sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Micropoesia para Dispositivos Móveis: Vinte e Dois

Se eu pudesse ser canarinho eu seria. Quem sabe um dia. Assim como se eu pudesse não ter medo de qualquer barulho, seja saco plástico ou móvel estalando pela mudança de temperatura, eu não tinha e continuava andando no escuro. Mas eu não sou, não tenho, não posso. Quando era pequeno meus irmãos me perturbavam com alguns desses medos. Uma vez estava apertado para fazer um número dois e corri pra fazer mas eles me juraram que viram uma barata fazendo a água da privada de piscina. Eu duvidava e sentava do mesmo jeito. Daí insistiam me apressavam da porta para fazer o ato logo, que o objeto ia acertar a dita cuja e ela ia afundar de vez. Então eu ficava nervoso e não descia nada. E de curiosidade levantava, olhava e nada dela aparecer. Explicavam que ela havia mergulhado e devia estar nadando pelos canos, que eu devia terminar e descarregar a descarga. Fiquei uns 3 dias sem voltar pro banheiro. Se eu pudesse ser canarinho eu seria e cagava em qualquer canto, voando e ainda por cima cantando. 

Micropoesia para Dispositivos Móveis: Vinte e Um

Tomei café era sete, ou era seis? Sabe lá que hora vou pregar o olho. Embora hoje a menstruação dela desceu, alivio a mais, estresse a menos. E eu perguntando, tem certeza, certeza? E ela confirmando repetidamente que sim, como minha irmã e mãe também confirmavam que sim, sem demônio dentro do armário, sem Mula ou Curupira debaixo da cama. Não sei de onde tirava essas superstições, família, filhos, queria ter vários, cheguei a perguntar pralguma tia como se embalava nenéns nos braços, e pegava as bonecas velhas da irmã até que daí veio o dia que meu pai por trás me deu um tapa no rosto que o dedo indicador dele quase me entrou na vista. Só voltei a praticar o colo uns bons 15 anos depois quando um amigo da rua engravidou antes do que devia a namorada e veio mostrar pra gente a sua cria. Já não era recém nascido, devia ter um ano e meio, a criança ficou segundo e meio comigo e emendou a chorar, que nem o pai dava conta da cachoeira. Óbvio que nem o pai, o bebê ficou com a mãe, naquela tarde em diante, o casal nem chegou a casar, casar.  

O teto descascando, a noite maldita, essa angústia escrota que só sabe se contorcer lá da boca do estômago. As manhãs tem ou tinham uma gota de alegria, esperança, de canção mid-tempo em sol ou dó maior, mas acho que era só efeito do açúcar do Sucrilhos no sangue. Uma sensação de que se podia fazer algo que prestasse antes que o dia acabasse, como bater bola e ficar duas horas e meia assistindo animações. Mas isso quando tu tem quase 30 é balela e depois das seis da tarde cai a ficha e bate aquela bad, que nem o jantar de qualquer merda apressada e nem a programação pirata da luz da tela de um dispositivo móvel ou imóvel saciam. Aliás, nenhum conhecido da minha geração assiste mais a Globo mas a rotina é a mesma, mudou só quem recebe os royalities de audiência. No mais, até o escuro é o mesmo, e essa certeza de que mais um dia nada se fez que mudasse! "Mas que mudasse o quê?", uma gota inquisidora que é outra parte minha mesma me retruca. Ah! Que mudasse o ventilador escolioso que insiste em tombar cada vez que faz sua viagem giratória de 190 graus de volta. Que desse um jeito e uma revisão no currículo pra procurar outra coisa ou aquela lida no edital daquele concurso. Que desempoeirasse o violão e praticasse em caso da necessidade de viver de música na rua Uruguaiana ou Largo da Carioca.

Às vezes penso que definitivamente preciso tentar viver um pouco mais como a galera dos anos 50 vivia. Menos noiado, menos conectado, só que pagando os mesmos salários para homens e mulheres e sem uma média de 5 filhos por família. Acho que por isso inventaram a cerveja: para distrair esses e outros pequenos fracassos diários. Somos uma geração de alcoólatras conformados porque tem muita droga pior por aí. Tipo cocaína. Tipo Coca-cola. O café inventaram para os idiotas como eu beberem na hora e na quantidade errada pra em seguida perderem sono e alegria demais pensando as próprias úlceras. Nessas horas geralmente nosso universo amostral se restringe da cabeça à ponta dos dedos e isso já causa bastante estrago.  

Micropoesia para Dispositivos Móveis: Vinte

Ia digitar "balde" mas o corretor automático do dispositivo móvel me corrigiu "baile"
BAILE
Considerando-se a sexta-feira,
concluo que este logaritmo é mais poeta e boêmio do que eu.