dia de sábado
Como o barulho das crianças vendendo bala e chiclete à um real
Como o silêncio de quem as compra e de quem não
Como uma ansiedade repentina pela morte
Em uma mistura de curiosidade e terror
E me dando vontade de pegar o telefone quando chegar em casa pra...
Como a minha vontade de chorar quando escuto um verso específico daquela música que me lembra uma outra coisa que eu não vou dizer
Como a sede de beber água quando só tem refrigerante e cerveja à venda
Eu queria conhecer o nordeste inteiro
Eu queria beber menos café
Eu queria saber de cor o aniversário dos meus amigos
Como a voz que improvisa e canta funks obscenos quando não tem ninguém por perto
Eu sou como a tempestade que chega na cor dos teus olhos castanhos
Aliás, eu também sou como a boca que queria beijar você toda
Só que eu também sou como o cérebro que pondera
Dai já viu
Como um pino de boliche com o qual um menino faz malabares em um sinal da Barata Ribeiro
Às vezes eu fecho a janela
Às vezes eu abro
Mas na maior partes das vezes eu sou a janela em si e deixo que me abram e me fechem a esmo
Às vezes tem tanta coisa fechada que eu abro as mãos
Não pra dar esmolas, mas pra escrever, tocar, cantar uma canção
Como se a palavra impressa, cantada ou à mão, pudesse ser amplificada ao mundo como gritos desesperados de "socorro, comentem e sigam o meu blog, o meu vlog, o meu Twitter que eu preciso existir" (aliás o link do meu facebook está logo ali).
Eu sou cada palavra que eu escrevi até agora
Mas não necessariamente eu sei do que eu estou falando aqui.