sábado, 22 de agosto de 2015

Micropoesia para Dispositivos Móveis: Dezoito (ou "Breu azul")

A conta atrasada
Manhã atrasada
Eu vivo de sombra
Que me cortem a luz
Decoro os escombros
Com as mãos, breu azul
Perfumei de pólvora
Que sê contra a regra
Cansei de esperar
O mundo acabar
Acabou o fósforo
Acabou a paz
A bolha de pus
Dourada na testa
Cansado do ódio
E de reagir
Queria um poema
Escrevo um dilema
Eu quase não imploro
Eu quase não insisto

Vê aquele caderno
Com o Hino no verso?
Acabaram as folhas
Fogueira passada
Quero outra canção
Quero outra bandeira
Preciso demais
De mais desespero
Eu quase não insisto
Eu quase não imploro
Quase não repito
As mesmas palavras
Gravadas em verso
Te odeio, te amo
Me deixa rugir
Bem quieto em meu canto
Quem ia acordar
Se isso fosse um canto?

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Micropoesia para Dispositivos Móveis Dezesseis

Margareth vibrou e vibrou com a nova mensagem mas era publicidade ao invés de amor. Mirou entediada de banda a barba mal-feita duas fileiras à frente e à esquerda. Prendeu a atenção, pensou que era tesão. Mas tinha um sorriso esquisito quando virou de lado e o que cortou o barato. O sorriso esquisito era do Caio, que riu da animação em três dê na televisão, onde um boneco punha no outro uma boia pois com ela ambos evitariam se afogar e achou graça da desgraça simulada. Percebeu que um rapaz moreno com rabo de cavalo, ao contrário de Margô, que havia cortado curto na semana, havia gostado do riso e sorria de volta e pensou consigo mesmo minha nossa nunca tinha visto um marmanjo tão feio assim e que nem se aparasse a juba e tivesse uns 20 quilos a menos daria. Percebendo-se rejeitado, Hugo, que nunca entendeu direito porque gosta de olhar fixamente às vezes paro o rosto de rapazes aleatórios em coletivos públicos, virou a cabeça e começou a olhar pro nada.

O seu nada, porém, apontava para Cintia, que era de fato muito bonita e pensou que o cara esquisito de cara estranha estava sendo indiscreto em disfarçar sua atração, Então resolveu focar na baía que se mexia na janela ao lado e checar do que falavam no grupo virtual da família. O Rio de Janeiro se aproximando lembrou do horário de almoço e Cintia começou a pensar no que ia comer, tanto que acabou abrindo seu sorriso particular. Quem notou esse foi Taís, que voltava pra casa depois de uma aula cancelada mais cedo e de frustrada por ter gastado passagem, dinheiro e tempo, se sentiu um pouco redimida por ver alguém tão bela sorrindo por qualquer motivo fosse. Cintia olhou de volta e gostou de olhar pra Taís. Hugo havia mudado o ângulo do seu nada e não podia reparar. Caio só via a mesma linha do tempo no celular, repetida de horas mais cedo porque seu serviço três gê havia sido cortado por falta de crédito. O celular de Margareth descarregou e ela se flagrou prestando atenção ao redor. Tanto que esbarrou na sensação de que trocaria o namorado escritor pelo funcionário das barcas (seria um marinheiro?) que atracava agora a corda do laço gigante no pier da Praça XV. Sem a mesma sorte, pois seus aparelhos telefônicos ainda se encontravam repletos de bateria, Taís e Cintia nunca mais se viram novamente. 

Micropoesia para Dispositivos Móveis: Dezessete

A inspiração me acontece nas coisas mais inúteis. Na coceira repentina de um nariz agora, sinusite, nunca tive sinusite na vida e agora depois de velho. Aliás, espirrar já foi melhor. Mudava a circulação sanguínea da cabeça, quase que dava uma onda que ia durar meio segundo. Hoje espirro e vem agarrada uma tosse única, seca, parece um soco no tórax. Amava resfriar. Já amei também com mais técnica e método. Acho que toda criança é uma especialista em exercitar o verbo amar e posteriormente conforme a velhice a gente deve se esforçar para pelo menos não passar a linha do amadorismo e cair na mediocridade dessa arte. Eu mesmo me irritei por uma estupidez esses dias. O rapaz queria saber se o ônibus cujo ponto final é na Candelária passaria na Uruguaiana. Se estávamos ambos na Passarela 6 da Avenida Brasil sentido Centro a resposta era óbvia que sim, caralhos. Mas foi uma grosseria interna que calei e guardei pra ziguezaguear no estômago. Na boa maioria das vezes um ato de gentileza é a melhor saída. Vê como me inspiro no supérfluo? Quer coisa mais descartável que gastar tantos caracteres arquitetando um conselho?