A cor da primavera eu sei de cor
Sobretudo nas tardes de Verão quando ela já passou
Eu sei
Apesar dos neurologistas jurarem que sonhamos em preto e branco
Eu sei.
Queimado de Sol, estendido no varal com os demais corpos lavados, observo,
Junto das outras cores que por acaso decorei,
Que se o Sol brilhasse um pouco mais escuro a cor já seria outra.
Invenção estranha essa da nossa cabeça,
Mania esquisita essa de dar cor as coisas!
Eu sei de cor o som que faz quando a primavera cai
Dando espaço ao calor, à tempestade, ao desespero veraneio
Que a andorinha, acompanhada pela multidão de seus iguais, decreta e faz
E os demais daltônicos animais enxergam a cor de que precisam
E sequer dão por falta disso
E sobrevivem muito bem, obrigado
E fazem piadas secretas aos ouvidos nossos sobre esses mamíferos que veem necessidade em tirar verso de algo trivial assim enquanto fatos importantes passam despercebidos!
Como o quão suculento é este inseto que saboreiam hoje.
Concluo, humildemente, que eu sei de cor a cor da primavera
Junto de outra meia dúzia de coisas que decorei ou aprendi nesta vida
E me vejo inútil como o dente de ciso encravado na boca que até nasceu mas nunca conseguiu morder sequer uma maçã
Eu sei
Apesar da minha fobia desesperada de saber pouco e mais do que preciso
Que eu sou apenas exagerado
E que ando precisando de um abraço.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
(Retrô)spectiva
Comecei a organizar um conjunto de votos para 2015 mas percebi que não acredito em votação de qualquer tipo e me perdi do assunto e escrevi as prolixias abaixo. Ao garoto de 1987 chamavam anarquista... mentira, sou nada, sou porra nenhuma e o que importa vai por aí. E o que importa? Importa o pulo do gato que eu não dei, nem torci tornozelo esse ano, nem pulei pela janela: afinal, moro no segundo andar e o máximo que conseguiria seria um membro torcido com uma costela quebrada e uma conta de hospital que não poderia pagar ou, ainda, três semanas numa fila do SUS com uma escoliose mal diagnosticada. Mas agradeço com gosto e gesto, agradeço o atalho, muito embora errado, que me fez mais perder. Desde cedo, bem cedinho, já me encontrava atrasado e a isso também sou grato.
Importam as metas não cumpridas pois são a realidade e eu me comprometo com o que é. Ganhei peso, aumentei um tamanho na escala de tamanho de roupas e tive que trocar metade do armário inteiro. Espinhas ressurgiram na testa! Uma mancha vermelha que aparece e reaparece esporadicamente no mesmo lugar. A gentrificação irá me remover de onde eu moro, tenho certeza que desse ano não passa. Não progredi no alemão como planejei que progrediria, e olha que eu sou de fazer poucos planos, de criar poucas expectativas, as quais nem assim pude atender. Encontrei o amor, é verdade, o amor pelos antibióticos, anti-inflamatórios, por tratamentos diversos para remover sinais na pele já referidos e os da idade. Apaixonei-me por umas três peças musicais, obviamente não escritas nem lançadas durante este ano que vos escrevo, mas frustrei-me proporcionalmente a este apreço com a minha incapacidade de executá-las.
Este ano passado, este que está para acabar depois de amanhã, a despeito de meu pessimismo travestido de realismo, teve seus lados bons. Larguei os cigarros de vez, ou melhor, eles que largaram de mim quando resolveram armazenar um tumor benigno na minha garganta. Tomei birra e falei que era recíproco. Podia comemorar a economia financeira disto mas gastei a quantia economizada com os remédios e tratamentos para retirar a denominada coisa do lugar referido. Cadê vitória? Atualizei o anti-vírus do computador de mesa, é verdade. Arrumei meu quarto um número recorde de vezes, as quais foram exatamente três, e acho de grande valia dizer que varri o chão e espanei os móveis em cada uma das empreitadas, embora com variada dedicação e afinco a cada execução. Finalmente visitei o tal do Cristo, aquele que fica lá de cima da Zona Sul brilhando em uma cor roxa, cafona, que não combina com nada no céu da noite. Bem, antes essa do que aquele verde e amarelo anacrônico durante a Copa. Fui mas só me convenci de vez porque descobri que ainda vale aquela meia entrada de morador. Detestei, estava quente, cheio de gente branca e loira, menos mal uns asiáticos, a vista era linda, claro, mas para ver metade dela posso fazer aquela trilhazinha pelo Parque Lage, de graça.
Lembrei de outro ato de humanidade e transcendência que aprendi este ano: aceitar e respeitar quem expressa e escreve risada com "kkkkkkk". Politicamente não progredi praticamente nada, já que tive que me controlar emocionalmente, inclusive recorrendo à medicamentos, para não cometer um genocídio em determinada parcela da população brasileira que, a julgar pelos seus padrões éticos e morais, acredita que estamos na década de 20. (Deste ano que se inicia também não passa a confirmação definitiva de minha hipocondria.) Em contrapartida, meu gato, o Sucrilhos, expressou algum sentimento por mim pela primeira vez. Foi assim: "Amor, você não vai botar a porra da comida pra mim não? Se você continuar me enrolando eu vou embora." Não sabia se me sentia lisonjeado pelo gesto de carinho dele me chamar de "amor" ou se me revoltava com a grosseria. Fazia apenas doze horas que eu o alimentara pela última vez.
Nasceu uma flor, do meio do cimento da calçada aqui da rua. Não era bem uma flor, era verde, devia ser uma hortaliça, mas era viva, respirava via clorofila, nasceu. Se isso aqui fosse uma poesia ela me rendia um verso! Mas só rendeu em mais entulho pra varrer quando a prefeitura desmoronou o pavimento inteiro para trocar o encanamento embaixo. Fibra ótica já está marcada também para ser instalada agora em janeiro. Dizem que a atual gestão de urbanismo está trazendo saneamento e tecnologia decente pras bandas de cá. E eu? Quais meus planos pro ano que se inicia? Meu filho, eu só consigo pensar no aluguel que vai subir, e na bolsa que deve acabar bem no meio do ano. Já disse, a gentrificação ainda vai me tirar daqui. Devia ter ouvido meus pais e prestado concurso. É duro ser de humanas. Feliz ano novo, camaradas.
P.S: Contudo, tenho um remoto planejamento de finalmente fazer minha primeira tatuagem. Será um dragão nas costas com um balãozinho desses de quadrinhos dizendo "Eu avisei". Ainda está em tempo de me impedirem.
Nasceu uma flor, do meio do cimento da calçada aqui da rua. Não era bem uma flor, era verde, devia ser uma hortaliça, mas era viva, respirava via clorofila, nasceu. Se isso aqui fosse uma poesia ela me rendia um verso! Mas só rendeu em mais entulho pra varrer quando a prefeitura desmoronou o pavimento inteiro para trocar o encanamento embaixo. Fibra ótica já está marcada também para ser instalada agora em janeiro. Dizem que a atual gestão de urbanismo está trazendo saneamento e tecnologia decente pras bandas de cá. E eu? Quais meus planos pro ano que se inicia? Meu filho, eu só consigo pensar no aluguel que vai subir, e na bolsa que deve acabar bem no meio do ano. Já disse, a gentrificação ainda vai me tirar daqui. Devia ter ouvido meus pais e prestado concurso. É duro ser de humanas. Feliz ano novo, camaradas.
P.S: Contudo, tenho um remoto planejamento de finalmente fazer minha primeira tatuagem. Será um dragão nas costas com um balãozinho desses de quadrinhos dizendo "Eu avisei". Ainda está em tempo de me impedirem.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
24 Versos
Aproveitando a ocasião para me auto-esclarecer alguns pensamentos conclui que; Amo-a, e falo aqui do amor imaterial por uma fictícia órfã que lhe cativa em uma película de sessão da tarde, como quem contempla o próprio vazio do estômago. Amo-a também porque sou a maçã mordida e ela pouco se importa com as intactas. Quero-a pronta, e falo da prontidão de se estar de pé e firme quando vem uma ventania arrastando um piano um sua direção, que grande pena que ser um piano, mas é, e é preciso se estar pronto pois a única saída é se esquivar e continuar de encontro ao vento; Quero-a pronta no desespero nobre de arrumar sua casa às vésperas de uma visita importante, de aparar uma bala mesmo que ela venha inesperada porque definitivamente agora hora ali não era o momento apropriado para parar e morrer. Quero-a, e este querer se configura no contrário do desejar estúpido de que aquela estante que nem lhe pertence seja mais curta para que lhe alcance o topo; Quero-a ágil quão rápido a flecha mal disparada do cupido sagitário puder desviar seu rumo e lhe atravessar, ao invés, uma avenida inteira.
Enxergo-a do alto do meu astigmatismo já corrigido pelas ciências especializadas; Como as vitrines que protagonizam as ruas, quero-lhe o protagonismo e os enfeitos que existem nas mais magníficas vitrines nas vésperas dos Natais, digo, quero-lhe o protagonismo sobretudo nas ruas belas e ladrinhadas e semi-desconhecidas do Centro da cidade, onde ainda encontramos a raridade de senhoras e famílias passeando e jovens introspectivos apertando seus cigarros e doces enquanto ouvem a própria trilha sonora; protagonista que mesmo quando de madrugada, mesmo os embriagados safos cortando caminho ou apenas os perdidos vindos do bar lhe sejam só olhos, porque, pasmem, aquela vitrine tão protagoniza que na verdade tem voz e se mexe e está correndo atrás de suas almas; quero-lhe o protagonismo, o estrelato e o espanto deste tipo de audiência, e todo outro que você provavelmente ainda quererá. Embora seja ingênuo desejá-lo, eu quero, ou melhor, gostaria, que apenas lhe fitassem os cães cuja fome sincera e sem ódio se expressa na saliva e olhar.
Nota-a do repente ainda desconhecido de seus terremotos que quero; Como e quando me chama com a chama e a periodicidade dos cometas milenares descobertos por astrônomos cujo qualquer átomo já esteja diluído pela terra ou mar. Como me aparece nesta explosão desta tarde cujo arco íris rasura o céu dos desatentos. Nem sei porque merece meu atento ou intento, só sei que sim, e que mesmo seu silêncio me satisfaz muito contudo prefira eu a festa. Corro para vê-la e o sinal dos carros se abre como se pressa me faltasse para lhe ver, e o que acontece é que este se equivoca! É que aqui nada de bom falta: só falta ela, o meu bem.
domingo, 14 de dezembro de 2014
Ensaio Sobre Redenção
I
Existe um mundo lá fora
E o mundo aqui dentro de mim
E o mundo aí dentro de ti
Espalhado no ar feito o cheiro do almoço
Feito a altivez do rosto que não me pertence e eu quero tocar
Como também um espelho e a imagem do outro lado do espelho
Estamos todos cansados desta metáfora, mas juro que é como descrevo:
Aquela mão de sentido invertido que afaga o lado errado do rosto
Esta imperfeição dos gestos a física explica
A arquitetura urbana disserta sobre o prédio tombado, esquina dentre uma viela e uma rua
Sobre o cruzamento confuso e perigoso da Avenida, o departamento de trânsito
Sustentamo-nos nestes alicerces para errar menos ou para justificar os erros anteriores
Como arqueologia explica algumas pessoas terem testas tão grandes
E crânios enterrados estarem tão inusitadamente deformados
O curso de artes plásticas explica a aquarela
Dessas cores-coisas de baixo concreto compondo a cidade:
Canto.
Existe um mundo lá fora
E o mundo aqui dentro, e o dentro de ti
Cada um e cada qual com sua ciência
Mas aqui trato da metafísica da palavra
E da metalinguística do fracasso.
II
Perdão, mas aquela... Desculpa se embriagado já essa hora! mas:
Aquela, soluço
Vontade de gritar de manhã cedo, soluço
Me faz milagre!
Aquela vontade de voltar de manhã cedo com o diabo do corpo cansado
E com o diabo cansado do corpo
Me queima
Me cabe bem
Me escorre a garganta roçando e guiando o caminho até minha boca do estômago
Que, tagarela, já te disseste tudo o que havia de saber sobre mim.
(Esta noite sonhei novamente que os dentes da frente caiam da boca
E mesmo aos 27 anos eu torcia para que fossem os de leite
Despertado conclui que eram! pois acordei
E acabavam de cavar de volta seus últimos centímetros gengiva à fora
Suados, choravam como todo bom recém nascido
Ah, estes destes incisivos.)
III
Sou homem de palavra
SOU homem de palavra despedaçada
Viciado em antibióticos e multidões
Inflamado pelas palavras que me disseste ontem de noite ao dedo mindinho do pé do ouvido
Sou homem mas quereria ser mulher
Estou enjoado de tanta necessidade de tanta masculinidade
Queria poder escolher
Mas não é opção, vide o fracasso em sê-la
Sou homem de pequenos gestos e dores nas costas
Inflamado pelas palavras que me jogaste ontem do vigésimo quarto andar
Porque evitavas de descer à recepção me receber.
(Repito o refrão dos becos
O estribilhos das ruas
O coro das quebradas
Nunca estaria presente ao teu lado em quarto de motel ou hospital
Em minha insignificância e covardia, respectivamente
Mas tua cuja beleza e saúde admiro e respeito devido a distância
Com a devida distância.)
IV
Outra reflexo de fracasso é a limitada opressão que sofro
Mesmo a falta que me faz a carteira de identidade no bolso
Falta-me menos pois minha pele é branca
De nem tão branca assim, só o suficiente
A falta que faz falta me menos
A violência me é menos casual e isolada
A violência me é menos pontual e marcada
Pelo drama simbólico e vazio de me fazer a vitima
Morro e corro, baldio e vadio
Embora domesticadamente:
Civilizadamente revoltado
Grafito mentalmente
O estribilho mais nu dos muros
Das quadras que faltam pra cidade acabar.
V
Fracassa-me também a euforia
A folia cansada de quarta feira
Nem é Carnaval, é dia útil
O corpo faz e finge que desconhece o calendário
Insere no mês, arbitrariamente, um novo feriado
E ginga pro lado com uma fome pinicando a boca
Uma sede roçando a língua como se ônibus lotado
Ginga e caminha e tropeça rumo sincopado
Onde o barulho está mais quente para
Descobrir que o lado bom da vida
Está do lado dessa gente trabalhada em teimosia
Está do lado do coro menos confortável, mais descontente
Que zumbe suave o fundo desta madrugada
Embora apenas outro ponto da cor de lápis de cor errada
Nisto fracasso menos, portanto.
Contudo, como tantas doenças perdidas neste universo amostral de chagas
Havia um resto de febre ali à espreita
Uma sequela quente fervendo uma parte outrora fria do corpo
Ora a testa, ora a nuca, ora a virilha
As pernas ferviam mais cada degrau daquela escadaria
A caixa torácica ardia de doer conforme as noites se repetiam
Como toda boa febre, esta trazia outros sintomas
A tosse tossia para abrir a garganta
Outras vezes tossia pura pelo sádico prazer de se quebrar o silêncio
Ver se assustava uma ave, roedor ou inseto escondidos de dentro de casa
Roubando-lhes o prazer e a vez de espantar
A febre passava para os móveis e azulejos
Todo aparelho daquela casa parecia ferver às vezes
Perguntava-se, a esta altura da existência e Verão, o que havia ali para se congelar?
"Nada", a resposta vinha entre aspas
O septo nasal aquecido
O labirinto do ouvido afinado e agudo
Seria uma noite de suor adiante.
As telhas, por sua vez, certa vez, inclusive
Chegaram a derreter
Aí, além de febril, este que vos fala
Permanecera soterrado por semanas
Nisto e neste sentido se configurara um sucesso
Semanas depois, pois
Percebeu, finalmente, que sua temperatura havia baixado
Quando seu gato sentou-se, ronronante, em seu colo feito só câimbra e poeira
Sabido era o calor natural do organismo bichano
Viu, ali e portanto, que o carinho felino praticamente lhe queimara a roupa e a pele
Assim chegou o Inverno.
VI
Um caroço
Um calo
No tempo presente, fracasso aterrado
Duzentas bactérias na garganta para viagem, por favor
Mal curado estou, bem curado eu vou, mas, perdão
Cansei da posição horizontal, por favor, escuta
O inverno em Salvador é equatorial, meu amigo
Desculpa, ouve,
Escuta, por favor:
Preciso justificar, lá em casa
O trago de cachaça com mel
Que vou entornar esta tarde
Então, faça me esta gentileza, uma laringite fresquinha
E o corpo inteiro faz viagem, faz favor
Que o baile ali no morro, hoje, vai durar até amanhá
Que essa gente toda assim ainda
Tão macia, tão suada, tão risonha e disponível
Embora nem tão lúdica, poética e simbolicamente quanto eu descrevo,
Ainda vai me redimir a humanidade.
Existe um mundo lá fora
E o mundo aqui dentro de mim
E o mundo aí dentro de ti
Espalhado no ar feito o cheiro do almoço
Feito a altivez do rosto que não me pertence e eu quero tocar
Como também um espelho e a imagem do outro lado do espelho
Estamos todos cansados desta metáfora, mas juro que é como descrevo:
Aquela mão de sentido invertido que afaga o lado errado do rosto
Esta imperfeição dos gestos a física explica
A arquitetura urbana disserta sobre o prédio tombado, esquina dentre uma viela e uma rua
Sobre o cruzamento confuso e perigoso da Avenida, o departamento de trânsito
Sustentamo-nos nestes alicerces para errar menos ou para justificar os erros anteriores
Como arqueologia explica algumas pessoas terem testas tão grandes
E crânios enterrados estarem tão inusitadamente deformados
O curso de artes plásticas explica a aquarela
Dessas cores-coisas de baixo concreto compondo a cidade:
Canto.
Existe um mundo lá fora
E o mundo aqui dentro, e o dentro de ti
Cada um e cada qual com sua ciência
Mas aqui trato da metafísica da palavra
E da metalinguística do fracasso.
II
Perdão, mas aquela... Desculpa se embriagado já essa hora! mas:
Aquela, soluço
Vontade de gritar de manhã cedo, soluço
Me faz milagre!
Aquela vontade de voltar de manhã cedo com o diabo do corpo cansado
E com o diabo cansado do corpo
Me queima
Me cabe bem
Me escorre a garganta roçando e guiando o caminho até minha boca do estômago
Que, tagarela, já te disseste tudo o que havia de saber sobre mim.
(Esta noite sonhei novamente que os dentes da frente caiam da boca
E mesmo aos 27 anos eu torcia para que fossem os de leite
Despertado conclui que eram! pois acordei
E acabavam de cavar de volta seus últimos centímetros gengiva à fora
Suados, choravam como todo bom recém nascido
Ah, estes destes incisivos.)
III
Sou homem de palavra
SOU homem de palavra despedaçada
Viciado em antibióticos e multidões
Inflamado pelas palavras que me disseste ontem de noite ao dedo mindinho do pé do ouvido
Sou homem mas quereria ser mulher
Estou enjoado de tanta necessidade de tanta masculinidade
Queria poder escolher
Mas não é opção, vide o fracasso em sê-la
Sou homem de pequenos gestos e dores nas costas
Inflamado pelas palavras que me jogaste ontem do vigésimo quarto andar
Porque evitavas de descer à recepção me receber.
(Repito o refrão dos becos
O estribilhos das ruas
O coro das quebradas
Nunca estaria presente ao teu lado em quarto de motel ou hospital
Em minha insignificância e covardia, respectivamente
Mas tua cuja beleza e saúde admiro e respeito devido a distância
Com a devida distância.)
IV
Outra reflexo de fracasso é a limitada opressão que sofro
Mesmo a falta que me faz a carteira de identidade no bolso
Falta-me menos pois minha pele é branca
De nem tão branca assim, só o suficiente
A falta que faz falta me menos
A violência me é menos casual e isolada
A violência me é menos pontual e marcada
Pelo drama simbólico e vazio de me fazer a vitima
Morro e corro, baldio e vadio
Embora domesticadamente:
Civilizadamente revoltado
Grafito mentalmente
O estribilho mais nu dos muros
Das quadras que faltam pra cidade acabar.
V
Fracassa-me também a euforia
A folia cansada de quarta feira
Nem é Carnaval, é dia útil
O corpo faz e finge que desconhece o calendário
Insere no mês, arbitrariamente, um novo feriado
E ginga pro lado com uma fome pinicando a boca
Uma sede roçando a língua como se ônibus lotado
Ginga e caminha e tropeça rumo sincopado
Onde o barulho está mais quente para
Descobrir que o lado bom da vida
Está do lado dessa gente trabalhada em teimosia
Está do lado do coro menos confortável, mais descontente
Que zumbe suave o fundo desta madrugada
Embora apenas outro ponto da cor de lápis de cor errada
Nisto fracasso menos, portanto.
Contudo, como tantas doenças perdidas neste universo amostral de chagas
Havia um resto de febre ali à espreita
Uma sequela quente fervendo uma parte outrora fria do corpo
Ora a testa, ora a nuca, ora a virilha
As pernas ferviam mais cada degrau daquela escadaria
A caixa torácica ardia de doer conforme as noites se repetiam
Como toda boa febre, esta trazia outros sintomas
A tosse tossia para abrir a garganta
Outras vezes tossia pura pelo sádico prazer de se quebrar o silêncio
Ver se assustava uma ave, roedor ou inseto escondidos de dentro de casa
Roubando-lhes o prazer e a vez de espantar
A febre passava para os móveis e azulejos
Todo aparelho daquela casa parecia ferver às vezes
Perguntava-se, a esta altura da existência e Verão, o que havia ali para se congelar?
"Nada", a resposta vinha entre aspas
O septo nasal aquecido
O labirinto do ouvido afinado e agudo
Seria uma noite de suor adiante.
As telhas, por sua vez, certa vez, inclusive
Chegaram a derreter
Aí, além de febril, este que vos fala
Permanecera soterrado por semanas
Nisto e neste sentido se configurara um sucesso
Semanas depois, pois
Percebeu, finalmente, que sua temperatura havia baixado
Quando seu gato sentou-se, ronronante, em seu colo feito só câimbra e poeira
Sabido era o calor natural do organismo bichano
Viu, ali e portanto, que o carinho felino praticamente lhe queimara a roupa e a pele
Assim chegou o Inverno.
VI
Um caroço
Um calo
No tempo presente, fracasso aterrado
Duzentas bactérias na garganta para viagem, por favor
Mal curado estou, bem curado eu vou, mas, perdão
Cansei da posição horizontal, por favor, escuta
O inverno em Salvador é equatorial, meu amigo
Desculpa, ouve,
Escuta, por favor:
Preciso justificar, lá em casa
O trago de cachaça com mel
Que vou entornar esta tarde
Então, faça me esta gentileza, uma laringite fresquinha
E o corpo inteiro faz viagem, faz favor
Que o baile ali no morro, hoje, vai durar até amanhá
Que essa gente toda assim ainda
Tão macia, tão suada, tão risonha e disponível
Embora nem tão lúdica, poética e simbolicamente quanto eu descrevo,
Ainda vai me redimir a humanidade.
Dois Finados
Muita calma nessa hora quando a arma a cabeça explode
e o ar quente desce o pescoço
fervendo metal e quente o corpo
pela última vez a caixa torácica se abre
e a última voz sai até mais grave
no suspiro curto do morto
pelo calor explodido da cuca
sua garganta barítona sua e seca
calma que a premissa é esta
a canção de uma nota só
sai baixa e dolorida
pra compensar do desastre a festa
do cupido a ferida.
Calma que morreu, está aqui, está morto
não adianta outro morrer de novo que esse barco já saiu do porto
nem correr, que o despertador tocou há meia hora atrás
atardado, que cruz se afeita mais?
Porque não importa um grão de areia
na velocidade do luz
furando o muro
a sorte afiada causando na veia um furo
porque hipótese científica ou catastrófica nenhuma vai compensar a frustração
menos ainda importa o som do sim, do talvez ou do não
que só se sara a carne quando a carne é viva
rima nenhuma indeniza a vida
ou a porta que não se abriu
Serenidade, viu?
Que por um ou mais bilhão de anos ainda gira o mundo:
sem pressa.
Morreu? Respira fundo
aproveita que se decompor é bonito à beça.
e o ar quente desce o pescoço
fervendo metal e quente o corpo
pela última vez a caixa torácica se abre
e a última voz sai até mais grave
no suspiro curto do morto
pelo calor explodido da cuca
sua garganta barítona sua e seca
calma que a premissa é esta
a canção de uma nota só
sai baixa e dolorida
pra compensar do desastre a festa
do cupido a ferida.
Calma que morreu, está aqui, está morto
não adianta outro morrer de novo que esse barco já saiu do porto
nem correr, que o despertador tocou há meia hora atrás
atardado, que cruz se afeita mais?
Porque não importa um grão de areia
na velocidade do luz
furando o muro
a sorte afiada causando na veia um furo
porque hipótese científica ou catastrófica nenhuma vai compensar a frustração
menos ainda importa o som do sim, do talvez ou do não
que só se sara a carne quando a carne é viva
rima nenhuma indeniza a vida
ou a porta que não se abriu
Serenidade, viu?
Que por um ou mais bilhão de anos ainda gira o mundo:
sem pressa.
Morreu? Respira fundo
aproveita que se decompor é bonito à beça.
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Gimme Shelter
Fácil assim: você me inspirou uns versinhos que rabisquei aqui na parede! E eu nunca vou te mandar porque é óbvio que eu não vou arrancar um pedaço de concreto assim com as unhas. Surpresa! Quanto tempo! Reconheceu a assinatura do remetente, o pseudônimo? Sim, sou eu. Sonhei contigo ontem a noite, tomei coragem e resolvi dar notícias. Engraçado que mesmo tanto tempo depois você ainda me inspira, dependendo do dia, do clima. Um guarda chuva mesmo meu quebrou ontem e eu lembrei de você também. Levei a garoa pra casa. Tenho morado na rua, sabia? Por isso sumi desse jeito.
Essa Primavera com cara de Verão do Rio de Janeiro está me dando no saco. Morar na rua é o de menos, aguentar esse abafamento e chuva todo dia que é pouco prático. Haja papelão pra trocar. Fico mais ali naquela praça entre a Graça Aranha e a Cinelândia, que tem saída pro metrô. É bom, dá passagem mas não passa tanta gente.
A galera aqui é legal, fiz amizade, por isso posso ficar por essas bandas. Esses dias eu caminhando tentando achar outro lugar pra esticar e dormir depois do almoço e esbarro numa menina com camisa dos Smiths, até achei que ela nem sabia que que era Smiths, preconceito meu. Pois sabia e era fã, emendamos a falar de música e foi assim que fiz amizade. Falamos até de Stones, tem uma banca ali na Carioca que fica passando música boa naqueles Dvds, passou o show deles na Praia de Copacabana. Nunca tinha visto gravado e fiquei tentando identificar eu você na multidão de um milhão verde de pessoas. Sobre minha nova amiga ainda: ela falou que há anos não conversava sobre música com ninguém, e concordamos em conjunto que temos que nos atualizar. Tem alguma dica de banda pra indicar pra gente? No mais, como dizia, conheci o restante do pessoal e tem de tudo aqui, a gente se junta pra se proteger. Principalmente as moças, nascidas moças ou não. Perigoso ficar andando sozinha pelo Centro. Tem muito babaca nessa mundo. Começaremos a vender umas artes que ela faz com sabugos de milho verde. Quando que eu voltar a escrever com mais frequência vou tentar fazer uma dessas zines e me juntar com aqueles meninos que vendem poesia perto do CCBB. Mas acho que não é fácil assim chegar junto deles, tem mó cara de máfia aquilo...
A galera aqui é legal, fiz amizade, por isso posso ficar por essas bandas. Esses dias eu caminhando tentando achar outro lugar pra esticar e dormir depois do almoço e esbarro numa menina com camisa dos Smiths, até achei que ela nem sabia que que era Smiths, preconceito meu. Pois sabia e era fã, emendamos a falar de música e foi assim que fiz amizade. Falamos até de Stones, tem uma banca ali na Carioca que fica passando música boa naqueles Dvds, passou o show deles na Praia de Copacabana. Nunca tinha visto gravado e fiquei tentando identificar eu você na multidão de um milhão verde de pessoas. Sobre minha nova amiga ainda: ela falou que há anos não conversava sobre música com ninguém, e concordamos em conjunto que temos que nos atualizar. Tem alguma dica de banda pra indicar pra gente? No mais, como dizia, conheci o restante do pessoal e tem de tudo aqui, a gente se junta pra se proteger. Principalmente as moças, nascidas moças ou não. Perigoso ficar andando sozinha pelo Centro. Tem muito babaca nessa mundo. Começaremos a vender umas artes que ela faz com sabugos de milho verde. Quando que eu voltar a escrever com mais frequência vou tentar fazer uma dessas zines e me juntar com aqueles meninos que vendem poesia perto do CCBB. Mas acho que não é fácil assim chegar junto deles, tem mó cara de máfia aquilo...
Tava com a garganta inflamada semana passada, morar na rua essas horas é foda por causa disso. De dia era tranquilo, doía só quando engolia a saliva. Quando não tava afim de engolir eu cuspia na cuspideira improvisava que fiz de um copo de Guaravita. De noite era pior, a porra do vento do mar vinha e fazia o raio do ouvido arder como se tivesse uma agulha fazedo acrobacia lá de dentro. Me derrubou um mês mas já passou. Mas tô evitando falar em voz alta, cada conversa que eu começo parece uma maratona que eu não vou aguentar terminar. Acho que por isso também desatei a te escrever essa carta. Tenho muitas curiosidades. Como está o seu cabelo? Amarelo ainda? Sempre preferi essa cor. Mais que o vermelho, e aquele azul que você cismou outra época. E essa boca? Beijando muito? Tá namorando? E esse corpo? Ainda tem espinhas pelas costas toda? Bateu uma vontade de espremer espinha sua agora.
Caralho, você viu que o Chaves morreu semana passada? Lembrei de você na hora que vi na capa do Meia Hora, nem acreditei! Parecia outra piada. Lembrei de você imitando o "piripaque", e eu te jogando água gelada. Deu até sede lembrar. Falando em lembranças, superei minha fobia de insetos! O calor atrai todo tipo de bicho e a gente tem que se acostumar. Matei uma barata com a mão outro dia. Sentei pra usar um banheiro em um desses botecos quase na Lapa, um dos poucos cujo dono ainda não trata a gente com nojo ou tesão. A dita-cuja veio vindo pela porta e parou quando me viu. A minha perna não ia se esticar e agir na velocidade necessária para matar a bicha, então tinha que ser com a mão. Coisas que a gente aprende quando tem que se virar só. Fechei o punho e bati que nem marreta em cima dela no chão de azulejo. Doeu mas foi mais nojento que doído. O pior foi que 2 minutos depois ela voltou a se mexer, parecia até aquilo que eu sinto por você porque toda vez que eu esmagava voltava depois a se contorcer, três patas, duas patas, uma antena... estribuchando minha decisão.
Bem, é isso, se não quiser me ver ou entregar carta resposta pessoalmente, eu entendo. Fiz amizade com um porteiro ali na Treze de Maio, o endereço do envelope é de onde ele trabalha. Combinei de passar toda terça e quinta pra ver se tem alguma resposta sua, tá bom? Mas sem pressão, responde e dá notícias quando puder. Sei que hoje em dia ninguém mais escreve carta, tudo tanto virtual que até foi difícil achar o envelope e a vendedora fez graça da minha cara quando pedi. Enfim, essas são as novidades. Ninguém morreu. Pode te parecer estranho, mas estou bem. Todo dia eu sinto que alguma coisa nova pode acontecer. Perdoa qualquer embananamento nas ideias, faz tempo que eu não escrevia tanto duma vez só. E perdoa também qualquer erro de gramática, não estou por dentro do último acordo ortográfico e sabe como é: o mundo analógico não tem corretor automático! Risos. Beijos. Dê notícias. Não pense mal de mim. Por favor.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Declaração de Doador de Órgãos
Aproveito o ensejo e me declaro doador de órgãos, embora, por motivos óbvios, o pulmão e o fígado, e sobretudo este último, não sejam lá muito aproveitáveis. O coração, apesar de umas ranhuras e marcas de calos características de uso, trabalha muito bem. Digo, de vez em quando dá umas travadas, mas é só tirar pra soprar a poeira ali da junção que funciona em seguida.
Sustenido/Bemol
O meu ato é de amor cuja natureza liquefeita
Toma variada forma se em métrica ou na prosa o expresso
Do amor característico do ato meu o amplifico para fins de urgência
Ou o aquieto, silencioso, estagnando-o na dimensão espacial que se circunscreve dentro do perímetro dado por você durante nosso último encontro
Contudo, hoje, neste dado momento, violo o acordado anteriormente. Portanto,
Aqui, e me permita a insistência descritiva: Do que derrama, vide a amplitude da palavra escrita ser insuficiente, este sentimento meu que eu tento e falho em descrever, embora crível, transborda e toma sua forma imprevisível:
(A ordem das coisas importa menos, pois todos os eventos a seguir ocorrem concomitantemente:)
Temos, Esta consciência íntima:
Se adapta à erosão dos solos, azulejos, paralelepípedos,
À depressão dos vales, repletos de vida vegetal, animal, mineral.
Minerais não tão vivos, mas que por esta faculdade de compreender se tornam repletos de significantes;
Se acomoda às curvas do corpo,
preferencialmente deitado,
Se adapta exato à cada uma cicatriz nossa,
À cada memória de dente cravado,
Às sombras dos pelos,
Às marcas de vacina;
E se a gravidade dos fatos
da Terra, minto,
for suficientemente leve,
O meu amor transbordado se espalha em gotas de variados volumes e formas pelo ar
Formando soluções químicas ainda desconhecidas com os demais amores transbordados em menores e maiores graus de quantidade e subjetividade; todos pois pairando nesta mesma atmosfera e arrastados para outras partes.
Meu ato é um ato de coragem por ser explícito em sua limitação original.
Expresso ato, de fato, nesta superfície material ou digital.
Valente e estrebuchado porque consciente!
Da curta imensidão que se propõe, única e simplesmente.
Por fim, eu, o eu lírico prolixo cujas escolhas resultam em rotas engarrafadas,
Advirto: Qualquer atrito me é intencional.
Recomendo: Quase qualquer vontade acidental.
Toma variada forma se em métrica ou na prosa o expresso
Do amor característico do ato meu o amplifico para fins de urgência
Ou o aquieto, silencioso, estagnando-o na dimensão espacial que se circunscreve dentro do perímetro dado por você durante nosso último encontro
Contudo, hoje, neste dado momento, violo o acordado anteriormente. Portanto,
Aqui, e me permita a insistência descritiva: Do que derrama, vide a amplitude da palavra escrita ser insuficiente, este sentimento meu que eu tento e falho em descrever, embora crível, transborda e toma sua forma imprevisível:
(A ordem das coisas importa menos, pois todos os eventos a seguir ocorrem concomitantemente:)
Temos, Esta consciência íntima:
Se adapta à erosão dos solos, azulejos, paralelepípedos,
À depressão dos vales, repletos de vida vegetal, animal, mineral.
Minerais não tão vivos, mas que por esta faculdade de compreender se tornam repletos de significantes;
Se acomoda às curvas do corpo,
preferencialmente deitado,
Se adapta exato à cada uma cicatriz nossa,
À cada memória de dente cravado,
Às sombras dos pelos,
Às marcas de vacina;
E se a gravidade dos fatos
da Terra, minto,
for suficientemente leve,
O meu amor transbordado se espalha em gotas de variados volumes e formas pelo ar
Formando soluções químicas ainda desconhecidas com os demais amores transbordados em menores e maiores graus de quantidade e subjetividade; todos pois pairando nesta mesma atmosfera e arrastados para outras partes.
Meu ato é um ato de coragem por ser explícito em sua limitação original.
Expresso ato, de fato, nesta superfície material ou digital.
Valente e estrebuchado porque consciente!
Da curta imensidão que se propõe, única e simplesmente.
Por fim, eu, o eu lírico prolixo cujas escolhas resultam em rotas engarrafadas,
Advirto: Qualquer atrito me é intencional.
Recomendo: Quase qualquer vontade acidental.
sábado, 11 de outubro de 2014
Somos Três
Me condeno num impulso estético ético de fugir com o copo de vidro do boteco. Condeno pois me pego num discurso sustentável que minha auto-consciência diz para não contribuir com o aumento de materiais descartáveis naquele estabelecimento. Me descubro na fila de um Hotel esperando bater as cinco da manhã pra negociar um desconto no aluguel do quarto. Dou o bom dia merecido às evangélicas constrangidas que que voltam pra casa terminada a sua vigília de dentro das igrejas pentecostais que ficam espalhadas pela Rua da Conceição. Achei na noite outra menina que era a tua cara, a meia altura, o meio riso, o meio ruivo, os meios cachos e devo ter quase trocado o nome da moça pelo seu quando sai e voltei com a cerveja e tive que pedir pra ela segurar o copo, que foi, no final das contas, roubado do bar. Em casa e só, finalmente só, te vejo acenando de dois anos atrás do outro lado do histórico. Embrigado anoto umas ideias embriagadas pra lembrar de usar no dia seguinte em qualquer galho. Durmo, acordo antes do esperado e começo de madrugada mesmo. A falta de objetivo faz amanhecer depressa. Afinal, arranho um poema que quando vou ver já virou prosa porque onde há ressaca não há métrica. Tenho manhãs de tenor, mas acordei barítono de tão rouco de cigarro, de beber gelado. Cabisbaixo, reclamo da sua ausência como pirralho mimado que chia pra mãe que esqueceu sua paçoca:
"Maria, seu nome me soa feito o estrondo além das montanhas de prédios; como se a rosa fosse o Sol e enquanto flor firme por entre a mecha do cabelo irradiasse; seu sobrenome parece risada, ria! ria como se minha obsessão por astronomia fosse esguia eu te visse nas constelações que aprendi via enciclopédia, Maria; Maria, ateia, indecisa sobre a possibilidade da maternidade, Maria, seu nome é refrão dentro e fora de verso e canção; Maria, que sequer é Maria e tomo-lhe pela mão como um paliativo em imagem pra dissertar sobre nossa própria solidão; Maria, seu nome é título de monólogo que escrevi adolescente e esqueci de guardar, sua gravidade é minha gravidade que desaprendeu sua função e nos deixou, por dois minutos, suspensos no ar; sua alma que nem a minha: nenhum de nós dois se resguardou do sereno; Maria, seu coração vermelho se abre, a cor é uma mera perspectiva da refração da luz na nossa retina; Maria, seja lá o que te explode aí dentro faz bem explodir. E eu te espero na porta do banco com a chave do carro virada, com o motor aquecido, ligado, a porta destrancada; seja lá que explosão, está tudo bem que o que incendeia acontece porque faz parte de sua propriedade química de eclodir em chamas; Maria, eu sei um atalho mas detesto atalhos! só estou indo por aqui porque estamos em fuga. Maria, estamos em fuga mas pega sua analógica, faço nem ideia quando vai dar e se vai dar pra revelar, mas pega, fotografa aquela gaivota que assim que possível eu pego o caminho mais longo e vamos pela beira do prato onde a comida é mais fresca; quase encostar nossa nuca, casa lar do arrepio; assim que der vire à esquerda que nos chegará o litoral: pode parecer contramão, mas, mesmo se a viagem acabar em Inverno, pela frisa da janela prevalece o Verão."
Adormeci e acordei pela segunda vez, e, pouco depois do almoço, antes de mudar de assunto, continuei nesse menor parágrafo: "Maria, antes que eu pegue no sono e me distraia saiba que estamos juntos enquanto houver ossos nesse corpo e como arqueóloga você sabe melhor do que eu que isso é tempo o bastante. Seu nome é refrão, et cetera; sinto saudade de quando você acordava logo cedo porque o azul é mais azul antes das nove."
sábado, 4 de outubro de 2014
Ella
O shuffle estava muito cruel naquela noite. "'Nothing compares 2 U', sério"? O amigo chegou antes do terceiro refrão, atabalhoado, perguntou se tinha lembrado de levar o isqueiro. Tinha. E, sim, não esqueceu a seda, dobrada na meia, doidão. Perguntou que que era atabalhoado. Falou do bofe pra ela, da pós graduação. Fazia tempo que não sentavam a bunda numa praça pública, cidade violenta. Mas ali pareceu boa hora e lugar, meia dúzia de criança, cachorros, idosos, pipoqueiro, banca de jornal 24 horas, se secar o fogo ou arranjar um varejo. Dia seguinte. A menina com quem tinha marcado uma casual tinha saia curta demais para uma protestante, devia ser batista, concluiu. Ademais o fato de estar saindo com outra mulher. Na outra semana. Acordou. Seu único pertence além da roupa era o esparadrapo que fechava a ferida do soro. Quando levantou, finalmente, chovia e já era quase três da tarde. Como, obviamente, tinha ideia nenhuma de que horas eram, cumprimentou sorridentemente a enfermeira com um exclamativo "Bom dia!" (Como sempre fazia.) A funcionária do hospital cochicharia com sua colega de trabalho: "Menina, veja só. Nem parece que tentou se matar ontem". Imediatamente depois de sua alta voltou a fumar filtro vermelho. Dois anos depois. Demorou umas cinco semanas para sequer tocar a cama dela. Porque era dela, ela que pagou, dela, então. Dormia no sofá porque sim. Ainda sobre a cama, como disse, deixou por muito tempo as colchas e lençóis como ela havia esquecido de arrumar antes de sair. No primeiro dia foi por birra, porque não era sua criada, porra. Depois porque notou que a marca do lençol amassado ainda descrevia vagamente em suas linhas tronchas o seu corpo deitado antes. Parou de fumar, por conta própria, três dias depois que mudou de cidade. Cinco anos passados. "Engraçado como a gente se acostuma com o litoral."
Situações inusitadas por se ter uma memória visual forte:
Lembrar, do nada, enquanto bebe um café e aperta um cigarro, do rosto de uma mulher aleatória. Simplesmente lembrá-lo fotograficamente, assim, deslocado de qualquer outra memória a respeito. Uma cara flutuante com requintes e detalhes, por exemplo, sobre a sobrancelha, tonalidade da pele, lábio e último corte de cabelo. Excesso de informação ilustrativa a respeito de uma pessoa que você não faz ideia de quem é, por onde ou por quem conheceu. Acontece também de se esbarrar, tão casualmente quanto, três dias depois, com a tal pessoa na fila do banheiro de um bar na São Salvador. "Verdade, era colega de sicrana."
É interessante pensar que, apesar deste descolar memorial de imagens e fatos, a sensação da amplitude do tempo é constante. Como da vez que você entrou em um bistrô na Sete de Setembro para comer um croquete, caro, por sinal, e, enquanto conversava, sentou uma menina na mesa ao lado cuja face te transportou para pelo menos quinze ou vinte anos atrás. Ainda agora você não faz ideia de onde a conheceu, e, se fosse mais extrovertido e estivesse desacompanhado, teria puxado assunto para ver se reavivava a lembrança. O seu único palpite por enquanto é de que estudaram juntos na terceira série e que ela era proprietária de uma mochila rosa.
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Carioquice
Carioca se acha bicho safo. E em geral é mesmo, porque sempre tem resposta na ponta da língua pra tudo. Parece regra de seleção natural pra sobreviver nessa cidade. Tu tá comprando um amendoim esperando o sinal abrir, dá uma nota de dois, recebe um real de troco, já aparece alguém de trás do poste pra pedir o dinheiro, provavelmente em sociedade com o moço do amendoim. O reflexo cultural é dizer: "Pô, broder, é pra inteirar a passagem..."
Por isso dos moços da Unicef que ficam espalhados pelas ruas do Centro eu só corro: são cariocas profissionais. No dia que parar pra conversar na certa vai dar Serasa. Mas me amarro de ver quando essa cariocada esbarra com outra gente ainda mais trabalhada na arte da carioquice. Chega o pedinte: "Me vê um trocado aí, colega." Resposta: "Só tenho cartão, cara." Tréplica: "Mas a gente agora tem a maquininha de cartão também. Débito ou crédito?"
Por isso dos moços da Unicef que ficam espalhados pelas ruas do Centro eu só corro: são cariocas profissionais. No dia que parar pra conversar na certa vai dar Serasa. Mas me amarro de ver quando essa cariocada esbarra com outra gente ainda mais trabalhada na arte da carioquice. Chega o pedinte: "Me vê um trocado aí, colega." Resposta: "Só tenho cartão, cara." Tréplica: "Mas a gente agora tem a maquininha de cartão também. Débito ou crédito?"
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Nova Guanabara
As Olimpíadas de Inverno hão de chegar no Rio de Janeiro, garantidas por carregamentos de neve vindos de Bariloche e das Cordilheiras dos Andes, um verdadeiro colossal empreendimento turístico. O evento será estruturado com financiamento do Estado em articulação com uma certa empresa terceirizada estrangeira. O conchavo, por conta de uma série de decretos aprovados rapidamente pela Câmara, será tratado exclusivamente por esta empresa, recém fundada, em consultoria conjunta à Secretaria de Turismo Municipal.
Os carregamentos de neve hão de chegar, se sustentar e adaptar ao novo cenário fundado nesta cidade, graças às maravilhas oriundas das novas tecnologias de climatização customizada de ecossistemas de médio porte. Hão de chegar mas posteriormente os envolvidos se espantarão com uma nova onda de calor que irá surgir, superando quaisquer expectativas previstas, em um efeito 10 vezes mais intenso que o El Niño, destruindo a aparelhagem que havia permitido climatizar a cidade semanas antes. As crostas nevadas que estavam amontoadas em nossas serras, então, irão se derreter, fato intensificado fatidicamente pelo feriado prolongado, pelas peles morenas se aproveitando do período, pelo dezembro carioca, que irá se impor sobre os objetivos transnacionais ao se adiantar para os meados de julho.
Toda neve importada derretida e escorrida dos elevados se acumulará, ao nível do mar, em um gigantesco parque aquático natural gratuito de água doce pelos bairros do Centro, Zona Sul, Norte e Oeste, seguidos de um dilúvio de 10 semanas, igualmente fora de época, similarmente milagroso. Os escorregadores serão instalados ao longo das encostas dos morros e serras, e dentro de poucos anos nossa fauna e flora se adaptará. Moraremos no pântano tropical oriundo desta branda catástrofe. Coqueiros se multiplicarão pelas novas encostas e seu conteúdo líquido voltará a custar menos de um real diante de tanta oferta. Após uma fracassada tentativa de patentear estas árvores, vetada por iniciativa popular, a empresa terceirizada estrangeira decretará falência removendo suas atividades do país. Outro exemplo de iniciativa frustrada será a grande pista de patinação instalada na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Tamanho o choque hídrico causará grande abominação dentre as classes altas pois igualmente ao longo da cidade se formarão novos manguezais, desvalorizando vertiginosamente todos os imóveis da região visto estarem em pé de igualdade infraestrutural com o restante da capital fluminense e consequentemente estourando a bolha imobiliária ali antes estabelecida. As comunidades removidas pela Prefeitura por conta das obras e mesmo índios que habitavam séculos antes a Floresta Atlântica reverterão sua diáspora rumo a seus lares, fortalezas, aproveitando-se no caos causado pela má administração dos governantes, que viriam a ser depostos, diante deste cenário inesperado.
Um meteoro com substâncias extraterrestres misteriosas mas muito similares às propriedades do sabão e do cloro, então, cairá sobre a nossa baía purificando suas margens e leito em totalidade de todo petróleo e demais dejetos. Histórias, casos, pesquisas fortuitas, a partir daí, irão ser inspiradas pelo evento aqui descrito, retratando estes fatos em estudos acadêmicos, cinema, canção e outras formas de conhecimento e cultura. A Nova Guabanara, como será chamada, passará a ser considerada "A Primeira Maravilha do Mundo Pós Moderno", derrocando o Cristo, cuja redenção não evitou que seus pedaços, durante o dilúvio, se espalhassem pelo Oceano Atlântico. Nesta Baía, em manhãs ensolaradas, o limite entre o azul do céu e da água será quase indiscernível no breve horizonte. Isto confundirá constantemente os embriagados que virarem a noite em sambas e rodas da renascida Zona Portuária e resolverem testemunhar o nascer do dia. Tal similaridade, contudo, nunca ludibriará as famintas gaivotas.
Os carregamentos de neve hão de chegar, se sustentar e adaptar ao novo cenário fundado nesta cidade, graças às maravilhas oriundas das novas tecnologias de climatização customizada de ecossistemas de médio porte. Hão de chegar mas posteriormente os envolvidos se espantarão com uma nova onda de calor que irá surgir, superando quaisquer expectativas previstas, em um efeito 10 vezes mais intenso que o El Niño, destruindo a aparelhagem que havia permitido climatizar a cidade semanas antes. As crostas nevadas que estavam amontoadas em nossas serras, então, irão se derreter, fato intensificado fatidicamente pelo feriado prolongado, pelas peles morenas se aproveitando do período, pelo dezembro carioca, que irá se impor sobre os objetivos transnacionais ao se adiantar para os meados de julho.
Toda neve importada derretida e escorrida dos elevados se acumulará, ao nível do mar, em um gigantesco parque aquático natural gratuito de água doce pelos bairros do Centro, Zona Sul, Norte e Oeste, seguidos de um dilúvio de 10 semanas, igualmente fora de época, similarmente milagroso. Os escorregadores serão instalados ao longo das encostas dos morros e serras, e dentro de poucos anos nossa fauna e flora se adaptará. Moraremos no pântano tropical oriundo desta branda catástrofe. Coqueiros se multiplicarão pelas novas encostas e seu conteúdo líquido voltará a custar menos de um real diante de tanta oferta. Após uma fracassada tentativa de patentear estas árvores, vetada por iniciativa popular, a empresa terceirizada estrangeira decretará falência removendo suas atividades do país. Outro exemplo de iniciativa frustrada será a grande pista de patinação instalada na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Tamanho o choque hídrico causará grande abominação dentre as classes altas pois igualmente ao longo da cidade se formarão novos manguezais, desvalorizando vertiginosamente todos os imóveis da região visto estarem em pé de igualdade infraestrutural com o restante da capital fluminense e consequentemente estourando a bolha imobiliária ali antes estabelecida. As comunidades removidas pela Prefeitura por conta das obras e mesmo índios que habitavam séculos antes a Floresta Atlântica reverterão sua diáspora rumo a seus lares, fortalezas, aproveitando-se no caos causado pela má administração dos governantes, que viriam a ser depostos, diante deste cenário inesperado.
Um meteoro com substâncias extraterrestres misteriosas mas muito similares às propriedades do sabão e do cloro, então, cairá sobre a nossa baía purificando suas margens e leito em totalidade de todo petróleo e demais dejetos. Histórias, casos, pesquisas fortuitas, a partir daí, irão ser inspiradas pelo evento aqui descrito, retratando estes fatos em estudos acadêmicos, cinema, canção e outras formas de conhecimento e cultura. A Nova Guabanara, como será chamada, passará a ser considerada "A Primeira Maravilha do Mundo Pós Moderno", derrocando o Cristo, cuja redenção não evitou que seus pedaços, durante o dilúvio, se espalhassem pelo Oceano Atlântico. Nesta Baía, em manhãs ensolaradas, o limite entre o azul do céu e da água será quase indiscernível no breve horizonte. Isto confundirá constantemente os embriagados que virarem a noite em sambas e rodas da renascida Zona Portuária e resolverem testemunhar o nascer do dia. Tal similaridade, contudo, nunca ludibriará as famintas gaivotas.
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
Monólogo em Areia e Dedo: Trinta e Dois (ou "Armagueria")
O gosto pelo amargo me faz tempo, desde o café molhado no pão, pequena, desde aquele pedaço minúsculo de cravo que usavam para ornar as sobremesas, desde os chocolates que sobravam na caixa de chocolates que ninguém comia eu caía de boca e me lambuzava. Acabou, e quando digo e repito sobre o gosto e apreço pelo amargo que possuo as pessoas se estranham e associam com o meu humor. Eu que defendo que pra mim amargo é doce, doce no metafórico, amargo no paladar. Comida é comida, estado de espírito é outra ciência. A linguagem é minha e eu faço dela o que vier. E eu vou, me aponte o dedo na cara pra armar uma palavra, uma ferida, um julgamento, que hei de desviar e apontar para direção inicial que sua seta armava, que eram às minhas costas, e lhe subverter o intento dizendo: sim, é por ali que fica a rua tal, duas quadras depois da Casa de Saúde estará a "Amargueria".
"Doceria" já passou, guloseimas de café, rum, canela, gengibre é que vende lá, sim, é a segunda à esquerda, sempre à esquerda. É uma delícia, pode confiar. Se duvidar, se me caçoar da minha mania, irei lhe dizer, "cabe mais espaço na minha garganta que em seu intestino inteiro!" Querer e fazer são as maiores forças que regem nossas vidas, quando temos as circunstâncias materiais que nos permitam. Por isso que se eu quero, eu me despenteio mesmo. Respeito menos você se seu cabelo está sempre no lugar, mas não declaro guerra por pouco assim. Ascendente em Capricórnio para segurar o Sagitário. Saturno retornou e já está fazendo o caminho da volta. Conversa de boteco, nunca fui de mapas.
Se já tivesse filhas falaria que levassem um casaco que lá fora o gosto do sereno era amargo! O carburador dos carros era doce, portanto, melhor serem evitados. O sinal fechado furado, o corpo atropelado, salgado e doce, respectivamente. O gosto do pescoço daquela coisa que você provou uma vez apenas e já estava com saudade de provar de novo tem gosto amargo também. É amargo o riso gratuito que me cai da boca quando. Faço cara de acorde menor, me elogiam. Agora se faço Sol, natural, perguntam se me aconteceu uma tragédia. Não entendo vocês, humanos.
"Doceria" já passou, guloseimas de café, rum, canela, gengibre é que vende lá, sim, é a segunda à esquerda, sempre à esquerda. É uma delícia, pode confiar. Se duvidar, se me caçoar da minha mania, irei lhe dizer, "cabe mais espaço na minha garganta que em seu intestino inteiro!" Querer e fazer são as maiores forças que regem nossas vidas, quando temos as circunstâncias materiais que nos permitam. Por isso que se eu quero, eu me despenteio mesmo. Respeito menos você se seu cabelo está sempre no lugar, mas não declaro guerra por pouco assim. Ascendente em Capricórnio para segurar o Sagitário. Saturno retornou e já está fazendo o caminho da volta. Conversa de boteco, nunca fui de mapas.
Se já tivesse filhas falaria que levassem um casaco que lá fora o gosto do sereno era amargo! O carburador dos carros era doce, portanto, melhor serem evitados. O sinal fechado furado, o corpo atropelado, salgado e doce, respectivamente. O gosto do pescoço daquela coisa que você provou uma vez apenas e já estava com saudade de provar de novo tem gosto amargo também. É amargo o riso gratuito que me cai da boca quando. Faço cara de acorde menor, me elogiam. Agora se faço Sol, natural, perguntam se me aconteceu uma tragédia. Não entendo vocês, humanos.
Rogaria
A lava que lhe ressurge das fendas dos ossos
O estrondo tectônico, cardíaco, leucócitos
O dilúvio das pálpebras ganhando alforria
O fio magro de morte na noite, a gritaria.
A canção que tomaram da mão lhe estalando os dedos
A tarde que removeram o teto realocando o colo
O pão dormido comido doado feito caridade
O cobertor cobrindo porque deu vontade.
O inferno que faz quando a resposta chega
A pergunta latente quando o vaso quebra
O lugar das coisas importando menos
A cor da rosa transcendendo Vênus.
A palavra rimada deliberada conforme convém
O entrelaçamento quântico entre nós três
O Armagedão pra cada aniversário, vendaval ou fevereiro
A carne que não pertence a quem a língua chegou primeiro.
────────────────────────────────
P.S: (versão alternativa com a segunda estrofe)
O verde das veias que queriam respirar clorofila
O branco das unhas ferindo as costas, gengiva
O nublado óbvio que se enxerga da janela fechada
O dublado cínico tateado na palavra afiada.
O estrondo tectônico, cardíaco, leucócitos
O dilúvio das pálpebras ganhando alforria
O fio magro de morte na noite, a gritaria.
A canção que tomaram da mão lhe estalando os dedos
A tarde que removeram o teto realocando o colo
O pão dormido comido doado feito caridade
O cobertor cobrindo porque deu vontade.
O inferno que faz quando a resposta chega
A pergunta latente quando o vaso quebra
O lugar das coisas importando menos
A cor da rosa transcendendo Vênus.
A palavra rimada deliberada conforme convém
O entrelaçamento quântico entre nós três
O Armagedão pra cada aniversário, vendaval ou fevereiro
A carne que não pertence a quem a língua chegou primeiro.
────────────────────────────────
P.S: (versão alternativa com a segunda estrofe)
O verde das veias que queriam respirar clorofila
O branco das unhas ferindo as costas, gengiva
O nublado óbvio que se enxerga da janela fechada
O dublado cínico tateado na palavra afiada.
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Precaução
Cuidado
É preciso cuidado
A pressa é desastrada
O desespero despedaça
Cuidado
com o caminho reto escrito no mapa
com o teto baixo, a cabeça e o salto
Cuidado com a esperança
Com o abraço mal dado
Cuidado com o labirinto e a labirintite
A fruta cítrica! se atente à gastrite
Água doce também mata sede.
Cuidado
O castanho dos olhos
Vai brotar montanha acima
Alternando passos redundantes e pequenas revoluções
Demorará? Sim
Mas vai.
Mas vá
Dissipar-se o nublado da janela
A fome cinza de Sol e força
Precisa continuar faminta
O corpo quer o corpo quer cuidado
O corpo cabe do seu lado
O corpo saliva, aperta, cheira
Chover faz bem, mas
Cuidado!
que nem todo azul existe
pra lhe enfeitar o quarto
Cuidado se corta
Se cuide.
É preciso cuidado
A pressa é desastrada
O desespero despedaça
Cuidado
com o caminho reto escrito no mapa
com o teto baixo, a cabeça e o salto
Cuidado com a esperança
Com o abraço mal dado
Cuidado com o labirinto e a labirintite
A fruta cítrica! se atente à gastrite
Água doce também mata sede.
Cuidado
O castanho dos olhos
Vai brotar montanha acima
Alternando passos redundantes e pequenas revoluções
Demorará? Sim
Mas vai.
Mas vá
Dissipar-se o nublado da janela
A fome cinza de Sol e força
Precisa continuar faminta
O corpo quer o corpo quer cuidado
O corpo cabe do seu lado
O corpo saliva, aperta, cheira
Chover faz bem, mas
Cuidado!
que nem todo azul existe
pra lhe enfeitar o quarto
Cuidado se corta
Se cuide.
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Curta Longa Vida de um Poeta Nas Metrópoles
Era um poeta insuportável. Recitava repertório próprio como troféu na grande maioria das oportunidades, nos arredores dos centros culturais, nos refeitórios das universidades, assembleias políticas. Charada sincopada boicotada pelos serões da província por ser mais decifrável que receita de soro caseiro. Bisneto de imigrantes armênios, foi sobrinho-neto de terceiro grau de um certo escritor menos aclamado na literatura destes lados do leste-europeu; contudo, desinibindo a distância, frequentemente se gabava do fato. Adorava nostalgicamente o acordo-ortográfico de 8 de dezembro de 1945, "pois quando era", segundo suas palavras, "a língua portuguesa ainda mantinha seu esplendor característico". Tinha noção clara do que era e do que não devia ser arte: no teatro, origami, gastronomia, música - embora preferisse, secretamente, barulhos de cachoeira gravados em fitas cassete que uma roda de samba ou sinfonia. Morreria de peste negra se isso ainda existisse. Contentou-se em falecer de febre tifoide contraída em uma viagem para Tocantins. (A verdade é que apenas faleceu por se recusar a ser atendido por um médico cubano.) Seu primeiro e único livro escrito fora publicado postumamente apenas na Internet e viralizou nas redes sociais por umas duas semanas.
domingo, 7 de setembro de 2014
Monólogo em Areia e Dedo: Trinta e Quatro
Foi pego imprimindo livretos de poesia no trabalho. Chamado para comparecer ao RH, esperava sua carta de demissão; contudo, fora promovido ─ o que por si só já é de uma poeticidade e bom gosto literário finíssimo por parte de seus superiores. Ao saberem da sucessão dos fatos, por entre os demais funcionários a moda pegou na repartição. Todos imprimiam os livros que curtiam, de 'bom gosto' ou não. Começaram a agendar grupos de leitura e saraus com pessoas de outros setores e funções. Encerravam as atividades duas horas antes do expediente toda primeira e terceira quinta-feira do mês para os coletivos e toda terça para as recitações. Muitos começaram a levar seus escritos próprios. O índice de produtividade de serviço, contrariando os alarmistas, aumentou e o primeiro empregado, que estivera na vanguarda de imprimir coletâneas de versos de Leminski, Torquato, Fiama, Cecília, Florbela, Drummond e Pessoa fora promovido novamente. Tais práticas foram tornadas institucionais dentro da empresa para evitar quaisquer empecilhos legais.
Em outro recital levara seu primeiro petardo autoral. Antes de recitá-lo, porém, já havia notado que a plateia daquele dia estava composta tanto por superintendentes, secretários, procuradores, inspetores, agentes executivos, como por estagiários, acessorialistas, zeladores, motoboys, copeiras; pessoas das mais variadas sortes a trabalhar no mesmo edifício. Conforme se erguia de seu assento com o papel em mãos e se pusera diante da multidão, tremulamente surpreendeu suas testemunhas ao amassá-lo e arremessá-lo contra o chão, pisando-o repetidamente, acinzentando sua textura branca. A plateia assistiu ao ritual em silêncio; e, então, após cerca de 10 segundos quando só se podia ouvir os ruídos do ventilador de teto, o protagonista que descrevo se abaixou, desembaraçou o papel, sobretudo empoeirado mais por seus pés que pelo chão limpo, varrido (inclusive duas vezes por dia e pelas mesmas faxineiras ali sentadas a assistir o espetáculo) e, finalmente, leu as seguintes palavras que continha impressas:
"Sou um poema em carne viva.
O amasso e a sujeira me fazem parte do verso,
Como a cicatriz e o suor fazem parte do corpo."
Fora aplaudido de pé. O presidente em pessoa, que esperava ansiosamente este telefonema em sua mesa, desceu do último andar e compareceu àquele auditório para cumprimentar-lhe e informar os fortuitos procedimentos e trâmites, que, após assinatura de portarias e respectivas publicações no Diário Oficial da União, além dos demais detalhes técnicos e burocráticos, tornariam possível o ato de lhe ceder e nomear ao cargo mais importante dentro da hierarquia da empresa a qual faziam parte.
Obs.: Sua trajetória seguiria os mesmos moldes meteóricos ao longo da década seguinte exceto por um período temporário de afastamento da produção literária para se dedicar à carreira política. O retorno, após homérico fracasso eleitoral ao cargo de Governador do Estado, foi em seu quinto e mais bem vendido livro de poesia, chamado: "Lições de Esgrima", subtítulo: "...ou como sobrevivi por entre percevejos sem sair fedido".
Em outro recital levara seu primeiro petardo autoral. Antes de recitá-lo, porém, já havia notado que a plateia daquele dia estava composta tanto por superintendentes, secretários, procuradores, inspetores, agentes executivos, como por estagiários, acessorialistas, zeladores, motoboys, copeiras; pessoas das mais variadas sortes a trabalhar no mesmo edifício. Conforme se erguia de seu assento com o papel em mãos e se pusera diante da multidão, tremulamente surpreendeu suas testemunhas ao amassá-lo e arremessá-lo contra o chão, pisando-o repetidamente, acinzentando sua textura branca. A plateia assistiu ao ritual em silêncio; e, então, após cerca de 10 segundos quando só se podia ouvir os ruídos do ventilador de teto, o protagonista que descrevo se abaixou, desembaraçou o papel, sobretudo empoeirado mais por seus pés que pelo chão limpo, varrido (inclusive duas vezes por dia e pelas mesmas faxineiras ali sentadas a assistir o espetáculo) e, finalmente, leu as seguintes palavras que continha impressas:
"Sou um poema em carne viva.
O amasso e a sujeira me fazem parte do verso,
Como a cicatriz e o suor fazem parte do corpo."
Fora aplaudido de pé. O presidente em pessoa, que esperava ansiosamente este telefonema em sua mesa, desceu do último andar e compareceu àquele auditório para cumprimentar-lhe e informar os fortuitos procedimentos e trâmites, que, após assinatura de portarias e respectivas publicações no Diário Oficial da União, além dos demais detalhes técnicos e burocráticos, tornariam possível o ato de lhe ceder e nomear ao cargo mais importante dentro da hierarquia da empresa a qual faziam parte.
Obs.: Sua trajetória seguiria os mesmos moldes meteóricos ao longo da década seguinte exceto por um período temporário de afastamento da produção literária para se dedicar à carreira política. O retorno, após homérico fracasso eleitoral ao cargo de Governador do Estado, foi em seu quinto e mais bem vendido livro de poesia, chamado: "Lições de Esgrima", subtítulo: "...ou como sobrevivi por entre percevejos sem sair fedido".
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Convinced of The Hex (ou "Monólogo em Areia e Dedo: Trinta e Cinco")
Estava no supermercado, planejava levar só três ou duas coisas, mas aquilo é, você vê um arroz que te lembra a tapioca que lembra o leite que lembra que te falta o café. A mão já não dá conta de carregar tanto palpite que a memória dá. Eu vou, então, à quase invisível região destes estabelecimentos onde os cestos plásticos se encontram para continuar a empreitada doméstica. Diante da pilha, a única que tinha, aliás, quase da minha altura, observo a primeira opção: cesto sujo de carne, qualidade não identificada. Deixo de lado, no chão. Próxima opção: poeira, muita poeira branca. Um pacote de leite em pó deve ter estourado, parece véspera de Natal fora de época pras duas formigas perdidas ali. Como povo é porco, penso. Depois em casa considerei a hipótese de ser "cocaine", mas isso é outra dissertação, já. Os artrópodes costumam ter outra onda, até onde estudei. Terceira opção: cesto limpo, arejado, ventilado, contudo: esqueceram uma lista de ingredientes, anotada num pedaço, mesmo, de folha de caderno. Guardei, joguei o que carregava na mão, soterrei o papel, adiei a hora de lidar com esse detalhe e prossegui a jornada.
Feitas as compras, shampoo anti-caspa, farofa e biscoito da vaquinha inclusos, me meto na fila. Chega minha vez, começo a empilhar tudo na esteira do caixa. Esvaziado o cesto, antes de começar a me lamentar de ter pego compras além dos limites do limite do meu cartão, reencontro o tal do papel, e, enquanto aguardo a pessoa na frente terminar de pagar, começo a ler os detalhes da lista, que descrevo a seguir, incluindo notações:
2 dentes do filho de um agente qualquer;
5 kilos de pata de Mascavus;
30 mililitros de sangue do moço do açougue (o moreno, baixinho, monocelha);
*** 70 gramas de unha de Ogro idoso, abordar falando em idioma Raásvikán a senhora que às 16 horas e quinze ficar parada por 5 minutos no freezer de sorvetes. Ela repassará mais detalhes;
16 bifes de Unicórnio Transgênico; *para o aniversário da Joca*
3 caixas de Leite de Cabra Alpinista;
1 pacote de salgadinhos recheados com escama de Orque e Charpe;
1 desodorante de maçã verde;
30 sacos de sal;
179 pacotes de milho *qualquer marca, barata, baratíssima*.
De boca aberta, naturalmente. Viro o verso, ainda descubro anotado um endereço, entre aspas: "Rua Oswaldo Cruz, 545, Conglomerado B, Apartamento 5902." Antes que eu enfarte a moça do caixa me grita e organiza com a frase: "senhor, forma de pagamento?" Eu digo, ainda perplexo: cartão. Penso nos prédios da rua, que por acaso conheço, já trabalhei por ali, e com certeza não há nenhum prédio que tenha quase 60 andares. Me interrompe, outra vez, gritando "débito ou crédito?" Respondo: crédito. Não, débito. Crédito, desculpa. Claramente irritada, me empurra a máquina, por sorte acerto a senha de cara, as compras, por sorte, de novo, haja sorte, gente! a própria atendente ajudou e já estão na sacola. É, retomo o caminho de casa. Com o papel dobrado no bolso, óbvio. Provavelmente a peça mais bem pregada que já eu vi na minha vida. Ou, alternativamente, as bruxas não apenas existem, mas como são cariocas, moram no Flamengo e tem uma compulsão bizarríssima por pipoca.
Quinta Feira, 4 de Setembro de 2014:
O homem limpa a escorrida gota de suor cinza de onde já esteve o cavanhaque aparado. A caixa de sapatos pintada de prata pesa muito além agora do que pesava 5 horas mais cedo. As nuvens de chuva quase negras de tanto peso anunciam a próxima tormenta pela garoa que começa a garoar enquanto escrevo esta frase. A gota d'água transparente misturada com certa porção de dióxido de carbono risca também sua testa e, misturada ao suor, torna mais escuro o tom cinzento do líquido que lhe escorre. Prevendo a ardência que esta gota causará se lhe tocar a vista, como quem revive em meio segundo uma tortura evitada e temida rotineiramente, enxuga com o dedo indicador esquerdo a ameaça. Uma criança transita, para, aponta o seu rosto e pergunta para mãe, com quem anda de mãos dadas, se este senhor é feito de pedra. A outra, pois eram duas, de idade ligeiramente avançada pela comparação em altura, repreende-lhe respondendo que ele é feito, na verdade, de moedas de cinquenta centavos derretidas. A mãe puxa a mão de ambas e atravessa a catraca que separa o saguão da Estação. Parado na plataforma, apoia sua caixa no cimento seco, retira do bolso uma embalagem de lata que logo se revela ser um maço de cigarros protegidos no alumínio. Suga do filtro, suave, o trago cuja fumaça engasga e escapa pelo nariz quando a multidão começa a correr para outro ramal. Se aquieta e termina o cigarro quando percebe que está, acidentalmente, no lugar correto. O cenário descrito aqui em preto-e-branco-retrô poderia ser um trecho cinematográfico. Contudo, apenas é o homem estátua, após mais um dia de trabalho artístico pelas ruas da cidade, observando seu trem para Campo Grande adentrar a Central do Brasil.
"─ O Homem Estátua Voltando Pra Casa."¹
¹ (Título alternativo.)
sábado, 30 de agosto de 2014
Drops #6
Dentre minhas anotações para futuros escritos, encontro: "Sonhei que parcelava em 24 vezes uma viagem para Nova Iorque e passava perrengue no estrangeiro por ter estourado o limite do cartão de crédito." Até nos meus sonhos cinematográficos meu nome vai parar no Serasa.
Drops #5
Boa parte dos seres vivos deste planeta te somará em algo
Porém (e não se assuste quando isso acontecer ─ lembre-se que a ordem dos fatores não altera o produto)
Há quem te multiplicará.
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Joanetes
Tu és radical nos sentimentos e atos, nem tanto nas intenções. Processa as distâncias como quem se sara um câncer. Degusta os abismos com o mesmo cuidado que mergulha os pés em uma bacia morna pra aliviar joanetes. Teu compasso sincopado, teu calor vazando pelas esquinas e curvas do corpo, te encontro em todos os cantos, como um sorriso só em diferentes cantigas e rostos. Por ver em ti tamanho alumbramento, os Verões da província se apressam e as frutas cítricas da estação te acontecem mais cedo, kiwi, acerola, seriguela, limão, contudo, presam por tua gastrite. Ainda decorada de tanta alegria o que me cativa de fato em ti é teu ódio. Cativa-me a forma como rasuramos os muros racistas e brancos que historicamente censuram a senzala e o grafite, trilhas de asfalto mal sinalizadas que se estendem ao longo do caminho menos óbvio entre a viela, o boteco, a doceria e o lençol molhado no teu quarto. Fazemos amor pelos terrenos baldios espalhados nesta capital oriundos da especulação imobiliária. Desejo-te a embriaguez logo cedo, te quero tão bem que te imagino vestida de anil, de firmamento, calçando o chão de terra batida pra combinar com a vestimenta. Desenho-te esculpida em palavras aqui, mulata de café, caucasiana de açúcar. Doçura esta derretida apenas na língua que ela quer.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Drops #4
─ Qualquer dia agora vamos morrer das coisas que gostaríamos de ter morrido nunca.
─ Duas retas paralelas se encontram no infinito
Podia ser Poesia
É algo ainda mais belo: Geometria Hiperbólica.
─ Duas retas paralelas se encontram no infinito
Podia ser Poesia
É algo ainda mais belo: Geometria Hiperbólica.
terça-feira, 26 de agosto de 2014
À Quatro Olhos Haikai Concreto
Dois míopes se beijando se convém
Porque só dá pra se beijar de perto
E de perto enxergamos bem.
Porque só dá pra se beijar de perto
E de perto enxergamos bem.
sábado, 23 de agosto de 2014
A Metalurgia da Lágrima (ou "Monólogo em Areia e Dedo: Vinte Oito")
Ontem morreu Yolanda. Carrego comigo o que ela levava consigo e cado mais de memória, rascunhos, munido de abraços, de flechas e alvos. Estamos no Hemisfério Sul de chamas e manchas, amarelos são nossos desertos, amarelos são nossos dentes, negra é a cor da minha pele e da esperança, branca é saudade em todos os idiomas possíveis. Meio Sol amarelo para uma estrela inteira. Estamos somos esse espaço de vento e vácuo entre a tradução do que disseram que nos dizem e a palavra que eu improviso para te fazer crer no novo acordo gramatical da língua portuguesa e sua constante teimosia em não banir de vez a existência dos hifens. Somos o glóbulo ocular dilatado no escuro e o hemisfério direito do cérebro que nos orienta politicamente pra esquerda. Somos o mistério dos vultos logo pela manhã e dos amores que cabem no buraco do dente. Esperamos anoitecer para chegar na Urca e arriscar a Lua. Queria este tal de amor bandido porque deve ser o único tipo de crime que ainda não cometi. Acabei de criar uma estrela e ela te cabe atrás da orelha. Sou o meio termo entre o sim e o não, por isso pairo no ar alguns bons segundos antes de me estabacar no chão. Mantenho suas fotos bem perto de mim que é pra me lembrar que eu preciso do seu céu nublado pra sair assim no Centro da cidade e fazer compras ou simplesmente passar na tabacaria e discutir a metafísica. O que os deuses nos dizem para vestirmos no templo de São Salomão? Pregam a nudez. Se seu coração tá frio basta misturar Feijão porque o Feijão tá quente.
Você que me elogiava o sorriso mas que eu sabia cada seu jeito de pedir perdão. A foto mais esquecida que rasurada. Pouco te culpo porque também mantenho portas abertas. Lembro de ti na beira da janela, na beira da minha boca (mas como esse rapaz gosta de falar de boca, eim?). Que me elogiava os dentes, o formato do nariz, minha coleção de calendários passados, mas que eu sei que estava apenas me estendendo seu cartão de visitas. Cantávamos: Música pra ser diferente. Música pra roer os dentes. Música pra contar os gametas. Música para explodir o planeta. Música de colorir o horizonte. Música pra minha tempestade adiante. Voltávamos três a quatro vezes às frases desconexas: Gosto de azeitona caindo bem ao paladar é sinal da idade. Rasgada a pele ainda resta o terremoto. Admito aqui e publicamente que sou cego do olho direito. Uma das melhores coisas que o homem pode aprender a fazer na vida é gostar de samba. Batucando nos dentes, mesmo se pés de barro, morro dos prazeres que você me dá. Ninguém faz samba de amor no juramento, só sobre política. Escrevo seu nome no arroz por dois reais ou por qualquer contribuição. A Assimetria do Beijo. Meu anjo, minha anemia congênita é o que há de mais chique em mim. A tentação de queimar todos os aparelhos celulares da cidade em uma só grande chama tóxica. A saudade é cor que dá e passa. Sinto sua falta como se a Rosa de Hiroshima me fosse o despertador pela manhã e hoje fosse segunda feira. Embora sábado.
Escrevo boa parte disso enquanto ando, a esmo, mesmo, resmo, torremos, enquanto ano pela rua, década passada. Se deserta demais quando o verso vem, adentro um café, quero dizer: gostaria de dizer que adentro um café, um pub, uma biblioteca, mas a verdade é que adentro o que tiver para adentrar. Agora, por exemplo: estou em um açougue, muito embora vegetariano seja. Adentro botecos, casas com portões abertos, evito só delegacias. Vou dizer algumas frases só pelo prazer de saber que você nunca ouviu nenhuma delas anteriormente: Joguei um grampeador no sanitário. Outra? Escovar os dentes de cabeça pra baixo. Um elefante atrás da geladeira. Adoro quando percebo que decorei o som dos passos de alguém. Te quero banhada de vinho barato que custe menos de 10 reais porque não acreditamos na indústria do consumo, embora agora Nike e Adidas. Odeio quando me dão bom dia. Sabia que você ia compartilhar da minha velhice. Nem todos os dias se leva na carteira um parabrisas, nem todos os dias se amanhece um parasol, nem todo céu que calha azul é paraíso. Eu era do tipo que chegava mais cedo só pelo prazer de te esperar fumando um cigarro.
Sonhei-me plena Uruguaiana madrugada passada, rindo, falando alto, mastigando Mentos de maçã verde, gravando mensagens de voz e enviando as de texto para meus amigos no celular, era feriado, era madrugada mas a sensação era de final de tarde, clima campestre pleno deserto do centro da cidade, de qualquer forma, veio uma pessoa estranha, branca pálida e vestida de luto, me perguntando: que que você tá fazendo aqui? E eu nesse instante digitava nomes de frutas diversas para o outro com quem conversava por mensagens e me interrompi, pedi que repetisse e repetiu: o que caralhos você tá fazendo aqui? E eu, estou voltando pra casa, desculpa, e ela: vai, vai embora logo que você tá atrasado, atrasado pra cacete, some da minha frente, limpa esse dente, encara essa torpente, foge pela tangente, me esquece que fui gente, me empurra de constante, me esquece elefante, e eu, assustado com a falta de sentido do que ouvia, as rimas, corri, atravessei a Presidente Vargas, nenhum carro vinha, de ambos os lados, atravessei a pista um, a pista dois, correndo, a pista três, e na pista quatro, um ônibus vermelho gigante freia, inclusive os vidros eram vermelhos com pontinhos pretos, parecia uma grande joaninha sob quatro rodas, e eu observo minhas mãos, carregando o celular ainda, que não me foi roubado, mas acontece que ele se trata de um Nokia Mobira Cityman 150, modelo do final da década de 80 que, além de ser maior que um pote de sorvetes, definitivamente não acessa a dispositivos remotos ou tem conexão direta à Internet, e eu encantado com o espanto acordo com a buzina que finalmente é tocada e soa, ou fica aqui apenas minha impressão de ser, como uma explosão de granada direto no peito.
Remarcaram a data do Armagedão final da humanidade. Nem tava com tanta tempestade assim. Segue a doçura em anexo pra cada pedaço que restar de paz aqui. Lembro-me que quando terminei a Baía de Guanabara, restava uma saudade submersa querendo um amor que me matasse a fome e me matasse a dúvida do que comer. Estudos afirmam que a quantidade de pressa na vida de um ser humano é diretamente proporcional a quantidade de desertos se formando nos espaços dos dentes, nas salas de cinemas em dias de estreia e nos armários deslocados dos terrenos baldios. Assim que se explode a usina nuclear na mão, segundos distante de se chocar com a muralha do patriarcado. Que não seja a nossa mão dilacerada embora assim que se morra pela revolução. Como a gota de chuva solitária caindo na lagoa intacta, só se vive ressoando por todas as partes. Agora: imagina às centenas de milhares?
Para todos os efeitos, ninguém chega na hora. Para todos os efeitos, vertigem alguma. Só se morre antes do outro lado do espelho. Para toda metalurgia existe uma lágrima, para cada metáfora, a fusão do metal quente derretendo a pele mole feito a manteiga se derrete na sua virilha. Você não está entendendo nada do que estou dizendo. Eu quero catapora, eu quero abrir uma escola. E quero que você se esqueça, por cinco minutos que seja. Não vamos falar de ratos, de boatos, vamos rimar quando der na telha e se der que dê gostoso, que dê bem dado, por cima, embaixo, de bruços, de lado. Que se é pra cantar é pra cantar na beira do rouco, se é pra respirar que se ofegue como se fosse o fim do mundo. Fenhoso, frivolento, esculpo adjetivos, tempero a paisagem. Me nasço dentes nas palmas da mão e te mordisco o corpo no aperto. Mesmo as paredes dessa casa estão desgastadas do relacionamento entre eu e Frida Kahlo. Tentei te ilustrar uma imagem que te chocasse mais mas mais chocante que o cenário diante de nós agora não há, foca e imagina: a cidade está em chamas sendo invadida por 250 milhões de vespas e a estrela que nos rodeia despedaça pedaços de plasma que caem e cortam nossa atmosfera como lençóis coloridos diversos, parangolés pamplonas sendo jogados de revoadas de aeroplanos e prédios de 90 andares. Presenciando a história por intermédio de suas telas, a multidão atônita registra o momento derradeiro da humanidade em suas câmeras celulares.
Escrevo boa parte disso enquanto ando, a esmo, mesmo, resmo, torremos, enquanto ano pela rua, década passada. Se deserta demais quando o verso vem, adentro um café, quero dizer: gostaria de dizer que adentro um café, um pub, uma biblioteca, mas a verdade é que adentro o que tiver para adentrar. Agora, por exemplo: estou em um açougue, muito embora vegetariano seja. Adentro botecos, casas com portões abertos, evito só delegacias. Vou dizer algumas frases só pelo prazer de saber que você nunca ouviu nenhuma delas anteriormente: Joguei um grampeador no sanitário. Outra? Escovar os dentes de cabeça pra baixo. Um elefante atrás da geladeira. Adoro quando percebo que decorei o som dos passos de alguém. Te quero banhada de vinho barato que custe menos de 10 reais porque não acreditamos na indústria do consumo, embora agora Nike e Adidas. Odeio quando me dão bom dia. Sabia que você ia compartilhar da minha velhice. Nem todos os dias se leva na carteira um parabrisas, nem todos os dias se amanhece um parasol, nem todo céu que calha azul é paraíso. Eu era do tipo que chegava mais cedo só pelo prazer de te esperar fumando um cigarro.
Sonhei-me plena Uruguaiana madrugada passada, rindo, falando alto, mastigando Mentos de maçã verde, gravando mensagens de voz e enviando as de texto para meus amigos no celular, era feriado, era madrugada mas a sensação era de final de tarde, clima campestre pleno deserto do centro da cidade, de qualquer forma, veio uma pessoa estranha, branca pálida e vestida de luto, me perguntando: que que você tá fazendo aqui? E eu nesse instante digitava nomes de frutas diversas para o outro com quem conversava por mensagens e me interrompi, pedi que repetisse e repetiu: o que caralhos você tá fazendo aqui? E eu, estou voltando pra casa, desculpa, e ela: vai, vai embora logo que você tá atrasado, atrasado pra cacete, some da minha frente, limpa esse dente, encara essa torpente, foge pela tangente, me esquece que fui gente, me empurra de constante, me esquece elefante, e eu, assustado com a falta de sentido do que ouvia, as rimas, corri, atravessei a Presidente Vargas, nenhum carro vinha, de ambos os lados, atravessei a pista um, a pista dois, correndo, a pista três, e na pista quatro, um ônibus vermelho gigante freia, inclusive os vidros eram vermelhos com pontinhos pretos, parecia uma grande joaninha sob quatro rodas, e eu observo minhas mãos, carregando o celular ainda, que não me foi roubado, mas acontece que ele se trata de um Nokia Mobira Cityman 150, modelo do final da década de 80 que, além de ser maior que um pote de sorvetes, definitivamente não acessa a dispositivos remotos ou tem conexão direta à Internet, e eu encantado com o espanto acordo com a buzina que finalmente é tocada e soa, ou fica aqui apenas minha impressão de ser, como uma explosão de granada direto no peito.
Remarcaram a data do Armagedão final da humanidade. Nem tava com tanta tempestade assim. Segue a doçura em anexo pra cada pedaço que restar de paz aqui. Lembro-me que quando terminei a Baía de Guanabara, restava uma saudade submersa querendo um amor que me matasse a fome e me matasse a dúvida do que comer. Estudos afirmam que a quantidade de pressa na vida de um ser humano é diretamente proporcional a quantidade de desertos se formando nos espaços dos dentes, nas salas de cinemas em dias de estreia e nos armários deslocados dos terrenos baldios. Assim que se explode a usina nuclear na mão, segundos distante de se chocar com a muralha do patriarcado. Que não seja a nossa mão dilacerada embora assim que se morra pela revolução. Como a gota de chuva solitária caindo na lagoa intacta, só se vive ressoando por todas as partes. Agora: imagina às centenas de milhares?
Para todos os efeitos, ninguém chega na hora. Para todos os efeitos, vertigem alguma. Só se morre antes do outro lado do espelho. Para toda metalurgia existe uma lágrima, para cada metáfora, a fusão do metal quente derretendo a pele mole feito a manteiga se derrete na sua virilha. Você não está entendendo nada do que estou dizendo. Eu quero catapora, eu quero abrir uma escola. E quero que você se esqueça, por cinco minutos que seja. Não vamos falar de ratos, de boatos, vamos rimar quando der na telha e se der que dê gostoso, que dê bem dado, por cima, embaixo, de bruços, de lado. Que se é pra cantar é pra cantar na beira do rouco, se é pra respirar que se ofegue como se fosse o fim do mundo. Fenhoso, frivolento, esculpo adjetivos, tempero a paisagem. Me nasço dentes nas palmas da mão e te mordisco o corpo no aperto. Mesmo as paredes dessa casa estão desgastadas do relacionamento entre eu e Frida Kahlo. Tentei te ilustrar uma imagem que te chocasse mais mas mais chocante que o cenário diante de nós agora não há, foca e imagina: a cidade está em chamas sendo invadida por 250 milhões de vespas e a estrela que nos rodeia despedaça pedaços de plasma que caem e cortam nossa atmosfera como lençóis coloridos diversos, parangolés pamplonas sendo jogados de revoadas de aeroplanos e prédios de 90 andares. Presenciando a história por intermédio de suas telas, a multidão atônita registra o momento derradeiro da humanidade em suas câmeras celulares.
Drops #3
Amo-te como bomba nuclear, como guerra de cerol no ar. Amo-te como deveríamos violar a maioria dos tratados de paz que não assinamos e coçar o que nos coça pelo lado de dentro com tesoura sem ponta. Amo-te porque nosso amor não nos redime nem salva nem preenche os espaços em branco com a caligrafia escrota nem rasura os afobados com corretivo líquido nem nos implica com a falta de vírgula nem nos interroga o predicativo do sujeito ou sujeito do predicado. Amo-te e grito porque a rouquidão me dói a garganta e te faísca a labirintite e ambas estão sujeitas fatidicamente a se curar do estrondo.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Trigésimo Quinto Domingo do Ano
Neste instante, num mercado na Praça da Bandeira, alguém passa o equivalente a 500 reais em compras de caixa de cerveja. A atendente do caixa julga com olhos de quem vai passar o final de semana no serão ou vigília da Igreja, embora seja menos assídua do que costuma vender. O comprador olha com a cara de quem tá prestando atenção em outra coisa, com o fone de ouvido ligado no rádio AM, com jeito e trejeito de quem deve ter erguido as mãos pros céus no momento que perguntou pro camelô e ele confirmou o fato abismado de ter encontrado um celular que ainda capta ondas de rádio AM. Ela pensa nas panelas sujas guardadas dentro da geladeira, oxidando, ansiosa, ela, em voltar pra casa e retirá-las, pois o celular descarregou, não tem como avisar quem ou alguém deste acidente por sua pressa mais cedo, sorte que hoje o turno acaba meio dia, mais 30, 40 minutos pra fechar o caixa, embora o movimento hoje esteja fraco, molenga, em parte provável pelo calor inesperado, estamos em agosto e parece dezembro, pensa num repente, quem sabe consegue fechar as contas em tempo recórde para já adiantar o almoço, quem sabe consegue até transar rapidinho com o marido, porque os meninos só voltam depois da tarde, hoje tem reunião do coletivo da igreja, antes das 17h certeza que não pisam em casa, talvez até dê tempo de testar aquele brinquedo que ela mesma arranjou com aquela colega, e que mostrou pro homem mas que desconversou e disse que tava com sono, mas que ela conhece o figura com quem trocou aliança e jurou amar e sabe que de tanta coisa uma coisa que com certeza ele é: é curioso. Domingo Deus fez pra gente testar nossa fé na vida e descaralhar esse tédio, essa birra, pensa consigo mesma e ri. Sai de mim carapuça, pensa ele, ouvindo do rádio a descrição dos placares do dia anterior da série B, já pensando no hipotético desempenho de seu time no próximo ano, mas se arrepende do pessimismo, e estala os lábios como quem fecha a porteira. Aproveita e pensa no presente também, calcula brevemente o placar de logo mais, se pergunta de quanto o time hoje vai perder, sua expectativa inicial espera que apanhe menos do que da última vez, embora se pudesse desejar desejava que essa má fase passasse logo, e também, se pudesse, se não fosse pecado, pedia que o chefe se jogasse de vez da ponte Rio e Niterói pro negócio do bar passar logo pros sócios que estão loucos para vendê-lo praquela cervejaria aí que tá dando na TV agora. Lugar bem localizado, choveu proposta, mas o velho é teimoso e fica. A cerveja, claro, neste caso seria pra outra oportunidade, além daquela tarde, para o serviço do dia seguinte, deixaria no comboio que fica ali perto. Mas um fio de esperança lhe faria desviar pelo menos três latinhas daquele engradado que já veio aberto e guardá-las naquele canto mais gelado da geladeira, torcendo para o milagre do imprevisto surpreender sua tarde, na verdade, seu Domingo todo.
Drops #2
"Como quem permanece no canal para assistir mesmo a propaganda. Amo-te como quem ama igualmente o sorvete em seus diferentes estados de liquefação."
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
À Minha Irmã Leoa (Por Mais Manhãs de Aniversário)
Espalho teu nome no espaço
Que circunavega ao redor nosso
O peso marcado n'o tempo e à pele
Tal qual o chão pisado ou tuas pegadas!
Tal qual o continente, constante
Cuja marca permanece, tatuagem
Mesmo desbotada pelo atrito
Ou impermanente à paixão das eras
A Terra que nos alicerça os lados
Está ciente de tua tez e traços
E em sua firmeza te abarca e abraça
E em sua gigantez te ensina sobre
A gigantez que transborda um verso
Que transversa concretos! (pois quem queima, explode)
Luta! Pois é só quente que te protege o escudo!
Reluz! Tal qual a estrela que te afia a flecha!
Por mais que sejas a Leoa (e nem tanto o Sagitário).
Eis aqui a Dedicatória:
─ À minha irmã de fogo, por mais manhãs de aniversário.
Nestas palavras parece que nascemos meio século passado:
Mais amor, mais sexo, mais sobremesa. Menos escritório.
Que circunavega ao redor nosso
O peso marcado n'o tempo e à pele
Tal qual o chão pisado ou tuas pegadas!
Tal qual o continente, constante
Cuja marca permanece, tatuagem
Mesmo desbotada pelo atrito
Ou impermanente à paixão das eras
A Terra que nos alicerça os lados
Está ciente de tua tez e traços
E em sua firmeza te abarca e abraça
E em sua gigantez te ensina sobre
A gigantez que transborda um verso
Que transversa concretos! (pois quem queima, explode)
Luta! Pois é só quente que te protege o escudo!
Reluz! Tal qual a estrela que te afia a flecha!
Por mais que sejas a Leoa (e nem tanto o Sagitário).
Eis aqui a Dedicatória:
─ À minha irmã de fogo, por mais manhãs de aniversário.
Nestas palavras parece que nascemos meio século passado:
Mais amor, mais sexo, mais sobremesa. Menos escritório.
domingo, 17 de agosto de 2014
Drops #1
─ Uma música do Aerosmith pra acompanhar a catástrofe colossal, o meteoro, causando uma a onda do mar de tantos metros que arranha-céu! (Tum dum tss...)
─ Tem gente que não se basta de ser um Titanic em nossas vidas mas que faz questão de trazer um Iceberg incluído como cortesia da casa!
─ Não acredito em reencarnação mas acredito que existe alguma coisa de fluxo na natureza e essência que faz a gente reencontrar em outras pessoas um pedaço que já foi a gente também um dia
─ Isso é bonito, posso aproveitar num texto?
─ Deve.
sábado, 16 de agosto de 2014
Monólogo em Areia e Dedo: Trinta e Três
O sangue absorto, o sangue seco, da ferida pisada, casca, em forma de marca de dente, de agulha, de útero de unha, de faca, de soco, de tapa, roxo, negro, fundo, maldita palavra, longe demais se retornada, perto demais pra desencravar, ferro marcado por si mesmo, pelo acaso, pelo acidente, pela mão proposital, pelo animal se defendendo, pelo animal escapando pro mato e se cortando no arame farpado, no arbusto, se perdendo no escuro, confundindo sereno com a tempestade, misturando o próprio ódio com o incêndio que acontece na floresta e no peito e os carvalhos irradiando em faíscas e poeira encardida ciscando as vistas, corre, o sangue rompe de novo a casca e sangra cado um pouco, corre, o barulho se esvanece, a respiração mais alta, corre, o próprio peito batendo tambor se faz ensurdecedor e que raio de ritmo é esse? e canta a disritmia hoje me auxilia a viver indiferente assim só que é mentira e corre de novo ofega menos para atrás da pedra úmida coberta de húmus que mancha a blusa branca e para, respira, o sangue escorre só que isso quase que nem faz barulho, o escândalo que sai é da garganta e a fere também, provavelmente está sangrando por dentro, do tanto que gritou rouco, drama, pega o resto de pólvora que ainda está no saco de papel do bolso, o resto da pólvora ainda armazenado do lado de dentro do chumbo da bala escondida no saco de papel amassado do lado de dentro do bolso de pano, pega, deixou o revólver cair mas a bala na mão agora ferve, e incêndio a dentro, arremessa, no mesmo gesto que usa pra afagar alguém, a bala, cujo rastro laranja traça uma reta no ar, fura o caos, seu caminho por dentro do fogo abre uma circunferência, que corta o silêncio, corta as árvores, segue reto e rápido, tão rápida e firme que ignora a gravidade e se mantém na trajetória, que em breve deixa de tangenciar o nosso próprio planeta e escapa a atmosfera e uma vez no vácuo, meus caros e caras, uma vez no vácuo nada há de fazê-la retornar, o corpo se rende à exaustão muscular, o sangue ainda escorre quieto, ajeita a mão no bolso de pano em busca do saco de papel e há a bula da munição que acabara de ser usada e lá diz sua composição que se descreve a seguir como: contém concentrados 4 quilos de urânio e 3,7 de plutônio; uso exclusivo das Forças Armadas, favor manusear com cuidado, e pensa porque raios estava carregando um objeto desses consigo cujo peso sequer sentira ali no bolso da blusa, do lado esquerdo do peito? mas uma vez lançada, como disse antes, já atingira o espaço e em breve um satélite russo, chinês ou estadunidense ou a própria Lua serão desintegrados e acabara de pensar este pensamento e antes de qualquer remorso chegar a brotar veio um estrondo distante vindo do alto aconteceu e começou finalmente um temporal, o incêndio se aliviou, a ferida, molhada, aliviou, e, quase caindo no sono forçado de quem passou as últimas décadas correndo ininterruptamente a esmo, pensou consigo mesmo: "eu deveria ter simplesmente mantido a minha língua amarrada! dizer-lhe nada!", e finalmente faleceu.
Uma família de formigas empurrou sua carcaça para baixo de uma árvore cuja copa abafava a boa parte da tempestade e cobriu seu corpo de terra, fundando ali, dentro de poucos dias, seu novo formigueiro. Reparou este fato devido às cócegas causadas pelos milhares de pequenos movimentos dos novos moradores com quem agora iria dividir o mesmo corpo, circunstancialmente, na verdade, o seu cadáver, e inclusive pensou em acordar para esclarecer sua discordância daquela empresa, decidida unilateralmente, sem consulta direta junto a quem seria o seu maior interessado. Mas, diante os fatos dados, concluiu que resignar-se e agradecer a sua própria sorte era a atitude mais digna a ser feita. No final das contas, morrera em uma região bastante utilizada para reuniões de família e piqueniques, e os deuses sabem que são raros aqueles que poderiam ter a chance de desfrutar do gosto de um brigadeiro após sua morte.
Uma família de formigas empurrou sua carcaça para baixo de uma árvore cuja copa abafava a boa parte da tempestade e cobriu seu corpo de terra, fundando ali, dentro de poucos dias, seu novo formigueiro. Reparou este fato devido às cócegas causadas pelos milhares de pequenos movimentos dos novos moradores com quem agora iria dividir o mesmo corpo, circunstancialmente, na verdade, o seu cadáver, e inclusive pensou em acordar para esclarecer sua discordância daquela empresa, decidida unilateralmente, sem consulta direta junto a quem seria o seu maior interessado. Mas, diante os fatos dados, concluiu que resignar-se e agradecer a sua própria sorte era a atitude mais digna a ser feita. No final das contas, morrera em uma região bastante utilizada para reuniões de família e piqueniques, e os deuses sabem que são raros aqueles que poderiam ter a chance de desfrutar do gosto de um brigadeiro após sua morte.
Monólogo em Areia e Dedo: Onze
Não pára de falar não. Vai que a
ligação cai. Vai que você esquece que que ia dizer. Vai que eu esqueço que que ia ouvir. Vai que o tempo passa e quando vamos ver não há mais
telefonista, não há mais palavra, ninguém mais lembra como é que morre,
vai que quando isso acontecer ninguém mais formula frases, receitas de
bolo só se compartilhem por revistas e jornais, vai que a gente esquece
como é que chove e passamos Verão inteiro com sede. Não pára que num
piscar de olhos mudam as regras de acentuação, mudam-se as casas e os
números, e quando vamos ver estamos em outro país, os gatos não ronronam
mais, as moças voltam arrastadas pras suas casas sem seus diplomas.
Quando voltarmos a ouvir a Voz do Brasil já estaremos casados, ou
divorciados, ou até viúvos um do outro, presos pelos pés no trânsito,
com um outro carro atravessado no nosso, porque daqui 17 anos, dizem
pesquisas, o índice de acidentes vai ter aumentado 25 mil por cento!
Estaremos ali, parados, provavelmente brevemente amputados, sangrando,
olhando para nossos telefones portáteis, porque eles hão de haver, eu
creio, esperando uma outra ligação, um recado qualquer bem breve bem curto como "passe no mercado antes de chegar em casa porque acabou a margarina", esperando ouvir uma frase qualquer muito menos grave do que a gravidade do que acontecia, ali, na hora. Podia ser também uma outra tragédia anunciada depois das oito, mas, caso fosse isso, uma ainda mais grave, para nos sentirmos melhor, até com sorte. E vamos ouvir todas essas histórias dos nossos
rádio-relógios no pulso. Porque eles hão de haver, o que há mais de se
inventar?
Mas tomara que daqui esse tempo o metrô consiga passar pela cidade toda ao invés de atravessar só meia meia dúzia de bairros do Centro e disso a gente nunca chegue a sofrer. E tomara que inventem um jeito de resgatar as pessoas rápido, instantaneamente, que os planos de saúde fiquem mais sofisticados, e que por mais que custem uma fortuna, ninguém mais morre de nada. Tem a tal da Internet chegando, dizem que de 10 a 15 anos todos os lares terão a sua. Vai que eu ato a conversar com alguém, sei lá, da Hungria, e conheço o amor da minha vida e finalmente sobrevivo você? Vou te ler uma carta que eu escrevi e desisti de enviar, está aqui comigo no bolso da calça, até quando vão existir os bolsos, deviam dar um jeito nisso, né? Que chata essa necessidade de carregar nosso mundo inteiro no corpo. Deixa. Começou a ventar. Abrir o papel aqui e o vento vai voar longe. Tomara que aconteça alguma coisa essa semana, estou entediado. Você não acredita no tamanho da mariposa que eu vi ontem, devia ser maior que morcego. Me interrompe, me corta, me toma a palavra, fica só quieto aí, me constrangendo, ora. Antes que eu não tenha mais assunto e comece falar de qualquer jeito. Sabe que eu não sei falar palavrão direito. Rimou. Acho que estou parando com esse passatempo de fazer poesia, salve o gerúndio! Ficou na minha gaveta do escritório alguma coisa, vou te enviar nesse Natal, se conseguir terminar. Já sei, vou te fazer um troço outro, enterrar naquele terreno baldio do lado de casa e só te mostrar quando a guerra acabar. Essa nossa guerra particular. Inclusive descobri um santo pra fazer promessa disso. Juçara falou para eu passar a dar aulas de datilografia nos finais de semana, inteirar as contas. Estou me sentindo naquela música do Chico Buarque, amanhã vai cair um toró, vou comer o cu de alguém, Maceió. Só usava essas referências quando ainda fazia questão de te impressionar. Ah, o Santiago aprendeu a andar. Suspeito que a sua primeira palavra vai ser Carlos ou Calopsita, pela tendência das vogais que ele tá repetindo. Sim. Vai? Mas já? Vai, tá, pode ir. Não pára que aí é cais. O alto mar fica mais pra frente. Ninguém escreveu isso não, tirei da cabeça agora mesmo.
Mas tomara que daqui esse tempo o metrô consiga passar pela cidade toda ao invés de atravessar só meia meia dúzia de bairros do Centro e disso a gente nunca chegue a sofrer. E tomara que inventem um jeito de resgatar as pessoas rápido, instantaneamente, que os planos de saúde fiquem mais sofisticados, e que por mais que custem uma fortuna, ninguém mais morre de nada. Tem a tal da Internet chegando, dizem que de 10 a 15 anos todos os lares terão a sua. Vai que eu ato a conversar com alguém, sei lá, da Hungria, e conheço o amor da minha vida e finalmente sobrevivo você? Vou te ler uma carta que eu escrevi e desisti de enviar, está aqui comigo no bolso da calça, até quando vão existir os bolsos, deviam dar um jeito nisso, né? Que chata essa necessidade de carregar nosso mundo inteiro no corpo. Deixa. Começou a ventar. Abrir o papel aqui e o vento vai voar longe. Tomara que aconteça alguma coisa essa semana, estou entediado. Você não acredita no tamanho da mariposa que eu vi ontem, devia ser maior que morcego. Me interrompe, me corta, me toma a palavra, fica só quieto aí, me constrangendo, ora. Antes que eu não tenha mais assunto e comece falar de qualquer jeito. Sabe que eu não sei falar palavrão direito. Rimou. Acho que estou parando com esse passatempo de fazer poesia, salve o gerúndio! Ficou na minha gaveta do escritório alguma coisa, vou te enviar nesse Natal, se conseguir terminar. Já sei, vou te fazer um troço outro, enterrar naquele terreno baldio do lado de casa e só te mostrar quando a guerra acabar. Essa nossa guerra particular. Inclusive descobri um santo pra fazer promessa disso. Juçara falou para eu passar a dar aulas de datilografia nos finais de semana, inteirar as contas. Estou me sentindo naquela música do Chico Buarque, amanhã vai cair um toró, vou comer o cu de alguém, Maceió. Só usava essas referências quando ainda fazia questão de te impressionar. Ah, o Santiago aprendeu a andar. Suspeito que a sua primeira palavra vai ser Carlos ou Calopsita, pela tendência das vogais que ele tá repetindo. Sim. Vai? Mas já? Vai, tá, pode ir. Não pára que aí é cais. O alto mar fica mais pra frente. Ninguém escreveu isso não, tirei da cabeça agora mesmo.
Monólogo em Areia e Dedo: Três
Senhores, senhores, por favor, senhores, vâmo sentar, assim, obrigado, boa noite. Gostaria de primeira, mentira, primeiramente gostaria de agradecer a todos, um beijo, um abraço, um fungo, um cafuné, obrigado, um cheiro vocês todos que chegaram aqui hoje, que atravessaram esse Sol de 40 e tantos graus que tá fazendo aí fora, pra estar, é, pra estar aqui, comigo, conosco, neste Largo, e para que façamos, pela quinta vez consecutiva, sim, o nosso Recital Circense da Pedra Funda. Sim, senhores, ninguém aqui é palhaço, e esse tal de malabares também é complicado demais, mas estamos há mais de um mês aqui, todas as quartas feiras, da meio dia e meia até as uma e pouca, recitando, aproveitando, embalando, o cotidiano de vocês, recitando poesia e vamos torcer para não chover, é, nas próximas semanas, pois ainda não tivemos investimento para comprar um toldo, menos ainda pra pagar alguém a montar o toldo, porque a gente aqui se enrola até pra ligar tomada, quanto mais uma coisa dessas magnitudes. É esse sorriso que eu queria arrancar de vocês. Mas a gente vai se virando, assim, de lado, que a gente vai se achando. Obrigado, obrigado, por favor, sei que, sei que parece estranho, mas gosto de ser bem fiel, e de expressar na minha prosódia, proso-"Popeye", o marinheiro, ficou de apelido meu porque já fui da marinha, mas fui dispensado logo cedo, quatro anos depois, bebia muito, sabe como é, e é, aqui eu tô passando pra vocês o meu caderninho de histórias e causos, como dizem lá pro norte, né? ah, e aviso, logo, como costumo dizer, ao escrever, encho das vírgula, entupo mesmo, que é pra ser mais fiel, dentro da cabecinha de vocês, mais fiel a forma com que eu falo assim, como aqui e agora, de voz alta. Não estranhe, não, meu senhor, não me ache com falta de instrução, não. Que minha mãe, professora, primária, me educou muito bem. Parece que tô confundindo vocês mais que esclarecendo, tem poeta que diz que coisa assim faz bem também. Boa tarde, por favor.
Tamos aqui morando por essas redondezas da Presidente Kennedy, por essas vielas, da Central Rodoviária, fazendo amizade com os camelôs, as donas de casa que vem aqui comprar fruta, legume, comprar pano, os donos de casa também, porque hoje em dia não tem mais essa coisa não, né? Tá todo mundo ajudando dentro de nosso lar, e isso é muito bonito de se ver. Menino, menina, lavando louça, varrendo quarto. Mas a gente fica pra bem de aqui, Centrão, sem incomodar ninguém, eu com os meus poemas, Gerivaldo cantando uns sambas antigos, de época de antes dele mesmo nascer, batudo no engradado vazio de cerveja que ele usa como banco, mas volta e meia a gente acaba apanhando ou só tomando esporro de alguns seguranças, que ficam aqui pra cuidar das lojas, quando de noite a gente assusta quem tá passando por aqui. Esse meu amigo mesmo aqui, o Jovão, esses dias, tava pedindo dinheiro, não pra comprar pedra, não, mas pra comprar água, e revender, que nesse calor, minha gente, água vai rápido, tanto movimento que tem aqui, passa alguém e compra, já ajuda Jovão a comprar uma casa, mas, estava aí, com o isopor, já tinha marcado de se arranjar com um gelo fiado, ali numa mercearia, dedicado a trabalhar, e, vejam, amigos, veio e tomou esporro do segurança, e teve que pedir dinheiro em outro lugar, e ficou mais de dia pra achar alguma coisa pra poder vender mais aqui e veja só quanto dinheiro ele deixou de ganhar, e quanta comida deixou de entrar pela boca desses filho que ele deve ter, que deve sim, eu nunca vi, embora não duvide, quem diz que tem, tem, então ele tem. Lembro que nem ontem, final do Estadualzão, jogo 1x0, ele e um outro amigo nosso, o Carniça, ganhou esse apelido depois, vieram correndo não sei de onde, a polícia veio atirando, e atirou, e eles caíram pra mó aqui no meio do chão, e a polícia, que na verdade a gente achou que era mas até hoje nem tem tanta certeza assim do que que foi que aconteceu, os caras nem fardados tavam, e os dois aqui sangrando, de tiro, e a galera gritando, gol, deu 2x0. Sorte que deu na barriga, ambulância chegou, deu dois mês, voltaram, contaram a história, parece que perderam uma aposta e não queriam pagar, sabe como é.
Ainda me conta, o meu outro amigo aqui, Cadinho, conta e comenta que costumava levar paralelepípedo na cabeça, quando temia em dormir na Presidente Kennedy. Era quase a mesma turma estranha, armada, sem farda, vinha e jogava pedra enquanto dormia, pedaço de calçada, já perdeu a conta de quanto amigo já levou assim. Aproveitavam, os filho da puta, desculpa, minha gente, mas aproveitam dia de chuva, desculpa o palavrão, minha gente, senhores, senhoras, mas é revoltante, uma gente que fica embaixo dos prédio, pra descansar, proteger da chuva, muita família, criança pequena, tendo que ficar vigiando se não vem gente tacar pedra, tacar fogo, é coisa que revolta o coração da gente. Esse meu amigo já levou paralelepípedo, fez até questão de treinar a palavra pra falar e contar a história adiante, e só não morreu, minha gente, porque tava de bruço, debaixo da coberta, e pegou só um pedaço, que sangrou, mas que deu mais nada. Tadizinho de Cadinho, tá ali dormindo, mas desses susto, dessas porrada que a gente leva, muita gente não fica bem da cabeça não, ele nunca mais ficou do mesmo jeito, depois de tanto ano fugindo de levar pedrada na cabeça enquanto dorme, e sem ter dinheiro nem pra comprar um capacete. Mas a gente ajuda, demo comida, ele tá bem, tem dia que fica até batucando com Geri, ele leva um cado de jeito pro pandeiro, nem nunca fez aula, esse Cadinho é um Cadão! isso sim.
Estamos aí passando o chapéu, obrigado, senhora, obrigado. Esse dindim do chapéu, obrigado, você também, esse realce vai ajudar juntar umas água, umas bala, umas cerveja, mas não é pra beber não, como mesmo contei da história de Jovão, a gente deixa pra ajudar nossos irmão aí, o Tatu, menino que nem deve ter os seus 10 ano ainda, pegaram e roubaram a bola dele, esses dia. Menino talentoso, fecha o sinal, fica fazendo embaixada, consegue bastante grana, tamo aí tentando um contato de algum grande clube, pra mó dele fazer teste, ver se tem futuro mais fácil, se alguém tiver contato, pode deixar aí, dobrado no chapéu, que a gente pega, encaminha pra ajudar melhor esse moleque de ouro. Essa galera aqui, todo mundo se ajuda, daqui a pouco vem Geri, aí, dar uma batucada, fazer os senhores, senhoras, se remelexer um pouco, porque faz bem também, é horário de almoço, eu sei, mas temos mais algumas histórias pra contar, tenham só um pouco mais de paciência, só mais um pouquinho, e obrigado, meu senhor.
Eu falei para os senhores que ficamos aqui nos arredores da Central Rodoviária, tem as barca descendo aqui a rua do Imperador Pedro Terceiro, e é o máximo que a gente vai, essa linha reta, só, e as viela que passa por ela, mas evitamo se afastar muito de além disso, minha senhora. Nesses bairros ao redor, tamo evitando de chegar junto demais, tá perigoso até pra gente, tinham parado, mas voltaram a perturbar nós que ficamo na rua. Complicado, a gente só quer paz, e amor, tem gente que quer a cachaça, até aí, tudo bem, até eu bebo minha aqui e ali, ainda, embora tenha largado o vício de vez, graças a deus, sempre de igreja, sem doutor, só com minhas prosódia. Minha igreja que eu mesmo fundei, mas nem tô aqui pra falar de religião. Só dos meus moinhos, do meu trabalho. Mas tem outros soltos ai atrás de um pouco de cola, esses são os mais novinhos, daí inventa de roubar, e é triste, a gente faz o que pode, mas volta e meia passa alguém, passa desses segurança, dessas gente aí que a gente não sabe, não podemos generalizar também, né? Tem muito segurança que tem família, só quer trabalhar, cuidar, mas tem quem pegue e tenta dar cabo na gente, como se diz? Ah, a tal da maconha nunca foi minha onda, e ela tá cara, quem não tem nada, mal arranja o fubá, não vê cara de feijão faz mês, não sabe, ou sabe, sabe que não vale a pena juntar pra comprar, até porque essa coisa aí dá fome e comida tem pouco. Daí muita gente acaba que caí nesses crack, aí, mas é, é complicado. Volta e tanta vem alguém aí da prefeitura, depois que já deram sumiço em alguns, vem e leva uns nos carros. Volta e tanta vem uns carros estranhos, com capota atrás, diz também que é abrigo, mas tem quem nunca volte. Outros voltam mas a gente mal consegue conversar direito pra saber que que houve. Principalmente perto das boca onde entra mais dinheiro, que daí começa a virar os outro bairro, como já disse, não somos de ficar se mexendo muito, por aqui, bem, por aqui faz tempo que não pegam pra fazer nada com ninguém, então a gente, a gente não vai provocar, né? Vamo cuidar, aqui, é tudo nosso, como família mesmo, a gente cuida.
Casquinha, o famoso Casquinha é um, nunca que descobri o nome sério dele, vivia por aí, 'cês devem imaginar porque esse era o apelido, a Casquinha era da ferida que nunca que cicatrizava na barriga dele. Vivia por aí, era doidinho, dó, inventava de usar cola, e tal, pelas ruas, arranjou confusão com alguém que até hoje quem sabe que foi? Ninguém! Mas foi nessa de aposta também, e foi um desses que a gente sempre via aqui trabalhando, do nosso lado mais próximo mesmo, Casquinha tava jogando esses jogo de azar, porque ninguém fica rico jogando aquilo, só o dono do jogo, e daí saiu correndo e quando a gente ia atrás ele ofi que sumiu, do nada. Mas vamo falar de coisa boa, que daqui a pouco a gente começa a espantar o público, olha o Sol, vai que vai que meio que até nublou agora, e os senhores, senhoras, vão ficar mais dois minutinho com a gente, não vão? Alguém tem um pouco d'água? Senhores? Alguém? Mas é pra mais de beber, mesmo, você, moça bonita, nariz bonito, até as orelha bonita, ah, muito obrigado, além de bonita, muito educada, obrigado, ah, o Verão, minha gente? Você gosta de Verão? Lembra o Carnaval, que já tá pra chegar, esse ano caí em Março. É estranho quando o Carnaval caí em Março, né? Faz tempo que não vejo TV, quando dou pra ver, é na beira dos boteco, quando tem jogo, e põe a TV mais alta. Aí, eu não bebo mais, digo, aceitei a proso-Popeya minha como meu único vício insuperável, acho que não comentei aqui, né? De todo jeito, uns amigo nosso vão naquela igreja ali pela Grécia Antiga, que nome de bairro mais estranho, que lá distribuem vinho toda quinta, de graça, pros moradores de rua que nem a gente. Ah, e peixe. Isso tudo porque Jesus dizia que comia isso. Nessa hora até os ateu vira crente, bonito.
Um argentino que ficava lá por esses bairros... levando seu violão velho, seus bolero, e tal, e coisa. Um dia tomou sei lá o que e ficou brincando de joão e maria, desceu ali a Marechal Florisvaldo, era véspera de desfile, ali na Apoteose, tava cheio de carro alegórico, aquela filona enorme que fica das escolas e os carros chegando, né, e ele começou a correr, dentre os carros, fez estrago não, só corria e gritava, "uhhhh, uhhhhh", que nem tal uma sirene, uma coisa assim, mó solzão, sei lá que cachaça foi aquela, se é que foi esse o químico, tinha um bloco no fundo, uma batida, e ele rebolando, desengonçado, porque lá nas argentina nem deve ter esse batuque nem de cá. Só comento disso porque no Carnaval aqui as coisas são assim, esse aparece gente doida de toda parte pra dançar, correr, beber, nesse Largo aqui, esse Largo não tinha nada, mas, ó, tá bombando, bando de gente nova chegando, gringo ou vizinho da gente mesmo, tá bonito de se ver, tocam samba, toca marchinha, um bando de marchinha que eu não ouvia há uns 20, 25 anos... E vou ver, é uma galera nova, exaltando essas músicas bonitas, é uma boa forma de encerrar a vida, digo, não que eu ache que eu vou morrer logo, mas sei que nem sou nenhum mocinho, que tô bem mais de perto do fim que pro do início. Ah, mas galera vem e toca de tudo, claro! Rola até uns roque, roque em rôu, com as levada mais pesada, e acontece música pra mais que da parte toda.
Nossa colega a gente chamava de Canteia, tudo bem que é nome de sambista homem, mas caía bem nela, e a gente chamava, e ela atendia. Vivia cantando coisa samba antigo da Unidos da Pedra Funda, aquelas que Clarinha, Diodete gravaram... Vive triste, Canteia, só ri quando tá batucando, rindo, cantando, fora isso vive triste. Me pergunto se fizeram muita maldade com a Nega, nessa vida, bonita, que era, na rua, maldade. Se fizeram maldade demais com ela minha vontade era de matar, desculpe, amigos, amigas, senhoras, senhores, mas é de matar mesmo essa gente má. Só que ninguém sabe de nada, ela só vive aí, rindo enquanto pode rir pra gente, e a gente erspeita o espaço dela. Sentada ali no início da rua do Samba Canção, parece que escolhe de proposito, essa nega linda. Sentada ali batia palma pra tudo. Batia palma pra chuva, pras criança passando correndo, pra executivo indo pro trabalho que dava um troco, pros que não davam um troco também. Depois ficava séria, mas em dia de Sol ela bem mais que sorria que ficava séria, triste. Criatura bonita, ela. Mas, gente, que faz tempo que não ouço falar dela, pra ser sincero, tô aproveitando aqui pra desabafar com vocês. Vai fazer mais de mês, e fico preocupado, que ela me some de novo. É, às vezes ela some mesmo, acontece, mas cada vez que ela some eu fico mais que preocupado, meio que durmo até mal, sabe, senhora, senhor? Mas é que vamo torcer pra ela voltar logo e voltar e trazer com ela ainda mais aplauso que antes. É bom lembrar que ela era, é, boazinha mas num era, é, idiota não, que se passava carro tentando mirar a cara dela pra molhar, desses dia de chuva, eu sei que sei muito bem que ela anotava a placa num trocinho de papel com lápis que carregava e, aqui pelas bandas, é cheio de estacionamento, né? Que ela tinha esse caderninho e toda vez que reencontrava um desses carro fazia muita questão de arranhar a lataria toda. Até que escrevi um dos meus causos contando dela, me pergunto se alguém, um dia, tomare, cisme com minha cara e de de publicar meus causo, e se vai sair em livro, e se vai ficar todo país inteiro sabendo, sabendo que Canteia batia palma tão bonito pra tudo, que vivia disso de sorrir, que não abaixava a cabeça e que mesmo com tanto tudo motivo pra se ficar emburrado nessa vida, que mesmo com tanta tristeza que ela deve ter passado, ela era e é mais bonita que tudo isso de ruim e tratava de desemburrar a gente.
No mais, é isso, que já deu a hora, e vocês tem que voltar pros seus serviços, agradeço bem, sorrio gostoso, vou até abrir a janela agora lá em casa e aproveitar que esse templo nublado passou, obrigado pela contribuição em dinheiro, mas quem não pode dar dinheiro mas que pra só de fez questão de ficar aqui até o fim, muito obrigado também, queria dar um abraço e um cheiro em todos vocês, mas sei que vocês vão se constranger, mas é isso, minha prosódia fica por aqui, e meu amor vai pra mais de além. Agradeço novamente a paciência, o amor, os ouvido, que vocês dão, hoje e constante, mesmo com tanta gente por aí virando as costas, vocês, aqui, nos olhando na cara, e rindo, se emocionando com a gente. Nem tem contribuição que pague mais que isso mas como sorriso não enche barriga, se puder deixar a contribuição, e não trabalho com hipocrisia, não! É pra comer mesmo, obrigado, obrigado de novo, moça linda, moço lindo. Deixo um sorriso por fim pra vocês, nem tão bonito quanto de Canteia, mas o bastante pra colorir seus restinhos de tarde. Venham para os próximos Recitais Circenses da Pedra Funda, tem toda terceira quinta feira do mês, desejo, a todos, um ótimo espetáculo amanhã e um brilhante futuro hoje, mais brilhante ainda que essa estrela aí queimando por cima de nossas cabeça. Obrigado.
Tamos aqui morando por essas redondezas da Presidente Kennedy, por essas vielas, da Central Rodoviária, fazendo amizade com os camelôs, as donas de casa que vem aqui comprar fruta, legume, comprar pano, os donos de casa também, porque hoje em dia não tem mais essa coisa não, né? Tá todo mundo ajudando dentro de nosso lar, e isso é muito bonito de se ver. Menino, menina, lavando louça, varrendo quarto. Mas a gente fica pra bem de aqui, Centrão, sem incomodar ninguém, eu com os meus poemas, Gerivaldo cantando uns sambas antigos, de época de antes dele mesmo nascer, batudo no engradado vazio de cerveja que ele usa como banco, mas volta e meia a gente acaba apanhando ou só tomando esporro de alguns seguranças, que ficam aqui pra cuidar das lojas, quando de noite a gente assusta quem tá passando por aqui. Esse meu amigo mesmo aqui, o Jovão, esses dias, tava pedindo dinheiro, não pra comprar pedra, não, mas pra comprar água, e revender, que nesse calor, minha gente, água vai rápido, tanto movimento que tem aqui, passa alguém e compra, já ajuda Jovão a comprar uma casa, mas, estava aí, com o isopor, já tinha marcado de se arranjar com um gelo fiado, ali numa mercearia, dedicado a trabalhar, e, vejam, amigos, veio e tomou esporro do segurança, e teve que pedir dinheiro em outro lugar, e ficou mais de dia pra achar alguma coisa pra poder vender mais aqui e veja só quanto dinheiro ele deixou de ganhar, e quanta comida deixou de entrar pela boca desses filho que ele deve ter, que deve sim, eu nunca vi, embora não duvide, quem diz que tem, tem, então ele tem. Lembro que nem ontem, final do Estadualzão, jogo 1x0, ele e um outro amigo nosso, o Carniça, ganhou esse apelido depois, vieram correndo não sei de onde, a polícia veio atirando, e atirou, e eles caíram pra mó aqui no meio do chão, e a polícia, que na verdade a gente achou que era mas até hoje nem tem tanta certeza assim do que que foi que aconteceu, os caras nem fardados tavam, e os dois aqui sangrando, de tiro, e a galera gritando, gol, deu 2x0. Sorte que deu na barriga, ambulância chegou, deu dois mês, voltaram, contaram a história, parece que perderam uma aposta e não queriam pagar, sabe como é.
Ainda me conta, o meu outro amigo aqui, Cadinho, conta e comenta que costumava levar paralelepípedo na cabeça, quando temia em dormir na Presidente Kennedy. Era quase a mesma turma estranha, armada, sem farda, vinha e jogava pedra enquanto dormia, pedaço de calçada, já perdeu a conta de quanto amigo já levou assim. Aproveitavam, os filho da puta, desculpa, minha gente, mas aproveitam dia de chuva, desculpa o palavrão, minha gente, senhores, senhoras, mas é revoltante, uma gente que fica embaixo dos prédio, pra descansar, proteger da chuva, muita família, criança pequena, tendo que ficar vigiando se não vem gente tacar pedra, tacar fogo, é coisa que revolta o coração da gente. Esse meu amigo já levou paralelepípedo, fez até questão de treinar a palavra pra falar e contar a história adiante, e só não morreu, minha gente, porque tava de bruço, debaixo da coberta, e pegou só um pedaço, que sangrou, mas que deu mais nada. Tadizinho de Cadinho, tá ali dormindo, mas desses susto, dessas porrada que a gente leva, muita gente não fica bem da cabeça não, ele nunca mais ficou do mesmo jeito, depois de tanto ano fugindo de levar pedrada na cabeça enquanto dorme, e sem ter dinheiro nem pra comprar um capacete. Mas a gente ajuda, demo comida, ele tá bem, tem dia que fica até batucando com Geri, ele leva um cado de jeito pro pandeiro, nem nunca fez aula, esse Cadinho é um Cadão! isso sim.
Estamos aí passando o chapéu, obrigado, senhora, obrigado. Esse dindim do chapéu, obrigado, você também, esse realce vai ajudar juntar umas água, umas bala, umas cerveja, mas não é pra beber não, como mesmo contei da história de Jovão, a gente deixa pra ajudar nossos irmão aí, o Tatu, menino que nem deve ter os seus 10 ano ainda, pegaram e roubaram a bola dele, esses dia. Menino talentoso, fecha o sinal, fica fazendo embaixada, consegue bastante grana, tamo aí tentando um contato de algum grande clube, pra mó dele fazer teste, ver se tem futuro mais fácil, se alguém tiver contato, pode deixar aí, dobrado no chapéu, que a gente pega, encaminha pra ajudar melhor esse moleque de ouro. Essa galera aqui, todo mundo se ajuda, daqui a pouco vem Geri, aí, dar uma batucada, fazer os senhores, senhoras, se remelexer um pouco, porque faz bem também, é horário de almoço, eu sei, mas temos mais algumas histórias pra contar, tenham só um pouco mais de paciência, só mais um pouquinho, e obrigado, meu senhor.
Eu falei para os senhores que ficamos aqui nos arredores da Central Rodoviária, tem as barca descendo aqui a rua do Imperador Pedro Terceiro, e é o máximo que a gente vai, essa linha reta, só, e as viela que passa por ela, mas evitamo se afastar muito de além disso, minha senhora. Nesses bairros ao redor, tamo evitando de chegar junto demais, tá perigoso até pra gente, tinham parado, mas voltaram a perturbar nós que ficamo na rua. Complicado, a gente só quer paz, e amor, tem gente que quer a cachaça, até aí, tudo bem, até eu bebo minha aqui e ali, ainda, embora tenha largado o vício de vez, graças a deus, sempre de igreja, sem doutor, só com minhas prosódia. Minha igreja que eu mesmo fundei, mas nem tô aqui pra falar de religião. Só dos meus moinhos, do meu trabalho. Mas tem outros soltos ai atrás de um pouco de cola, esses são os mais novinhos, daí inventa de roubar, e é triste, a gente faz o que pode, mas volta e meia passa alguém, passa desses segurança, dessas gente aí que a gente não sabe, não podemos generalizar também, né? Tem muito segurança que tem família, só quer trabalhar, cuidar, mas tem quem pegue e tenta dar cabo na gente, como se diz? Ah, a tal da maconha nunca foi minha onda, e ela tá cara, quem não tem nada, mal arranja o fubá, não vê cara de feijão faz mês, não sabe, ou sabe, sabe que não vale a pena juntar pra comprar, até porque essa coisa aí dá fome e comida tem pouco. Daí muita gente acaba que caí nesses crack, aí, mas é, é complicado. Volta e tanta vem alguém aí da prefeitura, depois que já deram sumiço em alguns, vem e leva uns nos carros. Volta e tanta vem uns carros estranhos, com capota atrás, diz também que é abrigo, mas tem quem nunca volte. Outros voltam mas a gente mal consegue conversar direito pra saber que que houve. Principalmente perto das boca onde entra mais dinheiro, que daí começa a virar os outro bairro, como já disse, não somos de ficar se mexendo muito, por aqui, bem, por aqui faz tempo que não pegam pra fazer nada com ninguém, então a gente, a gente não vai provocar, né? Vamo cuidar, aqui, é tudo nosso, como família mesmo, a gente cuida.
Casquinha, o famoso Casquinha é um, nunca que descobri o nome sério dele, vivia por aí, 'cês devem imaginar porque esse era o apelido, a Casquinha era da ferida que nunca que cicatrizava na barriga dele. Vivia por aí, era doidinho, dó, inventava de usar cola, e tal, pelas ruas, arranjou confusão com alguém que até hoje quem sabe que foi? Ninguém! Mas foi nessa de aposta também, e foi um desses que a gente sempre via aqui trabalhando, do nosso lado mais próximo mesmo, Casquinha tava jogando esses jogo de azar, porque ninguém fica rico jogando aquilo, só o dono do jogo, e daí saiu correndo e quando a gente ia atrás ele ofi que sumiu, do nada. Mas vamo falar de coisa boa, que daqui a pouco a gente começa a espantar o público, olha o Sol, vai que vai que meio que até nublou agora, e os senhores, senhoras, vão ficar mais dois minutinho com a gente, não vão? Alguém tem um pouco d'água? Senhores? Alguém? Mas é pra mais de beber, mesmo, você, moça bonita, nariz bonito, até as orelha bonita, ah, muito obrigado, além de bonita, muito educada, obrigado, ah, o Verão, minha gente? Você gosta de Verão? Lembra o Carnaval, que já tá pra chegar, esse ano caí em Março. É estranho quando o Carnaval caí em Março, né? Faz tempo que não vejo TV, quando dou pra ver, é na beira dos boteco, quando tem jogo, e põe a TV mais alta. Aí, eu não bebo mais, digo, aceitei a proso-Popeya minha como meu único vício insuperável, acho que não comentei aqui, né? De todo jeito, uns amigo nosso vão naquela igreja ali pela Grécia Antiga, que nome de bairro mais estranho, que lá distribuem vinho toda quinta, de graça, pros moradores de rua que nem a gente. Ah, e peixe. Isso tudo porque Jesus dizia que comia isso. Nessa hora até os ateu vira crente, bonito.
Um argentino que ficava lá por esses bairros... levando seu violão velho, seus bolero, e tal, e coisa. Um dia tomou sei lá o que e ficou brincando de joão e maria, desceu ali a Marechal Florisvaldo, era véspera de desfile, ali na Apoteose, tava cheio de carro alegórico, aquela filona enorme que fica das escolas e os carros chegando, né, e ele começou a correr, dentre os carros, fez estrago não, só corria e gritava, "uhhhh, uhhhhh", que nem tal uma sirene, uma coisa assim, mó solzão, sei lá que cachaça foi aquela, se é que foi esse o químico, tinha um bloco no fundo, uma batida, e ele rebolando, desengonçado, porque lá nas argentina nem deve ter esse batuque nem de cá. Só comento disso porque no Carnaval aqui as coisas são assim, esse aparece gente doida de toda parte pra dançar, correr, beber, nesse Largo aqui, esse Largo não tinha nada, mas, ó, tá bombando, bando de gente nova chegando, gringo ou vizinho da gente mesmo, tá bonito de se ver, tocam samba, toca marchinha, um bando de marchinha que eu não ouvia há uns 20, 25 anos... E vou ver, é uma galera nova, exaltando essas músicas bonitas, é uma boa forma de encerrar a vida, digo, não que eu ache que eu vou morrer logo, mas sei que nem sou nenhum mocinho, que tô bem mais de perto do fim que pro do início. Ah, mas galera vem e toca de tudo, claro! Rola até uns roque, roque em rôu, com as levada mais pesada, e acontece música pra mais que da parte toda.
Nossa colega a gente chamava de Canteia, tudo bem que é nome de sambista homem, mas caía bem nela, e a gente chamava, e ela atendia. Vivia cantando coisa samba antigo da Unidos da Pedra Funda, aquelas que Clarinha, Diodete gravaram... Vive triste, Canteia, só ri quando tá batucando, rindo, cantando, fora isso vive triste. Me pergunto se fizeram muita maldade com a Nega, nessa vida, bonita, que era, na rua, maldade. Se fizeram maldade demais com ela minha vontade era de matar, desculpe, amigos, amigas, senhoras, senhores, mas é de matar mesmo essa gente má. Só que ninguém sabe de nada, ela só vive aí, rindo enquanto pode rir pra gente, e a gente erspeita o espaço dela. Sentada ali no início da rua do Samba Canção, parece que escolhe de proposito, essa nega linda. Sentada ali batia palma pra tudo. Batia palma pra chuva, pras criança passando correndo, pra executivo indo pro trabalho que dava um troco, pros que não davam um troco também. Depois ficava séria, mas em dia de Sol ela bem mais que sorria que ficava séria, triste. Criatura bonita, ela. Mas, gente, que faz tempo que não ouço falar dela, pra ser sincero, tô aproveitando aqui pra desabafar com vocês. Vai fazer mais de mês, e fico preocupado, que ela me some de novo. É, às vezes ela some mesmo, acontece, mas cada vez que ela some eu fico mais que preocupado, meio que durmo até mal, sabe, senhora, senhor? Mas é que vamo torcer pra ela voltar logo e voltar e trazer com ela ainda mais aplauso que antes. É bom lembrar que ela era, é, boazinha mas num era, é, idiota não, que se passava carro tentando mirar a cara dela pra molhar, desses dia de chuva, eu sei que sei muito bem que ela anotava a placa num trocinho de papel com lápis que carregava e, aqui pelas bandas, é cheio de estacionamento, né? Que ela tinha esse caderninho e toda vez que reencontrava um desses carro fazia muita questão de arranhar a lataria toda. Até que escrevi um dos meus causos contando dela, me pergunto se alguém, um dia, tomare, cisme com minha cara e de de publicar meus causo, e se vai sair em livro, e se vai ficar todo país inteiro sabendo, sabendo que Canteia batia palma tão bonito pra tudo, que vivia disso de sorrir, que não abaixava a cabeça e que mesmo com tanto tudo motivo pra se ficar emburrado nessa vida, que mesmo com tanta tristeza que ela deve ter passado, ela era e é mais bonita que tudo isso de ruim e tratava de desemburrar a gente.
No mais, é isso, que já deu a hora, e vocês tem que voltar pros seus serviços, agradeço bem, sorrio gostoso, vou até abrir a janela agora lá em casa e aproveitar que esse templo nublado passou, obrigado pela contribuição em dinheiro, mas quem não pode dar dinheiro mas que pra só de fez questão de ficar aqui até o fim, muito obrigado também, queria dar um abraço e um cheiro em todos vocês, mas sei que vocês vão se constranger, mas é isso, minha prosódia fica por aqui, e meu amor vai pra mais de além. Agradeço novamente a paciência, o amor, os ouvido, que vocês dão, hoje e constante, mesmo com tanta gente por aí virando as costas, vocês, aqui, nos olhando na cara, e rindo, se emocionando com a gente. Nem tem contribuição que pague mais que isso mas como sorriso não enche barriga, se puder deixar a contribuição, e não trabalho com hipocrisia, não! É pra comer mesmo, obrigado, obrigado de novo, moça linda, moço lindo. Deixo um sorriso por fim pra vocês, nem tão bonito quanto de Canteia, mas o bastante pra colorir seus restinhos de tarde. Venham para os próximos Recitais Circenses da Pedra Funda, tem toda terceira quinta feira do mês, desejo, a todos, um ótimo espetáculo amanhã e um brilhante futuro hoje, mais brilhante ainda que essa estrela aí queimando por cima de nossas cabeça. Obrigado.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Desaparece em Agosto (também identificável como "Monólogo em Areia e Dedo: Trinta")
Vide o título, em agosto desaparecem os oceanos dos mapas, as aftas da boca, os vermes das frutas, os corpos dos vultos, a chuva deitada, o traço das sobrancelhas, os filmes analógicos das retinas, as nuvens de Sol, noites de gaguejo, o pé dos cacos, as remelas carameladas das pálpebras permanecem, mas desaparecem os estetoscópios dos pescoços, a seca do corpo, as cáries do peito, as unhas das costas, o tendão do calcanhar, o passo do descompasso, o amarelo do riso, o verde da estrada, a lição da esgrima, o ponto da vírgula, os rascunhos dos entulhos, o maremoto, o ranço do peito, o ouro da pele, a saudade da cama, o encontro do acaso, o teto da casa, o firmamento do teto, as aeronaves da estante, o susto do novo, a fuga do nojo, o leão do quarto, a memória do abraço, a anemia falciforme permanece no sangue, mas desaparecem o azul marinho da noite, o azul turquesa do dia, a tinta das palavras, as cicatrizes das paredes, desaparece a poesia da casca, a casca das feridas, as feridas dos bares, os bares da cidade, a cidade dos homens, os homens do manicômio, os manicômios de qualquer parte. Desaparece o que há de cheio nos copos, o que há de vazio em mim. Desaparece até sua vontade de dormir, engasgar, soluçar, enfartar, e minha obrigação de fugir, tropeçar, fingir, confessar, mentir, apagar, escrever e transar. Desaparece a verdade. E também o bom senso, inclusive, porque esse ano já tentaram cancelar agosto pra ver se a Primavera chegava mais cedo e não desaparecia dos dentes.
Círculo Perfeito (ou "Monólogo em Areia e Dedo: Trinta e Um")
Um corpo girava em torno de outro corpo em trajetória que descrevia uma elipse. Este segundo corpo girava em torno de um terceiro, maior, que girava, também, em torno de si mesmo. Giravam os três em torno de uma estrela que irradiava luz para todos os lados possíveis. Haviam outros corpos distantes irradiando luz da mesma forma; estes que eram avistáveis e reconhecíveis da superfície destes primeiros, mas que, talvez, devido a sua distância, cuja grandeza era difícil precisar, pelo conforto cotidiano ou simplesmente falta de curiosidade: falavam trivialmente ou se calavam a respeito. Estes outros mantinham em suas órbitas também seus próprios corpos opacos. É preciso salientar aqui que, naturalmente, cada qual tinha um calendário diferenciado e suas próprias formas de cultura local de medir os seus dias, meses e anos, ou seja, sua forma de contar o tempo. Dito isto, esclareço que dependendo do ângulo que miravam o infinito, somando-se as diferentes variações da conjuntura estelar que havia disponível para observação, conforme seus ciclos de translação aconteciam, um e outro, dos mais atentos, estavam razoavelmente cientes da existência e da profundidade da imensidão que se estendia, brilhante, para além do que jamais poderiam tanger ali. Os demais se mantinham preocupados e ocupados com a natureza de seus círculos gravitacionais. Estes, pela preguiça ou simplesmente pelo o cansaço oriundo do consumo que tais e outras tarefas cotidianas lhe custavam os pensamentos, jamais procuravam travar contato mais profundo entre si ou mesmo desenvolver e sofisticar sua linguagem rumo para os outros pontos do universo que despontava abaixo, aos lados e acima de suas cabeças. Por mais que houvesse, sim, possibilidade material para esta empreitada. Contudo, é preciso esclarecermos aqui um fato idiossincraticamente curioso, que aqueles poucos observadores sempre tratavam de alarmar os demais a respeito. De eras em eras acontecia de desaparecer uma das luzes, esvanecida aos poucos ou repentinamente apagada, um ponto a menos no grande mar de incontáveis pontos luminosos. Um leão de fogo azul consumido por si só. (Ou quem sabe, deveras, devorado por um buraco negro?) Seja o que fosse, desdobrava-se a seguinte raridade: Era quando os astros se chocavam com a brevidade da vida.
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Nove
Ninguém nasce fazendo canção
Primeiro se aprende a andar
Ninguém nasce escrevendo sonetos
Primeiro se arrota, engasga, então se aprende a cantar, se as cordas vocais permitirem, independente de afinação
Ninguém nasce sambando
Primeiro se nasce, se fica de pé, primeiro boceja, depois o bom dia
Ninguém nasce sabendo nascer
Da barriga da mãe, primeiro, se aprende a nadar
Ninguém sabe que noite que vai acontecer
Primeiro vem o dia, esteja-se acordado ou dormindo, primeiramente bom dia
Pensando bem, segundamente, diria
Porque provavelmente a noite veio primeiro, digo, um dia havia, primeiro, o silêncio
O silêncio era escuro, depois veio a claridade, daquela explosão estelar
O silêncio então ficou esclarecido, e numa bela tarde arrotou, engasgou, aprendeu a falar, digo, claro, primeiro consigo, depois com os outros, assim que o vácuo lhe deu as circunstâncias apropriadas para o efetivo exercício do som
Daí ele foi e falou e escreveu a prosa
Primeiro veio a prosa, com certeza
Tanto que nem sabiam que era prosa, mas era, sempre além da mania de autoridade do homem e suas redes normativas, métricas; a prosa era porque é, é a necessidade de guardar o preparo e receita de um peixe cozido, de se elogiar os quadris da moça ou os ombros do moço, de partilhar o fruto proibido
Daí vieram os hieróglifos, depois os datilógrafos, até surgir a era digital com seus corretores automáticos
Um pouco antes disso veio o Drummond, Torquato, Clarice, Lygia, Wally Salomão e Arnaldo Antunes, depois disso veio você e mais essa multidão aí que nasceu depois de 1989
Só que antes dessa gente toda vieram as canções, inclusive antes de toda gente que já existiu, até porque quando as pessoas ainda aprendiam a andar de duas patas já tinha muito passarinho, dinossauro! outros bichos solfejando por aí
Daí um pouco depois veio o fogo
Quando já se davam as mãos para atravessar as ruas batidas de terra
Quando se cantava e dançava samba nas primeiras aldeias do mundo
Quando da barriga da mãe, já nascidos e nadados, éramos todos um oceano só num continente primeiro cujo primeiro nome ninguém lembra mais...
Um continente que, da forma que era, não existe faz tanto tempo... e ainda assim nasceu tanto depois do silêncio.
(Para ler mais silenciosamente, em quase cochicho:
Antes dessa hora tinha a hora passada
Daqui uma hora faltará apenas outra hora para nós irmos embora
Antes do curativo vem o machucado
Antes do café veio o leite
Antes da garganta coçar a garganta gritou
E antes de gritar muita coisa a gente fez:
Batuque e sapateado na parede do lado de dentro do ventre
Bebemos caldo quente do cordão umbilical
Sentimos, nalguns casos, sem querer, uma década e meia antes do devido, o gosto do cigarro, do etanol
Mas entre o maior dos baratos, depois de um tempo com cor nenhuma, foi descobrir a primeira cor, que é:
Laranja! Porque é a cor da pele quando bate o Sol!)
Primeiro se aprende a andar
Ninguém nasce escrevendo sonetos
Primeiro se arrota, engasga, então se aprende a cantar, se as cordas vocais permitirem, independente de afinação
Ninguém nasce sambando
Primeiro se nasce, se fica de pé, primeiro boceja, depois o bom dia
Ninguém nasce sabendo nascer
Da barriga da mãe, primeiro, se aprende a nadar
Ninguém sabe que noite que vai acontecer
Primeiro vem o dia, esteja-se acordado ou dormindo, primeiramente bom dia
Pensando bem, segundamente, diria
Porque provavelmente a noite veio primeiro, digo, um dia havia, primeiro, o silêncio
O silêncio era escuro, depois veio a claridade, daquela explosão estelar
O silêncio então ficou esclarecido, e numa bela tarde arrotou, engasgou, aprendeu a falar, digo, claro, primeiro consigo, depois com os outros, assim que o vácuo lhe deu as circunstâncias apropriadas para o efetivo exercício do som
Daí ele foi e falou e escreveu a prosa
Primeiro veio a prosa, com certeza
Tanto que nem sabiam que era prosa, mas era, sempre além da mania de autoridade do homem e suas redes normativas, métricas; a prosa era porque é, é a necessidade de guardar o preparo e receita de um peixe cozido, de se elogiar os quadris da moça ou os ombros do moço, de partilhar o fruto proibido
Daí vieram os hieróglifos, depois os datilógrafos, até surgir a era digital com seus corretores automáticos
Um pouco antes disso veio o Drummond, Torquato, Clarice, Lygia, Wally Salomão e Arnaldo Antunes, depois disso veio você e mais essa multidão aí que nasceu depois de 1989
Só que antes dessa gente toda vieram as canções, inclusive antes de toda gente que já existiu, até porque quando as pessoas ainda aprendiam a andar de duas patas já tinha muito passarinho, dinossauro! outros bichos solfejando por aí
Daí um pouco depois veio o fogo
Quando já se davam as mãos para atravessar as ruas batidas de terra
Quando se cantava e dançava samba nas primeiras aldeias do mundo
Quando da barriga da mãe, já nascidos e nadados, éramos todos um oceano só num continente primeiro cujo primeiro nome ninguém lembra mais...
Um continente que, da forma que era, não existe faz tanto tempo... e ainda assim nasceu tanto depois do silêncio.
(Para ler mais silenciosamente, em quase cochicho:
Antes dessa hora tinha a hora passada
Daqui uma hora faltará apenas outra hora para nós irmos embora
Antes do curativo vem o machucado
Antes do café veio o leite
Antes da garganta coçar a garganta gritou
E antes de gritar muita coisa a gente fez:
Batuque e sapateado na parede do lado de dentro do ventre
Bebemos caldo quente do cordão umbilical
Sentimos, nalguns casos, sem querer, uma década e meia antes do devido, o gosto do cigarro, do etanol
Mas entre o maior dos baratos, depois de um tempo com cor nenhuma, foi descobrir a primeira cor, que é:
Laranja! Porque é a cor da pele quando bate o Sol!)
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