Foi pego imprimindo livretos de poesia no trabalho. Chamado para comparecer ao RH, esperava sua carta de demissão; contudo, fora promovido ─ o que por si só já é de uma poeticidade e bom gosto literário finíssimo por parte de seus superiores. Ao saberem da sucessão dos fatos, por entre os demais funcionários a moda pegou na repartição. Todos imprimiam os livros que curtiam, de 'bom gosto' ou não. Começaram a agendar grupos de leitura e saraus com pessoas de outros setores e funções. Encerravam as atividades duas horas antes do expediente toda primeira e terceira quinta-feira do mês para os coletivos e toda terça para as recitações. Muitos começaram a levar seus escritos próprios. O índice de produtividade de serviço, contrariando os alarmistas, aumentou e o primeiro empregado, que estivera na vanguarda de imprimir coletâneas de versos de Leminski, Torquato, Fiama, Cecília, Florbela, Drummond e Pessoa fora promovido novamente. Tais práticas foram tornadas institucionais dentro da empresa para evitar quaisquer empecilhos legais.
Em outro recital levara seu primeiro petardo autoral. Antes de recitá-lo, porém, já havia notado que a plateia daquele dia estava composta tanto por superintendentes, secretários, procuradores, inspetores, agentes executivos, como por estagiários, acessorialistas, zeladores, motoboys, copeiras; pessoas das mais variadas sortes a trabalhar no mesmo edifício. Conforme se erguia de seu assento com o papel em mãos e se pusera diante da multidão, tremulamente surpreendeu suas testemunhas ao amassá-lo e arremessá-lo contra o chão, pisando-o repetidamente, acinzentando sua textura branca. A plateia assistiu ao ritual em silêncio; e, então, após cerca de 10 segundos quando só se podia ouvir os ruídos do ventilador de teto, o protagonista que descrevo se abaixou, desembaraçou o papel, sobretudo empoeirado mais por seus pés que pelo chão limpo, varrido (inclusive duas vezes por dia e pelas mesmas faxineiras ali sentadas a assistir o espetáculo) e, finalmente, leu as seguintes palavras que continha impressas:
"Sou um poema em carne viva.
O amasso e a sujeira me fazem parte do verso,
Como a cicatriz e o suor fazem parte do corpo."
Fora aplaudido de pé. O presidente em pessoa, que esperava ansiosamente este telefonema em sua mesa, desceu do último andar e compareceu àquele auditório para cumprimentar-lhe e informar os fortuitos procedimentos e trâmites, que, após assinatura de portarias e respectivas publicações no Diário Oficial da União, além dos demais detalhes técnicos e burocráticos, tornariam possível o ato de lhe ceder e nomear ao cargo mais importante dentro da hierarquia da empresa a qual faziam parte.
Obs.: Sua trajetória seguiria os mesmos moldes meteóricos ao longo da década seguinte exceto por um período temporário de afastamento da produção literária para se dedicar à carreira política. O retorno, após homérico fracasso eleitoral ao cargo de Governador do Estado, foi em seu quinto e mais bem vendido livro de poesia, chamado: "Lições de Esgrima", subtítulo: "...ou como sobrevivi por entre percevejos sem sair fedido".
Em outro recital levara seu primeiro petardo autoral. Antes de recitá-lo, porém, já havia notado que a plateia daquele dia estava composta tanto por superintendentes, secretários, procuradores, inspetores, agentes executivos, como por estagiários, acessorialistas, zeladores, motoboys, copeiras; pessoas das mais variadas sortes a trabalhar no mesmo edifício. Conforme se erguia de seu assento com o papel em mãos e se pusera diante da multidão, tremulamente surpreendeu suas testemunhas ao amassá-lo e arremessá-lo contra o chão, pisando-o repetidamente, acinzentando sua textura branca. A plateia assistiu ao ritual em silêncio; e, então, após cerca de 10 segundos quando só se podia ouvir os ruídos do ventilador de teto, o protagonista que descrevo se abaixou, desembaraçou o papel, sobretudo empoeirado mais por seus pés que pelo chão limpo, varrido (inclusive duas vezes por dia e pelas mesmas faxineiras ali sentadas a assistir o espetáculo) e, finalmente, leu as seguintes palavras que continha impressas:
"Sou um poema em carne viva.
O amasso e a sujeira me fazem parte do verso,
Como a cicatriz e o suor fazem parte do corpo."
Fora aplaudido de pé. O presidente em pessoa, que esperava ansiosamente este telefonema em sua mesa, desceu do último andar e compareceu àquele auditório para cumprimentar-lhe e informar os fortuitos procedimentos e trâmites, que, após assinatura de portarias e respectivas publicações no Diário Oficial da União, além dos demais detalhes técnicos e burocráticos, tornariam possível o ato de lhe ceder e nomear ao cargo mais importante dentro da hierarquia da empresa a qual faziam parte.
Obs.: Sua trajetória seguiria os mesmos moldes meteóricos ao longo da década seguinte exceto por um período temporário de afastamento da produção literária para se dedicar à carreira política. O retorno, após homérico fracasso eleitoral ao cargo de Governador do Estado, foi em seu quinto e mais bem vendido livro de poesia, chamado: "Lições de Esgrima", subtítulo: "...ou como sobrevivi por entre percevejos sem sair fedido".

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