domingo, 24 de outubro de 2010

Judiaria

Como judiaria eu de ti
Ali deitada ao meu colo
Que dúvida eu poderia ter
De serem meus os cabelos teus
Emaranhados à palma da mão
Que já fora minha

Como judiaria eu de ti
Lá deitada ao meu colo
Que dúvida eu poderia ter
Dos sonhos teus de serem meus
Amanhecida, chamando de mãe
Quem já fora filha

Como judiaria eu de ti
Aqui ausente do colo
Que duvida, como podia ser
Dos sonhos meus serem os teus?
Mas anoitecia, e eu queria demais
Ter de volta o dia
Do riso de quem ria e ria:
O sol que mal se punha, nascia.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Boa noite

Cala a boca, porra, que eu quero dormir.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Não Necessariamente

Como o silêncio das crianças magrinhas morrendo de fome
Como o grito do macaco morrendo atropelado
no Jardim Botânico
Como uma passeata pelos direitos humanos
Como um voto nulo em dia de eleição
Eu sempre voto no 69
Eu sempre saio de casa sexta pra voltar segunda de manhã
Como um aspirador de pó
If you know what I mean
Como o pecado muito grave
Mas mais parecido com o monte de prece que se faz pelo perdão
Como um broche do Greenpeace pendurado na mochila daquela menina
Como um cara que te dá um panfleto no meio da rua no Centro do Rio, tanto o "Empréstimo Já" como a Propaganda Política do PMDB

Como uma daquelas placas penduradas em gentes na Uruguaiana e eu digo e afirmo que eu "Vendo Ouro"
Como também um Baile Funk que rola lá às sextas
Como um botão do controle remoto que se aperta fazendo o canal mudar quando anunciam uma tragédia
E também como um botão que aumenta o volume quando a anunciam
Como a vontade de mijar que dá no meio do engarrafamento
Eu sempre quero ir embora mais cedo - mas nem sempre quero que dê logo a hora
Como a fobia de alguém lembrar de que é meu aniversário e cantarem parabéns
E como aquela vontade de me ligarem hoje, afinal já faz vinte e três...
Como aqueles que dizem ser tudo quando na verdade não são nem vinte por cento
Eu sempre finjo que filosofo
Eu finjo mesmo

Como o desejo de comer pizza em dia de sábado
Como o barulho das crianças vendendo bala e chiclete à um real
Como o silêncio de quem as compra e de quem não
Como uma ansiedade repentina pela morte
Em uma mistura de curiosidade e terror
E me dando vontade de pegar o telefone quando chegar em casa pra...
Como a minha vontade de chorar quando escuto um verso específico daquela música que me lembra uma outra coisa que eu não vou dizer

Como a sede de beber água quando só tem refrigerante e cerveja à venda
Eu queria conhecer o nordeste inteiro
Eu queria beber menos café
Eu queria saber de cor o aniversário dos meus amigos

Como a voz que improvisa e canta funks obscenos quando não tem ninguém por perto
Eu sou como a tempestade que chega na cor dos teus olhos castanhos
Aliás, eu também sou como a boca que queria beijar você toda
Só que eu também sou como o cérebro que pondera
Dai já viu

Como um pino de boliche com o qual um menino faz malabares em um sinal da Barata Ribeiro
Às vezes eu fecho a janela
Às vezes eu abro
Mas na maior partes das vezes eu sou a janela em si e deixo que me abram e me fechem a esmo

Às vezes tem tanta coisa fechada que eu abro as mãos
Não pra dar esmolas, mas pra escrever, tocar, cantar uma canção
Como se a palavra impressa, cantada ou à mão, pudesse ser amplificada ao mundo como gritos desesperados de "socorro, comentem e sigam o meu blog, o meu vlog, o meu Twitter que eu preciso existir" (aliás o link do meu facebook está logo ali).
Eu sou cada palavra que eu escrevi até agora
Mas não necessariamente eu sei do que eu estou falando aqui.

domingo, 17 de outubro de 2010

1º de Janeiro

Tínhamos o silêncio para nos proteger, nos vigiar e punir. Tínhamos o silêncio das noites em claro. O silêncio dos ventiladores ligados mesmo em dias frios. O silêncio dos talhares batendo nas beiras dos pratos, até a comida acabar. Contudo, era nas vésperas de Natal que este silêncio todo realmente doía, e apontava no peito uma vontade esquisita de dizer alguma coisa. Mas o Papai Noel nunca desceu pela lareira, até porque nem tínhamos uma. Ele também nunca usou nenhum pó mágico para entrar pela fechadura. Quer dizer, se alguma vez ele fez isso, conseguiu ser ainda mais silencioso do que aquela casa inteira, passando sorrateiramente por nós, enchendo nossas meias e pés de árvores de poeira, porque só isso que ele jamais poderia nos dar, e indo embora rápida e silenciosamente.

Quando o Natal passava, o silêncio passava a incomodar menos, mesmo no ano novo, que era só aquela coisa de fogos, contagem regressiva na TV Globo, abraços vagos, e desejos distantes de felicidade distante vindo de parentes distantes. Contudo, após os Reveillons, eu sentia o resto do mundo numa proximidade estranhamente familiar. Isso acontecia a cada primeiro de janeiro, e exclusivamente nesse dia (aliás, acho que sinto mais ou menos isso até hoje). Ao abrir a janela de manhã, caminhar até a padaria, pedir minha dúzia de pão ou o pó de café que acabou, eu sinto que o resto do mundo todo também está em silêncio. E que de alguma forma, ao menos nesse sentido, nós compactuamos e compartilhamos do mesmo sentimento. Do sentimento que deveríamos estar dizendo alguma coisa, embora não consigamos. Quem sabe até o ano acabar, se deus quiser, nós consigamos dizê-la.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Pra Quê?

minha boca cortada me faz mal
minha boca na sua mão e basta um pouco de sangue
pro gosto do beijo não sair mais o mesmo

minha nuca cortada e acho que tem
sangue nas minhas costas
e acho que falam pelas minhas costas
mas eu não consigo ouvir nada

então, pra que fingir que sim
e fazer de conta a piada
me diz, pra que dizer que sim
pra quê