sexta-feira, 13 de setembro de 2013

27min: Ato I

Eu não sei tocar piano, então eu escrevo. Lá vamos nós de novo, escrever sobre escrever. Isso você chama de inspiração? Seria melhor arrumar essa mesa, tirar as teias de aranha do canto das paredes, do teto. Lavar roupa, lavar o banheiro, lavar as costas. Eu poderia estar vivendo, mas estou escrevendo. Eu poderia estar amando, mas estou escrevendo. Poderia estar roubando, matando, matando insetos, poderia estar beijando, beijando meus gatos que estão lá fora na chuva. Escrever sobre a chuva enquanto está chovendo, ótima ideia, poderia estar tomando os remédios que eu deveria ter ingerido horas atrás. Vamos, conte uma história, pense uma história. Início, meio, desenvolvimento, e fim. Você é bom com encerramentos, Codas, grand finales, vamos. Que história há pra contar, todas as histórias já foram contadas. Reconte e fim, pronto, allegro. Algo que já aconteceu, já enterrado, como as sementes de hortelã no quintal estão enterradas pelo cimento. Como as outras sementes de outras plantas cujo nome sei lá se molham de água e inventam sabe-se como de renascer do concreto e laçar seus galhos e folhas do sufoco ao ar livre. Estamos nós e elas 27 minutos mais velhos agora. Justifique o texto, alinhe, corrija as vírgulas, os acentos e conte o que tiver pra contar. Se for mais fácil cantar, cante, que seja, conjugue. Conjugar. Fevereiro, 2 de fevereiro, Iemanjá, dia primeiro, dia 15, e 5 meses depois seu aniversário. Conjugar que verbo, que verso. Vamos. Não sabemos tocar piano, então os dedos fingem talento e datilografam essas coisas. Datilografar é um verbo mais bonito que digitar. O silêncio quebra, o movimento da Sonata muda o arranjo, retoma o allegro moderato. Parece um filme em branco e preto, como o de Tom, Vinícius e Chico, só que é um filme, não um retrato. Cante, conte. Pra alguém algum fato não acontecido. 

Dobre o travesseiro pela metade, em dois. Isso, agora deite. Durma, porque amanhã às seis de novo. Sonhe e sonhe pouco, para ficar fácil de esquecer, beber café, tomar banho, sair e trabalhar. Isso, deixe me preparar o café. Ótimo, o gás acabou. Lembre de passar na distribuidora a caminho de casa na volta. Se vista, desça as escadas, a chuva para, deixe-se o guarda chuva em casa. Abra o dicionário para achar aquela palavra, esqueça a palavra que buscava distraído pela ilustração do mamoeiro, em uma página da letra M. Vá para o trabalho, a rua está alagada, um presente da chuva. Vire e faça a volta pela rua do Andradas, à sua esquerda. Olhe dos dois lados. Na verdade, de um lado só, o esquerdo novamente, a Marechal Floriano só tem uma mão agora. Pare no ponto certo, espere o ônibus, ótimo, pegue esse, cortará a Avenida Rio Branco direto e, então, Aterro. Em dois minutos estaremos lá. Ônibus quase vazio, o que é estranho pelo horário, talvez a chuva. A chuva, pare de falar dessa chuva, ela já passou. Temos 5 pessoas dentro do ônibus. Fale com todas elas. Duas são o motorista e a trocadora. Tarefa mais fácil, bom dia, motorista, bom dia, trocadora (ou cobradora?). No acento amarelo há uma senhora, diga bom dia pra ela também. Vamos, é fácil. Bom dia, senhora. Ela responde bom dia de volta. Ótimo, ganhe confiança, restam-lhe ainda 3 cumprimentos. Dois acentos azuis ocupados por um pai e sua filha. A filha está de pé, deve ter aprendido a ficar nesta posição há poucos meses. Do alto de seus, talvez, 80 centímetros, pula no acento. Diga bom dia pro seu pai, e cumprimente a filha, diga que ela está linda neste vestido vermelho bordado, e dê bom dia para a menina também. Bom dia, senhor, sua filha é linda. Ele me diz que não, não é minha filha, é minha irmã. Peça desculpas. Desculpas. Ele diz que não, tudo bem, retribui o bom dia. Diga que sua irmã é muito linda, e que ela terá um dia bom. Sua irmã é muito linda, parece que ela terá um dia bom. Ele agradece, e diz que ela terá sim, um ótimo dia, pois o acompanhará no trabalho. Faltou o bom dia da menina, diga. Bom dia, mocinha, se divirta no trabalho. Ela te olha com dois grandes olhos castanho-escuros. Seu irmão diz para ela retribuir bom dia, o que ela não faz, pois vira a cara para janela, que está fechada. Seu irmão insiste que ela retribua, mas diga que não é necessário, que criança é assim mesmo e deseje que eles passem bem. Não precisa, criança é assim mesmo, passem bem. Acene com a cabeça, siga adiante. A quinta pessoa dentro do veículo é uma moça. Aparentemente de sua faixa etária. Será um alvo mais difícil. Encerre este parágrafo. 

Ela está lendo um livro de Mario Vargas Llosa. Você nunca leu nada de Mario Vargas Llosa, puxar assunto a partir disso seria constrangedor. Então se cale. Sente no acento ao lado. Não, não do lado dela, parecerá um tarado ou psicopata, o ônibus está quase vazio. No outro, deixe o corredor entre vocês dois. Isso, vamos. Um bom dia. Vamos? Agora vai soar estranho, ela pensará que você tem um certo tipo de retardo mental. Você disse bom dia para todos os passageiros, o que diabos você tinha na cabeça? Não, só sente, fique calado. Você não é obrigado a dizer bom dia para ela também. Porque você passou a se referir a si mesmo em terceira pessoa? Pare, agora. Pronto. Diga bom dia pra ela. Não, melhor, pergunte se ela tem isqueiro. Isso não faz sentido, não se pode fumar no ônibus. O que ela irá pensar, que você quer roubá-la descaradamente? Roube-a, isso. Sei lá, só pergunte se ela está gostando do livro, parece estar na metade. Agora ela te olhou de volta, agora tem certeza que você é só mais um tarado. Não, você só entrou no ônibus disposto a falar com todos ali presentes. Porque, porque queria fugir da rotina, talvez. Você não tem más intenções. Ela linda. Você poderia ter más intenções com ela. Mas não tem, é só isso. Porque não, então? Posso simplesmente puxar assunto a partir disso. Pedir licença, e explicar exatamente isto, nestas palavras. Ela vai te achar maluco, mas antes maluco do que tarado. Isso, vamos. Sente no acento mais próximo ao corredor, ela não está pela janela, ficará mais próximo. Vamos. Bom dia. Ela olha de volta, parece incomodada, um pouco, de ter sido interrompida da leitura. Continue falando. Sim, é, é estranho, mas só estou dizendo bom dia porque hoje eu acordei querendo fugir da rotina. Peguei esse ônibus, vi que tinha poucas pessoas, e pensei, "nossa, porque não dizer bom dia para todos os presentes?" Sim, é, é meio estúpido, mas aqui está, bom dia e boa leitura. Espero ler qualquer coisa de Mario Vargas Llosa esses dias. Desculpe o incômodo. Ela está rindo, mas volta à leitura. Melhor assim. Puxe outro assunto. Não, abra outro parágrafo, chegue logo ao trabalho. Não, ela interrompe, diz que tudo bem, que também nunca tinha lido nada de Mario Vargas Llosa. Pergunte se ela está gostando. Você está gostando? Ela responde que não sabe ainda se está gostando, que preferia saber espanhol de verdade para ler o original, tem medo dessas traduções de livros de bolso, pois aquele é um livro de bolso. Mas que não sabe espanhol mesmo e que portanto é isso. Ela tem dois olhos grandes castanho-escuros, como a menina do irmão que na verdade já desceu do ônibus no primeiro ponto de Botafogo. Pela bolsa ela deve estar indo para Praia Vermelha. Pergunte isso. Você estuda na Praia Vermelha? Ela diz que sim, que faz jornalismo. Vocês tem menos de um minuto juntos. Faça uma reviravolta na trama.

Acontece que um senhor resolve tentar a sorte e atravessar a via expressa do Aterro. Atropelado e estatelado, o trânsito para. Os bombeiros chegam, vocês estão paralizados no meio do caminho, mais ou menos na altura da rua São Clemente. Daria para ir a pé daqui, mas voltou a chover. Chuva, chuva, chega de chuva. Ela pergunta o que será que houve. Você se levanta e vai perguntar pro motorista se ele consegue ver porque o trânsito está assim. Ele explica o que você já sabe, que passou alguém de moto fazendo o caminho contrário e acabou lhe dizendo. Muito bom. Temos agora vários minutos de conversa com a moça. Mas que que raios você quer com ela? Fique quieto, digo. Explique pra ela o ocorrido. Ela solta um palavrão, baixo, mas você tem boa leitura labial. Retira um guarda chuva da bolsa e grita pro motorista abrir a porta, pois ela tem que descer. Ela, educadamente agora, te diz que tem prova dentro de 10 minutos e não pode perder mais tempo. Deseja bom dia, muito prazer, e se atira pra fora do ônibus no meio da chuva. Maldita, maldita chuva, que quando ajuda, atrapalha. Peça pro motorista abrir também o ônibus. Amaldiçoe o acaso de ter deixado your umbrella em casa, e vá atrás dela. Ponto parágrafo.

Não, não corra, ponha o casaco por cima da cabeça para parecer menos sem noção, e alcance a altura dela naturalmente. Ela anda firme, mas também não corre. Provavelmente evita de molhar os pés demais, está com sapatilhas. Puxe assunto a respeito. Essas sapatilhas não são a melhor opção para dias assim, não é? Ela responde que sim, ri de qualquer jeito, e pergunta se você também estuda na Praia Vermelha. Responda que não, mas que já estudou lá, e que na verdade agora está indo para o trabalho. Estou indo pro trabalho, mas já fiz UFRJ e peguei matérias lá, sim. Ela pergunta o que você fazia na UFRJ, mas a buzina estridente dos próximos carros parados no meio do caminho nos obriga a mudar de assunto. Chegamos na altura do túnel, o corpo está coberto, os paramédicos parecem estar esperando os policiais para registrar a ocorrência. Os policiais já estão chegando, mesmo a pé, o carro deve estar estacionado quadra abaixo. Ela comenta que tem que passar no Shopping antes para sacar dinheiro, e que vai ter que apertar o passo caso se atrase. Despede-se novamente e dispara na sua frente. Vá atrás dela e diga que tem que fazer o mesmo caminho. Agora você está ficando assustador. Só diga que também está atrasado e passe por ele. Também estou atrasado, bom dia. Pronto, menos traumático. Ela queria nada mesmo. Ela te alcança de novo, já estão quase na altura da passarela subterrânea em frente à rua da Passagem, quando ela pede o seu email. Não o telefone, o email. Modernidades fora, passe o seu. Agradeça aos céus ter um endereço fácil de decorar e engraçadinho. Explique-o. Sim, é uma longa história, mas "com acento" é escrito por extenso, mesmo. Ela se despede dizendo que quando terminar o livro te escreverá dizendo o que achou. Vira o caminho contrário descendo a passarela, e bem, você já está 27 minutos atrasado para o trabalho. Pegue outro ônibus agora, porque daqui não há mais contenção no trânsito. Comece outro ato.


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