Querido Diário,
eu tento me esconder, eu forjo um mistério, e termino demais, vomitando a mim mesma, sobre meu dia, o que mergulhei na xícara de café, o arroz coalhado lembrando purê, me repito, me cito, me escarro, me tanto, paragrafeio;
tento ficar triste, fazer beiço, distante, não respondo mensagens, viro noite fumando plena crise de asma e bebendo Whisky em quarta feira, o gelo dura nem 3 minutos no copo, deixo tocar Pavana de Ravel, chego tarde no trabalho no dia seguinte, e fracassadamente me sinto alegre;
não sei se é o calor do Rio de Janeiro que sabota e cutuca a introspecção, que quando se tem vontade de chorar dá uma coceira estranha nas costas molhadas, se puxa o sutiã apertado deixando marca, solta o elástico que dá um estalo na pele e, se se começa a rir, não se para mais;
quando vejo, mesmo já atrasado, acordo tarde e nem troco a cueca, faço festa com Totó, beijo minha gata, me enfio no ônibus quente porque Metrô vai demorar, no trabalho me xingam, me cospem, e, ainda cansada, só consigo escapar um sorriso otimista pro almoço que preparei porque carne grelhada é minha especialidade;
queria nascer com vocação pra ser triste, Diário.

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