─ Então machuca. Vai, fura, fere. Mata;
─ Gente, pra que tanto drama?
─ Brincadeira, mas vai, pode morder
─ Perdi a vontade
─ Tudo bem
─ Esses dias sonhei que você tava lá em casa, pelada na minha cama, me esperando voltar do trabalho
─ Logo você que diz que não sonha com sexo
─ Pois é, mas não transávamos, eu sentava na beira da cama, pegava um copo de café...
─ Logo você que não bebe café à noite
─ Pois é, é, eu pegava um copo de café, te oferecia, você recusava, daí eu sentava quase em cima da sua perna e ligava a TV, tava passando alguma coisa do Woody Allen; não era Woody Allen, digo, nada que eu possa associar assim de cara, mas pela estética, estilo, era, e perguntava se você já tinha assistido aquele filme, e você dizia que sim, que era bom mas não se comparava com os trabalhos antigos e mais engraçados dele
─ E a gente não transava depois?
─ Não. Na verdade eu acordei depois dessa cena. Não, pera, antes eu tive um outro sonho, tinha uns monstros que evoluíam e/
─ Será que a gente é gay?
─ Acho que não.
─ Por quê?
─ Porque sim; sabe, esse último final semana saímos eu, Beta, Ricardo e Olívia. Ricardo terminou namoro com o Douglas outro dia, né? Lá depois da trigésima vodka com limonada até pensei em pedir pra ele ficar comigo, sabe, como experimento antropológico?
─ E por que você não pediu?
─ Porque sei lá, achei a ideia engraçada, interessante, mas desisti. Acabei me arrumando com uma garota lá. No final das contas foi até melhor, acho que o Ricardo não ia levar na boa assim a situação
─ Por quê?
─ Sei lá, eu acho ele meio careta, você não acha? Aquelas opiniões sobre maconha, cigarro, monogamia... Ele, apesar de gay, nem é tão moderninho assim
─ Não entendo porque uma coisa necessariamente precisa ter a ver com a outra
─ É, não tem. 'Cabou o maço.
─"Cabou" não, comprei hoje.
─ Então esse é o velho, olha
─ É, tem outro ali na bolsa. Pera.
─ Vai destrancar a faculdade?
─ Não sei, acho que sim. Tenho esse semestre praticamente livre. Talvez destranque, talvez comece a fazer pilates e um outro curso de outra coisa
─ Que coisa, for instance?
─ Francês, coreano...
─ E lá tem curso de coreano no Rio de Janeiro?
─ Nada, só em São Paulo. Mas é só possibilidade
─ Coreano por quê? Se inspirou na atual cena de música pop/
─ Claro que não. Acho interessante a cultura. Provavelmente vou desistir antes de qualquer coisa, assim como desisti de mandarim ou japonês
─ Decorar dois mil carácteres da noite pro dia não é fácil pra ninguém
─ Não, não é
─ Quantas vezes você chutaria que falamos a palavra "não" hoje?
─ Adorei a pergunta. Não faço ideia. Opa, mais um. Sei lá, são oito da noite... falamos umas 50 vezes?
─ Li uma pesquisa esses dias que aponta que as palavras mais ditas por 70% dos brasileiros homens é "bunda" e pelas mulheres é "não". Dizemos elas umas 70 vezes por dia mais ou menos
─ Você inventou essa estatística agora
─ Sim, inventei. Vamos casar quando?
─ Nunca, já te falei. No máximo, no máximo podemos ser é amantes
─ Certo
─ Quem estava falando agora? Quem está falando agora?
─ 'Faço ideia, perdi a conta dos tracinhos
─ Eu também.
─ Evitei falar a palavra "n...", você reparou?
─ Sim. Pára de botar ponto onde não tem!
─ "Pára" não leva mais acento. Opa, mais uma vez a palavra maldita. Literalmente, mal-dita...
─ Sabia que eu te amo? Sabia que eu acho que tô com piolho?
─ Sai daqui então
─ Brincadeira
─ Claro, risos, tem sorvete ainda na geladeira?
─ Tem, napolitano, que você odeia
─ Já te falei que o que eu odeio é passas ao rum. Napolitano eu só não gosto. Tem uma certa diferença entre gostar e odiar, sabe?
─ Sei. Me faz massagem quando voltar?
─ Aonde?
─ Nos pés
─ Lavou essa porra hoje?
─ Até que sim
─ Vou pensar no seu caso e já volto.

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