segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Canção Concreta ao Sol

O Sol nascia de parto normal e se espalhava pela casa em partes iguais. Duas metades pegavam a sala da frente, as outras três pegavam o quarto de trás. As roseiras nos seus vasos bebiam Sol demais e se embriagavam de clorofila. Os cães e os gatos evitavam a cor do Verão estendidos na sombra da lavanderia. O almoço pronto cheirava amarelo o molho primavera. Tamanha radiação deixava as toalhas e as roupas do Varal com gosto de Sol, cheiro de Sol, tato de Sol. Os lençóis também. Poderíamos ficar trezentas e trinta e tantas horas enrolados no lençol de Sol na cama esperando o dia se pôr, mas o efeito passava logo depois uns meios minutos. A madeira do teto e paredes esquentava e cantava, quando o Sol saía, quando o Sol entrava. Até diminuta a Lua, de puro assanho, amanhecia e ficava uns minutos no Céu refletindo a luz do mesmo Sol que já tinha dado o tom do dia. Eu e Você não podíamos sair e brincar de bola ou casinha. Parávamos os relógios toda manhã às nove e meia e fingíamos que até às seis da tarde a Terra ficava parada estátua só para o Sol durar um tanto além o quintal. E este tanto Sol fazia nascer do cimento do jardim umas folhas de hortelã e tabaco, um pé de jaca, uma laranjeira, e vários capins e ervas cidreiras. Havia cimento no jardim porque este fora vítima da censura do golpe de '87 que proibira jardins particulares no país. O Sol nunca queria se conformar com a situação. Nem a Gente quis. A água encanada espalhada pelo chão da cozinha vazava até a porta da rua porque alguém esqueceu a torneira aberta. E a Luz do Sol, concreta,  passava e a evaporava. Tantas torneiras esquecidas depois levadas águas dariam numa chuva forte sob a cidade. De toda chuva nasceriam outros quintais, renascidos do cimento. Do arco íris entre os vãos dos edifícios depois umas crianças achariam graça; uns adultos achariam ouro. Quem sabe dali tempo outro ressuscitaríamos jardins atlânticos. Quem sabe rimaremos com mais frequência e método. O gosto de Sol no canto da boca que mordeu o lençol ficaria ali por mais uns séculos.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Benício Sings The Blues

Nevava, em pleno Dezembro, plena Nova Iguaçu, baixada fluminense carioca. A descarga do banheiro travando, da ponta dos pés os dedos da mão puxavam a corda. A vontade de perguntar o que sua mãe estava assistindo, de se ouvir a televisão ligada no quarto, levou a curiosidade a empurrar a porta e a ver a sua cama vazia. Por onde andaria? Pelos bares e boates e Rio Sampa, ou pelos postos de gasolina caçando cigarros? Até a resposta, a televisão travou companhia enquanto transmitia um seriado adulto demais para crianças, já que madrugada. O mesmo rapaz, 20 anos depois, levanta e abre a geladeira para descobrir outro protesto silencioso dos flocos de água relutando a se tornarem cubos de gelo. O Whisky on the rocks terá de virar seja lá que raios seja um shot de Whisky puro. Se pergunta se vai também ter que caçar cigarro às 3 da manhã. Acha um meio maço perdido na poltrona do sofá, provavelmente deixados por alguém da festa do dia anterior. Queria comer qualquer coisa mas, se comer, o resto do efeito de embriaguez que está na mente das horas passadas tende a acabar. Se se atracar com o resto de Peru de Natal que está ali quase uma semana, ou com o pão duro com ovo, a neve que cai lá fora tende a virar só sereno. E faz tempo que não neva. Disca o telefone com os dedos automáticos de quem disca o mesmo  número com frequência, ouve o sinal chamar o outro lado e a voz que atende responde as diferentes perguntas com as mesmas respostas; "não sei" ou "amanhã a gente conversa." Amanhã será uma segunda feira de 30 de dezembro. Arremessa o telefone no sofá que quica-quica até cair e quase quebrar. Ele resolve fazer parar de nevar. Joga o resto de Peru na frigideira e lembra que na verdade se tratava de um frango e sabe se lá porque achava que era um Peru há 131 palavras atrás. Encosta ao lado, na pia, para não deixá-lo queimar. Lava o último copo de louça suja, um verdadeiro milagre divino para seus padrões comuns de homem hétero, meio machista e solteiro, segundo elas. Prepara o prato para recolher a refeição quando o telefone toca novamente. Foi atender e não era o seu amor. Não, nenhum Vítor mora ali. Vara o aparelho novamente, agora rumo a rede ainda estendida da sala, sendo outro milagre ter acertado em cheio sem despedaçá-lo. O frango tem as beiradas queimadas, mas o mastiga. Sentado no chão novamente, que foi de onde levantou há 333 palavras, começa o processo de digestão do alimento. Lembra que por volta dessa hora, há algumas milhões de palavras já ditas, ou há 20 anos, segundo o calendário cristão, tremia de sono, frio e choro por acreditar piamente ter sido abandonado por sua mãe. Compara a sensação com a vontade de chorar agora pelo mesmo abandono. Tem raiva e rejeita o drama escroto, jogando mais frango queimado no esôfago para sentir devagar os movimentos peristálticos levarem a comida para a segunda boca do corpo, a boca do estômago. O telefone toca novamente, a bina digital repete o número que discara 300 palavras antes. A pessoa do outro lado, que é a mesma que ele queria que fosse, pede um amassador de alhos emprestado, pr'aquela mesma hora. Ele diz que não tem mais o objeto, que foi justamente para ela que o emprestou da última vez. A outra pessoa, com raiva desta vez, lhe diz para levar então cinco formas de gelo vazio. Ele diz que só tem três. Ela responde que bastava. Ele diz que chegaria em 20 minutos.

Já na portaria, trancado o portão, desejado o feliz ano novo do porteiro, vestiria o casaco se este não estivesse dentro de casa. No ponto, o ônibus ou táxi resolvem não passar; teria que dirigir o próprio carro embriagado. Quando ameaça pegar o telefone para explicar que chegaria atrasado, um carro amarelo e azul vira a esquina piscando o farol. Para de nevar quando ele descreve o endereço para o motorista. O motorista deseja boa noite, boas entradas, conta sua história e o porquê de ter começado a rodar apenas à meia noite; que a correia dentada do motor havia arrebentado às 5 da tarde, que passara meia lua inteira tentando achar uma substituta, que tudo ficava fechado aos finais de semana e que, sobretudo, já era praticamente véspera de ano novo. Chegando ao destino, pagos os dinheiros do taxista, dá meio toque na campainha. Mal tem tempo de levantar a cabeça quando a sensação acontece. Ou um "déjà vu", no sentido clínico do termo, ou de fato vivenciou um diálogo similar vida passada:

— Onde você tava?
— Procurando cigarros; não achei
— Você tinha me dito que ia parar de fumar
— E ia mesmo
— Devia ter me avisado
— Avisado do quê?
— Que ia demorar, pra onde ia, porque ia
— Você tem razão, desculpa
— Desculpo-não
— Desculpa-sim
— Desculpo-não
— Então tá bom
— Que raio de poeira branca é essa na sua roupa? Caspa?
— Não, é neve
— Ah, claro. Bom saber que ainda tem senso de humor para essa hora da noite.

A porta bateu e ninguém lembrou das formas de gelo. Ele nem percebeu que mentiu a respeito dos cigarros. O taxista ainda viria repetir a mesma história e dia para outros 3 passageiros. O porteiro ainda viria a ignorar outros 4 desejos de boas festas. A visita corriqueira ao banheiro depois do Sexo o faria notar que a descarga dela também travava, como a sua travou há 910 palavras atrás. A neve que nunca caiu derretia e virava gotas d'água na beira da janela. Era 9:03 da noite quando terminou de escrever este conto. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Duas Estações Depois de Barra Raza

"E descobri que não podíamos transar porque ele é meu primo! Este tal de amor me parece de uma violência impalpável." Ele disse esta fala pretensiosa numa madrugada de Sábado pra Domingo, cravando unhas nas costas de Deus, que então metia meio mal. "Deus" era o apelido do ex-namorado, que viria aparecer outras vezes nos dias dali em diante. O primo era outro, que na verdade sabia que era primo, sabiam ambos, mas sei lá, sentimento cristão que bateu na hora H, I, J. Kamila, com "K" mesmo, foi a primeira menina obesa com quem ficou, com quem quase engatou em namoro sério, aliás. De quando aprendeu que essa balela de menina magrinha acontece diferente na prática e a relevância na prática física do ato sexual da coisa variava. Apesar disso, Kamila fez dieta, emagreceu, se mudou pra outra cidade e começou a namorar outro carinha; três namorados depois casou, voltou a engordar, mudou de volta pra capital e Ele encontrou-a no Shopping Zazza na semana antes do Natal. Comprava um carrinho amarelo pra filha que havia insistido no presente, foi quando ele apresentou o namorado da época, espantando de leve a moça. Não era o primo, o primo se mudara pros Estados Unidos pra fazer Mestrado em Engenharia da Computação; lá uma semana depois conhecera uma garota, com quem viria a se casar, e foi quando Ele aprendeu a sentir Ciúme.

O Ciúme, segundo Caetano, é uma flecha negra que vigia. Ou um ponto negro, que aponta e fura. Por aí. Samanta foi sua primeira menina séria, de dormir e transar em casa, bonitinho. Samanta era hétero, mas sua mãe não. Moravam com elas a sua "amiga", que estava procurando emprego e a quem estavam ajudando a se restabelecer. Acontece que a amiga da mãe da Samanta, quando dizia que ia jogar currículos nas agências, saía era para trabalhar o seu bem remunerado emprego; moraria pelos próximos 10 anos. Samanta devia saber; se se importava, escondia. Sabia conversar muito bem, a pessoa com quem travou o maior e melhor número médio de conversas relevantes sobre a vida, arte, transa, moral, filosofia, política, culinária e antropofagia. Sonhava em comer um ser humano. Não para matar, se satisfaria com um dedo, uma mão, uma perna. Não era uma assassina. Samanta tinha um senso de humor idiossincrático. Foi com ela que aprendeu essa palavra, também. Com ela aprendeu a gostar de John Coltrane e (a fazer) sexo oral. Dizia que "A Love Supreme" arrepiava até pedra do alto do Baixo Lago. Samanta, num 16 de Dezembro, disse que aprendeu a gostar de outras pessoas ao mesmo tempo, e propôs uma forma diferente de relacionamento. Foi a segunda vez que sentiu Ciúme na vida. Embora tenha aprendido com ela também a gostar de várias pessoas simultaneamente. Essa palavra já sabia. A propósito, foi Deus que lhe ensinou a usá-la, quando o conheceu num boteco qualquer do Baixo Barra. Disputaram quem viraria mais canecas  de cerveja enquanto caminhando de costas. Acordou de ressaca na casa de Deus, ligou, pediu pra Samanta vir lhe buscar e está esperando o carro dela até hoje.

Queria experimentar outras coisas, outros Deuses, mas aí literalmente, conheceu o Budismo, percebeu que o desprendimento de qualquer sentimento e o grande nada era a única solução para a verdadeira Paz. Teve conflitos pois percebia que quando bebia cerveja a vontade de sair correndo explodindo carros e beijando idosos na boca era maior, e que tamanha intensidade não dava rima. Tentou o Espiritismo também, só que era culpa demais, era remorso demais, aprender lições de vidas que sequer lembrava. Sobretudo, eles também implicavam com álcool. Se aproximou da Umbanda, que era mais leve com as questões da carne, mas acabou se afastando por falta de tempo na faculdade. Fazia Direito e tinha pouquíssimos amigos lá. Após meio semestre de cursinho de Alemão, decidiu que escreveria dali em diante certas palavras com letra maiúscula. O "Deustch" dá letra maiúscula para todo substantivo, próprio ou não. Se formou, trabalhou por uns bons anos no Tribunal de Contas, e acabou casando. Acabou casando mesmo, Ele, com uma menina, depois de superar o amor platônico pelo primo, de superar Deus, de superar a grande depressão de 32. Tudo começou há um tempo atrás na Ilha da Lua, onde passou a frequentar uma igreja; uma igreja que na verdade aceitava modernidades de verdade. Ele mentia e não acreditava em nada daquilo tudo; frequentava mais porque a igreja ficava há duas quadras do trabalho e precisava enrolar uma hora ou duas para a faculdade quando não estava em época de provas.

Aliás, havia passado no Mestrado. Menos porque queria um salário melhor e mais porque qualquer coisa. À igreja; nas horas que passava nesta, a pastora, Mulher de 20 e uns, pregava as palavras de cristo hiperativamente com determinado tesão. Ou Ele pelo menos enxergava nela tal sensualidade. Samanta gostaria de tê-la conhecido. Principalmente porque sua abordagem do evangelho de cristo era vanguarda, interpretava o amor divino englobando gays, drogas, política, sem pejoração. A igreja teve um início problemático, outras igrejas apontavam-na como antro de perversão e satanismo. Inferno e diabo. Isso era interessante. Sua Fé mesmo vinha da cara da pastora, que se chamava Luiza, que subtraindo o "a" era quase Luz. Luz que vinha de seus olhos escuros e cabelos ainda mais escuros, como piche; pele por sua vez branca como Queijo Branco. Beijava bem. Ele ficou um dia depois do culto para semear assunto; dias depois nisso, bem sincero, disse que se importava praticamente zero com o lado religioso do evento,  e que admirava, contudo, a coragem da pastora a tomar posturas tão polêmicas. Luiza agradeceu a sinceridade e depois de uns cafés, drinks e cigarros, se apaixonaram, transaram, e foram morar juntos. Ela era definitivamente um ser iluminado por Deus; literalmente, o seu ex se convertera para igreja e trabalhava de contra-regra e chefe de iluminação no templo, localizado no bairro de Barra Raza.

Como percebemos, Ele aprendeu a fumar, com Luiza; só tinha a "bad" constante de morrer a qualquer momento. Do cigarro. Deus lhe dizia que ninguém pode morrer fumando tão pouco. Agradecia. Às vezes saiam os três a beber depois do culto; geralmente as quintas feiras um Pub ali perto tinha dose dupla de Chopp por 4 choradas. Na época as casas noturnas ainda se permitiam esse tipo de promoção, antes da grade crise de 32. Luiza dizia ao Barman, Deus lhe pague; aí literal, pois mantinha sua Fé na Bíblia. Falavam quase zero de religião, na prática; um belo dia Deus levou o novo namorado, que conhecera na igreja também, e ficavam discutindo cinema e música. Modernos. O governo recentemente, afim de diminuir a violência urbana homofóbica, proibiu qualquer pessoa de se beijar em público. A primeira proposta era apenas coibir os gays em si, mas após diversos protestos, aos quais Ele, Luíza, Deus e outros crentes da igreja compareceram em massa, foi se posto mais democrática uma proibição geral. A medida durou 1 ano, quando o governo seguinte do partido de oposição elegeu-se e a baniu, optando então a tornar mais duras medidas corretivas de violência urbana gratuita quando estimuladas por ódio racial, religioso ou oriundas de homofobia. Isso compensava em parte várias medidas econômicas taxativas e protecionistas, as quais o debate foge à relevância deste conto. Portanto, deixando de lado o cenário político, em mais um dia de pub qualquer, Luiza revelou que pensava em casar, um dia, porque sim. Foi a deixa pr'Ele pedi-la em noivado. Ela que recusou, pela razão de que saiam apenas há 16 meses, mas que podiam discutir o assunto novamente se continuassem juntos dali um ano. Acontecidos e completados 28 meses juntos, resolveram marcar o casamento no próprio templo, o primeiro celebrado. Neste período o número de fiéis quadruplicara, e tiveram que migrar pra um antigo armazém da região. Foram abertas outras duas filiais. 4 anos depois, Luiza sairia candidata a vereadora, mas já então Ele e Ela divorciariam no papel e no físico.

Conheceu Mica no Pub citado anteriormente; Mical, seu nome de batismo, puxou assunto numa quarta feira com Ele, aproveitando que Luiza havia ido ao Toalete. Se apresentou e disse que tinha visto o casamento deles, que fora aberto ao público; que costumava frequentar o templo mas que queria outras coisas da vida. Ele disse que também parara de frequentar o templo e também queria outras coisas da vida; assim perguntou quais seriam essas outras coisas que Mica queria. Trocaram emails, depois telefones e, quando o divórcio com Luiza viria a tona, passaram a trocar saliva também. Fidelidades fora, dali em diante manteria, na verdade, um relacionamento aberto com Luiza, que se achava muito nova para nunca mais voltar a transar com ninguém diferente. Ele concordara mais para poder penetrar Mica e Deus, com quem ainda tinha contato, do que realmente pensando no Ciúme que poderia vir depois. Este que veio e fora aquela a terceira vez que sentira a palavra agulhada na pele; talvez a mais dura e real das vezes. Luiza viria a morar com 3 rapazes, sendo ele o quarto amante, queriam manter o lado bom do relacionamento que cultivavam. Queria matá-los todos os outros rapazes que se deitavam com ela à serra elétrica; embora um deles, jeitoso e simpático, houvesse proposto um menáge entre Ele e Luiza. Impedido pela ideia de ter que dividi-la na cama com outro homem ao mesmo tempo que si, ficaria 6 meses sem dormir novamente com Luiza, período no qual aconteceu de aprofundar sua relação com Mimi, apelido original que Ele inventara para seu novo affair. "Mica" era mais pros outros amigos, como eu.

Ela, que é Ela, tinha uma beleza bíblica, fazendo juz ao nome. Ao contrário da esposa da Davi, podia criticar Ele a vontade sem tornar-se estéril. Os pais a batizaram com tal nome esperando não ter netos. O que aconteceu foi bem o contrário; idos 2 anos de relacionamento com Ele, engravidou. Mica já tinha uma filha, de 3 anos de idade. Chamava Virgínia, pela escritora. Brincava de video-game e bola com Ela quando dormia na casa de Mica. O pai e a mãe eram ausentes; mas do outro país que estavam mudados mandavam recursos financeiros via transferência bancária. Sendo assim e estável sua relação com Mica, dentro de meses Ele resolveu se mudar de vez para sua casa. Gravidez ocorrera mais ou menos planejadamente; um primo, de Mical, qualquer, foi padrinho do lado de mãe, e Luiza foi madrinha do lado d'Ele. Duas crianças em casa, ele me contava que os dois tinham um problema cada para lidar com determinadas datas, sobretudo, o Natal. Mica, de família de ex-judeus recém convertidos à outra religião qualquer, tornou-se ateia aos meros 7 anos de idade visto pouca influência moral em sentido contrário em sua formação, segundo Ele. Decidiram por fim aos finais de ano, em coerência aos interesses antropológicos d'Ele pela recém iniciada nova faculdade em Ciências Sociais, fazer em casa uma adaptação do feriado solsticial de diferentes culturas. Comemorariam a data sob "variadas influências estético-valorativas" a cada ano. Foi assim que após primeiramente o Hannukah, quase equivalente ao Natal no Judaísmo, numa tentativa de Mica em experienciar sua formação perdida, a família teve diversas diferentes cerimônias: xintoístas, hinduístas, taoístas, budistas.  Isto a partir da data que seu filho comemoraria seus 6 anos de idade e Virgínia os seus 11, tendo então ambos compreensão e lembrança dos acontecimentos; seu filho se chamava Otávio, sem referência literária específica, e nascera no dia 26 de dezembro, para alegria da família.

O tempo passa e um dia vem na porta um senhor perguntando sobre o que andava fazendo esta tal de Mical. Este senhor era seu pai e remetia muito aos traços de Mica fisicamente; veio dizer que sua mãe havia falecido. Sobre isso, ainda não entramos no mérito  da aparência da esposa d'Ele, Mical, mas é preciso saber que ela era azul como azul é de piscina, no sentido de infância e férias; e morena como morenas são as primeiras morenas por quem alguém se apaixona; e tinha manchas no braço, manchas avermelhadas, espalhadas aleatoriamente em ambos os, o que tornava ela mais bela pois realmente se importava nada com detalhe seu em sentido pejorativo; e era leve, não magra, mas leve, nem tão pequena, de forma que podia levantá-la nos braços pelas pernas na cozinha ou elevador e fazer amor; o cabelo era liso mas de um liso estranho que tinha dias que acordava cacheado; doce e atenciosa, mesmo ignorando mensagens, e não retornando ligações; alegre, mesmo fumando 2 maços de cigarro por dia; direta e prática, mesmo sendo seu mestrado especializado em filosofia hegeliana; culta, mesmo gostando de sorvete de passas ao rum; calma, mesmo brava, brava porque leu este parágrafo que escrevi sobre ela me mandou parar de descrevê-la no passado como se estivesse morta, pois não está.

Após a morte da mãe de Mica e respectivo enterro, a família viria a a renascer, não como nosso senhor, e sim metafísica. Gerará mais filhos e netos, com gente e amigos e inimigos vindo se abrigar na casa d'Eles por volta e meia, incluindo Deus em pessoa e Luíza. Moravam num largo belo e com poucos moradores de rua, bem no Alto Barra. Luíza cansou da igreja um belo dia, e repassou a administração e lucros para outra amiga pastora, com quem teve um romance temporário uns 17 meses quando se descobrira também bissexual. Mais ou menos quando saiu para Vereadora. Estará solteira agora. Ele, nosso protagonista, percebeu que, que pela condição financeira que tinha, Luíza ainda era boa pessoa. Luíza fez aplicações na bolsa com a renda acumulada então provavelmente terá poucos problemas financeiros restante de sua vida. Passava alguns finais de semana em sua casa, quando experimentavam sexo aberto, costume que durou apenas as primeiras visitas, visto as crianças na sala de estar. Mica lidava bem com a situação. Samanta e o primo não deram mais notícias. E Eu? Morava Eu há duas estações deles. Nos conhecemos numa fila de Cinema, quando puxaram assunto devido minha camisa do Miles Davis. Também sou desses, Pretensioso. Ele engatou uma carreira promissora só que me proibiu de falar exatamente o quê e entrar em detalhes aqui. Ele, aliás, se chama "Ele", mesmo. Só que com dois éles: "Elle Figueiredo Campos". Dia desses se reencontrou com Deus em um boteco sujo depois do trabalho e descobriu que ele abriu seu próprio Pub em Barra Raza. Parou na casa d'Eles após uma ressaca. Seu bar se chamava "Céu", e abria de Quarta à Sexta. Era Terça. Deus preferia ser chamado agora pelo seu nome de batismo, "Odin." Findando o conto, poderia esticar aqui suas vidas, mas é onde chegamos no presente e faria pouco sentido inventar coisas que ainda estão por acontecer. Lembrei de uma coisa que gostaria de dizer: apesar de haver pouca evidência disso, Elle me jura que nunca mais sentiu Ciúme.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Pois


Sim e não, me acabei em prosa.
Dodecassílabo versei e foda.
Apocalíptico.
Matei o cigarro.
Quebrei a garrafa de cerveja em pedaços e espalhei os cacos na varanda.
(só porque gosto da palavra "varanda")
Acabou a pólvora.
Acabou a coca.
Acabou o leite e o pó de café.
Feito o trompete beijei sustenido o que era pra ser só fá
Morri à flor da pele
Renasci fruto e flor nenhuma
Pontuado, exclamei ponto vírgula
Quatro vezes você
É dois mil trezentos e trinta
Abstrato, escrevi qualquer coisa pois qualquer coisa serve.


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Um Exercício:

e o Sol que não acaba
e o Verão que não se põe
e o Cigarro que não mata
e a Verdade que não científica
o Interesse que não condena
o Silêncio closed caption
a Gravidade que não física
e o Tumor que não vacina
e a Pochete que não fashion
e a Distância que não esquina
e o Teto que não queda
e a Caneca que não quebra
e o Bueiro que não da Light
e a Bossa que tão brega
e a Dança que não dança
e o Chá que não é mate
e a Cachaça que não fura
e a Trova que não rima
e a Cadeira que deitada
e o Teto que no céu
e a Metade que minguante
e a Cidade que não brilha
e o Cartão que só Sodexo
e a Risada que não cura
e a Letícia que não canta
e o Fernando que não masturba
e a Mães que são tão filhas
em discursos tão sem nexo
e a Mão que não asfixia
e o Não que não é não
Só quando afagia
a Poesia que não fode
o Sol que não se explode
a Reza que não credo
a Verdade que não mata
o Cigarro que não cala
o Verão que não veneno
a Dança que não samba
Métrica que não dodecassílaba
Academia que não gradua
Letícia não me cura
Paixão que não é cínica
Consignado que de Deus
gente Rica que não se Estrêla
Tumor que não punheta
Abraço e cheiro quase seus
Leite maltado, a Piraquê
Bueiro que não céu
Ti prego aspettami perché
seu Lar que não se põe que não se cala me canta rima enverga e queda;

Creio agora remota a imagem:
Creio em Alquimia e almas gêmeas
Creio me em Libras traduzido, fácil
Creio me óbvio como clara e gema.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

22:43

Querido Diário,
eu tento me esconder, eu forjo um mistério, e termino demais, vomitando a mim mesma, sobre meu dia, o que mergulhei na xícara de café, o arroz coalhado lembrando purê, me repito, me cito, me escarro, me tanto, paragrafeio;
tento ficar triste, fazer beiço, distante, não respondo mensagens, viro noite fumando plena crise de asma e bebendo Whisky em quarta feira, o gelo dura nem 3 minutos no copo, deixo tocar Pavana de Ravel, chego tarde no trabalho no dia seguinte, e fracassadamente me sinto alegre;
não sei se é o calor do Rio de Janeiro que sabota e cutuca a introspecção, que quando se tem vontade de chorar dá uma coceira estranha nas costas molhadas, se puxa o sutiã apertado deixando marca, solta o elástico que dá um estalo na pele e, se se começa a rir, não se para mais;
quando vejo, mesmo já atrasado, acordo tarde e nem troco a cueca, faço festa com Totó, beijo minha gata, me enfio no ônibus quente porque Metrô vai demorar, no trabalho me xingam, me cospem, e, ainda cansada, só consigo escapar um sorriso otimista pro almoço que preparei porque carne grelhada é minha especialidade;

queria nascer com vocação pra ser triste, Diário.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

23:45

- Papai, por que cê tá bebendo?
- Porque papai tá triste
- Por que tá triste, papai?
- Trabalho, só trabalho. E você? Tá bem? Aprontou hoje?
- Não..
- Aposto que não fez dever de casa
- Fiz sim, quer que eu mostre?
- Não precisa, eu acredito. Vai lá pro quarto dormir pro papai acender um cigarro
- Por que cê vai fumar? Você não falou que ia parar?
- Falei, mas nem tudo nessa vida que a gente diz parar de fazer a gente para mesmo. Esse "para" é sem acento, agora, viu?
- Tá bom. Que que cê tá ouvindo?
- Jazz, Chet Baker. Muito bonito, né?
 - É
- Depois te falo sobre ele
- Tá
- Amanhã vai dar tempo da gente sair logo cedo e a praia.
- Tá bom
- Vai lá deitar, tá tarde, as donas do "Nossa Senhora da Paz" vão brigar comigo se descobrirem que deixei o senhor dormir essa hora.
- Mas hoje é sábado
- Não importa. Não esquece de ligar pra sua mãe, que ela diz que fui eu que não deixei você ligar
- Tá
- Ela briga comigo também, mas eu me viro
- Vou ligar
- Fumar faz mal, viu? Papai faz só porque não tem mais o que fazer
- Tá
- Você desculpa o papai?
- Desculpar do quê?
- Porque seu pai não é melhor exemplo de quase nada
- Tá
- Desculpa?
- Desculpo
- Isso, vai lá, escova os dentes, liga pra sua mãe e deita. Já já eu vou lá te dar boa noite, também
- Posso usar a sua pasta?
- De dentes? A ardida? Ela arde, eim?
- Eu sei, mas eu gosto
- Sim, pode, mas põe pouco na escova
- Tá
- Beijo no pai
- Beijo
- Encosta a janela, se deixar aberta mosquito entra
- Eu gosto de mosquito
- Gosta nada, gosta é de mim
- Também

(O maço de cigarros estava vazio.)

17:45

Mordedor
Mordedeira
Mordedura
(Morder)
Quem veio ou virá abocanhar
Mama
Mamá
Mamadeira
Chupeta
Frauda
Dedão
Mindinho
Sabonete
Lençol
Toalha
Camisa
Giz
   de Cera, de Cal
Lápis
   de Cor e Grafite
Massinha
Paçoca
Cadarço
Canudo
Canetinha
Caneta
Caneta
Caneta
Bochecha
Braço
Boca
Pescoço
Nariz
Ombro
Orelha
Língua
Mão
(própria) Boca
Unha
Caneta
Amigos
Livros
Contrato
Emprego
Cachaça
Mordaça
Preservativo
Pênis
Vagina
Lençol
Barriga
Caneta
Caneta
Teta
Unha
Chupeta

Nariz
Dedão
Lençol
Escuro
Mamá
Mamadeira
Mordedor
Sorvete
Sucrilho

domingo, 9 de dezembro de 2012

00:09

Quando acabar de usar a Faca, lava e guarda. Dorme demais de tarde e vira noite acordada. Para de me pedir permissão pra tudo, pedir licença pra mim é como a distância geográfica entre tucano e pinguim. Eu sei que outros já te disseram isso. Escrevo o que eu quiser. Saber de determinado fato há muito tempo não é sinônimo de aceitá-lo. Deixa eu filosofar em paz.

20:55

Pari mim mesmo e a ti e viemos nós dois enrolados umbigo a umbigo e eu meio de fome vim mordendo sua orelha de leve e me nos pus diante lareira para aquecer e crescer forte então árvores laranjeiras e ninhos e pássaros e balanço e criança penduradas aos galhos. Da sua vez de parir tu e eu o cordão veio enrolado no pescoço meu e quase de susto morri quando era luz e nasci tão leve que me confundiram com nuvem e arremessaram pela janela e já quando quase tristeza caí ao chão e tão breve levantei ganhei peso e virei pedra mas pedra pouco fui pois logo grão e terra voei virei montanha arranhei céu e chega.

20:12

O café branco ficando cada mais preto a outro gole que você bebe. O amor incondicional por Conceição, por Iolanda, pela Nina, pelo Jorge, pela Iasmin em diferentes proporções e qualidades afetivas, porém todos quase na mesma intenção e intensidade sexual. A cara rechonchuda de um dos seus ex vindo a sua mente quando você compra um pão de queijo uma saudade meio culinária, meio afetiva no beijo da língua queimando na coalhada quente. "Mais café?" sim, mais café, dona. Lembra da vez que você trabalhou de assistente de Papai Noel no shopping Eldorado e se apaixonou por você um dos revendedores da varejista Arapuã? Que vinha 8 vezes por dia puxar assunto, mesmo estando a 3 andares distância. Que o que você queria era que a outra assistente queresse você. Lembra quando achávamos, eu e nós todos, que íamos morrer de câncer por termos visitado a usina de Angra dos Reis porque fomos lá muito antes de saber toda problemática política em torno do local. Lembra quando Kinder Ovo era um real? claro, todo mundo lembra quando Kinder Ovo custou um real. Nem todos lembram do plano real, hoje fomos invadidos e finalmente colonizados pelo dólar. Parece surdo. Quem é você pra lembrar, você com o fetichismo do capital e só passa cartão de crédito e nunca mais viu e nem quer ver dinheiro vivo, com raíz, caule, galhos e respiração fotossintética. O café branco ficando cada mais preto a outro gole que você bebe porque você nunca mistura direito o leite, com açúcar e o grão. Falando em grão, vem amanhã mais cedo pra gente torrar o VR em cachaça, o bar daqui de esquina agora aceita. Aproveita que tá chovendo e abre a janela. Você chegando cedo amanhã em casa e tirando os chinelos na minha cabeça cheia de caspa logo e eu pensando uma penca de coisa que eu não sou. Vejo a hora de podermos desligar o ventilador. Tá sonolento? É engraçado como a beleza da vida às vezes é uma mera questão de como você organiza a ordem das coisas ou como elas acontecem. Se eu disser "amor arde que fogo sem é doer", vai achar que eu tive um derrame, só que, do jeito certo, dá Camões. É como dizer que a humanidade vai acabar no exato momento que você beber a última gota do copo que está bebendo. Essencialmente nada significa, exceto a forma e a ordem em que se coloca a vida. Cafona. Alguém entre nós dois está começando a ficar chapada. Esses dias li na internet sobre um jovem radical extremo de algum partido que eu nem lembro se de direita ou esquerda, invadiu o campus de Direito de uma das maiores universidades do Arizona e matou 115 inocentes. Penso que isso poderia virar moda, mas também que eu deveria ser presa por achar isso. Concorda, moço? Acontecimentos assim viram matérias nos jornais, documentários, até estudos acadêmicos. Seu relacionamento com os seus 17 gatos renderia uma dissertação também. Sei por experiência curricular que você devia evitar gente de Capricórnio no trabalho. No mais, só caso contigo se fizer bolo de fubá pra mim. Ou de chocolate com cenoura. Fica calma que a sua vontade de dormir o dia inteiro é só anemia. Prefixo de Verão. É legal que às vezes se tira a blusa por causa do calor e acham que a gente tá dando mole. Eu juro que já-já eu paro, mas estou há 50 minutos trocando música em música sem parar nem 30 segundos em uma. Odeio quando você fica quieto horas enquanto eu converso contigo. Parece surda. E eu o louco. Vou tentar voltar a escrever. Isso ai que tá tocando agora. Conheço essa música de algum lugar.
Da vida.
Isso dá uma saída bem dramática pra um texto qualquer. Vou anotar.
Anota.
Que que houve?
Nada.
Nada mesmo?
Nada mesmo, só com sono.
Cedo assim?
Cedo assim.
Bebe café, ainda tem.
Deixa, deito cedo.
Então deita.
Logo-logo. Morrendo de sono.
Morrendo de sonho. Morrendo de pressa. Morrendo daquilo. Morrendo de tarde. Morrendo de tédio. Morrendo de sódio. Morrendo de gripe. Morrendo de trabalhar. Morrendo de coceira. Morrendo de escrever. Morrendo de quererer. Morrendo de vaidade. Morrendo de fedor. Morrendo de pai. Morrendo de mãe. Morrendo de filho e de janela quebrada por bola. Morrendo de joelho ralado porque caiu. Morrendo de teto. Morrendo de quintal, de nuvem, de pedra pra machucar a palma do pé. Morrendo de sola, morrendo de solo. Morrendo de estrela e só disso. Morrendo de morrer de amor e acordar inferno. Morrendo de reencarnar inseto. Morrendo de suíngue e da ginga suada numa pista, balada. Morrendo de álcool de cozinha porque deixou cair no corpo e acendeu um fósforo. Morrendo de batucar em cadeira da Escola. Morrendo de dente. Morrendo de sangue. Morrendo de arroz queimado. Morrendo de obrigado. Morrendo de nada. Morrendo de deitar e dormir debaixo da ponte embora não haja mais pontes. Morrendo de língua dos outros. Morrendo de quem já morreu e já enterrou. Morrendo de engasgo com guimba de cigarro. Morrendo de ciúme, mas quem ainda morre de ciúme? Morrendo de infecção nuclear. Morrendo de sal. Morrendo de idade. Morrendo de escuro. Morrendo de escuro, de novo. Morrendo de escuro três vezes, pra enfatizar.
Não ouvi direito, que que você disse?

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Haikai de Exílio

'Cha a janela, sorte
Que a liberdade vem logo e
Dentro dela, a porta.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Afasia

Luar que é bom, dia
Da próxima vez que você talvez, sim
Gravidade é coisa que dá e passa
Gravidez se desse em homem, não dava
Alto que se diz anão, arranha céu
Por foco coragem chegou o refrão
Boca escancarada solfejando,
Cilada
Os dedos buscando sílabas tônicas
Estética do quase Sol, da próxima vez
Que talvez, você, agoura
Beijar que é dom, afasia
Coragem arranha o sim
O céu sem gravidade
Das nuvens se formando no quintal
Grávido da Lua já movo as marés
Que bom que é dia
Abstrata é a mãe.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Meio Romântico

Por você
Aprenderia a gostar de Frejat
Por você
Coaria com minhas meias seu chá
Por você
Trabalharia com de cartão de crédito
Por você
Fazia até passar um filme inédito
Na Sessão da Tarde
Por você
Rimaria frade com mate
Lavaria o banheiro
Três vezes ao mês
Distribuiria dinheiro
Pra desvirar burguês.

Por você
Religaria filamento de lâmpada
Por você
Só tiraria o pé de casa no sábado
Pra passar cada buteco em buteco
Até encontrar o seu tabaco
Compraria seu absorvente
Apoiaria seu presidente
Faria pudim e poesia
Pra mesma mulher.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Recital ou Rap de Asfalto Verão Nublado

Quando chega o verão
O dia extende no quintal
Afim de piquenique, afim de Marijuana
De marquise, genital
De pedra quente logo cedo
E das cutias no campo de Santana

Quando chega o verão
Quase tal como a Primavera
O verso se inspira de azul e pede esmola
Em Jacaré ou Madureira
Ipanema ou Laranjeiras
E até parece que saudade traduzida tem cheiro de cola

Já Dezembro e Janeiro
Por culpa de Deus
Parece três da tarde em plenas quatro
O samba nos dedos do pé
Cheio de cachaça com café
Quente; quase no anonimato
A prefeitura deixa o suco de côco mais caro
Porque o Verão chegou
E a cidade está aberta pra turismo

Quando os gringo chega
Chega junto o eufemismo
A paz joga bolinha no sinal
Suínga e pega esmola
Aceita até cartão de débito agora
Sobe a favela e pede voto
E se os gringo rala peito
40 graus do Inferno esse calor
Governador
Rala nada
Rala a gente
Fode, mente
Haja ventilador.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O Verbo

Você tem 21 dias para começar a me amar mais; e não porque será o apocalipse Maia dentro desta data; nem porque estou condenado a morrer de câncer; nem que eu tenha taquicardia, diabetes, leucemia, ou quaisquer outras chagas; não porque eu gosto de gengibre e você também; ou pão de queijo; ou sorvete de tapioca -sim, definitivamente, nem mesmo por isso; ou porque costumamos, nós, acertar a previsão do tempo independentemente dos magos de metereologia; nem que eu esteja carente ou acredite que você esteja; tãopouco estou apressado a me entregar a monogamia conjugal consigo: não quero você nem acredito que te faria bem e, consequentemente, não estou interessado em intercursos sexuais com sua pessoa nalguma dessas pouco mais de cinco mil horas que nos restam conforme prazo estipulado (- não que  eu duvide que eu, uma vez engajado na tarefa, fosse deixá-la insatisfeita); nem que eu tenha visto você em alguma nuvem agora cedo; nem que eu seja desses que saibam voar; nem que eu te ache com cara de paraquedas; ou parabrisas; embora eu ouça um naipe de sopros composto de flauta, fagote, trompete, trompa, sax, trombone e tuba além de serafins em coro ao pé do ouvido em trilha sonora cada vez que eu escuto seu nome; embora eu minta; embora eu cruze os dedos; não que eu seja à qualquer hora; fí-lo porque quí-lo; não que orbitemos em torno do mesmo astro ou que sejamos ambos atraídos em torno do mesmo buraco negro supermassivo; nem que compartilhemos dos Mutantes como banda favorita; ou de Kubrick enquanto cineasta; ou de Bansky como artista plástico; ou que ambas nossas mães tenham nos traumatizado, durante a infância, à música e pessoa física de Roberto Carlos; nem que nós dois estejamos usando verde hoje e que troquemos conselhos de moda e estética; nem que estejamos prestes a presenciar a primeira invasão zumbi da humanidade; ou em caso hipotético no qual zumbis não estivessem em voga como estão e fôssemos, ao invés, abduzidos e experimentados por seres extraterrestres e estes nos introduzissem em suas artes próprias artes da libido - de fato, não é o caso; nem que eu saiba do que eu esteja falando ou que eu acredite que você saiba, geralmente; nem que eu espere que você goste de poesia ou de ler qualquer modalidade literária; menos ainda que eu necessariamente te subestime em tais assuntos, sendo este ponto apenas uma referência à minha indiferença à tentativas de cortejo intelectualizadas por recursos artísticos; nem porque eu espere uma resposta criativa à esta carta a qual lhe endereço, muito embora você tenha a total liberdade e meu interesse em redigir e me enviar uma reação sua; à este ou algum outro assunto que lhe vier à mente e vontade de dissertar a respeito. 

Você tem 21 dias para começar a conjugar o verbo porque eu esqueci totalmente porque você devia me arfar mais. Rimas ocorridas no percurso foram acidentais.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Aspas

A:- Me beija que é segunda feira
E:- Acordou poeta?
A:- Aham
E:- Que que tem que é segunda?
A:- Que não é domingo
E:- Pensava que você odiava domingo
A:- Prefiro sábado, mas não odeio domingo. Eu odeio você
E:- Que bom, também te odeio
A:- Melhor assim
E:- Certo
A:- Por que você exatamente me odeia?
E:- Odeio... esse restinho de tinta guachi na sua mão
A:- Como se escreve tinta "guachi"?
E:- Gê, û, á, cê, agá, i?
A:- Errou! É gê, u, cê, agã, ê
E:- Letra é?
A:- Não, letra ê. Se fosse "é", teria acento
E:- Sério, jurava que se escreve com i.
A:- Com "i" fica parecendo "guachí", tônica no "i"
E:- Se a tônica fosse no "i", teria acento
A:- Quando essa conversa virou debate gramatical, mesmo?
E:- Quer Whisky?
A:- Depende, como se escreve Whisky?
E:- "Dábliu"... você sabe
A:- Sim. A tinta é porque estou desenhando um retrato seu. E não, não quero, é amargo
E:- Depois me mostra, tá-pronto-já?
A:- Não. Depois.
E:- Vou pegar bebida pra mim
A:- "Não"; esticado no "ã", dramático
E:- Por quê?
A:- Sua boca fica amarga quando te beijo de whisky
E:- "Beijo de whisky" daria um poeminha ou canção da Rita Lee
A:- Certeza. Tem alguma coisa mais romântica pra beber?
E:- "Uma coisa mais romântica pra beber."
A:- Vinho, champagne
E:- Como se escreve champagne?
A:- Se escreve com a mão esquerda, pois a direita estaria muito ocupada
E:- Hm, interessante
A:- Hm: dois pontos, esticando a letra "ême".
E:- Justo
A:- Quero mais política no nosso relacionamento
E:- "Política" oxítona, proparoxítona ou paroxí?
A:- Eu quero mais política
E:- Eu também. Que tal uma democracia?
A:- "Monarquia"
E:- Interessante, depois debatemos. Levanto "às seis"... com crase?
A:- Sim, vamos deitar, que já-já é terça
E:- Vou na cozinha antes
A:- Se for beber whisky mesmo, espreme uma laranja junto
E:- "Jack and Citrus"; quer?
A:- Não. Quero chover
E:- Sinestesia à essa hora da noite?
A:- Sempre
E:- Uma poeta, essa moça
A:- Tô meio Clarice, né?
E:- Meio toda
A:- Chata?
E:- Não, nem tanto
A:- "Nem tanto", nome do meu próximo livro
E:- O próximo que vai ser o primeiro
A-: Chega, deitar logo antes que o tesão passe e o sono fique.

Chá

-Diego, quando você vai tirar essa barata daqui?
-Que barata?
-Tem uma barata morta do lado da privada
-Ah, é, matei quando saí do banho agora pouco
-E quando você vai tirar?
-Já-já tiro
-Tira agora
-Mas você tá usando aí
-Que que tem?
-Eu não vou entrar aí agora
-Por quê?
-Porque não, você tá... não sei o que você está fazendo. E nem quero saber
-Só estou fazendo xixi, não é número dois
-Que nojo
-Que nojo o quê!
-Depois eu faço isso, tô bebendo café agora, vou comer
-Tá com nojo de mim, é?
-Não, mas, lembra da nossa conversa sobre usar banheiro juntos?
-Ahn?
-É, você mesma que começou, eu acho. Ou eu? Enfim, todo papo de que intimidade demais destrói um relac/
-Pela mordedeus, só tira essa barata daqui, não vou conseguir fazer xixi assim
-Tá, onde ela tá exatamente?
-Tá... do lado do box. Entre o box e a parede
-À sua esquerda
-Isso
-Tá, então vou passar por você de olhos fechados
-Vai acabar pisando em mim
-Tá, eu vou olhar pra baixo, pegar um papel higiênico e tirar a barata daí. Sem olhar pra você
-Tá
-Ok, só vou apagar o café
-Amor, aproveita que está ai e põe um chá no fogo? Pra mim tá muito tarde pra beber café.
-Certo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Acupuntura

Com um dedo
se aponta a culpa
Com um dedo
se coça o medo
Com um medo
se sabe só
o escuro
a altura
acupuntura
credo.

Com enredo
se toca o samba
se conta o conto
se dança ela
Confiança
que livra o preso
que rima cedo
que rima quando
que rima como
sê lima com pêra
se cima, cai
se baixo, céu
com acento, caí.

Com três dedos escrevi "mel"
Com quatro, abacaxi.

sábado, 10 de novembro de 2012

Poema Ambidestro

a violência necessária para ser feliz. queria poder amputar meu lado direito. limitando menos ao braço como para o lado inteiro, perna, olho, orelhas. orelha, singular, digo. o cérebro talvez me dê problemas se cortado pela metade, este lado devo manter. tudo de bichado em mim está do lado destro de mim a começar pela caligrafia. minha letra é horrorosa. pior ainda com a mão esquerda mas foi com a direita que pratiquei a vida a fio, podia sair algo esteticamente mais aceitável, sim? antes disso o primeiro detalhe distorcido foi o olho direto. direito. ainda pequeno e de colo. um primo sádico já falecido me botou em cima do escorregador do parquinho da praça da rua onde morávamos. na tentativa de escorregar meus calções de nylon que nunca tiveram muito atrito se agarraram na ferrugem do brinquedo. eu me empolguei na tentativa de desentalar-me e cai lá de cima dando com a cara direto numa pedra no chão. mentira. ninguém sabe exatamente como foi, pode ser de nascença, acontece que sou cego deste olho. meus cistos. tenho dois. o primeiro surgiu na bochecha direita, grande surpresa. outro nas costas, pra ser justo quase no meio, mas traçando uma linha paralela à coluna há de se ver que ele está mais inclinado do lado desastroso de meu corpo que do outro. tenho preguiça de removê-los. tenho medo de facas. até meu pé direito deve ter chulé mais forte que o esquerdo. vamos comparar. não, nesse quesito o esquerdo ganha. nem sempre se perde nessa vida. minhas unhas direitas, agora falo das de cima, são mais tortas, esquisitas e feias, porém isso escolha minha. esquizofrenia pessoal. cadê, desaprendi de usar letras maiúsculas? Não vou editar o texto inteiro de novo só por isso. O que mais? Anotei num pedaço de calendário velho - que encontrei no trabalho - os defeitos localizados à direita dessa carcaça e já continuo e acho. Achei, sim, careca. Minhas entradas para calvície começaram, claro e em caixa alta, destras. É como se Moisés estivesse bêbado e errado a mira do meio do mar vermelho. Descobri essa semana no médico, também, que o canal interno da minha narina direita tem um defeito crônico de nascença que impede em 90% a passagem do ar pela região. Isso explica porque nunca consegui tragar cigarro ou maconha sem parecer uma bexiga com alfinete preso na biqueira. Ou porque respirar pelo nariz enquanto toco trompete me faz me sentir como uma buzina. Buzina, palavra boa, devia terminar esta crônica assim. Ou seria conto? Se eu inserir um dragão de estimação nessa altura, o que hei de tornar o relato? Pois bem, moro numa selva, e os animais, todos amputados de seus membros direitos, estão urgindo (sério?). Meu pai deve ter voltado do mercado com sucrilhos. Como ele, descobri que minha escoliose tá apontando para esquerda, contradizendo as previsões dos especialistas. Nem sempre se perde nessa vida. Eu já disse isso. Tanto faz, queria ter nascido canhoto. Poderia ter escrito aqui com qualquer uma das mãos. Exceto nu. Exceto o céu que tem mão nenhuma e só pode ter escrito as nuvens com o céu da boca.

domingo, 4 de novembro de 2012

Três Vezes Roberto

- Então, eu acho que foi muito bom
- O "quê" foi muito bom, Roberto?
- O Jantar, ué; todos se divertiram, riram, nossa comida tava ótima...
- Roberto, você está descrevendo os primeiros, sei lá, vinte minutos de jantar; e os outros quarenta? O que aconteceu nos outros quarenta, Roberto do céu?
- Por que cê tá me chamando assim, por que cê tá falando assim?
- Porque sim
- Fala, anda, fala
- Roberto, o que aconteceu quando você começou a descrever a sua viagem na Europa?
- Eu descrevi minha viagem, ué, os lugares, as pessoas, expus minha visão, minha experiência...
- E você fez isso com toda delicadeza do mundo?
- Como assim?
- Sem como assim, quer saber? estou exausta e irritada, não sei com que cara vou olhar pro povo do trabalho segunda que vem.. minhas amigas da faculdade, graças, algumas só vou ver a cara no ano novo e olha lá, mas as gentes do trabalho... quer saber, boa noite
- Não, agora termina, não tô entendo o drama
- Drama? Que drama, Roberto?
- Sim, eu só falei como foi minha viagem, vocês estavam comentando de Paris, de Londres, de Madrid, de puta que o parta, dai compartilhei minha experiência a respeito
- Sim, exatamente, nesse tom, você compartilhou sua experiência
- Que que te irritou tanto?
- Ah, frases suas, o jeito que você diz, e hoje não se limitou ao jeito, mas foi bem claro sobre o que você acha de todos os meus amigos
- O que eu acho dos seus amigos, então?
- Que são princesinhas e princípes criados em aquários, alienados, deslumbrados com o mundo de faz de conta que os papaizinhos deles criaram; um mund-, um mundo... ah, chega
- Termina, anda!
- Não
- E eu disse isso? foi isso? Só porque quando fui pra Europa foi de uma forma totalmente diferente que seus amigos perfeitos tiveram; por isso você se volta contra mim?
- Quem disse que eu me voltei contra você?
- Você! Agora! Duas frases atrás
- Para de putaria
- Para você!
- Não, chega, já cansei de toda vez que qualquer assunto do gênero venha você jogar na cara o quanto odeia a Europa, o quanto acha retardada e débil qualquer pessoa que fale minimamente bem do desenvolvimento deles! a Clarice estava apenas comentando de um restaurante em Paris e você...
- Vê, vê? "Desenvolvimento", termo débil e imbecil criado para fazer brasileiro se sentir uma merda
- Você que se sente uma merda
- E eu só disse a verdade! Só me fodi naquela merda de continente, fui tentar trabalhar honestamente e fui escrotizado, jogado e humilhado. Você sabe que meu sócio, aquele francês filho da puta, me fodeu, fiquei 3 dias pedindo dinheiro e dormindo na rua até me descobrirem e deportarem de volta pra cá.
- Isso foi só na França, nos outros países...
- Mesmo quando tentávamos fechar a situação dos distribuidores nos outros países eu via, eu via o olhar de desprezo deles. No aeroporto, porra! Na época meu inglês era mediano, e mesmo se fosse fluente, esses viados queriam que eu falasse espanhol, queriam que eu falasse grego, francês, toda merda de idioma que é deles só deles e se eu falasse algo sem querer em português, a cara de nojo deles me dava vontade de andar com um taco de beisebol na rua amassando a cara de cada um
- A ironia é que ao invês de falar pedaço de pau você fala taco de beisebol; você mesmo se...
- Não interessa, seus amigos ficam chupando pau de gringo e isso é imbecil, burro. Lá fora eles têm nojo da gente, e olha que eu não chego a ser preto, ao contrário de você
- Tá me chamando de preta?
- Isso te ofende?
- Não, mas você falou com desdém
- Que desdém? Desdém o quê, que porra é essa? você tá ficando louca, escuta...
- Escuta nada, vou tomar banho e dormir. Chega. Amanhã é segunda.
- Escuta, escuta, desculpa, te amo, eu sou grosso e intenso, não queria que sentisse vergonha de mim
- Eu também queria que você não sentisse vergonha de você, Roberto.
- Como assim?
- Chega. Boa noite. Vai se banhar também.

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Copacabana fede. Veja essa esquina, moscas, mini-moscas. De onde demônios vêm essas moscas? O cheiro de mijo dos cracudos deve estar atraindo isso. E os guardas municipais, nojo. Passa o pivete, leva o cordão, depois a gente volta e acha o garoto chama o guarda que diz "não foi flagrante, não posso fazer nada". Tudo cagão, medroso dos drogados juntarem eles de porrada mais tarde. Lugar fedido. Cheio de gente velha. Que ódio da fila do mercado, bando de velho atrás do outro. Um dia ainda ligo uma serra elétrica e saio matando tudo. Ia ser hilário porque metade ia morrer do coração antes de chegar a vez de virar rosbife cru. Eu tô ficando velho, já tenho 70, mas espero morrer antes de ficar caquético. E gente gorda, quanta gente gorda. O Rio de Janeiro está cada vez mais obeso. Parece São Paulo. Isso aqui já foi a capital da saúde. Agora só os viados são saudáveis, isso porque querem comer outros viados. Vejo quase nenhuma mulher de calção de ginástica com rabão passando pra lá e pra cá. Quando passa, meu pau fica duro, sim, ele ainda fica. Dou no coro gostoso, minha namorada de 50 que o diga. Mas é foda. Malditos gringos também. Todo mundo babando ovo, chupando pau, uns literalmente, os viados adoram pau com pentelho louro de gringo. E a gringaiada vem atrás dos viados afrodescendentes. Não sou racista nem homofóbico, mas eles tão dominando tudo. Aqui no prédio tem um casal gay, ambos negros, deus sabe como vieram parar aqui, moram no quinto. Cansei de vê-los subindo elevador com gringos. Deve ser raridade na bosta da Europa, negro e gay, pauzudo. Esses vem pro Brasil só pra isso. Os cracudos diminuiram uns anos atrás, era Olimpíada, polícia passou matando tudo. Tão precisando passar de novo levando no tiro e no pau esses infelizes. Uns nem força pra roubar pra comprar mais droga têm. Ficam dormindo na porta dos bancos, maldito lugar pra ter banco às pencas. Ficam lá e perto das igrejas. Dia de feriado de santo é uma tristeza, fazem fila pra pegar dinheiro nas poucas igrejas que ainda restam nesse bairro fedido. As velhas à beira da morte rezando, dando dinheiro e falando mal dos outros. E as putas? Ah, das putas eu sinto falta. Ainda têm, claro, mas a mesma merda de polícia fez reduzir o número que ficava na orla. Foram todas pra Glória ou pra Lapa. Quando tava bem de emprego, tinha contato com umas, não dessas de rua, mas dessas que atendiam em casa. Uns anos atrás conheci uma Sabrina uma vez, cobrava 450 contos, hoje em dia seria uns 700 reajuste de inflação. Valia o investimento, morena, meio india, rabão enorme, bucetuda. Buceta meio larga, também, faz parte do ofício, mas com jeitinho liberava o cu que era uma maravilha. Isso faz uns 10 anos, deve estar acabada hoje em dia. Minha ex-mulher outro dia veio pra cá, tá morando em São Paulo com o novo marido, a infeliz. Ligou, queria marcar alguma coisa, mas eu sei dessa louca que era falsidade - pra eu não jogar na cara depois que ela veio pra cá e não me procurou. Pensando bem, tá certa ela. Mesmo com raiva até consegui ser educado, falei que ia viajar na mesma semana, feriadão, com minha atual pra Região dos Lagos. Ficou hospedada na casa de outra amiga na Barra. Lugar escroto também. Só é mais escroto que ser escroto é tentar ser o lugar escroto. Filosofei. Porque Ipanema costumava ser melhor, mas tá começando a ficar tomada de cracudos, velhos e viados também. Leblon não sei como anda, aquilo lá tá fechado, tem pedágio pra sair e entrar. As comunidades e Favelas que existiam na região foram removidas para depois de Itaguaí. Virou um grande condomínio para Judeus, europeus donos da rede de hotelaria carioca e atores, apresentadores e diretores da Globo.  Volta e meia um mendigo é morto por andar por lá de bobeira. Preciso sair dessa cidade.

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- A estética da violência
- Como, senhor?
- Nada, vou querer aquele tênis ali
- Pra levar?
- Não, testar primeiro
- Certo
- Está ótimo no pé, ele em si...
- Sim, esse novo modelo da Adidas é totalmente ergométrico, com amortecedor...
- Espera, você sabe o que é ergométrico?
- Bem, é...
- Ergométrico é aparelho que mede batimento cardíaco, esse troço mede isso?
- Não, não senhor, eu me confundi...
- Então pare de falar demais. E esse tênis é horrível de feio, nossa
- Senhor... se acha feio, porque pediu pra eu trazer?
- Estou precisando de um tênis pra correr, mas tô vendo que esse não vai prestar; tem alguma coisa da Asics?
- Tem sim, são esses daqui
- Um, tem um que faça meus pés não parecerem pés de super herói?
- Como? Todo tênis de corrida tem essas cores, senhor
- Todo tênis de corrida parece saído de seriado japonês, então? Que bosta, vou continuar com meu All Star, então...
- Mas tênis desse tipo não são apropriados para atividades físicas... o senhor pode vir a ter problemas na coluna, por exemplo
- Você é médico?
- Não
- Você é ortopedista, fisioterapeuta, pediatra?
- Não
- Você nem sabe que pediatra é médico de criança e não tem nada a ver com o assunto; por que você está vendendo tênis?
- Senhor, se nada mais lhe interessa, vou pedir licença para atender outro cliente...
- Então vai.
...
- Boa noite, preciso de um tênis pra corrida. Comecei a correr com meu All Star do colégio mas não param de nascer bolhas nos meus pés. E parece que estou com princípio de escoliose.

Maçã


Nem espero que te faça diferença
Eu só queria tomar cuidado aqui
se conta os dedos os dias na vida
que se acorda de paraquedas

tem uma ranhura da vez que eu falo
mas nada
nada que um pouco de mel e maçã
não calo.

A porta é mesmo essa
o ombro machuca um lado
mas a porta é mesmo essa
a fome cavouca um fado
mas a porta é mesmo essa
o riso machuca um cado
mas a porta é mesmo essa
a janela dá no telhado

e eu espero que te faça diferença
eu só queria tomar cuidado em ti
se conta os dedos os dias na vida
que se acorda um paramédico

se conta os cedos os dias na vida
que se acorda um parabrisas
se conta os dedos os dias na vida
que se acorda um paraíso.

domingo, 21 de outubro de 2012

Alfazema

Acho bonitas essas coisas pelo caos que fazem só que é preciso cuidado. É preciso precisar um pouco menos dada a certeza do abraço. É preciso parar de dar pitaco e quão cedo sua boca parar de dar afta poderás gargalhar novamente. E quão cedo a saliva livre de DSTs secar esta livre estará de judiar a si o céu. Judiaria também querer mal de um ciso entalado. Quereria mal querer um mau fim aos mal amados por mais que estes o torturem-anistiem e demitam. Acorda o pesadelo e joga da cama com a sorte de acordar na hora o trabalho. Tropeça o violão com a mulher e percebe ela linda de qualquer jeito. Um recado dado ao passado e logo cedo de casa haveria um vão dentre o copo de café e o pedaço de pão em margarina. A esposa que cheira o pescoço e cheira alfazema e logo logo será a década de 90. Embrulho o azul antes que nuble e ponho na pasta que o escritório fica lá do outro lado e a cidade acaba antes. Chegando eu chego e grito Sol quando tem quem grite estrelas mais distantes. Que guerra terá declarada quem respira e sopra um tejo quando neste estabelecimento sequer o gerente sabe o que é um tejo. Embrulho umas frutas o horário de almoço e carrego meia dúzia e meia de paçoca para as crianças e compro sete pois uma é minha. Reclama aqui a tarde tá mais clara que é horário de verão saímos pois amanhã terá trabalho mais que hoje. A bola amarela se põe pro lado de casa dizendo as horas lembrando porém que sexta tem cerveja e parque novo na praça. Tal da roda gigante é novidade aqui e em casa a menina e o menino pulam no colo pra agradecerem o doce que vão querer bem feliz o final de semana que vem chegando. Algodão doce é da minha época e mesmo eu quererei um pedaço. A esposa que cheira além beija novo: de novidade tem um golpe militar indo pra tal democracia; tem o tal do roquênrol, também falou de guerra fria; tem computador potente, tem uma nova doença na tevê; e ri de alto porque escreveu com cuidado as palavras assim afim de que rimassem pra mim. Do riso isso importa menos que o que vou te fazer e o que eu te fiz pois de leite eu fiz pudim. Aponta a gente o norte e dorme outra noite.

 Acho bonitas essas coisas que se espalham no chão e no ar deixando o dia bom. Só é preciso voar amar de vez pra frente que de ré já basta o acorde.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Primavera nº82

Porque já mal consigo falar as pessoas tentam se passar por minha língua. Se não os dedos dessa mão esquerda que ainda escreve - bem, a propósito - teriam me empurrado uma cadeira de rodas. Sim, motorizada, com controle remoto, uma cadeira, com rodas, para aleijados. Nada contra os pobres aleijados, só que eu ainda tenho pernas, ainda ando. Amputei nada. Primeiro foi uma muleta, a perna esquerda dobra muito mal, só quebra galho. Depois duas, por insistência de minha neta ao ver minha dificuldade de pegar as chaves e abrir a porta de casa. Me irritei e relevei, afinal, temos que aceitar certos limites do corpo. Agora me arranjaram uma muleta esquisita, tripé, com rodas. Essa coisa é feita de metal, diferente da madeira das muletas, e sempre pita na porta giratória do banco. Só saio de casa com ela quando Maria Clarice insiste. O problema é que os assuntos por raridade se limitam à minha saúde. Tenho um terreno muito bom que adquiri na década de 60, na Barra Rasa. Foi na esperança de realmente montar uma casa lá, mas acabamos ficando por aqui mesmo em Rio Amarelo. A mulher, meu broto, que Deus a tenha, queria morar perto das irmãs. Me arrependo pouco, foi bom para nossa filha crescer perto dos primos. Voltando ao terreno, queriam eles vendê-lo por uma fortuna média a uma construtora, que quer construir um condomínio de luxo em Barra. Imediatistas, insisti e bati o pé, ou melhor, minha canhota. Escrevi que me recusava, que já havia assinado em meu testamento que o terreno vai ficar para minhas netas. Reclamaram e discutiram, e o debate continuou por meses. Porém no último ano, isso foi em 2009, concordaram comigo após todos os jornais indicarem que a região era a que mais se valorizaria. Na minha época nem entendia de especulação imobiliária, e ainda entendo pouco, mas pelo visto foi o certo. Sofia está construindo uma loja lá para ocupar o terreno. Maria Clarice ainda vai decidir o que fazer da vida, mas sabe que o terreno também é dela.

Sou muito independente pra minha idade, embora odeie estruturar minhas frases com essa justificativa. A despeito de saúde, nascer na década de 30 não é desculpa para reclamar da vida. Hoje, por exemplo, saí de novo. Engraçado como as coisas mudaram nessa cidade. Muitos amigos que tinham casa se mudaram para a capital do estado, e eu continuei. Tanto pelo emprego público que consegui e me aposentei, quanto pela tranquilidade e estrutura que a região oferece. Moramos apenas em dois bairros diferentes, e neste aqui estamos há mais de 40 anos. Um dos meus grandes prazeres é a nossa Praça São Alegrense, que foi feita por um prefeito meio corrupto há quatro eleições atrás para ganhar votos. Os moradores tinham certa dúvida de como lidar, afinal, ia aumentar e muito a movimentação no bairro, que já vinha acrescido de pontos de comércio. Porém, acredito que seja consenso agora, a mudança foi para melhor. Já temos até uma feira, a feira São Alegrense, que pode se chamar de tradicional. Vende-se diversos produtos, em sua grande maioria artesanais, e a cada dia há um tema diferente: antiguidades, horti-fruti, brechó. Me perco um pouco nesses detalhes, mas ontem encontrei até um ventilador muito velho, idêntico ao que eu tinha da época de solteiro. Muito bom, ia quebrar um ótimo galho para o Dezembro Verão que se achegará em breve. Deixei pra próxima por ser pesado demais para carregar, porém. Este é o sétimo ano seguido que mantenho um diário, tenho tal hábito desde que perdi parcialmente minha fala. Amanhã já é último dia de Novembro, o que significa que estou bem perto de conseguir novamente um registro por dia, uma agenda completa. Tudo bem, umas páginas maiores, outras menores. Por esta liberdade uso um caderno. Este registro está maior porque talvez eu esteja tagarela essa semana. Explico, há a possibilidade de Sofia estar grávida. Estou ansioso com a possibilidade de ser bisavô. O sorriso que faço agora é bem parecido com o que fiz quando Ana nasceu. A casa estará cada vez mais cheia. Voltando à feira, hoje comprei dois abacaxis também, menos pra mim e mais para o povo daqui de casa, diabetes me impede de comer a fruta desde 1999. Mesmo que ninguém coma, no final das contas, compro pelo aroma, mais. Lembro que minha finada mãe comprava três ou quatro e  deixava na mesa cozinha de casa só para perfumar a cozinha. E eu concordo com o que ela dizia, "cheiro de abacaxi é uma das melhores coisas da vida". 

Três Marias

Epitáfio. Gostaria de deixar qualquer palavra de amor escrita ou falada aqui dedicadas para Marialice. Provavelmente repetirei ou farei releituras de algumas ideias expressadas anteriormente. Também gostaria de dedicar e dedicar talvez; espera; onde foi parar minha educação? boa noite a todos vocês, é uma honra estar aqui em cima e saber o nome de todo e cada sorriso apontando pra mim. Hoje estamos bebendo um pouco de café porque esse é só a primeira apresentação do dia, pra apresentação seguinte temos cerveja, vodka e vinho; mas não é nada demais, Vodka mais barata dentre as garrafas de vidro, com promoção de 13 reais porque vem com energético de açúcar puro e saco de boi fresco. Vinho é vinho caro, não porque pagamos, mas porque nos deram. Doação faz bem a alma; e não é apenas isso que somos hoje todos nós? Nosso contra-regra pegou duas horas de fila no Mundial para garantir pra gente, por favor, uma salva de palmas! Tem Mundial aqui nessa cidade? Foi o seu João quem comprou. João Caetano, nome artístico dele, um beijo na boca do João. O ventilador da minha casa quebrou hoje cedo, após 30 anos ininterruptos de funcionamento impecável. Esse ventilador nunca me deu choque. Claro que púnhamos óleo de vez em nunca; fora isso. Voltando ao assunto, um grande prazer estar aqui com vocês, preparei um conjunto de canções e poemas, algumas piadas, como vocês podem ter notado até aqui; saímos nessa turnê há 5 meses atrás, com meia dúzia de datas confirmadas, todas no eixo Rio-São-Paulo, e a resposta do público foi grande, que acabamos marcando mais. Morremos, e viemos parar aqui. Pelo menos há a vista para o oceano Pacífico. Ontem mesmo estávamos, em Porto Alegre, da beira do Rio Guaíba cantando e falando merdas. Não que hoje estejamos cheirando a desodorante. Bebi chimarrão logo cedo, e não foi a primeira vez; foi a quarta ou quinta. Feira, vi a feira da Redenção, comprei livrinho vegetariano com uns Hare Krishnas, falamos da vida; olha, caramba, escrevi até com a grafia correta o nome deles aqui no roteiro. É o nome da próxima canção, que é nova, compus ontem. Fala de uma certa Maria. Obrigado, obrigado pelo café, como vai sua mãe? Eu não quero mais mentir. No mais, a próxima canção da noite é uma bem famosa, eu que fiz, dei pra Maria Leão gravar e pulou direto pras rádios, mas eu tinha gravado antes, juro. Já p'ragora preparamos uma versão de Sangue Latino dos Secos e Molhados; chamei Ney Matogrosso pra cantar também, ele tá aqui em BH gravando alguma coisa com Bethânia, mas ele não podia; gente fina. Bethânia ainda não conheço. Na música que vocês ouviram há pouco teve um teclado maravilhoso de Quinho Gato, nosso violonista que quebra um galho em outros instrumentos quando não tá tocando violão. Começamos uma banda bem informal, ano retrasado, no segundo ano do ensino médio. Sim, queríamos comer as meninas. Conseguimos, até, uma ou duas, menos do que esperávamos e mais do que merecíamos; nunca abrimos um latão de Picles. Parece que vai chover, hoje cedo levei as crianças na escola e jurei que amava, que amava minha esposa. A empregada Dolores me fez sexo e pediu que eu largasse ela, que viajássemos para outro país; Dolores definitivamente superestima minha renda mensal. Semana passada tirei o lixo pela primeira vez de casa. Uma letra M, batizei minha segunda filha de Maria Joana. A primeira, Sofia Virgínia, odeia o próprio nome; e o que sabem os jovens até os 21 anos? Ana dormiu aqui em casa ontem de novo, Ricardo, e não sei até quando ela vai ficar. Pede divórcio, pede dinheiro pras meninas de pensão, e me jura que me ama. Vamos vender limonada de novo pra conseguir o dinheiro dos escoteiros. Ninguém era escoteiro na minha turma, só eu e Luana. Queria ter comido a Luana. Devia compor um disco pra minha primeira namorada. Letícia, você sabe que namorei trinta garotas antes, só que contigo é diferente. Carmicamente, é você, só você. E a Ana? A Ana é minha vizinha da frente, a gente se dá bem, já rolou sexo, mas só. Ela tá até namorando uma garota, virou fancha. Não vou me adaptar, cara. Pra quando vai chegar essa pizza? A próxima canção é bem simples, vou ensinar agora pra vocês, ela começa com um sol, depois vem uma ponte simples pro ré, um sustenido, um acorde menor qualquer, é basicamente isso, sol e ré. No final da apresentação os discos estão à venda lá fora, consegui uma promoção pra vocês, afinal estamos aqui na Lapa. No formato de cd é 22, digo, 20 reais, e o mais recente também. Também, falei merda, juro, juro que não estou chapado. De novo. No formato de cd o disco novo custa 20 reais, o anterior custa 18. Se vocês comparem os dois juntos, a promoção é essa, sai por 30 reais os dois. E é acabamento certinho, o mesmo que vocês compram na loja por 30, 35, na minha mão comprando junto sai pela metade do preço. Já posso trabalhar de ambulante no trem, trajeto Central-Santa Cruz. Então, fiz isso tudo pensando na balada de vocês, não queria tirar dinheiro de bebida. Obrigado pelos aplausos. Quem quiser me oferecer um copo de Heineken ou Original depois do concerto, sinta-se à vontade. Eu não vou me adaptar a essa vida com uma bala perdida. Não é "como" uma bala perdida, não tô falando poema, cacete, é sério, literal, tem uma bala perdida aqui que atravessada e entalada na minha perna; a polícia pensou ontem que estávamos tentando furar o bloqueio da blitz. Bando de pau no cu. Ainda bem que tínhamos deixado a maconha em casa. Aperto o cinco que é o andar da sua irmã, e pergunto pra ela se você já chegou; ela diz que não e fazemos amor na lixeira do prédio. Mariazinha já tava dormindo. Eu não te disse nada. Desce logo pro play, Tiago, tá geral aqui e tá faltando você pra completar a porra do time. Tá, tá, tu começa na linha, e eu no Gol, mas desce logo. E diz pra sua prima que ainda quero ela. Meu pai avisou que esse ano não vai ter presente de Natal. Queria Lego. Deus está aqui na platéia, me julgando, as mãos com um saco de pipoca e meio litrão de refrigerante. Uma salva de palmas para deus. Fizemos amor na lixeira porque Mariazinha já estava dormindo, não queríamos acordá-la. Adoro ênclises. Desfazê-la em beijos. Te amo, Mariana.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Primavera nº2

- Chegou
- o que
- voce
- sim
- nosso amor sabia
- sabia o que
- sabia que cabe na gaveta de cabeceira_
- o que cabe na gaveta
- o nosso amor
- isso e bom ou ruim
- bom
- por que
- porque sim junto e sem acento
- que
- e bom porque fica ali por perto se a gente tem pesadelo pode virar pegar abracar cheirar ter ali e depois guardar de novo e saber que pode contar com aquilo sabe_
- ta bom entendi
- nosso amor e que nem jaca
- jaca e ruim fede
- eu gosto de jaca
- voce e voce eu sou eu
- que tal ser que nem amor de novela_
- novela mexicana ou das oito
- tanto faz detesto novela
- entao porque voce falou
- sua mae ta em casa_
- nao
- cade ela_
- vai chegar tarde ligou agorinha dizendo que ia encontrar minha tia pra combinar as coisas da primeira comunhao de Julinha
- Julinha vai fazer quantos anos_
- vai fazer oito
- tempo passa
- e e ela disse tambem pra se voce resolvesse passar aqui deixar voce so na sala trancar a porta do quarto porque ela confia em mim mas desconfia de voce acha que voce ta cheio das malicias comigo
- voce tambem acha isso
- so um pouco
- vamos alugar alguma coisa pra assistir sua mae chega ve a gente na sala comportado vendo filme e fica tudo certo
- pode ser quer ver o que
- qualquer um de super heroi
- tem um romance novo lancamento saiu na locadora
- sera que da pra alugar_
- acho que sim e dia de semana esses assim saem mais pra sexta feira sabado domingo
- ta bom vamos pegar um ja ja entao meu pai ja esta chegando pego dinheiro com ele e passo ai
- isso
- tem pipoca ai_
- tem nao
- e agora
- ainda nao tem
- boba
- tem leite condensado e nescau qualquer coisa a gente faz brigadeiro
- otima ideia por isso que te amo
- ta
- e
- to ouvindo musica
- ta ouvindo o que_
- adivinha
- ta nosso amor e como mel
- que musica e essa
- nenhum to falando sobre nosso amor
- de novo caramba
- sabia que mel nunca estraga_
- serio
- serio
- sei nao eim
- juro mel e parada que estraga nunca pode ver pode deixar apodrecer na prateleira da cozinha anos sem comer e pouco importa quando voce come vai estar doce com certeza e limpando os fungos da garganta
- faz sentido
- claro que faz
- faz cafe pra mim quando for ai
- aham
- preciso aprender a fazer tambem
- precisa
- ...
- cafeteira e facil de usar sabe a tomada faz o trabalho todo
- pois e
- tive uma ideia
- hm
- vou pegar la pra ver
- o que_
- pronto peguei mas veja esse mel aqui de casa diz data de fabricacao tres de outubro de 2005
- e dai_
- e dai que depois fala que e valido por 24 meses apos a fabricacao
- quanto tempo e 24 meses_
- 2 anos
- e o que acontece depois de 24 meses_
- estraga
- duvido
- tambem duvido. 

domingo, 30 de setembro de 2012

Chapisco Cimento

Outro dia foi o abacaxi. Deixei na geladeira do trabalho a segunda metade, embolada num saco plástico, um indício claro de que queria mantê-lo fresco p'ra comer posteriormente. Batata. Comeram. Caralho. Fiquei puto, xinguei, falei que era meu, entre palavrões e dedos levantados. Atravessei a rua nesse dia p'ra chegar no Fast Food onde almoço e chegando na outra calçada uma família vinha na direção perpendicular à minha. Eles eram três, pai, mãe, filho, eu era um, eu, tentei apressar o passo mas a criança tropeçou em mim. Eles pediram desculpas mas eu tinha como desculpar aquele absurdo? mandei tomar no cu e ensinar o pirralho a olhar por onde anda, que eu só poupava a porrada com pedaço de madeira farpada porque estava atrasado para porra da minha comida e morria de fome. De volta ao emprego foi outro calo no meu cérebro, 3 minutos sentado recebo a vigésima ligação do dia da minha chefe falando que o relatório que entreguei há 1 hora tava ótimo mas que ela ia precisar de uma nova coluna informando o indíce de erro para cada solicitação aberta naquele período. E porque essa vaca não me avisou disso 3 horas atrás? Minha vontade era meter um cuspe dentro do nariz dela e dar cabeçadas até desfigurar-lhe (ela que adora falar assim) a cara. A sorte é que ela estava em São Paulo à negócios e só voltaria dentro de duas semanas. Os novos atendentes que ela contratou também merecem ter as caras esfregadas em cacto regado à álcool. Jegues. Se eu tiver que falar mais uma vez como se calcula o índice de juros de acordo com o número de parcelas acordadas para expectativa de pagamento, eu juro, eu juro, juro.. Hoje deixei o carro em casa e peguei metrô, a merda do radiador tá com crise de meia idade ou eu simplesmente esqueci 90% do discurso do mecânico pra justificar a facada que ele me deu de expectativa da conta p'ro conserto. Se eu tivesse que pegar a Estação da Carioca cheia desse jeito às 18h de segunda à sexta já teria comprado um bomba de pimenta e largado no primeiro vagão trajeto Saens-Peña - General Osório. Minha mulher quer engravidar. Tentamos todo dia, ainda nada. Dela evito ter raiva, pois já se ferra naquele escritório filho da puta que ela arranjou de trabalhar na Barra da Tijuca, com o viado de chefe mal comido que tenta esticar as horas extras não remuneradas de serviço dia sim-dia não. Já tenho organizada a papelada, quando engravidarmos, a primeira gracinha repassada vai render definitivamente um processo trabalhista no cu deles. Maldita contabilidade, maldito mercado de crédito. Sim, senhora, fazemos consulta ao SERASA e ao SPC, se você tá endividada o problema não pode ser meu. Entendo, entendo muito bem que a senhora, moradora de Copacabana, nunca foi tão desrespeitada em sua vida, mas entenda bem que em sua vida inteira a senhora também nunca levou uma tijolada na cara por ser tão abusada ou teve essa sua cara enrugada esfregada em muro de cimento com chapisco - o que já é uma questão da péssima criação que você teve daquela vaca da sua mãe. Ela era uma puta fazendo programas, planejando dar o golpe do baú em qualquer velho caquético dono de imóvel na zona sul mas sem grana, ela toda banha, herpes e gonorreia se achando rainha da Barata Ribeiro, certo, certo, certo? Aposto que você adora fular fila do mercado e fazer as pessoas levantarem dos assentos preferenciais de ônibus fingindo ter mais de 65 anos, embora sua identidade aqui na minha mão aponte que você é de dezembro de 1949, portanto nem tem 63 anos.

Ando calado demais, tanto em casa, na rua, quanto no trabalho, na verdade. Eu que sequer tenho histórico de enxaqueca na família já tive que ir cinco vezes no neurologista esse ano para tentar descobrir a causa dessa maldita dor de cabeça. O meu último terapeuta me indicou uns recursos para aliviar o stress, como corrida, sexo, boxe, música, ou até mesmo me recomendou abrir um blog privado. Na minha cabeça mandei ele tomar suco de jaca com caroço e se engasgar, mas as únicas palavras que cuspi foram "boa tarde, obrigado". Semana que vem marquei pela primeira vez um terapeuta (coberto pelo plano de saúde) para verificar se preciso auxílio para controle de raiva. Acho que o meu problema é justamente saber controlá-la perfeitamente. Ainda não matei ninguém.

Primavera

Te ofereci meu amor em 1983, desde então um presidente caiu, a bolsa parou cinco vezes, a dívida externa triplicou e nossos pais se mataram; vendi mate na praia, me formei em economia, aprendi a fumar maconha e crack e larguei, viajei p'ro Nepal onde encontrei sua prima, lembrei de você e lhe escrevi esta carta; você, pelo que disseram, aprendeu a voar, digo, literalmente, virou piloto de avião, está esperando gêmeos e foi escalado para trabalhar na campanha para reeleição do atual prefeito da cidade que eu odeio - cidade e prefeito; te ofereci meu amor, minha coleção de pecinhas de LEGO, e sexo livre de culpa em 1997; em 1977, 6 anos antes de te conhecer, numa ciranda de roda quando ainda se brincava de ciranda, te amava já, e comecei a cultivar três pedras: uma pro peito, outra pra um dos meus rins, a última para arremessar contra sua janela em sua casa na rua Visconde do Pirajá, número 75, apetê 32, terceiro andar. P.s: espero realmente ter acertado o andar, na verdade, certos prédios contam o térreo como primeiro andar e outros não; tentei perguntar isso pro porteiro, porém ele ficou desconfiado e ameaçou chamar a polícia; a propósito, deixo aqui minha reclamação, se possível o demita em breve (seu nome rima mais ou menos com pudim); em caso de eu simplesmente ter incomodado seu vizinho de baixo ou de cima, deixo aqui minhas sinceras desculpas e um desejo de ótima primavera.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Jojô

Acordei com sol fraco, limpei as minhas unhas, uma coisa estranha grudou na minha língua. Preciso parar  de lamber minha barriga. Com fome, visitei minha casa, meu dono anda sumido. Outro dia sem ração. Consigo coisas melhores, pelas lixeiras dos locais de comida da área, seria bom contar com uma comida certa com mais frequencia. Em minha segunda casa, telhados daqui, o humano que deixa comida de humano em uma canteira para eu me alimentar esqueceu novamente de fazê-lo. Preciso visitá-lo mais vezes. Esfregar-me com mais frequência em suas pernas, logo restarão me apenas as lixeiras, os ratos ocasionais.  Os ratos estão crescendo também, difícil comê-los, são bichos mais agéis que costumavam ser. Ultimamente o número de humanos nas ruas e cantos desta cidade aumentou. Os locais de comida estão cada vez mais cheios, mais barulhentos com mais sobras nas lixeiras. Estranhamente eles desperdiçam grandes quantidades de comida todos os dias. Inclusive há horas certas para empilhá-las na parte de trás dos estabelecimentos. No início era apenas eu, conforto breve, outros gatos da vizinhança descobriram meu segredo. Frequentemente aparecem novos concorrentes. Estou ficando cansado, imponho-me pelo meu tamanho, e apelar para violência é necessário nos dias que aparecem vários outros famintos. Nenhum gato daqui anda em bando.  Derrubo ou espanto um por um que me aparece, geralmente a partir do final da tarde, noite ou madrugada. Novatos que desconhecem o próprio território o qual tentam ser donos.  Parece que vai chover em breve, mal lembro a última vez que choveu, tive uma ideia. Vou tirar outro cochilo. As ruas estão cada vez mais perigosas, tenho vários conhecidos morrendo envenenados nos últimos tempos, preciso me cuidar. Outros são mortos por pedaços de pau por humanos furiosos. Ouvi falar que certos homens tem despelado nossos corpos, fritado nossa carne e se alimentado. Tenho nojo. Mesmo assim surgem mais gatos, minhas brigas tem se tornado cada vez mais frequentes, tenho dificuldades de me estabelecer. Estou grávido pela primeira vez. Fica tudo mais difícil, a barriga aos poucos pesa mais, tenho mais sono e fome. Pelo meu tamanho me impunha conseguindo afastar possíveis amantes, com violência se necessário, só que mal tinha subido o sol quando fui pego desprevenido. Era um gato ligeiramente maior. Quando ele abaixou a guarda consegui cortar sua face, o fracote correu gritando a dor, já era tarde demais. Pelo menos acho que nem tantos  filhotes vêm por aí. Trabalhoso, a chuva passou, acho que sinto cheiro de peixe. Toda casa parece agora ter  filhotes de cachorro. Logo eles estarão maiores, e transitar para os lados se tornará mais arriscado, ou simplesmente menos discreto. Amanhã é dia de peixe empanado em outra casa telhados daqui. Hoje foi dia de macarrão, alimento que apenas belisco, quando tanto. Prefiro peixe. Às vezes penso em um lugar onde haja peixes por toda parte, nunca vi um vivo, apenas cozinhados ou congelados. Pergunto-me como caminhariam no chão. Gostaria de ir para bem longe, conhecer outros bichos e descobrir o lugar de onde todos os peixes vêm. Distantemente. Perderia território em minha cidade, recuperá-lo depois seria pouco provável, além da dificuldade de me adaptar a um local totalmente novo. Sou um dos maiores gatos destas bandas. Quem me garante que lá haverão bichanos menores como aqui, e se todos forem maiores do que eu e eu que me tornasse o gato magro e fraco? Lembrei que um amigo também teve filhos. Escondeu a si e os filhotes atrás de uma casa velha, onde outros conhecidos e desconhecidos costumam se arrastar perto da hora de morrer, lá tem água fresca. Talvez eu use o mesmo local quando chegar minha vez. Este amigo teve menos sorte com sua ninhada, nasceram vários, e a maioria continuou viva. Ele terá dificuldades para se alimentar com tantos filhotes mamando o tempo inteiro. Outro fato me ocorre, a caminho de uma das refeições, passei por um terreno vazio coberto por vegetações. Encontrei um humano morto. Isto me ocorreu outras vezes, lembro vagamente, pois cheiravam todos muito mal. Tinha também vários buracos espalhados na altura do peito. Este tinha o rosto e seu corpo diferentes, bem diferentes dos outros humanos quando sentem dor, ou quando estão gritando. Já feri alguns, quando ameaçado, por isso entendo do assunto. Pouco me orgulho disso. Coberto por terra molhada em um canto, pergunto-me se este seria meu primeiro dono, que mal vejo há semanas. Queria poder lembrar de seu rosto, lembro que me chamava "Jô...", ou outro som parecido com este. Era um bom humano. Às vezes me dava uma bebida branca, morna, parecida com a que eu bebia das tetas do gato que me pariu. Mesmo defunto, e inusitado, aquele humano ali no chão me parecia bem. Deve ter morrido de barriga cheia.