sábado, 29 de dezembro de 2012

Benício Sings The Blues

Nevava, em pleno Dezembro, plena Nova Iguaçu, baixada fluminense carioca. A descarga do banheiro travando, da ponta dos pés os dedos da mão puxavam a corda. A vontade de perguntar o que sua mãe estava assistindo, de se ouvir a televisão ligada no quarto, levou a curiosidade a empurrar a porta e a ver a sua cama vazia. Por onde andaria? Pelos bares e boates e Rio Sampa, ou pelos postos de gasolina caçando cigarros? Até a resposta, a televisão travou companhia enquanto transmitia um seriado adulto demais para crianças, já que madrugada. O mesmo rapaz, 20 anos depois, levanta e abre a geladeira para descobrir outro protesto silencioso dos flocos de água relutando a se tornarem cubos de gelo. O Whisky on the rocks terá de virar seja lá que raios seja um shot de Whisky puro. Se pergunta se vai também ter que caçar cigarro às 3 da manhã. Acha um meio maço perdido na poltrona do sofá, provavelmente deixados por alguém da festa do dia anterior. Queria comer qualquer coisa mas, se comer, o resto do efeito de embriaguez que está na mente das horas passadas tende a acabar. Se se atracar com o resto de Peru de Natal que está ali quase uma semana, ou com o pão duro com ovo, a neve que cai lá fora tende a virar só sereno. E faz tempo que não neva. Disca o telefone com os dedos automáticos de quem disca o mesmo  número com frequência, ouve o sinal chamar o outro lado e a voz que atende responde as diferentes perguntas com as mesmas respostas; "não sei" ou "amanhã a gente conversa." Amanhã será uma segunda feira de 30 de dezembro. Arremessa o telefone no sofá que quica-quica até cair e quase quebrar. Ele resolve fazer parar de nevar. Joga o resto de Peru na frigideira e lembra que na verdade se tratava de um frango e sabe se lá porque achava que era um Peru há 131 palavras atrás. Encosta ao lado, na pia, para não deixá-lo queimar. Lava o último copo de louça suja, um verdadeiro milagre divino para seus padrões comuns de homem hétero, meio machista e solteiro, segundo elas. Prepara o prato para recolher a refeição quando o telefone toca novamente. Foi atender e não era o seu amor. Não, nenhum Vítor mora ali. Vara o aparelho novamente, agora rumo a rede ainda estendida da sala, sendo outro milagre ter acertado em cheio sem despedaçá-lo. O frango tem as beiradas queimadas, mas o mastiga. Sentado no chão novamente, que foi de onde levantou há 333 palavras, começa o processo de digestão do alimento. Lembra que por volta dessa hora, há algumas milhões de palavras já ditas, ou há 20 anos, segundo o calendário cristão, tremia de sono, frio e choro por acreditar piamente ter sido abandonado por sua mãe. Compara a sensação com a vontade de chorar agora pelo mesmo abandono. Tem raiva e rejeita o drama escroto, jogando mais frango queimado no esôfago para sentir devagar os movimentos peristálticos levarem a comida para a segunda boca do corpo, a boca do estômago. O telefone toca novamente, a bina digital repete o número que discara 300 palavras antes. A pessoa do outro lado, que é a mesma que ele queria que fosse, pede um amassador de alhos emprestado, pr'aquela mesma hora. Ele diz que não tem mais o objeto, que foi justamente para ela que o emprestou da última vez. A outra pessoa, com raiva desta vez, lhe diz para levar então cinco formas de gelo vazio. Ele diz que só tem três. Ela responde que bastava. Ele diz que chegaria em 20 minutos.

Já na portaria, trancado o portão, desejado o feliz ano novo do porteiro, vestiria o casaco se este não estivesse dentro de casa. No ponto, o ônibus ou táxi resolvem não passar; teria que dirigir o próprio carro embriagado. Quando ameaça pegar o telefone para explicar que chegaria atrasado, um carro amarelo e azul vira a esquina piscando o farol. Para de nevar quando ele descreve o endereço para o motorista. O motorista deseja boa noite, boas entradas, conta sua história e o porquê de ter começado a rodar apenas à meia noite; que a correia dentada do motor havia arrebentado às 5 da tarde, que passara meia lua inteira tentando achar uma substituta, que tudo ficava fechado aos finais de semana e que, sobretudo, já era praticamente véspera de ano novo. Chegando ao destino, pagos os dinheiros do taxista, dá meio toque na campainha. Mal tem tempo de levantar a cabeça quando a sensação acontece. Ou um "déjà vu", no sentido clínico do termo, ou de fato vivenciou um diálogo similar vida passada:

— Onde você tava?
— Procurando cigarros; não achei
— Você tinha me dito que ia parar de fumar
— E ia mesmo
— Devia ter me avisado
— Avisado do quê?
— Que ia demorar, pra onde ia, porque ia
— Você tem razão, desculpa
— Desculpo-não
— Desculpa-sim
— Desculpo-não
— Então tá bom
— Que raio de poeira branca é essa na sua roupa? Caspa?
— Não, é neve
— Ah, claro. Bom saber que ainda tem senso de humor para essa hora da noite.

A porta bateu e ninguém lembrou das formas de gelo. Ele nem percebeu que mentiu a respeito dos cigarros. O taxista ainda viria repetir a mesma história e dia para outros 3 passageiros. O porteiro ainda viria a ignorar outros 4 desejos de boas festas. A visita corriqueira ao banheiro depois do Sexo o faria notar que a descarga dela também travava, como a sua travou há 910 palavras atrás. A neve que nunca caiu derretia e virava gotas d'água na beira da janela. Era 9:03 da noite quando terminou de escrever este conto. 

2 comentários:

  1. Isso de escrever sobre ano-novo no ano-novo é coisa de jornalista, rs. Mas tudo bem. (Como se dizer que é 'coisa de jornalista' fosse algo ruim e tal =p) É até engraçado porque o texto começa logo com uma total alienação do que acontece, um certo surrealismo... nevar no Rio de Janeiro. Dessa forma, logo de cara é um contraste. No mundo, de fato, é ano-novo, mas... não neva no Rio de Janeiro (até onde eu sei).
    E, na minha opinião, o auge é a conversa com o taxista. Muito bom.
    Mas, certamente, o melhor elemento do texto é o "há 131 palavras atrás", "há 300 palavras atrás", etc. Bem legal mesmo!

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  2. Confesso que não estou com cabeça para o início do texto.
    Mas quando consegui embarcar nele, gostei, gostei mesmo =]
    Mas nada supera vinícola. Nenhuma neve.

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