terça-feira, 9 de setembro de 2014

Curta Longa Vida de um Poeta Nas Metrópoles

Era um poeta insuportável. Recitava repertório próprio como troféu na grande maioria das oportunidades, nos arredores dos centros culturais, nos refeitórios das universidades, assembleias políticas. Charada sincopada boicotada pelos serões da província por ser mais decifrável que receita de soro caseiro. Bisneto de imigrantes armênios, foi sobrinho-neto de terceiro grau de um certo escritor menos aclamado na literatura destes lados do leste-europeu; contudo, desinibindo a distância, frequentemente se gabava do fato. Adorava nostalgicamente o acordo-ortográfico de 8 de dezembro de 1945, "pois quando era", segundo suas palavras, "a língua portuguesa ainda mantinha seu esplendor característico". Tinha noção clara do que era e do que não devia ser arte: no teatro, origami, gastronomia, música - embora preferisse, secretamente, barulhos de cachoeira gravados em fitas cassete que uma roda de samba ou sinfonia. Morreria de peste negra se isso ainda existisse. Contentou-se em falecer de febre tifoide contraída em uma viagem para Tocantins. (A verdade é que apenas faleceu por se recusar a ser atendido por um médico cubano.) Seu primeiro e único livro escrito fora publicado postumamente apenas na Internet e viralizou nas redes sociais por umas duas semanas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário