Era da mesma altura que Chico Buarque. Alguma coisa nessa existência devia de me igualar ao homem, então que fosse a altura. Fui num show, cheguei cedo, me apertei na quinta fileira e fiquei mirando e calculando a altura dele com relação ao pedestal do microfone. Quando acabou dei meu jeito de subir e antes que os seguranças que não esperavam que alguém fosse demente de fazer aquilo se dessem conta que sim, alguém seria, subi. Subi e fiquei reto, coluna ereta e me aproximei do pedestal, que vi bem que ele mal tinha mexido durante a coisa toda. Batata, tava lá, mesma altura. Abri um sorriso e dei um salto pra pista porque um dos vigias já me vinha cheio de amor.
Era novo quando fiz a proeza, fiquei confortável com a sensação de igualdade por anos e anos. Eis que o acaso é uma coisa insuportável feita pra te deprimir e na noite de um belo dia Chico Buarque me aparece pra dar uma canja num sarau graúdo na Lapa. Amigos de amigos, aparição surpresa. Tava lá por acaso, mesmo. Fico lado a lado, sem palco, de frente. E o bicho é mais alto que eu. Achei que ia enfartar, fiquei vermelho, suponho. E dizem que quando a gente envelhece, a gente encolhe. Acabou a palha, ainda fui calcular e abater depois a diferença de altura pela grossura da sandália que ele tava calçando. Pois é, tava perto, anotei a marca. Vai que era dessas com calçamento.
