Debaixo daquele poste tinha uma árvore, uma árvore enorme, pelo que lembro era uma mangueira, e debaixo dela a gente enterrava vários tipos de bugiganguinhas que passava pela mão da gente. A terra vivia mexida, e sujávamos as mãos, nós, meninas, a gente fazia isso pouco, com medo e nojo das minhocas, então a gente deixava pros nossos amiguinhos fazerem, os meninos mesmo. Eu fui pra casa da minha mãe uma vez, meus pais divorciados, só a minha família era assim na época, hoje é tão comum, né...?
Então, eu fui pra casa da minha mãe, e de lá fomos pro sul da Bahia, Nova Viçosa, onde o novo marido dela tinha parentes e casa. De lá voltei com umas fitinhas, essas de igreja, de santo, que eu tomei pra mim que eu que tinha que enterrar lá debaixo da árvore também, e por conta própria! Porque eu não podia levar pra casa, meu pai ia jogar fora... picotar e misturar na ração do cachorro comer, ele tinha muito ciúme de mim com minha mãe, então... eu tomei coragem, e eu mesma cavei, por conta própria, junto de uma boneca que eu já tinha há mais tempo mas que meu pai vivia tentando dar sumiço. E enrolei num sacola plástica e lá eu deixei. Joguei a areia de volta apressada, porque tava pra cair um toró, e olhei pros lados, fim de ano, muita gente viajando pra casa de parente, ninguém tinha visto. Assim eu botei o último punhado de areia bem na palma da mão, e vi que tinha uma minhoca, minhoquinha no meio, e eu nem tive medo, achei tão bonitinha, olha, que eu acho que nunca mais vi minhoca tão bonita... 'Cabou que levei pra casa. E eu ria, ria que só quando meu pai me viu entrar em casa com aquilo tudo, terra, minhoca, e ele me gritando "sai menina, com essa sujeira pra lá, joga, joga no quintal", e eu rindo, rindo, voltei e misturei, bem em cima das plantinhas, umas meio roxinha, acho que era de orquídea que ele cuidava na época, mas eu joguei sem machucar, claro, mas espalhando lá no canteiro dele. E botei a minhoquinha com cuidado, levantei um punhado da terra e lá eu deixei ela. E eu ria, acho que até cheguei a chorar de rir, mas foi bom que começou a chover e ele nem percebeu, e quando entrei me mandou direto pro banho, ele nem percebeu que bem debaixo da cara dele, debaixo do nariz, né, bem ali, onde ele ficaria todas as manhãs cuidando do... eu tinha acabado de deixar... acho que eu tinha deixado, hoje eu vejo, como um símbolo... o símbolo de todo amor que eu e ele ainda tínhamos pela minha mãe...
E quando eu estava entrando de novo, ele me deu uma toalhada na... no bumbum, e falou pra eu me banhar logo antes que escurecesse demais. Mesmo sendo ranzinza na maior parte do tempo, ainda mais depois que minha mãe saiu de casa, ele sempre foi um bom amigo, um paizão, Seu João... mas eu e a Babá e cozinheira, Conceição, que ajudava a me cuidar, chamávamos ele apenas de "Jão", e a gente brincava, falando pra ele, "Seu Jão tá limpo?" ou "Jão sabe que horas são?", e essas brincadeirinhas, trocadilhozinhos, que ele fingia que ficava bravo da vida... mas não... Daí lembro que nesse dia eu tomei banho, me esfreguei com aquelas esponjas do mar cheias de sabão, e arranquei uns caroços delas, pra ser sincera nem sei porque eu lembro disso tudo e tô dizendo... Não. Mas me enxuguei e fui deitar, e era, era véspera de algum feriado, acho eu. Não. Que dia é hoje?
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Esse é tenso rs
ResponderExcluirAgora esse final ficou pós-moderno heueheue
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