sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O Pedido

─ Hoje eu sonhei que me joguei pela janela;
─ Que enquanto pairava no ar, o sol se punha, entrava e saía ano, nasciam meus filhos, meus cisos, e eu não envelhecia;
─ Mas quando atingia o chão, bom tempo depois, conforme meus ossos se espalhavam pelo concreto, finalmente, chegava o dia do meu aniversário;
─ Agora, morto, um ano mais velho, o meu crânio, quando parou de rolar pelo chão, ficara em frente a uma vela acesa, cravada em um bolo de fubá; o bolo tinha por trás de si um espelho, através do qual eu percebia que agora era uma caveira;
─ Com curiosa tranquilidade eu cantava parabéns e fazia um pedido;
─ Finda a canção, faltava-me fôlego para apagar a vela; tudo o que conseguia era puxar um fio de ar, que mais era o vento da rua soprando e ressoando pelos buracos dos olhos e ouvidos do meu crânio no chão, soando como assobio nos dentes que ainda restavam na altura da minha antiga boca;
─ Uma hora ventou mais forte, o assobio retumbou agudo e, finalmente, cessou da vela o fogo;
─ Já o pedido, pelo contrário, se realizou não só facilmente como logo em seguida: uma garoa fina caiu borrando o manuscrito no pedaço de parede branca bem ao lado; manuscrito escrito pelos ossos da minha mão que, enquanto isso tudo acontecia, não paravam de registrar os acontecimentos com um pedaço de tijolo partido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário