domingo, 29 de setembro de 2013

Abraço

Estou aqui, irmãos, dá licença, senhores, dá licença, estou aqui, irmãos, pra falar, pra falar do evangelho do Senhor, tá entendendo? Muitas vezes, a gente acorda de manhã, e acorda saudável, com todas as perna, com todos os braço, co'saúde, co's filho bem, indo pra escola, e a gente nem para, senhores, irmãos, a gente nem para agradecer ao Senhor pela prosperidade em nossa vida. Muitas vezes, irmãos, senhores, desculpa o incômodo na viagem, mas é preciso falar no nosso Senhor, o moço, o moço aí, meu príncipe, por favor, tire o fone de ouvido pra escutar a palavra, porque não é sempre, tá entendendo, não é sempre que o Senhor bate na nossa porta querendo dar o seu amor, espalhar sua palavra e vocês precisa entender.  A salvação, senhores, desculpa, mas é preciso agradecer, sim, ao nosso Pai, por ter dois braço, duas perna, uma cabeça, ter todos os dedo, agradecer por poder trabalhar e agradecer, se tiver desempregado, por ter saúde pra procurar o emprego, tá entendendo, meu príncipe, minha princesa? E se num tiver saúde, e nem emprego, se tiver sem braço, sem perna, tem que agradecer e pedir, sim, por estar vivo, então, são tantas benção que a gente pode agradecer, que a gente deve, meu príncipe, princesa. Porque quem tem o amor do Pai tudo suporta, tudo crê, e espera, e pode esperar, e crer, na volta d'Ele. Isso tá no Coríntios, versículo 13, tá lá. Também porque se você tá casado, se você achou uma mulher, isso é visto com muitos bons olho aos olhos do Senhor, o Pai. Se você achou tua princesa, o teu amor, o teu príncipe, isso é visto com bons olhos, porque, já dizia nos Provérbios, versículo 18, que quem encontra uma esposa, encontra algo muito bom, encontra as benção do Senhor. E a gente precisa louvar, amar, mostrar o nosso amor pro Senhor, que ele tá voltando, e ele tá voltando. Se você, e se você, meu príncipe, minha princesa, tá ai se deitando, entende, se deitando com gente do mesmo sexo, se você tá ai transando, homem com homem, mulher com mulher, mas se você, assim, se você não tá matando, não tá fazendo mal a ninguém, o Pai, o senhor, sabe, ele vai te perdoar. Que que adianta, entende, entrar na igreja, subir no ônibus, pregar a palavra do Senhor pra tanta gente, perturbar a viagem dos outro, porque, sabe, se você só sabe jurar o mal, pregar o mal às pessoa, porque não pode. Quem ama, ama, e se você aceita o senhor, e se tu faz o bem, minha princesa, meu príncipe, obrigado por ter tirado o fone, se você aceita, se você ama, você faz bem aos olhos do Pai. Tudo o que Deus faz durará eternamente, Eclesiastes, versículo 3. É essa mensagem que eu queria deixar pros senhores passageiros, e deixar aqui o meu bilhetinho, com uns trecho da Bíblia e aqui tem  também uma balinha de Tamarindo, pra adocicar sua viagem. Mas não precisa dar dinheiro não, porque ninguém é obrigado, se quiser dar uma contribuição, o Pai agradece, minhas criança lá em casa agradece também. E fica aí meu desejo de bom fim de semana. Tenham os senhores uma boa volta pros seus lares. hoje é sexta, muita gente vai sair aí, pra beber, o que o Senhor não gosta, mas, vocês sabe, que até ele bebia vinho, então, no final o Pai perdoa. Deu no jornal que o cometa Halley tá voltando. Não dá pra ver, mas o céu tá cheio de estrela. São muitas as glórias do Senhor. Então, se for dirigir, toma cuidado, bebe pouco, se for brigar, não briga, que o Pai tá entre nós, e a gente precisa se cuidar, né, gente? O Senhor está voltando. Se cuida, meu príncipe, minha princesa, fica aí na paz, tá entendendo, a paz e o amor consola. Felicidade. Bom sábado, bom domingo. Se Deus quiser minha mulher volta pra casa já-já. Piloto, ô Piloto, pode me deixar aí depois desse sinal? Deus te abençoe. Abraço. 

sábado, 28 de setembro de 2013

Metáfora

Uma aranha pequena estava na parede do banheiro. Enquanto fazia minhas necessidades ela acabou me chamando atenção devido o seu ziguezague a caminho do vidro do box. Mais perto pude notar que ela era perneta ou o termo que valha para aracnídeos. Do original total de 8 patas, ela possuía apenas 5, dentre estas uma ainda me parecia comida pela metade. Comovi-me com a situação e tentei ajudá-la, tentando resgatá-la com um papel higiênico, sem ter a mínima ideia do que de fato eu viria a fazer depois disso. Quando se aproximava do papel, após desviar nas duas primeiras tentativas, ela subiu apressadamente pelo meu braço. Eu, assustado, com a outra mão a esmaguei. Era dessas aranhas de pernas magras, que só comem mosquito e seus próprios parentes, que normalmente não metem medo em ninguém. Agora, sob o sentimento fúnebre que me trouxe seu viscoso cadáver, entendo que ela era uma espécie especial de animal chamada "metáfora." Estas criaturas foram criadas por Deus para habitarem as casas dos seres humanos e os estimular a refletir sobre sua própria existência, reavaliar suas decisões e objetivos, passarem a amar mais quantitativa e qualitativamente melhor o seu próximo. Mas esta benção foi morta pelas minhas mãos, por conta de um susto qualquer. E eu ainda tive nojo de sua gosma fluída, lavando minha mão repetidas vezes, mesmo antes de encerrar minhas necessidades primárias. Toda minha intenção em resgatá-la de seu martírio se findou fútil e pretensiosa. Senti-me a caricatura viva do Renato Aragão em pessoa. 

Nasal

O seu nariz
Parece o bico de um tucano
Mas eu sempre gostei de tucanos e aves em geral
(Esclareço por meio deste parêntese que minhas tendências políticas beiram ao anarquismo, estando, eu, muito mais voltado para as cores vermelho e preto.)

(Como dizia.)
O seu nariz,
é lindo
quero beijá-lo
esquimó
com o meu nariz
quero apertar
quero morder
e quer saber?
Roubei pra mim.
Não gostou?
Vem buscar.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Ofego (ou Monólogo em Areia e Dedo: Dezoito)

Ofego, engasgo. Acordo ensopada, me viro o relógio, são três e meia da manhã. Estico meu braço mas não te alcanço. Você não está aqui, o que é óbvio. Parece que você se esqueceu um pouco na minha pele, que me deixou crescer a barriga. Sinto sua falta quanto ouço aquele blues que descobrimos juntos, aquele que a Nina faz, que tem até filme. Quando te pegava, apertava e dançava pela sala, com as cortinas escancaradas para os vizinhos notarem e terem o que comentar durante o jantar. Sinto você quando estou no ponto esperando um ônibus. Quando o silêncio me pega pela garganta. Quando o Rio de Janeiro brinca de inverno. Quando volto, à noite, dos lugares onde você não estava. Quando apago as luzes, por analogia. Quando tenho de ir ao banheiro sozinha. Quando acendo um bom livro. Quando até, como agora, sento e escrevo qualquer coisa, me faz falta seus contrapontos, palpites, verdades, que eu nunca cri, repentes. Suas rimas. Te sinto quando fecho as janelas e o seu cheiro não empesteia meu quarto. Falta o tato de te tocar, amassar, lamber, paladar. Falta a careta que os outros fazem, inconformados com nossa paz. Você, aqui, me mata, angustia, me dá câncer. Mas sinto sua falta quando mato as aulas de Yoga. Depois que faço sexo com outras pessoas. Queria você aqui, agora, na pinha palma da mão ou atrás da orelha. Queria você encravado na minha boca, conformado, te lambuzar de batom. Queria te queimar lentamente e afogar este fogo em cada célula do meu pulmão, que te beberia, e beberia e engasgaria.

Ofego, engasgo. Acordo ensopada, me viro o relógio, já são quatro e meia. Estico meu braço no escuro e me encontro na cabeceira. Esbarro sem intenção na secretária, a eletrônica, que repete a mensagem. Pouco me importa como vai sua vida. De que adianta pedir desculpas se já fez o que fez? Se fodam sua esposa, seus filhos, e como? Como se atreveu a parar de fumar? Que bom isso traz? Era nosso alicerce geral, como nos conhecemos, o isqueiro rosa, a piada frutinha mas como, quando? 

Ofego, engasgo. Acordo ereta, calcinha molhada, me viro o relógio, já são nove e meia. Estou atrasada pro trabalho de novo. Ainda bem que estou desempregada. Alivio a tensão na cama mesmo e pego no sono de novo. Fantasio com a nossa viagem pro interior do Pará, onde era impossível achar um baseado. Onde transamos sob o Sertão e parafraseávamos trechos fictícios de Guimarães Rosa, fictícios pois nós nunca tivemos sucesso em terminar sequer um livro dele. 

Ofego, engasgo, me viro a casa, já são meio dia. Parece que invadiram meu quarto e levaram os móveis. Mas o caminhão de mudança ainda não chegou. O teto me olha preguiçoso, cético.

Ofego, engasgo, me viro o dia, já tem meia casa. Hoje o dia passou voando. Visto o coturno, saio sem chave, deixo a porta aberta. O teto cansou de me ver ofegar e engasgar.

Ofego, engasgo, me viro a casca, tem sangue no lençol. Alívio, é o batom. Não sei que dia é mas pelo samba dos vizinhos deve ser Domingo.

Ofego, engasgo, me viro a casaca, a folhinha atrás da porta confirma o Domingo. Acabou o Cigarro. Amanhã é feriado, tá tudo fechado.

A sinusite dá trégua, ofego menos. Engasgo com um pedaço de unha. Acabou o calendário.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Verão nº 02

Vestido amarelo me dá tesão e vontade de comer pizza. Sua calcinha é da mesma cor? Mesmo na praia eu não me arranco a camisa, vai que ela repara na minha barriga, nas minhas estrias?

domingo, 22 de setembro de 2013

Morena, Moreno

Moreno, Morena
para uns, eufemismo
de Negro, de Negra
superlativo táctil
que me importa
queria ter te amar

Moreno, Morena
queimar tua pele
te desbravar
debaixo da roupa
na epiderme
torrar
o contraste do Sol

Morena, Moreno
para uns os seus olhos
castanhos ou negros
valem menos
que ardósias,
que abacates ou anis
mas quem te quero despir
castanho, castanha
pro inferno com a lógica
caucasiana
quem prefere tua casca
pouco se fode com a estética valorativa que exclui
que quem prefere tua cama
muito se esbalda por isso
sê fálico ou vulva

Morena ou Moreno
que me agarra pela nuca
que me crava à unha os pelos
meus mosaicos
meus arcanjos, minhas anjas
são à tua semelhança
teu corpo, composição
molhado ou molhada
que pode cair chuva, geada:
há de ser quente
de te derreter manteiga
de te esfregar no pão
de me esfarelar pelo chão do quarto

Morena, Moreno
havemos de renascer
nós quatro.

sábado, 21 de setembro de 2013

Ovos

─ Queria comer uma coisa doce. Você ainda tem crises de identidade? Tipo "o que eu sou, o que eu quero, o que eu pretendo passar pras pessoas?"
─ Até que não. Agora é mais "eu sou uma merda, o que quero eu não tenho, o que pretendia passar já passou." Deixa que eu te faço uma gemada
─ Mas não põe muito açúcar. Às vezes você não acha que o seu tempo tá acabando?
─ Depois dos 30 eu penso nisso. Também não gosto de muito açúcar. 

Primavera

Um catador de latas, aqui no começo da Rua dos Andradas com o Camelódromo, passou por mim e, querendo me chamar atenção, usou o nome "John Lennon" como vocativo. Desabafou que estava com calor "pra caralho", me pediu um isqueiro, disse que hoje era dia 21, que estava por começar o Equinócio da Primavera. Confessou rapidamente enquanto acendia o baseado que tinha uma prima chamada Vera e que ela batia nele, quando criança, com um varapau. E que ele gostava de correr dela assim: e assim o resto da história não pude ouvir porque não ia seguir correndo um estranho nessas circunstâncias. Subiu nessa pressa a Rua Uruguaiana mas sem derrubar nenhuma lata do saco plástico enorme que carregava. Observação: sim, me devolveu o isqueiro antes de partir.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Parto da Macieira

Esse lençol está uma catinga. No alto do teto, nas esquinas das paredes, teias de aranha acumuladas, quando não as próprias. Que dia é hoje? Primeiro? Setembro tem 31 dias? Não, 30. É dia primeiro. Esse lençol amarelo e lembro como ontem seu passado branco. Um lado de mim que não pesa ou pondera está pensando em levantar, preparar o café, o misto quente ou o que tiver sobrado na geladeira e trazer aqui de volta para cama. Embaixo daquela pilha de roupa costumava haver um poltrona. Deve haver ainda ─ não tenho certeza. Reconheci a nuca dela de longe e cheguei cheirando. De longe, é claro. Comentei da saudade, ela concordou. A mureta da Urca estava especialmente azul hoje. A câmera lomográfica que ela tinha na bolsa testemunhou tudo: disse que o mundo podia ter o tempo inteiro aquela estética. Começamos falando de Heidegger, da cena musical/cultural paulista, do nosso repúdio à militância de determinados partidos de esquerda. 3 garrafas de cerveja depois falávamos de nosso apreço por biscoitos de gergelim e sobre a dúvida jamais sanada, afinal, "que animal era o Praga?", do Xou da Xuxa? Foi quando reconheci sua nuca novamente. Dessa vez mais perto, mordi. Mordi também seu pescoço e levei embora até minha casa. Não estou escrevendo tão rápido quanto penso. Ou quanto as coisas aconteceram. Percebi que vinha da praia, enrolada numa canga tropical. Odiava o adjetivo "étnico" atribuído à moda com influências africanas recentemente. Comentou que morria de vontade de saltar de parapentes. E eu de cair de paraquedas. Na cintura dela. O tufo empoeirado do meu teto balança agora com o vento. Como moro próximo ao litoral, penso que ele é constituído, também, por diversos grãos de areia. Quem sabe um deles veio diretamente de uma rua do Nepal. Antes de me estender por esse caminho sou interrompido. Ela tosse, ajeita o cabelo e vira o corpo para o lado. Pergunto para mim se ela reparou que tem três pratos de comida sujos na beira da janela. Sua calcinha amarela foi parar em cima do ventilador. Já deve fazer tempo desde o perfume, mas ela ainda tem seu cheiro. Levanto para preparar café. O relógio da Central do Brasil marca 8 e meia. Ele sempre se atrasa. Na mureta ela me disse sobre a dificuldade de achar sapatilhas de seu tamanho. Me confessou que sua cerveja favorita era justamente a que bebíamos. Demonstrou não ter medo de barata. Eu confessei já ter filhos, ser divorciado. Confessei minha ablepsifobia. Meu fanatismo pela Maria Bethânia. Ela me disse que era homem, pelo menos por enquanto. Confessei que eu também. Minha cadela adorou sua visita, matando uma saudade como se não a visse desde filhote. Quebramos o abajur. Bebemos erva cidreira. Acabamos com um maço de Marlboro Branco. Estou levando o café com pão torrado ─ acabou o queijo e o presunto ─ para a cama. O feriado de Outubro vai cair logo Sábado. O retrato da minha filha deve ser o único objeto não empoeirado nesta casa.

Autópsia da Melancia

Obedece seu pai. Desce da cama. Doce só depois da janta. Fica de zagueiro. Só dessa vez. Você é bonito de rosto. "Cu" não leva acento. Cuidado com esse peso. Cuidado com a língua. Cuidado que, pra isso parecer um coração, tem que tatuar direito. Para de fumar. Bebe menos café. Se alimenta melhor.  Se forma logo. Bom que dá pra prestar concurso público. Isso dá câncer. Bate na madeira. Não fala assim com sua mãe. Não goza dentro. Terça-feira tem entrevista no Centro. Alice ligou, pediu pra você retornar. Leva o guarda-chuva. Pelo visto vai chover. Beija a boca dela. Apara a barba. Vai pelo Santa Bárbara pra evitar o trânsito. Por que você não faz como sua irmã? Você vai morrer cedo. História da Arte não dá futuro.  Do que que você tá com medo? Quando você vem ver os seus sobrinhos? Acho que tô grávida. Começou a chover. Você está sendo desligado da empresa. Vai se chamar "Magda". Alarme falso. Como acha que esse brinco fica em mim? Esse vestido te cai bem. Parece que você vai ficar careca. Teatro não dá dinheiro. Mão na cabeça e cala boca. Me fode. Já esqueci. Aham. Não. Sim. Massageia aqui. Corre que deu merda. Beija a boca dele. Você concorda com o conceito do paradigma da democracia moderna? Já pensou em ser um doador de órgãos?  Você definitivamente vai ficar careca. Quero te comer. A sociedade antecede a política. Acho que tô grávida mesmo dessa vez. Perdeu, perdeu. Quer um conselho? Te encontrei. Acha que eu tô velha pra passar a pintar o cabelo de vermelho? Ninguém vai descobrir. Marquei o pediatra pra semana que vem. Tio, você é muito legal. Por que Alice não veio? Passar batom nas horas vagas é super normal. Você acaba de ser promovido. Sua filha tá te chamando. Parece que aí vem outro. Não entra em pânico. Lembra quando a gente acreditava em cupido? Não esquece de deixar o carro no mecânico. Chupa. Pra que lado fica o sul? Até que você sabe sambar. Olha o tamanho da sua testa. Me leva no colo? Pai, o céu da boca também é azul?  

terça-feira, 17 de setembro de 2013

4 Certezas

vai dar tudo certo
¿Q?
errado nada dará, vá.



"nhom, nhom, nhom".
(onomatopeia que se faz quando se abraça alguém.)




(as rádios, AM e FM, confessam, no mesmo horário)
"Começa agora a Voz do Brasil."



(do item acima)
O tema de abertura d'O Guarani não tem culpa. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Ofega

Pois não
Eu estou tão cansado
quanto muitos Padres estão cansados
do sacerdócio
tão cansado quanto Vênus está
de ser confundida com uma Estrela ao anoitecer
cansado como as Rádios AM
falando sozinhas
como o pó do Giz
no sistema respiratório dos professores
do primário-ginasial
de pouco tempo atrás
cansado como a pilha de roupas no meu quarto
de seu êxodo diário entre poltrona-e-cama
como os meninos engraxates que/
não, os meninos engraxates estão mais cansados
do que eu
tanto quanto cansados estão
os motoristas de ônibus
de camisetas com o logo estampado
"Gentileza gera gentileza."

Mas não há ninguém tão cansado como
o cometa Halley está
de passar raspando pela Terra
de esperar o belo e cataclísmico dia
que vai acabar de vez com a humanidade.

domingo, 15 de setembro de 2013

25min

─ "A lagartixa da cozinha sempre me assusta quando eu acendo a luz e a encontro, estabanada, no canto da pia ou do fogão. Mas, depois do susto, vem o alívio de ser apenas uma lagartixa e não algo pior. Algo pior como um jacaré, um escorpião, uma ratazana ou, pior: um representante da Unicef pedindo caridade como os da Sete de Setembro. Ou como uma Testemunha de Jeová. Enfim. Quantos sustos se tem nessa vida seguidos de alívios assim? "É só piolho" quando podia ser caspa. "É só gases" quando podia estar grávida. Quantas fogueiras, lampiões causaram pequenos infartos quando acesos? Quantos corpos pelados espalhados pelos cômodos? Quantos retratos redescobertos? Quantos espelhos indiscretos? Quantos objetos foragidos retornando, pródigos, às gavetas? E, numa tentativa desesperada pra nos salvar do espanto, quantas lâmpadas já se queimaram?"
─ Gostei, muito bom. Também não gosto de lagartixas
─ Obrigado, mas não era bem isso que eu/
─ Faz de novo?
─ O quê? Quer que eu leia de novo o text/
─ Nãaao, faz de novo aquele negócio que você fez agora pouco...
─ Tá. 

Anos Dourados

Inveja branca negra mulata amarela.
Medo de paraquedas
de paraíso
de para-brisas
da utilização do hífen
no novo acordo ortográfico.

Espinhas. Góticos. Educação. Física. Dependência. Química. Cantina. Da. Serra. José Serra. Presidente. Sisos. Praia. Verão. Natal. Shoppings. Internet. Discada. Carteira. De. Trabalho. Serviço. Militar. Obrigatório. Voto. Obrigatório. Religião. Obrigatória. Vestibular. Obrigatório. CPF Obrigatório. Obrigatório, tudo o que for obrigatório.

Drama-drama-drama. Viver sem café ou cigarro. Ou shampoo anti-caspa. Pegar os pais transando. Crença na volta de um novo Messias. Crença em amor à primeira vista. A adolescência já foi tarde. Nada ficou.

Exceto essa vontade de reclamar de tudo,
Que é pra sempre. 

sábado, 14 de setembro de 2013

26min

─ A garota indiana chegou me mordendo a orelha. Estava rolando um cool-jazz-bossa-nova qualquer coisa com um atabaque-bongô misturado ao fundo e nosso planeta já tinha virado as costas pra estrela mais próxima daqui. Falando da mordida assim parece outro conto exótico-erótico-bukoviskiniano-qualquer coisa, mas se tratava só de uma aposta: quem acertasse, ou ficasse mais perto-perto, o horário que a apresentação da banda ali do Museu começaria a se apresentar poderia ter a orelha mordida por quem perdeu. Aproveitando-me do estado já levemente eufórico da menina, vide o álcool, foi uma ótima ideia, ninguém ia sair perdendo, no fim. Ela, do alto da metade de sua terceira década de vida, e traumatizada com a pontualidade carioca ─ vivera no Rio de Janeiro nos últimos 3 anos de então ─ apostou em meia hora de atraso. Jurava que o atraso era coisa de brasileiro, oposto cármico dos ingleses. Aliás, era de lá das Grã Betânia da vida, filha de imigrantes indianos, nascida em Birkenhead, Liverpool, sei lá. Sobre a aposta, me chamou de trapaceiro e avisou que ia buscar mais um drink, jornada que lhe custaria meia hora por conta da fila gigantesca. Encontrei outros dois rapazes do albergue, um turco bisneto de um ex-general do império do antigo império Otomano que tinha vindo pro Brasil aprender português após se apaixonar, também, por uma mineira. O outro era paulista, como eu, que eu conheci no café da manhã coletivo daquele mesmo dia ou do anterior. Outro empregado de escritório gastando o saldo do cartão de crédito na Bahia durante as férias. A Estrela terminava de se pôr, atrás da Baía de Todos os Santos, quando a banda emendou outro tema. O pianista tava tocando algum Noturno de Chopin com uma levada swingada, eu ia me jogar na pista que se formou ali na hora pra dançar, e foi isso. Deve ter demorado menos de meia hora, ela chegou e me mordeu a orelha, com força, e eu gritei de susto/ 
─ Caô
─ Pô, tô empolgado contando aqui a história e você me corta assim?
─ Porque é caô, vai dizer agora que comeu a indiana?
─ Tá, não transamos, mas trocamos uns beijos
─ Esse teu jeito de contar a história também, como se tivesse declamando um fado, sei lá, tu é pretencioso pra caraca, cara
─ Poxa, tu é meu amigo ou não é?
─ Sou, por isso tô te falando, essa história soa muito furada. Conta a verdade agora
─ Que verdade?
─ Que que você foi fazer na Bahia ano retrasado? Tu é rato da cidade, samba só pra não pagar de gringo e só quando vai pro Rio duas vezes ao ano ver tua família. Desembucha
─ Ah, cara. Mulher, né? Sempre
─ Sempre. Falando nisso, hoje tem Happy Hour marcado com as garotas. A Eduarda parece que vai
─ Será que agora sai?
─ Sai
─ Fechou, então
─ Aliás, eu dei uma lida no teu blog, essa palhaçada de dividir as histórias em "Atos" é uma puta palhaçada também, tá pensando que tá escrevendo o quê, opera?
─ Pô, cara...
─ Mas fora isso, tá bem maneiro o escrito, tu devia sair dessa porra aqui e lançar um livro
─ Como se fosse fácil
─ Eu mesmo um dia largo tudo e abro minha própria cervejaria. Tenho até fórmula. O segredo tá em tratar a cevada como gente, com amor
─ Acho que já vi essa história em algum filme
─ Também acho. 


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Post-its

Entrar no Parlamento como se invadisse uma piscina de bolinhas. Quebrar um protocolo como se cheirasse um livro fresco. Roubar um beijo como se saltasse de paraquedas. Chorar como se toma uma ducha quente após 12 horas de trabalho. Cantar Nina Simone como se granada de mão sem pino. Amar alguém como se corre atrás de um ônibus no Mergulhão da Praça XV.

O Pedido

─ Hoje eu sonhei que me joguei pela janela;
─ Que enquanto pairava no ar, o sol se punha, entrava e saía ano, nasciam meus filhos, meus cisos, e eu não envelhecia;
─ Mas quando atingia o chão, bom tempo depois, conforme meus ossos se espalhavam pelo concreto, finalmente, chegava o dia do meu aniversário;
─ Agora, morto, um ano mais velho, o meu crânio, quando parou de rolar pelo chão, ficara em frente a uma vela acesa, cravada em um bolo de fubá; o bolo tinha por trás de si um espelho, através do qual eu percebia que agora era uma caveira;
─ Com curiosa tranquilidade eu cantava parabéns e fazia um pedido;
─ Finda a canção, faltava-me fôlego para apagar a vela; tudo o que conseguia era puxar um fio de ar, que mais era o vento da rua soprando e ressoando pelos buracos dos olhos e ouvidos do meu crânio no chão, soando como assobio nos dentes que ainda restavam na altura da minha antiga boca;
─ Uma hora ventou mais forte, o assobio retumbou agudo e, finalmente, cessou da vela o fogo;
─ Já o pedido, pelo contrário, se realizou não só facilmente como logo em seguida: uma garoa fina caiu borrando o manuscrito no pedaço de parede branca bem ao lado; manuscrito escrito pelos ossos da minha mão que, enquanto isso tudo acontecia, não paravam de registrar os acontecimentos com um pedaço de tijolo partido.

27min: Ato I

Eu não sei tocar piano, então eu escrevo. Lá vamos nós de novo, escrever sobre escrever. Isso você chama de inspiração? Seria melhor arrumar essa mesa, tirar as teias de aranha do canto das paredes, do teto. Lavar roupa, lavar o banheiro, lavar as costas. Eu poderia estar vivendo, mas estou escrevendo. Eu poderia estar amando, mas estou escrevendo. Poderia estar roubando, matando, matando insetos, poderia estar beijando, beijando meus gatos que estão lá fora na chuva. Escrever sobre a chuva enquanto está chovendo, ótima ideia, poderia estar tomando os remédios que eu deveria ter ingerido horas atrás. Vamos, conte uma história, pense uma história. Início, meio, desenvolvimento, e fim. Você é bom com encerramentos, Codas, grand finales, vamos. Que história há pra contar, todas as histórias já foram contadas. Reconte e fim, pronto, allegro. Algo que já aconteceu, já enterrado, como as sementes de hortelã no quintal estão enterradas pelo cimento. Como as outras sementes de outras plantas cujo nome sei lá se molham de água e inventam sabe-se como de renascer do concreto e laçar seus galhos e folhas do sufoco ao ar livre. Estamos nós e elas 27 minutos mais velhos agora. Justifique o texto, alinhe, corrija as vírgulas, os acentos e conte o que tiver pra contar. Se for mais fácil cantar, cante, que seja, conjugue. Conjugar. Fevereiro, 2 de fevereiro, Iemanjá, dia primeiro, dia 15, e 5 meses depois seu aniversário. Conjugar que verbo, que verso. Vamos. Não sabemos tocar piano, então os dedos fingem talento e datilografam essas coisas. Datilografar é um verbo mais bonito que digitar. O silêncio quebra, o movimento da Sonata muda o arranjo, retoma o allegro moderato. Parece um filme em branco e preto, como o de Tom, Vinícius e Chico, só que é um filme, não um retrato. Cante, conte. Pra alguém algum fato não acontecido. 

Dobre o travesseiro pela metade, em dois. Isso, agora deite. Durma, porque amanhã às seis de novo. Sonhe e sonhe pouco, para ficar fácil de esquecer, beber café, tomar banho, sair e trabalhar. Isso, deixe me preparar o café. Ótimo, o gás acabou. Lembre de passar na distribuidora a caminho de casa na volta. Se vista, desça as escadas, a chuva para, deixe-se o guarda chuva em casa. Abra o dicionário para achar aquela palavra, esqueça a palavra que buscava distraído pela ilustração do mamoeiro, em uma página da letra M. Vá para o trabalho, a rua está alagada, um presente da chuva. Vire e faça a volta pela rua do Andradas, à sua esquerda. Olhe dos dois lados. Na verdade, de um lado só, o esquerdo novamente, a Marechal Floriano só tem uma mão agora. Pare no ponto certo, espere o ônibus, ótimo, pegue esse, cortará a Avenida Rio Branco direto e, então, Aterro. Em dois minutos estaremos lá. Ônibus quase vazio, o que é estranho pelo horário, talvez a chuva. A chuva, pare de falar dessa chuva, ela já passou. Temos 5 pessoas dentro do ônibus. Fale com todas elas. Duas são o motorista e a trocadora. Tarefa mais fácil, bom dia, motorista, bom dia, trocadora (ou cobradora?). No acento amarelo há uma senhora, diga bom dia pra ela também. Vamos, é fácil. Bom dia, senhora. Ela responde bom dia de volta. Ótimo, ganhe confiança, restam-lhe ainda 3 cumprimentos. Dois acentos azuis ocupados por um pai e sua filha. A filha está de pé, deve ter aprendido a ficar nesta posição há poucos meses. Do alto de seus, talvez, 80 centímetros, pula no acento. Diga bom dia pro seu pai, e cumprimente a filha, diga que ela está linda neste vestido vermelho bordado, e dê bom dia para a menina também. Bom dia, senhor, sua filha é linda. Ele me diz que não, não é minha filha, é minha irmã. Peça desculpas. Desculpas. Ele diz que não, tudo bem, retribui o bom dia. Diga que sua irmã é muito linda, e que ela terá um dia bom. Sua irmã é muito linda, parece que ela terá um dia bom. Ele agradece, e diz que ela terá sim, um ótimo dia, pois o acompanhará no trabalho. Faltou o bom dia da menina, diga. Bom dia, mocinha, se divirta no trabalho. Ela te olha com dois grandes olhos castanho-escuros. Seu irmão diz para ela retribuir bom dia, o que ela não faz, pois vira a cara para janela, que está fechada. Seu irmão insiste que ela retribua, mas diga que não é necessário, que criança é assim mesmo e deseje que eles passem bem. Não precisa, criança é assim mesmo, passem bem. Acene com a cabeça, siga adiante. A quinta pessoa dentro do veículo é uma moça. Aparentemente de sua faixa etária. Será um alvo mais difícil. Encerre este parágrafo. 

Ela está lendo um livro de Mario Vargas Llosa. Você nunca leu nada de Mario Vargas Llosa, puxar assunto a partir disso seria constrangedor. Então se cale. Sente no acento ao lado. Não, não do lado dela, parecerá um tarado ou psicopata, o ônibus está quase vazio. No outro, deixe o corredor entre vocês dois. Isso, vamos. Um bom dia. Vamos? Agora vai soar estranho, ela pensará que você tem um certo tipo de retardo mental. Você disse bom dia para todos os passageiros, o que diabos você tinha na cabeça? Não, só sente, fique calado. Você não é obrigado a dizer bom dia para ela também. Porque você passou a se referir a si mesmo em terceira pessoa? Pare, agora. Pronto. Diga bom dia pra ela. Não, melhor, pergunte se ela tem isqueiro. Isso não faz sentido, não se pode fumar no ônibus. O que ela irá pensar, que você quer roubá-la descaradamente? Roube-a, isso. Sei lá, só pergunte se ela está gostando do livro, parece estar na metade. Agora ela te olhou de volta, agora tem certeza que você é só mais um tarado. Não, você só entrou no ônibus disposto a falar com todos ali presentes. Porque, porque queria fugir da rotina, talvez. Você não tem más intenções. Ela linda. Você poderia ter más intenções com ela. Mas não tem, é só isso. Porque não, então? Posso simplesmente puxar assunto a partir disso. Pedir licença, e explicar exatamente isto, nestas palavras. Ela vai te achar maluco, mas antes maluco do que tarado. Isso, vamos. Sente no acento mais próximo ao corredor, ela não está pela janela, ficará mais próximo. Vamos. Bom dia. Ela olha de volta, parece incomodada, um pouco, de ter sido interrompida da leitura. Continue falando. Sim, é, é estranho, mas só estou dizendo bom dia porque hoje eu acordei querendo fugir da rotina. Peguei esse ônibus, vi que tinha poucas pessoas, e pensei, "nossa, porque não dizer bom dia para todos os presentes?" Sim, é, é meio estúpido, mas aqui está, bom dia e boa leitura. Espero ler qualquer coisa de Mario Vargas Llosa esses dias. Desculpe o incômodo. Ela está rindo, mas volta à leitura. Melhor assim. Puxe outro assunto. Não, abra outro parágrafo, chegue logo ao trabalho. Não, ela interrompe, diz que tudo bem, que também nunca tinha lido nada de Mario Vargas Llosa. Pergunte se ela está gostando. Você está gostando? Ela responde que não sabe ainda se está gostando, que preferia saber espanhol de verdade para ler o original, tem medo dessas traduções de livros de bolso, pois aquele é um livro de bolso. Mas que não sabe espanhol mesmo e que portanto é isso. Ela tem dois olhos grandes castanho-escuros, como a menina do irmão que na verdade já desceu do ônibus no primeiro ponto de Botafogo. Pela bolsa ela deve estar indo para Praia Vermelha. Pergunte isso. Você estuda na Praia Vermelha? Ela diz que sim, que faz jornalismo. Vocês tem menos de um minuto juntos. Faça uma reviravolta na trama.

Acontece que um senhor resolve tentar a sorte e atravessar a via expressa do Aterro. Atropelado e estatelado, o trânsito para. Os bombeiros chegam, vocês estão paralizados no meio do caminho, mais ou menos na altura da rua São Clemente. Daria para ir a pé daqui, mas voltou a chover. Chuva, chuva, chega de chuva. Ela pergunta o que será que houve. Você se levanta e vai perguntar pro motorista se ele consegue ver porque o trânsito está assim. Ele explica o que você já sabe, que passou alguém de moto fazendo o caminho contrário e acabou lhe dizendo. Muito bom. Temos agora vários minutos de conversa com a moça. Mas que que raios você quer com ela? Fique quieto, digo. Explique pra ela o ocorrido. Ela solta um palavrão, baixo, mas você tem boa leitura labial. Retira um guarda chuva da bolsa e grita pro motorista abrir a porta, pois ela tem que descer. Ela, educadamente agora, te diz que tem prova dentro de 10 minutos e não pode perder mais tempo. Deseja bom dia, muito prazer, e se atira pra fora do ônibus no meio da chuva. Maldita, maldita chuva, que quando ajuda, atrapalha. Peça pro motorista abrir também o ônibus. Amaldiçoe o acaso de ter deixado your umbrella em casa, e vá atrás dela. Ponto parágrafo.

Não, não corra, ponha o casaco por cima da cabeça para parecer menos sem noção, e alcance a altura dela naturalmente. Ela anda firme, mas também não corre. Provavelmente evita de molhar os pés demais, está com sapatilhas. Puxe assunto a respeito. Essas sapatilhas não são a melhor opção para dias assim, não é? Ela responde que sim, ri de qualquer jeito, e pergunta se você também estuda na Praia Vermelha. Responda que não, mas que já estudou lá, e que na verdade agora está indo para o trabalho. Estou indo pro trabalho, mas já fiz UFRJ e peguei matérias lá, sim. Ela pergunta o que você fazia na UFRJ, mas a buzina estridente dos próximos carros parados no meio do caminho nos obriga a mudar de assunto. Chegamos na altura do túnel, o corpo está coberto, os paramédicos parecem estar esperando os policiais para registrar a ocorrência. Os policiais já estão chegando, mesmo a pé, o carro deve estar estacionado quadra abaixo. Ela comenta que tem que passar no Shopping antes para sacar dinheiro, e que vai ter que apertar o passo caso se atrase. Despede-se novamente e dispara na sua frente. Vá atrás dela e diga que tem que fazer o mesmo caminho. Agora você está ficando assustador. Só diga que também está atrasado e passe por ele. Também estou atrasado, bom dia. Pronto, menos traumático. Ela queria nada mesmo. Ela te alcança de novo, já estão quase na altura da passarela subterrânea em frente à rua da Passagem, quando ela pede o seu email. Não o telefone, o email. Modernidades fora, passe o seu. Agradeça aos céus ter um endereço fácil de decorar e engraçadinho. Explique-o. Sim, é uma longa história, mas "com acento" é escrito por extenso, mesmo. Ela se despede dizendo que quando terminar o livro te escreverá dizendo o que achou. Vira o caminho contrário descendo a passarela, e bem, você já está 27 minutos atrasado para o trabalho. Pegue outro ônibus agora, porque daqui não há mais contenção no trânsito. Comece outro ato.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Alma Gêmea

Em comum a gente tinha:
─ A preferência por Trakinas
─ A cerveja favorita
─ Enfiar em tudo rima
Já bastava, senhorita.

Meio Termo

Entre a banana e o mamão: o melão
Cavaquinho fica entre o violão e o pandeiro
E no meio do abraço e o beijo...?
Um pão de queijo.

Repente Logo Cedo

Eu não sou de nada
Porque não sou de ser
Só que dá preguiça
quem tem preguiça
pra levantar a voz
mais de três palmos do chão

A primeira do plural "é nós"
Escala muro o meu grafite, irmão
Tatuo meus rascunhos ─ sim
Seguro o palavrão
agarro pela mão
e levo na praça
pra comer sorvete

Mais que três vezes
te jurei amor
embola a língua falar que "me convém"
mais de três vezes
mas me faz bem te ver
e te ver tentar também
mais que três vezes
dizer que amou alguém.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Uruga

Um pedinte realmente necessitado; dois pedintes universitários pintados de Coringa e Batman, (que se dizem) calouros de Engenharia da UERJ; um pedinte da Unicef; um panfleto pra VM; outro panfleto pra empréstimo; outro pedinte da Unicef, agora uma argentina que me obriga a repetir três vezes o meu refrão decorado "não vai dar/eu já sei do que se trata/e eu não topei"; um palhaço fazendo malabares do qual você se esquiva; não, obrigado, não preciso de outro chip da Tim; não, não quero cartão C&A; ─ uma pesquisa? pois não ─ se pretendo comprar um eletrodoméstico ainda este ano? não ─ então tá, de nada; respira; finalmente em casa: a Uruguaiana deve ser a maior rua do Centro do Rio de Janeiro.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

19:47

─ Que que foi isso?
─ O quê?
─ Esse vulto amarelo que passou pela minha cabeça?
─ Ah, deve ter sido uma das minhas calopsitas. Ou foi a Dani, ou foi o Jão
─ Você deixa suas calopsitas soltas assim?
─ Não tão soltas, tem grades na janela
─ Ainda assim, deixa elas soltas no seu apartamento assim? E se o cachorro pegar?
─ Ah, o Feijão? Ele adora elas, só ia brincar. Faz nada
─ E se elas cagarem pelos cômodos?
─ Eu limpo. Mas elas costumam fazer as necessidades naquela área da cozinha ali. Perto da comida
─ Por que você deixa elas soltas assim?
─ Por que as deixaria presas?
─ Elas estão presas aqui de qualquer jeito
─ Era isso ou passar todos os anos da vida delas naquela gaiola suja do aviário, no petshop que tinha aqui perto. 2 meses depois ele fechou, aliás, então iam doá-las de qualquer jeito
─ Mas..
─ E não daria pra soltá-las na Floresta da Tijuca porque a maior probabilidade é de que não iam se adaptar
─ É estranho mas faz sentido
─ Só um pouco
─ Me arruma um copo d'água?
─ Claro, minhas maneiras estão péssimas ultimamente. Pode se sentar no sofá, mas, ó, do lado esquerdo. O direito é do Feijão e ele vai vir prestar reclamação com muita braveza contigo. Né, Feijão? O segundo nome dele é Tropeiro.

14:50

─ Você cortou o cabelo?
─ Sim
─ Agora-agora?
─ Sim, que que tem?
─ Você pegou a tesoura da minha mesa, foi no espelho do banheiro e cortou o seu cabelo?
─ Sim, mas só a franja
─ Como assim? Como você fez isso?
─ Ah, eu peguei uma escova emprestada com a Katrine, pra pentear antes
─ Mas você está em horário de trabalho
─ Tecnicamente eu cortei no meu horário de almoço
─ Você não podia esperar até chegar em casa?
─ Em casa eu só janto, brinco com o cachorro, ponho ração pras minhas calopsitas e durmo, não ia ter tempo nem paciência pra isso
─ Mas aqui você tem?
─ Claro
─ E final de semana?
─ Sábado e domingo eu tenho mais o que fazer, vou ver meu filho que mora em São Paulo com a mãe, ia deixar pra fazer isso no banheiro do avião?
─ É, não dava
─ Pois é.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

||

"Logo
euevocêencaixadoscomo2pecinhasde
Lego."

Quem

Como que foi que tu mordeu
minha boca se foi eu que parei
pra te engolir o corpo? do pouco
que escorreu do meu canto:
dos olhos, quem sabe lacrimejo;
garganta, se pá um samba.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Apesar da sexta-feira, da calmaria, das nuvens que tomavam o seu tempo pra passar dum lado do céu pro outro; apesar da remela ainda no canto do rosto, ela parecia apressada. E me pediu para escolher "logo" um; segurei o gaguejo e disse "a boca". E, após 2 segundos de silêncio, enquanto ela esboçava tipo um sorriso, continuei dizendo: "mas eu sou suspeito", em tom de alerta, " ─ pra mim quase sempre é a boca."

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

11:37

─ Não te respondi porque um fulano me levou o celular quando eu voltava da Lavradio ontem
─ Eu já fui ladrão também.
─ Hoje acordei meio xenófoba
─ Já fui francês também
─ Você vai no aniversário da Isa?
─ Vou. E já fui mulher também
─ Gostou da experiência?
─ Muito
─ Faria de novo?
─ Com toda certeza
─ Hoje sonhei que transava com 5 caras ao mesmo tempo. E outras duas mulheres. Um deles tentava enfiar o negócio até na minha orelha. Acordei e era um mosquito me mordendo ali.
─ Pois eu já fui à Passárgada também
─ Já teve um sonho assim? Que que será que é?
─ Não sei. Sonhei ontem que fazia sexo com uma única mulher, o amor da minha vida
─ Alguém em específico?
─ Nina Simone
─ Bom gosto. Necrofilia?
─ Ela ainda tava viva
─ Menos mal. Faz tempo que não dou umazinha, vai ver por isso o sonho
─ Já fui Mahatma Gandhi também
─ Conheci um cara bonito essa semana. Faz filosofia contemporânea comigo
─ Pois já fui Simone de Beauvoir também. Mas e aí?
─ O conheci da forma mais inusitada: eu reparei que ele tava tentando desenhar a minha mão
─ Nossa. Isso eu nunca fui
─ Né? Papo vai, papo vem, ele disse que gostava de desenhar pedaços do corpo dos outros, dedos, pernas...
─ Xoxotas...
─ Olha, ele não mencionou, mas espero que sim
─ O approuch Jack-Rose-Titanic-eu-sou-artista nunca há de falhar. Aliás, acho que já fui Leonardo Dicaprio. 

06:45

─ Chegou cedo
─ É
─ Trânsito?
─ Também
─ Sua letra ainda é feia?
─ Você fala demais pra essa altura da manhã
─ Foi mal
─ Ela deve ter piorado um pouco com esse frio, com essa chuva...
─ E esse câncer de pele aí?
─ Quê?
─ Nada, é a matéria do jornal na tua mão
─ Ah, não tinha reparado ainda, você até me assustou agora
─ Tem coisas mais interessantes pelas quais morrer, não acha?
─ Você às vezes parece falar como se essa conversa fosse parar no seu blog...
─ É que já fui bloggeiro
─ ...ou livro
─ É que já fui poeta também
─ Eu tô indo pro banheiro, deixando você falar sozinho
─ Pois eu já fui água de bica também. 

09:37

─ Nunca tinha reparado
─ No quê?
─ No quanto sua letra é feia
─ Nossa, obrigada
─ Que simpatia a sua
─ Desculpa, é que você é mocinha, linda, tem alguns objetos cor de rosa, embora não todos, geralmente usa vestido, a gente espera que a letra duma pessoa assim vá ser impecável
─ Não sei se agradeço ou te mando tomar
─ Desculpa, eu sou meio estabanado até pra falar
─ Tudo bem, sou bem resolvida com minha caligrafia. Mas e esse maço de cigarro aí, eim?
─ Onde?
─ Na sua mochila, nessa partição de fora
─ Ah, é... não é meu
─ Jura?
─ Mentira, é sim, é que tô tentando parar
─ Você vai morrer cedo
─ ...
─ É
─ Isso é uma espécie de vingança por eu ter criticado sua caligrafia?
─ Com certezamente, aqui é Ascendente em Escorpião com Marte em Leão, querido. Brincadeira, também sou ex-fumante e também sou dessas que falam sem pensar
─ Tá há quanto tempo sem fumar?
─ 3 meses. E sem recaídas. Digo, às vezes rola um baseado aqui e ali com os amigos, mas nem isso eu fumaria em casa, por exemplo
─ Boa. Maconha eu não fumo
─ Algo contra?
─ Não, já até provei, mas me dá umas bads, fico paranóico, me dá até medo de cachorro, coisa que não sinto, sóbrio, desde moleque
─ Que brabo, isso já me aconteceu também, mas só nas primeiras vezes
─ Cocaína também não tomo
─ Também não
─ Mas bebo, quer marcar um boteco qualquer dia desses?
─ Não, obrigado.



segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Samba Vermelho

Dia desses achei um batom teu perdido aqui no quarto; desses que tu tinha mais pra escrever em guardanapo; Na falta da própria, até tua boca tentei imitar, me travesti e passei o batom teu; beijei o espaço; beijei o espelho, o abajur, o Santiago, porteiro novo que tu não conheceu; e o Saramago, à cabeceira, que me emprestou e também já esqueceu; Apaguei as luzes, assisti a rua me dando audiência; vesti um vestido certa vez e dessa vez nem era aquele teu, nem era meu, era de Ivete, que nessa história caiu de para-brisas; O paraquedas do meu carro me avisa; pega carona com sei-lá-alguém; e a própria paciência atrasa a rima  e atende pr'outro nome; Dia desses senti saudades tuas mas a noite escura me atendeu o telefone.