"Diz que o céu tá verde, os cachos brancos, luar castanho
Que a água é raza, a conta atrasa, o cedo estranho
Afoga, engasga, bebe, tosse o comprimido
Abriga, aponta, fere, cuida, ontem à sós, domingo
Ainda a minha ré bemol como seu dó sustenido
Pena que piedade é peso e a paz um vinco
Troquei a caligrafia e a lapiseira zero cinco
Só que assim, bem digitado, não te faz diferença
Acendo um incenso, lembrei agora que hoje é terça
Qualquer dias desses nós vamos salvar o mundo
E se o problema é esse, é melhor mudar de assunto
(...)
Saltar de paraquedas, descolar as nossas juntas
Que qualquer dia esse quarto vai deixar de ser um canto
Qualquer dia o dia vem e verde o seu o meu balanço
Almoçar, ralar na escada, esconderijo o seu terraço
Mas se o problema é meu, muda a marca do seu queijo
Quebra prato, lua, perde até o vão da minha chave
Me pede goiabada, lambe o beiço e ri que eu vejo
O buraco do sofá que esconde a vida sem verdade
Acaba a boca, vou ser sincero, me ser defunto
Qualquer dia desses nós vamos mudar de assunto
E se o problema é esse, vamos só salvar o mundo."
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Dois p'ras Oito
─ Então machuca. Vai, fura, fere. Mata;
─ Gente, pra que tanto drama?
─ Brincadeira, mas vai, pode morder
─ Perdi a vontade
─ Tudo bem
─ Esses dias sonhei que você tava lá em casa, pelada na minha cama, me esperando voltar do trabalho
─ Logo você que diz que não sonha com sexo
─ Pois é, mas não transávamos, eu sentava na beira da cama, pegava um copo de café...
─ Logo você que não bebe café à noite
─ Pois é, é, eu pegava um copo de café, te oferecia, você recusava, daí eu sentava quase em cima da sua perna e ligava a TV, tava passando alguma coisa do Woody Allen; não era Woody Allen, digo, nada que eu possa associar assim de cara, mas pela estética, estilo, era, e perguntava se você já tinha assistido aquele filme, e você dizia que sim, que era bom mas não se comparava com os trabalhos antigos e mais engraçados dele
─ E a gente não transava depois?
─ Não. Na verdade eu acordei depois dessa cena. Não, pera, antes eu tive um outro sonho, tinha uns monstros que evoluíam e/
─ Será que a gente é gay?
─ Acho que não.
─ Por quê?
─ Porque sim; sabe, esse último final semana saímos eu, Beta, Ricardo e Olívia. Ricardo terminou namoro com o Douglas outro dia, né? Lá depois da trigésima vodka com limonada até pensei em pedir pra ele ficar comigo, sabe, como experimento antropológico?
─ E por que você não pediu?
─ Porque sei lá, achei a ideia engraçada, interessante, mas desisti. Acabei me arrumando com uma garota lá. No final das contas foi até melhor, acho que o Ricardo não ia levar na boa assim a situação
─ Por quê?
─ Sei lá, eu acho ele meio careta, você não acha? Aquelas opiniões sobre maconha, cigarro, monogamia... Ele, apesar de gay, nem é tão moderninho assim
─ Não entendo porque uma coisa necessariamente precisa ter a ver com a outra
─ É, não tem. 'Cabou o maço.
─"Cabou" não, comprei hoje.
─ Então esse é o velho, olha
─ É, tem outro ali na bolsa. Pera.
─ Vai destrancar a faculdade?
─ Não sei, acho que sim. Tenho esse semestre praticamente livre. Talvez destranque, talvez comece a fazer pilates e um outro curso de outra coisa
─ Que coisa, for instance?
─ Francês, coreano...
─ E lá tem curso de coreano no Rio de Janeiro?
─ Nada, só em São Paulo. Mas é só possibilidade
─ Coreano por quê? Se inspirou na atual cena de música pop/
─ Claro que não. Acho interessante a cultura. Provavelmente vou desistir antes de qualquer coisa, assim como desisti de mandarim ou japonês
─ Decorar dois mil carácteres da noite pro dia não é fácil pra ninguém
─ Não, não é
─ Quantas vezes você chutaria que falamos a palavra "não" hoje?
─ Adorei a pergunta. Não faço ideia. Opa, mais um. Sei lá, são oito da noite... falamos umas 50 vezes?
─ Li uma pesquisa esses dias que aponta que as palavras mais ditas por 70% dos brasileiros homens é "bunda" e pelas mulheres é "não". Dizemos elas umas 70 vezes por dia mais ou menos
─ Você inventou essa estatística agora
─ Sim, inventei. Vamos casar quando?
─ Nunca, já te falei. No máximo, no máximo podemos ser é amantes
─ Certo
─ Quem estava falando agora? Quem está falando agora?
─ 'Faço ideia, perdi a conta dos tracinhos
─ Eu também.
─ Evitei falar a palavra "n...", você reparou?
─ Sim. Pára de botar ponto onde não tem!
─ "Pára" não leva mais acento. Opa, mais uma vez a palavra maldita. Literalmente, mal-dita...
─ Sabia que eu te amo? Sabia que eu acho que tô com piolho?
─ Sai daqui então
─ Brincadeira
─ Claro, risos, tem sorvete ainda na geladeira?
─ Tem, napolitano, que você odeia
─ Já te falei que o que eu odeio é passas ao rum. Napolitano eu só não gosto. Tem uma certa diferença entre gostar e odiar, sabe?
─ Sei. Me faz massagem quando voltar?
─ Aonde?
─ Nos pés
─ Lavou essa porra hoje?
─ Até que sim
─ Vou pensar no seu caso e já volto.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Quase Grato
Obrigado pelos cantos
Obrigado pelos gritos
Obrigado por seu sangue
e pelos sorrisos
Obrigado pela noite
Pela luz poente
Por cada átomo de oxigênio
e pelo absorvente
Obrigado pelos dentes
Obrigado pelas cicatrizes
Obrigado pelos beijos
Transas, abraços ou atrizes
Obrigado pelo cigarro
Outra vez, obrigado pelo cigarro
Pelo terremoto de toda vez que anoitece
Pel'os seus erros
Obrigado por não me emprestar seu carro
E por ter passado no supermercado
Obrigado por não me agradecer
Obrigado por estar aqui
Por entender que quando peço silêncio
Quero Carnaval sem rim
Por todo o amor que faz quando se pedra
Em mim.
Obrigado pelos gritos
Obrigado por seu sangue
e pelos sorrisos
Obrigado pela noite
Pela luz poente
Por cada átomo de oxigênio
e pelo absorvente
Obrigado pelos dentes
Obrigado pelas cicatrizes
Obrigado pelos beijos
Transas, abraços ou atrizes
Obrigado pelo cigarro
Outra vez, obrigado pelo cigarro
Pelo terremoto de toda vez que anoitece
Pel'os seus erros
Obrigado por não me emprestar seu carro
E por ter passado no supermercado
Obrigado por não me agradecer
Obrigado por estar aqui
Por entender que quando peço silêncio
Quero Carnaval sem rim
Por todo o amor que faz quando se pedra
Em mim.
Poema no Chão
Hoje é um belo dia p'ra se plantar cebolas. P'ra escrever um poema a dedo na beira d'água da praia ou no guardanapo que veio sobrando do fast food. Hoje é um dia bom para se tirar férias ou aprender a tocar trombone. Um momento ideal para inventar segredos ou uma receita de bolo de cenoura com mel. A hora certa para comer torrone. E comer paçoca. De escrever outro poema no verso da fatura vencida do cartão de crédito.
Hoje é meu dia do ano favorito para pedir desculpas. Então aproveito: me perdoa. O céu está mais p'ra cinza, tem nada de bom p'ra comer na geladeira, o dipirona abaixou a febre que já levantou de novo e voltou a esquentar; mas, me perdoa. Pela pressa, pela tosse, pelo susto, por lavar suas roupas sem amaciante. Hoje é meu dia favorito para pedir desculpas; amanhã também será. Outra data igualmente útil para se beber suco de laranja e sentir saudade. De pegar uma nova doença, ser diagnosticado em estado terminal e sarar a tempo de ver o pôr-do-Sol do Arpoador.
Hoje vou tirar o poema que você me deu do chão e guardar. Descascar cebolas e chorar. Ver você brincando e rindo no balanço do parque e chorar ainda pelas cebolas. Encontrar joaninhas perdidas no xadrez da toalha do piquenique. Qual foi a última vez que tínhamos visto joaninhas? ─ Hoje.
Achismos
Chega aqui e me esquece
e me aquece
e seja o que for saber
não vá saber
vai, disfarça bem
sai desenterra
a noite inteira
espera, que a pressa
é passageira
(assim como somos nós dois)
e o que eu soube não foi
o qu'eu queria saber
triste sorte
amargo corte
isso de saber demais
chega aqui e me aquece
(que isso) nos engrandece
e seja o que for saber
não vá saber
vai, disfarça bem
vai, disfarça e vem.
e me aquece
e seja o que for saber
não vá saber
vai, disfarça bem
sai desenterra
a noite inteira
espera, que a pressa
é passageira
(assim como somos nós dois)
e o que eu soube não foi
o qu'eu queria saber
triste sorte
amargo corte
isso de saber demais
chega aqui e me aquece
(que isso) nos engrandece
e seja o que for saber
não vá saber
vai, disfarça bem
vai, disfarça e vem.
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