quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Quinta Feira, 4 de Setembro de 2014:

O homem limpa a escorrida gota de suor cinza de onde já esteve o cavanhaque aparado. A caixa de sapatos pintada de prata pesa muito além agora do que pesava 5 horas mais cedo. As nuvens de chuva quase negras de tanto peso anunciam a próxima tormenta pela garoa que começa a garoar enquanto escrevo esta frase. A gota d'água transparente misturada com certa porção de dióxido de carbono risca também sua testa e, misturada ao suor, torna mais escuro o tom cinzento do líquido que lhe escorre. Prevendo a ardência que esta gota causará se lhe tocar a vista, como quem revive em meio segundo uma tortura evitada e temida rotineiramente, enxuga com o dedo indicador esquerdo a ameaça. Uma criança transita, para, aponta o seu rosto e pergunta para mãe, com quem anda de mãos dadas, se este senhor é feito de pedra. A outra, pois eram duas, de idade ligeiramente avançada pela comparação em altura, repreende-lhe respondendo que ele é feito, na verdade, de moedas de cinquenta centavos derretidas. A mãe puxa a mão de ambas e atravessa a catraca que separa o saguão da Estação. Parado na plataforma, apoia sua caixa no cimento seco, retira do bolso uma embalagem de lata que logo se revela ser um maço de cigarros protegidos no alumínio. Suga do filtro, suave, o trago cuja fumaça engasga e escapa pelo nariz quando a multidão começa a correr para outro ramal. Se aquieta e termina o cigarro quando percebe que está, acidentalmente, no lugar correto. O cenário descrito aqui em preto-e-branco-retrô poderia ser um trecho cinematográfico. Contudo, apenas é o homem estátua, após mais um dia de trabalho artístico pelas ruas da cidade, observando seu trem para Campo Grande adentrar a Central do Brasil. 

"─ O Homem Estátua Voltando Pra Casa."¹

¹ (Título alternativo.)

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