quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Ofego (ou Monólogo em Areia e Dedo: Dezoito)

Ofego, engasgo. Acordo ensopada, me viro o relógio, são três e meia da manhã. Estico meu braço mas não te alcanço. Você não está aqui, o que é óbvio. Parece que você se esqueceu um pouco na minha pele, que me deixou crescer a barriga. Sinto sua falta quanto ouço aquele blues que descobrimos juntos, aquele que a Nina faz, que tem até filme. Quando te pegava, apertava e dançava pela sala, com as cortinas escancaradas para os vizinhos notarem e terem o que comentar durante o jantar. Sinto você quando estou no ponto esperando um ônibus. Quando o silêncio me pega pela garganta. Quando o Rio de Janeiro brinca de inverno. Quando volto, à noite, dos lugares onde você não estava. Quando apago as luzes, por analogia. Quando tenho de ir ao banheiro sozinha. Quando acendo um bom livro. Quando até, como agora, sento e escrevo qualquer coisa, me faz falta seus contrapontos, palpites, verdades, que eu nunca cri, repentes. Suas rimas. Te sinto quando fecho as janelas e o seu cheiro não empesteia meu quarto. Falta o tato de te tocar, amassar, lamber, paladar. Falta a careta que os outros fazem, inconformados com nossa paz. Você, aqui, me mata, angustia, me dá câncer. Mas sinto sua falta quando mato as aulas de Yoga. Depois que faço sexo com outras pessoas. Queria você aqui, agora, na pinha palma da mão ou atrás da orelha. Queria você encravado na minha boca, conformado, te lambuzar de batom. Queria te queimar lentamente e afogar este fogo em cada célula do meu pulmão, que te beberia, e beberia e engasgaria.

Ofego, engasgo. Acordo ensopada, me viro o relógio, já são quatro e meia. Estico meu braço no escuro e me encontro na cabeceira. Esbarro sem intenção na secretária, a eletrônica, que repete a mensagem. Pouco me importa como vai sua vida. De que adianta pedir desculpas se já fez o que fez? Se fodam sua esposa, seus filhos, e como? Como se atreveu a parar de fumar? Que bom isso traz? Era nosso alicerce geral, como nos conhecemos, o isqueiro rosa, a piada frutinha mas como, quando? 

Ofego, engasgo. Acordo ereta, calcinha molhada, me viro o relógio, já são nove e meia. Estou atrasada pro trabalho de novo. Ainda bem que estou desempregada. Alivio a tensão na cama mesmo e pego no sono de novo. Fantasio com a nossa viagem pro interior do Pará, onde era impossível achar um baseado. Onde transamos sob o Sertão e parafraseávamos trechos fictícios de Guimarães Rosa, fictícios pois nós nunca tivemos sucesso em terminar sequer um livro dele. 

Ofego, engasgo, me viro a casa, já são meio dia. Parece que invadiram meu quarto e levaram os móveis. Mas o caminhão de mudança ainda não chegou. O teto me olha preguiçoso, cético.

Ofego, engasgo, me viro o dia, já tem meia casa. Hoje o dia passou voando. Visto o coturno, saio sem chave, deixo a porta aberta. O teto cansou de me ver ofegar e engasgar.

Ofego, engasgo, me viro a casca, tem sangue no lençol. Alívio, é o batom. Não sei que dia é mas pelo samba dos vizinhos deve ser Domingo.

Ofego, engasgo, me viro a casaca, a folhinha atrás da porta confirma o Domingo. Acabou o Cigarro. Amanhã é feriado, tá tudo fechado.

A sinusite dá trégua, ofego menos. Engasgo com um pedaço de unha. Acabou o calendário.

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