quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Convinced of The Hex (ou "Monólogo em Areia e Dedo: Trinta e Cinco")

Estava no supermercado, planejava levar só três ou duas coisas, mas aquilo é, você vê um arroz que te lembra a tapioca que lembra o leite que lembra que te falta o café. A mão já não dá conta de carregar tanto palpite que a memória dá. Eu vou, então, à quase invisível região destes estabelecimentos onde os cestos plásticos se encontram para continuar a empreitada doméstica. Diante da pilha, a única que tinha, aliás, quase da minha altura, observo a primeira opção: cesto sujo de carne, qualidade não identificada. Deixo de lado, no chão. Próxima opção: poeira, muita poeira branca. Um pacote de leite em pó deve ter estourado, parece véspera de Natal fora de época pras duas formigas perdidas ali. Como povo é porco, penso. Depois em casa considerei a hipótese de ser "cocaine", mas isso é outra dissertação, já. Os artrópodes costumam ter outra onda, até onde estudei. Terceira opção: cesto limpo, arejado, ventilado, contudo: esqueceram uma lista de ingredientes, anotada num pedaço, mesmo, de folha de caderno. Guardei, joguei o que carregava na mão, soterrei o papel, adiei a hora de lidar com esse detalhe e prossegui a jornada. 

Feitas as compras, shampoo anti-caspa, farofa e biscoito da vaquinha inclusos, me meto na fila. Chega minha vez, começo a empilhar tudo na esteira do caixa. Esvaziado o cesto, antes de começar a me lamentar de ter pego compras além dos limites do limite do meu cartão, reencontro o tal do papel, e, enquanto aguardo a pessoa na frente terminar de pagar, começo a ler os detalhes da lista, que descrevo a seguir, incluindo notações:

2 dentes do filho de um agente qualquer;
5 kilos de pata de Mascavus;
30 mililitros de sangue do moço do açougue (o moreno, baixinho, monocelha);
*** 70 gramas de unha de Ogro idoso, abordar falando em idioma Raásvikán a senhora que às 16 horas e quinze ficar parada por 5 minutos no freezer de sorvetes. Ela repassará mais detalhes; 
16 bifes de Unicórnio Transgênico; *para o aniversário da Joca*
3 caixas de Leite de Cabra Alpinista;
1 pacote de salgadinhos recheados com escama de Orque e Charpe;
1 desodorante de maçã verde;
30 sacos de sal;
179 pacotes de milho *qualquer marca, barata, baratíssima*.

De boca aberta, naturalmente. Viro o verso, ainda descubro anotado um endereço, entre aspas: "Rua Oswaldo Cruz, 545, Conglomerado B, Apartamento 5902." Antes que eu enfarte a moça do caixa me grita e organiza com a frase: "senhor, forma de pagamento?" Eu digo, ainda perplexo: cartão. Penso nos prédios da rua, que por acaso conheço, já trabalhei por ali, e com certeza não há nenhum prédio que tenha quase 60 andares. Me interrompe, outra vez, gritando "débito ou crédito?" Respondo: crédito. Não, débito. Crédito, desculpa. Claramente irritada, me empurra a máquina, por sorte acerto a senha de cara, as compras, por sorte, de novo, haja sorte, gente! a própria atendente ajudou e já estão na sacola. É, retomo o caminho de casa. Com o papel dobrado no bolso, óbvio. Provavelmente a peça mais bem pregada que já eu vi na minha vida. Ou, alternativamente, as bruxas não apenas existem, mas como são cariocas, moram no Flamengo e tem uma compulsão bizarríssima por pipoca.

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