sábado, 14 de setembro de 2013

26min

─ A garota indiana chegou me mordendo a orelha. Estava rolando um cool-jazz-bossa-nova qualquer coisa com um atabaque-bongô misturado ao fundo e nosso planeta já tinha virado as costas pra estrela mais próxima daqui. Falando da mordida assim parece outro conto exótico-erótico-bukoviskiniano-qualquer coisa, mas se tratava só de uma aposta: quem acertasse, ou ficasse mais perto-perto, o horário que a apresentação da banda ali do Museu começaria a se apresentar poderia ter a orelha mordida por quem perdeu. Aproveitando-me do estado já levemente eufórico da menina, vide o álcool, foi uma ótima ideia, ninguém ia sair perdendo, no fim. Ela, do alto da metade de sua terceira década de vida, e traumatizada com a pontualidade carioca ─ vivera no Rio de Janeiro nos últimos 3 anos de então ─ apostou em meia hora de atraso. Jurava que o atraso era coisa de brasileiro, oposto cármico dos ingleses. Aliás, era de lá das Grã Betânia da vida, filha de imigrantes indianos, nascida em Birkenhead, Liverpool, sei lá. Sobre a aposta, me chamou de trapaceiro e avisou que ia buscar mais um drink, jornada que lhe custaria meia hora por conta da fila gigantesca. Encontrei outros dois rapazes do albergue, um turco bisneto de um ex-general do império do antigo império Otomano que tinha vindo pro Brasil aprender português após se apaixonar, também, por uma mineira. O outro era paulista, como eu, que eu conheci no café da manhã coletivo daquele mesmo dia ou do anterior. Outro empregado de escritório gastando o saldo do cartão de crédito na Bahia durante as férias. A Estrela terminava de se pôr, atrás da Baía de Todos os Santos, quando a banda emendou outro tema. O pianista tava tocando algum Noturno de Chopin com uma levada swingada, eu ia me jogar na pista que se formou ali na hora pra dançar, e foi isso. Deve ter demorado menos de meia hora, ela chegou e me mordeu a orelha, com força, e eu gritei de susto/ 
─ Caô
─ Pô, tô empolgado contando aqui a história e você me corta assim?
─ Porque é caô, vai dizer agora que comeu a indiana?
─ Tá, não transamos, mas trocamos uns beijos
─ Esse teu jeito de contar a história também, como se tivesse declamando um fado, sei lá, tu é pretencioso pra caraca, cara
─ Poxa, tu é meu amigo ou não é?
─ Sou, por isso tô te falando, essa história soa muito furada. Conta a verdade agora
─ Que verdade?
─ Que que você foi fazer na Bahia ano retrasado? Tu é rato da cidade, samba só pra não pagar de gringo e só quando vai pro Rio duas vezes ao ano ver tua família. Desembucha
─ Ah, cara. Mulher, né? Sempre
─ Sempre. Falando nisso, hoje tem Happy Hour marcado com as garotas. A Eduarda parece que vai
─ Será que agora sai?
─ Sai
─ Fechou, então
─ Aliás, eu dei uma lida no teu blog, essa palhaçada de dividir as histórias em "Atos" é uma puta palhaçada também, tá pensando que tá escrevendo o quê, opera?
─ Pô, cara...
─ Mas fora isso, tá bem maneiro o escrito, tu devia sair dessa porra aqui e lançar um livro
─ Como se fosse fácil
─ Eu mesmo um dia largo tudo e abro minha própria cervejaria. Tenho até fórmula. O segredo tá em tratar a cevada como gente, com amor
─ Acho que já vi essa história em algum filme
─ Também acho. 


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