segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Canteiro

Debaixo daquele poste tinha uma árvore, uma árvore enorme, pelo que lembro era uma mangueira, e debaixo dela a gente enterrava vários tipos de bugiganguinhas que passava pela mão da gente. A terra vivia mexida, e sujávamos as mãos, nós, meninas, a gente fazia isso pouco, com medo e nojo das minhocas, então a gente deixava pros nossos amiguinhos fazerem, os meninos mesmo. Eu fui pra casa da minha mãe uma vez, meus pais divorciados, só a minha família era assim na época, hoje é tão comum, ...?

Então, eu fui pra casa da minha mãe, e de lá fomos pro sul da Bahia, Nova Viçosa, onde o novo marido dela tinha parentes e casa. De lá voltei com umas fitinhas, essas de igreja, de santo, que eu tomei pra mim que eu que tinha que enterrar lá debaixo da árvore também, e por conta própria! Porque eu não podia levar pra casa, meu pai ia jogar fora... picotar e misturar na ração do cachorro comer, ele tinha muito ciúme de mim com minha mãe, então... eu tomei coragem, e eu mesma cavei, por conta própria, junto de uma boneca que eu já tinha há mais tempo mas que meu pai vivia tentando dar sumiço. E enrolei num sacola plástica e lá eu deixei. Joguei a areia de volta apressada, porque tava pra cair um toró, e olhei pros lados, fim de ano, muita gente viajando pra casa de parente, ninguém tinha visto. Assim eu botei o último punhado de areia bem na palma da mão, e vi que tinha uma minhoca, minhoquinha no meio, e eu nem tive medo, achei tão bonitinha, olha, que eu acho que nunca mais vi minhoca tão bonita... 'Cabou que levei pra casa. E eu ria, ria que só quando meu pai me viu entrar em casa com aquilo tudo, terra, minhoca, e ele me gritando "sai menina, com essa sujeira pra lá, joga, joga no quintal", e eu rindo, rindo, voltei e misturei, bem em cima das plantinhas, umas meio roxinha, acho que era de orquídea que ele cuidava na época, mas eu joguei sem machucar, claro, mas espalhando lá no canteiro dele. E botei a minhoquinha com cuidado, levantei um punhado da terra e lá eu deixei ela. E eu ria, acho que até cheguei a chorar de rir, mas foi bom que começou a chover e ele nem percebeu, e quando entrei me mandou direto pro banho, ele nem percebeu que bem debaixo da cara dele, debaixo do nariz, , bem ali, onde ele ficaria todas as manhãs cuidando do... eu tinha acabado de deixar... acho que eu tinha deixado, hoje eu vejo, como um símbolo... o símbolo de todo amor que eu e ele ainda tínhamos pela minha mãe...

E quando eu estava entrando de novo, ele me deu uma toalhada na... no bumbum, e falou pra eu me banhar logo antes que escurecesse demais. Mesmo sendo ranzinza na maior parte do tempo, ainda mais depois que minha mãe saiu de casa, ele sempre foi um bom amigo, um paizão, Seu João... mas eu e a Babá e cozinheira, Conceição, que ajudava a me cuidar, chamávamos ele apenas de "Jão", e a gente brincava, falando pra ele, "Seu Jão tá limpo?" ou "Jão sabe que horas são?", e essas brincadeirinhas, trocadilhozinhos, que ele fingia que ficava bravo da vida... mas não... Daí lembro que nesse dia eu tomei banho, me esfreguei com aquelas esponjas do mar cheias de sabão, e arranquei uns caroços delas, pra ser sincera nem sei porque eu lembro disso tudo e tô dizendo... Não. Mas me enxuguei e fui deitar, e era, era véspera de algum feriado, acho eu. Não. Que dia é hoje?

sábado, 26 de dezembro de 2009

Moro

Ser ou já for, eis a questão que tanto
me peço, me empurro, que te pergunto
porque eu quero saber se eu
que a sorte é defunta eu já sei
que farei do resto ainda me é necessário saber
resto, que resto, que febre, que tese
eu vou defender, pois eu vou chegar
em casa tarde, vou cheirar à perfumes
que jamais usei, e mais
vou ruborescer tua cor lilás
só a falta que essa rua me faz
o muro azul traz essa vontade de voltar
e esse cheiro de poeira que só sente
quem está andar com calma, calma demais
calma que eu já vou deitar, calma que
Janeiro vem, e essas malas vão pr'outro lugar.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

The Cheese Song

Wanted to say something in portuguese
But couldn't help it so I ate some cheese
The summer came, so did your letter, "smile, mom"
You told me, as I read you try it on.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Aqui Nº 2

Ela me saiu e me deixou sem soneto
ela, a noite, digo, ela e a noite
ela, a menina, em gotas, me contou
que o dia que voltar e ficar eu
Ela me saiu e me deixou sem sono
ela, a noite, de piada
Me caiu do beliche
Me molhou as calças e os olhos
Quando me abracei o lençol sem ela,
a noite, acaba e me gabo
que a hora que eu estalar os medos
ela dorme aqui no meu lado novo
e o dia que ela voltar e ficar eu
vou lembrar que sou humano de novo.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Morse

Teus dias caíam do teto
teus pedaços te confundiam com o azulejo do chão
marrom, bege e cacau, e se chovia
eu te secava no meu avental, também e
a carta rasgada que remendei e esqueci
ainda está naquela gaveta, com os clichês e as juras
que bem me lembro e se tu quiseres tentar... me avisa
fala logo que eu ponho um chá no fogo
e falo mais... me deixa, a porta ali tá
meio aberta ainda... me deixa, vou lá fechar
que o gato entra, que esfria cedo, agora
nessa casa só há coberta pra um...
...Ah, só sobrou uma cadeira
fica de pé, por favor, que cansada estou eu
e trata, anda, trata de bater e trincar a portão
e sair em silêncio noite afora comigo aqui
nas preces que teu colo me nina antes de dormir
no adeus que me escreves e que eu ainda não li.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Goonie

Minha vida, torta que parece escoliose
Gravidade cai a chuva, a lepra cai meu dedo
Bactericida, ela afaga, retalio à lábio e tosse
Tremo e temo do sol já se pôr tão cedo
Que devo ter o tal de Parkinson de fato às vias
Signo e pulmões, têm lua e sol em câncer
À lambada, dói me o peito, taquicardia
Mas vai se o que angustia, abençoado alzheimer.
Existe o sim, o não, e as possibilidades. O resto é falta de tarja preta ou de samba.

domingo, 6 de dezembro de 2009

BATATA, BATATA

Batata frita, palha, doce, da terra, cozida
Batata brasileira, do bar, ou inglesa, gringa à milanesa
Com Hellmann's ou do Mc Donald's
Ainda, tropical, navegara por tantos mares
Visitara e se acomodara no paladar de tantos tantos
Batata, a prata, que mata, que troca, o peito
Pelas banhas, mistura do prato e da vida
Comida, almoço e lanche, que dia!

(Quê?)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Trâmites

Me mente, ao pé d'ouvido
se chegar tarde de novo
me beija, termina de me cobrir
me leva o café na cama
abre minha janela
coloca meu terço de volta
no pé da santa
pega meu dente sob
o travesseiro e põe uma moeda.

Se eu acordar
me conta do bar, do trânsito
do trâmite, do contrato
da outra, das outras
e se eu acordar
diz que ainda é cedo e me põe
pra dormir
De novo.

domingo, 29 de novembro de 2009

Essa tal de poesia
Que visto que vivo
Que espirro que respiro
E essa tal de boemia
De bares e becos de família
Que convento
A vida minha que frequento
Fazer de fazer de conta que nem se janta
Antes de sair de casa
O que se canta mesmo
Noite à fora, o que se é
O desconchavo de agora ir embora
A morte
A vontade de amanhecer sem hora
Antes que se perceba a disritmia
Que mais quem se quer
(e que se pode querer) é a ironia:
A paz.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Uno

Feliz, cria que o amor do mundo inteiro cabia no bolso (furado) da lateral das calças, dos cados de beijinhos, brigadeiros e tamarindos que caiam sem doer. E que a próxima, e que toda, viela sempre daria em bares lotados de vozes e sambas altos, de demais andar pelas mesmas ruas da Lapa. E, antes de aprender quem se deve abraçar vida à fora, evitara quaisquer braços, inclusive os próprios, e bancava à Vênus, sem Milo. E de tanto sorrir arrastado para tanta parede e tanta gravura estatelada no tempo, deu de gargalhar para o firmamento. Contra o firmamento, digo. Para ver se, do desespero escancarado, ainda que mascarado para o lado de lá do espelho, brotava razão à mais para continuar à se esperar. "Se esperar", com toda ambiguidade do termo, sem beiço e sem trema.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Cantiga de Mô

Joguei
a felicidade na beira do rio
o rio vai indo pro mesmo lugar
o mar de horizonte à me amparar
do tempo, da morte, e que nem mesmo o frio
ou a distância há de congelar

Voltei
pra beira da cama, fiz o sono fácil
me embrulhei em você e no silêncio bom
que a tarde que faz e mantém o tom
do riso e do beijo, afoga o lábio
entre eu e você, preenche os vãos

Pequei
e te trouxe aqui pra abafar o medo
do constrangimento a se enlaçar
palavra que digo e protejo, enredo
que se quer negar
Mas o adeus que eu quero dizer
É só um peito a se emudecer
A vida que eu rio em ti desaguar
O calor que seca no céu, teu lugar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Tuberculose

Rabisco o sol e o céu nublado na marca no guardanapo que a cerveja deixa, tusso a noite que já foi no trago que ela deposita no meu céu da boca enquanto faz que me beija e quer. A hora passa, o sono passa, ela acorda com tosse e tenta abrir a porta do quarto que eu tranquei ontem ao entrarmos à cópula e procura a chave que engoli enquanto ela se despia. O quarto se aquece mais conforme o meio dia se aproxima, e toca a ebulição quando ela me joga para fora da cama com socos, calcanhares e garras. Com 8 ou 12 riscos avermelhados se juntando aos outros das minhas costas, eu rastejo rumo a pia resmungando a dor que infla minha cabeça enquanto ela grita sem parar até parar. Começo a tossir também. Levanto a tampa da privada, cago, lembro do que fiz, e tento devolver a chave de volta ao mundo. Provavelmente as misturas químicas ingeridas da noite anterior são de grande ajuda, e a chave volta, esverdeada, para palma de minha mão. Ela já está quieta, dormindo e arquejando mais tranquilamente, à pose fetal na beira da cama. Deixo a gravidade deitar minha cabeça contra os lençois e espero o teto voltar e me dizer que horas são. O sol que rabisquei concretiza sua vingança, brilhando branco sob minha face, o céu resolve ficar azul por teimosia: ela, levantada, sonâmbula, nauseada, escancara as venezianas novas do hotel de qualquer jeito, e se arremessa de um qualquer jeito novo em cima do meu corpo que eu mal dera por falta antes daquele determinado instante. Ao lamber meu busto e pescoço ela acaba por adormecer outra vez, bem no meio de mais um acesso de tosse.

Os corpos dos pobres coitados suam seus rios e a camareira os desperta enfim ao espancar a porta do quarto. Na beira da rua, ele levanta seu pescoço para tentar ver que horas eram no relógio da Central. Ela já caminha por conta própria numa direção contrária, e, quando ele nota, já deve estar lá há uns 15, 17 metros de distância. Daria tempo de perguntar aonde ela vai, o que deseja, o que tem feito, afinal de contas. Mas as únicas notas que suas cordas vocais solfejam se perdem em mais uma tísica e seca convulsão, talvez seguidas de um quase ininteligível "desculpe".

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Me veio com o dedo do pé pingando mertiolate e sangue, a chorar enquanto gemia desculpas, jurando jamais me desobedecer de novo e voltar a jogar bola próximo aos materiais de construção. "Papai", eu disse, "tá tudo bem, mas da próxima vez deixa que eu passo o remédio."

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Canção de Amor dos Anos 80 ou 90.

Viver é sempre, e
Que seria o sempre senão o esquecimento do que veio até então,
E a ignorância do que está porvir?
Acho que sempre vou estar por aí

O que vai é o que fica
So, honey, vá, já... antes que sempre deixe de ser agora
Lá, onde ei de riscar seu nome

O que vai é o que fica
Se foi e nem percebo é porque jamais esteve, baby
Se a porta bate e é silêncio o que ouço, é porque nem a noite escura e nem eu
Queremos você ausente aqui.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Dúvida

Ela me perguntou
"Onde posso encontrar amor?"
Respondi, sem titubear:
"Atacadão ou varejo?"

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Quinze

Sabe quando chove e você quer guardar segredos pra si mesma e bem longe dos pais, e fica do lado de fora de casa encolhida em um canto coberto da varanda fazendo pouco barulho para o cachorro latir para o outro lado e rezando pra ninguém tirar o lixo dentro das próximas cinco horas, pra que você possa ter um tempo seu e só seu sem divisão com terceiros e quartos? Sabe quando o final da tarde já se aproxima e faltam 5 minutos para a hora na qual você usualmente já deveria estar dentro de casa, minutos que você gostaria de poder estender (com as duas mãos em um gesto de preparação de abraço em falso) pelas próximas 15 horas? Ou quando tudo o que você gostaria era abrir a porta de casa e ler o bilhete de seus pais colado com durex na tela da televisão escrito "fomos nos matar ali na ponte da Rua 15, por favor, coma o macarrão em nossa ausência"... E dos dias que seus passos batem fortes contra o piso já molhado da portaria e você espanca aleatoriamente o botão chamariz de elevador (ou seja que raio de nome dão a isso), que você sobe e desce apertando cada um de todos os 20 andares do prédio, e depois de novo, de forma aleatória, e depois indo até o sexto andar seisentos e sessenta e seis vezes, ou até o porteiro vir perguntar o que há de errado? Você vai molhar o corredor, socar a porta da lixeira, desejar achar o defunto da dona Maria e do senhor Bonifácio amarrados em grandes sacos pláticos negros, e mesmo que encontre nada, vai fingir de conta que viu os corpos putrefados, se achar uma gótica por isso, e sorrir enquanto gira a chave da porta. E quando achar a casa vazia, as camas arrumadas como eles deixaram, janelas fechadas, butijão de gás seguro, tomadas desligadas, você vai acender as luzes e ouvir "SURPRESA!" do vento que uiva ao vagar pelas escadarias do prédio. Esqueceram de seu aniversário ou você que ainda não se deu conta que não mora mais aqui?

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Café

Se ela me diz que até amanhã
haverá um sol e um beijo na toalha
por cima da mesa e o café
vai estar quente e na garrafa
se ela me diz que a manhã
deixará o sol rever meu sorriso
mesmo em dias nublados, se ela me diz
que quer ir embora antes que entardeça
e que os anjos estão nus debaixo da cama
esperando a hora de dormir
os anjos vão estar nus debaixo da cama
esperando-a, até a hora de dormir. Pra trazê-la de volta
pois amanhã a manhã vai trazer sob
a palma da mão um beijo e um queijo branco
prata, da casa, cuido eu, pois amanhã de manhã
mesmo que eu amanheça nublado
ela, a manhã, nascerão um outro céu além do meu.

domingo, 11 de outubro de 2009

Diáspora Vespertina

-Áspera.
-Diáspora!
-Espera...
-Vespertina?
-Véspera.
-Vespa!?
-Vesga!!
-Vegan?
-Vega, Street Fighter!
-Que importa o caráter
da palavra, do traço ausente, do dígito aleatório
da rima hilária e do sentido nobre
se eu digo o que me cobre, e o que me sobra
dentre o discurso sem ponto da ponta do dedo
e do vagar hipócrita de minha própria ideologia
e, da diáspora a qual condeno o meu amor, filosofia
vá ter com tua vida, tua própria 'tarde demais', Cedo!
vá ser vão lá, que a noite, aqui, eu tenho perto e medo.