sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Rua Sete, Casa Dois

Estava chovendo quando cheguei em casa,
A vanguarda já havia revolucionado, esteticamente,
Todos os cantos e móveis onde eu morava.
Os quartos, sem janelas, davam pra porta da rua,
Seu asfalto cruzava o meio da sala,
No lugar da TV havia um semáforo,
No lugar dos sofás, dois bueiros
(Um para os esgotos humanos, outro para os desumanos),
A cozinha dava para as telhas, e se chovia, teríamos sopa pra janta.

Não importavam mais os toaletes,
Ou as lembranças de infância espalhadas no quintal,
Ou cheiro de sexo pelos corredores,
Ou o resto dos brigadeiros pelas panelas,
Ou as horas perdidas nos cochilos da tarde,
Ou a saliva já seca nas colchas e lençóis,
Ou a sombra das árvores que amputei,
Ou a rede balançando parada, dobrada no armário,
Ou as hortaliças e os trevos, brotando do cimento, nos fundos,
Ou as roupas e os lençóis no varal, endurecidas de Sol e pouco amaciante,
Ou a alergia pela poeira em tufos pelas frestas,
Ou o ventilador quebrado (ar-condicionado nunca pudemos bancar), em pleno Verão,
Não importavam mais as janelas quebradas num cruzamento errado de bola,
Ou o rádio, o pagode alto, incomodando os vizinhos,
Ou o quarto divido pelos três irmãos (dois roncavam),
Ou o amigo que pediu pra levar o namorado pra passar a noite e transar no beliche de cima,
Ou a piscina de plástico com seus primeiros furos remendados com borracha e cola de sapateiro,
Ou os fogos de artifício na madrugada ─ os alertas e festas nas bocas de fumo,
Ou as moedas (era Cruzado Novo) perdidas atrás do botijão de gás,
Ou os brinquedos cantando canções de exílio do telhado,
Ou ter acordado de madrugada sem sono para ouvir sem querer os pais se enroscando,
Ou aquele dia que entrou um rato pela pia,
E que seu irmão do meio lhe gritou pra ajudá-lo e pegar uma vassoura.

No lugar da minha cama (os vanguardistas) deixaram um arbusto para fazermos amor,
No lugar da minha parede, minha irmã mais velha fazendo gargarejo,
No lugar do pote de café, um pote maior,
Onde ficavam os talheres, encontrei um panfleto sobre os benefícios de se comer com as mãos,
Depois de dois dias, a chuva passou e notei uma laranjeira brotando no quarto,
Notei também que deixaram um pouco de tabaco com seda em cima da cômoda,
(Peguei dengue hemorrágica dos mosquitos que entraram por ser impossível evitá-los, mas,)
No lugar do shampoo anti-caspa, um condicionador do Snoopy,
Nas marcas de tiro dos muros, coloriram adereços para o Carnaval
Do lado da viola me encostaram um trompete (com o bilhete: "você deveria aprender Frevo!"),
No lugar do teto (já mencionei?) deixaram umas estrelas,
E um livro de Saramago ficou no lugar da Bíblia.

Se passaram duas semanas até eu notar que morava em um terreno baldio,
E que (mané) vanguarda que nada!
Um aglomerado de galáxias agora era visível no Céu
Porque alguém teve o bom senso de retirá-lo do bolso de trás da calça.
Antes que voltasse a chover
Ou que as autoridades nos removessem para outro canto da cidade,
Decretei feriado prolongado,
Bebi mais café,
E perguntei (como quem não quer nada): "você ainda quer morar comigo?"

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Quintaneiras

Metade do caminho não importa
Metade do balde de pipoca
Metade do abalo, a porta
Uma metade, passarinho!
A outra: choca.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Cinco

Cheguei na surdina, com cheiro de talco de barbeiro no cabelo novo, naquela mancha azul levinha onde antes tinha um bigode, fechei a porta sem a chave pra fazer menos barulho, o portão já tava trancado. Coloquei o buquê, nunca soube como se escreve essa palavra, aliás, será que é estrangeira? enfim, coloquei o buquê com água numa jarra de suco vazia que tava lavada em cima da pia, comecei a fazer o café da manhã, apesar de já estar para dar meio dia. Podia aqui fazer uma poesia, né? no guardanapo mesmo, mas acho que só faço rima sem querer: é que nem se tropeça, ninguém sabe tropeçar querendo. Ela tava dormindo pesado, roncando de barriga pra cima, sempre foi de levantar tarde em dia de folga, esse emprego fé-la-da-pu! que suga a vida dela, onde já se viu, folgar na terça-feira e trabalhar final de semana? Ela que me ensinou não usar esses palavrões machistas, mas às vezes é difícil, sabe? Preparei o café, fiz um pão com margarina, que é o que tinha, dei uma torrada com a frigideira no fogo, pra ficar fresquinho, nunca sei onde ela guarda a torradeira. Enquanto esquentava, deixei o vestido que comprei pra ela em cima do ventilador, no calor que tava, pisava um pé na sala ela ia ser a primeira coisa pra fazer, ligar, melhor deixar um bilhete, né, eu pensei, e escrevi só "pra você, amor". O meu garranchão era inconfundível. Voltei pra cozinha, não dei duas batucadas na mesa o café cuspiu pra fora, peguei, o pão queimou, mas não muito, dava pra comer, coloquei tudo no prato, digo, a caneca ficou na xícara, e fui levando pro quarto antes que ela acordasse dessa barulheira que eu devia estar fazendo. Tirei o sapato, sapato não, tênis velho, não usava mais sapato, e fui chegando de meia, café e pão na mão, no silêncio da manhã, dava um poema também disso, silêncio, manhã, mas sempre fui de buzinar, de meia noite, então, de meia eu tava, ela tava pro canto da parede, agora tinha virado de lado, mas roncava do mesmo jeito, nunca vi criatura pra roncar que nem essa, e eu sentei bem leve no espaço da cama que um dia já deitei.

Bonito, cutuquei de leve, e disse, "levanta, amor", e ela meio que ignorou, continuou de lado, eu olhei pro relógio, mas já era mais de 11 e meia, nunca fui de usar relógio de ponteiro, devia ser isso, tava na hora de levantar, que ela gostava de levantar por aí, porque sempre comentou que se dormia pra depois do almoço parecia que tinha perdido o dia todo, então, cutuquei de novo, mais leve ainda agora, só que dessa vez ela se virou já de olho aberto e fez uma cara de susto sem falar nada. Daí eu disse "voltei", e ela, "como você entrou em casa?" e eu "sempre tive uma cópia, lembra? você que me deu!" e ela "nunca te dei cópia de nada, você deve ter pegado escondido, ah, que cheiro é esse?" e eu, "é talco do barbeiro", e ela, "que barbeiro o quê se tu nunca teve barba?" e eu, "fui aparar o cabelo e tirei as penugens aqui da frente, cê sabe que me incomodo", e ela, "você sabe que tem que tirar com cera, vai ficar marcado, machucado, buço não se tira assim, pensa que é macho pra ficar passando navalha, por isso fica toda marcada, machucada, depois" e eu, "desculpa, mas olha só o que eu trouxe", e ela "ah, tu fez café, obrigada" e depois de seis segundos, quando já tinha começado a comer, "o pão tá meio queimado demais, né" e eu, "sim, desculpa, mas o café tá direitinho, não deixei ferver dessa vez" e ela, "também, na cafeteira italiana, é muito mais fácil acertar, onde tu achou um barbeiro pra lhe aparar o buço?" e eu, "ah, o Denilson, daqui da rua mesmo, já é conhecido, a gente faz piada até", e ela, "que bom que você passou, sonhei com você esses dias, não hoje, mas dia desses", e eu, "sonhou o quê?" e ela, "sonhei que eu casava com você e com Venâncio, ninguém me enchia o saco e a gente morava junto numa casa ali na Boulevard. Tenho saudade de morar em Vila Isabel". 

Tentei ficar quieta um pouco, enquanto ela mastigava, mas acabei soltando aquela frase que eu sempre acabo dizendo quando vejo ela: "ainda tá saindo com esse cara? Você não aprende?" e ela, "o meu problema é meu, né? Por isso se chama assim, 'meu', e você, eu podia te processar por invasão de domicílio..." e eu, "mas não vai" e ela, "talvez eu vá, Venâncio começou a fazer direito, sabia? ah, vamos mudar de assunto, ele tá um saco esses dias, querendo controlar minha vida", e eu, "que que ele te fez?", e ela, "fazer fez nada, aquele se pisa em pata de cachorro pede desculpa chorando pro bicho, mas tem aquelas coisas dele, filho único, mimadinho, me enche o cu do saco se eu não atendo o telefone, se não quero passar todo dia de folga com ele, essas coisas de homem machistazinho de bosta", e eu, cortando ela, "você devia largar esse viado, eu que te amo, poxa", e ela, "mas ele não é sempre assim, só quando tá estressado com as coisas lá do pai dele, todo metido a empresário, perturba o garoto, enfim, se ele fosse babaca mesmo eu já tinha cortado logo, né? No mais, mesmo sonhando com essas coisas, eu não quero casar", e eu, cortando ela novamente, "e comigo, você casa?" e ela, "nem com ele, muito menos com você! Zeus que me livre! Você tentava me controlar o triplo do que ele tenta! Ele mal ou bem aceita o meu jeito, é até engraçado, ele sofre, mas aceita, daqui a pouco ele desiste, claro, como você desistiu", e eu, cortando pela terceira vez, "você que terminou!" e ela, "terminei porque você desistiu de ser razoável, me controlando, me vigiando, perguntando com quem eu tava, me esperando na porta da faculdade com flores na mão, sim, é bonitinho, uma, duas, agora, dezessete vezes no mesmo mês, não dá, né, Nádia? Você nem ganhava bem pra isso tudo, e eu nunca pedi, sem contar da vez, que você lembra bem, você queria descer a mão na cara da Virgínia", e eu, "mas ela ficava dando mole pra você na minha frente, me provocando!" e ela, "sim, eu admito, ela era chata, pior que a gente nunca nem se pegou, mas daí pra você partir pra cima da moça, eu ter que te segurar no meio do bar, que vergonha, sabe? Já tava bêbada. Lembra que você tentou me dar um tapa, não lembra? Não pegou, muito mal tirou um fio de ar do meu nariz, mas tentou. Enfim, já tivemos essa conversa antes e você lembra. Você sabe. Obrigada pelo café."

Me virei pra tentar roubar um beijo mas ela me deu só um selinho e abraçou minha cabeça com as duas mãos. Odeio quando ela fazia isso depois de me pagar um esporro ou me negar um beijo sério. Roçou o nariz no meu e largou. Já enquanto eu ajeitava a bandeja virou pro lado, voltando a dormir quase instantaneamente. Levei as coisas pra cozinha, lavei a louça que sujei, lembrei que tinha esquecido o buquê de flores bem ali, e já ia levar pro quarto quando, mesmo da portinha, percebi que ela já havia começado a roncar de novo. Deixei a jarra perto do vestido, na cômoda da sala, tentei achar meus sapatos, cadê meus sapatos? "Eu não vim de sapato." Costume, acontece. O tênis tava na beira da cama, calcei ali mesmo, de pé, deixei pra amarrar o cadarço na rua, me recompus, dei mais duas olhadas nela e fui me saindo assim. Foi a última vez que vi a cara dela, pelo menos até hoje. O que me alivia é que, pelo que ouço, ela nunca casou com aquele cara lá, esse noivou com alguma menina crente, acho que é de pentecostal, enfim, galera é fofoqueira. Evitei procurar saber mais dela. Ah, antes de sair, abri a janela pro Sol entrar, refrescar aquele abafamento. Aliás, minto, a última vez que vi a cara dela foi quando ela me segurou a cabeça com as mãos. O momento final mesmo, derradeiro, se escreve assim? derradeiro, que vi algum pedacinho dela, foi de costas, virada pra parede. Dramático, né? Mas hoje eu tô melhor. A gente se conforma. Amar é que nem tropeçar, ninguém cai, se estabaca no chão, querendo. Minha mãe que dizia isso. Aliás, "derradeiro" me lembra "saideira": 'bora pedir mais uma?

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Quatro

Dentre seus dentes de leite havia uma rachadura, dentre a rachadura havia luz, dentro da luz havia alguém se ofuscando, dentro do ofuscar haviam ciscos e vistas que ardiam, dentro da lágrima e ardência havia vermelho fosco, dentro do vermelho havia sangue não coagulado, dentro do sangue havia alguém parecido comigo, estabanado, rindo alto do que não devia; dentro desse desespero havia um peito tossindo forte, perto a respiração fazia um terremoto, perto do chão havia alguém que, de perfil, parecia contigo, perto estávamos ambos reclamando do frio, perto estávamos longe de casa, perto estava um pedaço de Giz no lugar da voz, perto eu te gozava devagar como limonada no Verão e bastante gelo, como abraço por trás no Inverno, como o gosto bom que dá no canto da boca depois de beijar muito alguém de quem se quer;

(respira.)

perto e de dentro do buraco que o céu deixou quando saiu para atender o portão pra você nasceu um estranho, com olhos divergentes dos meus ou dos seus, dentro do estranho eu estava perto, perto de mim estava dentro, e um tempo, dentro e tempo estava perto e ambos; esqueci o que ia dizer e passou você como um grito vindo do portão de casa me chamando para brincar de correr, correndo perto estávamos dentro mas o estranho se tornou um abraço, o abraço se tornou silêncio, de quieto passei a fazer barulho por nada, por nada passei a ser violentamente feliz, ferindo matou o tempo e a cicatriz se fechou com o dedo dentro: perto eu seria o primeiro; primeiro, sequer te fiz visita; estranho, nem lembro quem mais dentro; dodecafônico, afta, mordi a garganta errada; afiada, no meio de alguém, a chuva. O buraco que o céu deixou quando saiu pra te procurar ficou longe e vazio: dentro dele um avião de propaganda voa com uma faixa repleta de pedidos de desculpas. 

Das Fábulas Rasas: Um

O despertador tocou na hora certa, Roberto levantou da cama antes de abrir os olhos. Não calçou os chinelos porque não os encontrou. Escovou os dentes só com água e escova porque acabara a pasta. O Sol de 10 de janeiro já estava impiedoso às 8 da manhã e mesmo debaixo da água do chuveiro começava a sentir o princípio de abafamento. Acabou o shampoo. Saiu, secou-se, passou na cozinha, pegou o resto de café velho da garrafa térmica. Aqueceu durante 20 segundos no micro-ondas da década de 80 que herdou dos pais. Procurou qualquer roupa pra se dirigir ao seu emprego de atendente das Lojas Hering, que conseguira na época do Natal como temporário mas que ainda mantinha. Tanto por acomodação quanto por necessidade. O colega com quem divide apartamento não dormira em casa esta noite. Quase vestido, ligou a televisão para acompanhar alguma notícia sobre o trânsito. Não que dirigisse ou tivesse carro, mas a fim de se preparar psicologicamente para as próximas horas, que passaria em pé no transporte coletivo. A TV emitia chiados, com interferência que não via desde os tempos de UHF (inclusive, por um instante, quase se pegou tentando ajeitar uma antena que não existia). Estranhou a situação mas se jogou à sorte. 

No corredor, chamou o elevador, que emitia um ruído alguns andares acima, sem se locomover. Desceu de escadas. Na portaria, o porteiro também estava ausente. Imaginou que estava desfrutando de uma nova ressaca fora de época, não seria a primeira vez, ou se tratava-se apenas de um caso de toalete. Se dirigiu para debaixo do painel deste, onde se encontrava o interruptor que acionava a tranca do portão do prédio. No ponto de ônibus esperou cerca de 20 minutos. Até concluir que este não passaria. Assim como não passava nenhum outro tipo de veículo, particular ou coletivo, por aquela rua. Com mais calma e atenção às suas adjacências, também concluiu que não havia passado nenhum transeunte durante este período. Um cachorro se aproximou, cheirou seu tênis manchado de alguma noitada da Lapa. Um gato o ignorava no muro mais próximo, enquanto mirava uma revoada de pombos. Mas não haviam pessoas. Morava em uma rua de passagem entre dois movimentados bairros da cidade. Tentou se lembrar se por acaso era Domingo, mas se recordou que ontem fora dia de pagamento, este que caiu em sua conta em uma terça-feira, quando calculou a demora de três dias, 6 horas, 40 minutos e 17 segundos para poder se embriagar novamente. Não havia erro, era quarta, meio da semana. Começou a descer a rua. Uma, duas, três quadras depois, o cenário se mantinha constante. Ruas vazias, silêncio a não ser pelos animais e o vento batendo nas poucas folhas das poucas árvores ainda cultivadas ali. O celular que esqueceu dentro de sua calça estava sem cobertura de sua operadora. A bateria estava carregada.

Retornou ao seu prédio, começou a interfonar para os apartamentos, ninguém o atendia. Pouco depois de entrar em casa e verificar se o gás estava fechado, a luz acabou. Angustiado, na beira da janela, não teve certeza se começou a chorar ou era apenas o suor pelo ventilador desligado. Olhou para o térreo, morava no décimo primeiro andar. Concluiu o óbvio: a humanidade inteira o deixara para trás. Logo estudou a possibilidade de cometer suicídio. Imaginou seu corpo caindo no meio do estacionamento. Relembrou no assalto que sofrera na semana passada, em alguma ex-namorada que decepcionou. Pensou no quanto odiava sorvete de chocolate. Via, enquanto isso, o pedaço de céu azul que lhe permitia sua janela, rodeada de edifícios comerciais e quartos ocupados, todos silenciosos. Até que um arrepio lhe cortou a espinha. Começou a respirar mais forte. As mãos tremeram, suadas, embora o suor talvez se devesse à falta de exercícios físicos alinhada ao conjunto de escadas que teve que subir. Rangeu os dentes, mordeu a língua, embora isso talvez se devesse ao siso que lhe deixara a boca torta e que ainda não removera por seu medo de dentistas. Mas, ainda assim, um sorriso começou a esboçar no rosto. Gargalhou e gritou uma interjeição que nem lembrava mais saber. Encheu-se de uma esperança e fulgor que não sentia desde que o Flamengo ganhara o Tricampeonato estadual sobre o Vasco, em 2001. Por quê? Roberto se lembrou que seu nome acabara de sair do Serasa (vide tal instituição não mais existir). Resolveu mudar os planos para o seu dia: caminhar até a praia. Torceu encontrar uma cerveja no meio do caminho.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Dois

Cheguei em casa hoje, nossa, absurdo, tinha que ver como tava a sala, tava cheia de sangue, espalhado, sim, espalhado pelo carpete novo, que ódio. Meu gato tava bebendo de uma das poças, daí eu peguei ele pelo pescoço, prendi no quarto pra que parasse de se sujar naquilo. Ficou lá dentro, reclamando, ele, todo branco, tava todo avermelhado, parecia uma oferenda pra Exu. Peguei balde, peguei pano, peguei rodo, nossa, e tava um fedor, sabe? Sabe aquele fedor de merda que você sente na rua? Então, isso com cheiro de sangue de porco, sei lá, tinha uma, um pouco de intestino, grosso ou delgado, nunca soube a diferença, fui juntando no balde, nojo, nojo, azar, vou ter que trocar metade do carpete, e quem vai pagar por isso? Eu? Não devia ter colocado essa joça, só me deu prejuízo. Fui limpando, abri as janelas pra passar o cheiro, percebi o último vestígio de corpo, uns dentes, 2 ou 3, uma marca de mordida, forte, no alumínio, raspei o resto lá pra baixo e só então pude ir tomar meu banho. Preciso de uma diarista nova.

E, você não imagina, sentei no quarto, banho tomado, cama arrumada, me viro pra tirar chinelo e encontro em cima da cabeceira uma penca de formiga! A essa altura, imagina minha cara de cansaço, cheia de olheira, boca rachada, essa febre que não tava passando por nada, ainda ter que limpar. Eu queria é dormir, esquecer a encheção de saco no escritório, o outro esporro que tomei do filho da puta do meu chefe, enfia os contracheques extraviados no rabo! E eu sei lá onde foi parar, pergunta pros correios, ora! Quer o relatório até o final da semana? Quer o meu cu também não, cheirosinho, apertadinho? Sabe como ele é. Também do raio da mãe da Catrina que morreu e ela fica me enchendo o saco falando, cara, ela morreu já faz 1 mês! Supera, sabe? Ou vai pagar um analista, porra. Qualquer dia desse corto a língua dela fora, aí vai poder reclamar. Recebo salário de fome pra isso não. A Sabrina, essa só fica com fone de ouvido e quem atura sou eu. Sabrina é outra, vaca, me devendo 50 reais desde mês passado, foda-se se você tá no Serasa, o problema não é meu. Vai dar pr'aquele teu ex-namorado que te endividou, vai? Vai querer mesmo pagar viagenzinha pra Buenos Aires, pra Calcutá, caralha a quatro. Aproveita e fica. Mas não me tira mais dinheiro. Daqui a pouco deve se endividar de novo e vir me pedir, sei lá, no próximo aborto que fizer, tem cara de que já fez uma renca. Mas, olha só que cagada, a penca de formiga tava é rodeando um biscoito goiabinha que eu tinha esquecido ali em cima. Sei lá quando eu comprei, nunca mais passei no mercado, vivo de disk-pizza, cê sabe, sei que peguei, comi, ainda tinha mais de metade do pacote, comi em, sei lá, menos de 1 minuto, virei pro lado e dormi.

Acordei, era três da tarde, porra, pai, você sabe que eu chego no escritório as nove, por que não me levantou? Me chamou? Me chamou porra nenhuma, como eu não ouvi? O caralho que eu voltei pro lado e voltei a dormir, o caralho. Que que isso debaixo da cama? Nada? Cadê? Cadê a mãe, ô, mãe, já fez café? Porra, não fez café ainda? Eu acordo 6 horas atrasado pra chegar no trabalho e meu café ainda não tá pronto? E o almoço? O almoço tem que estar, que quem tem pra comer? Arroz? Feijão? Ovo? É isso o almoço? Vocês só podem estar de palhaçada com minha cara, só podem estar querendo me foder. Eu vou é dormir. Acordei, era três e dez da tarde, porra, cadê vocês, como me deixaram dormir até agora? Meu chefe ligou? Alguém me ligou? Carol me ligou? E o Vítor? Quem tocou a campainha, me chamaram pra correr na rua? Ninguém? Como eu odeio esse tapete, abre essa merda de janela, cadê o café, a cama que range, essa parede, eu odeio essas imagens de santo, esse chão, de madeira, de cupim, essa poeira, esse cheiro de cocô de bebê que não se pode esquecer de juntar um dia e já espalha pela casa. Odeio essa casa, que esquenta à sauna o verão inteiro e no inverno passo frio. Hoje fez 50 graus e minha vontade é de destruir essa casa na base do soco ou só na cabeçada, até meu corpo trincar, sangrar, rachar, cair pedaço, desmoronar com isso aqui. Acordei três e vinte de alguma coisa, mas o relógio é de ponteiro, tarde ou noite? Pai, mãe, que que tem pra janta? Devem ter saído.

Acordei e meu gato tava limpo já. Bem que dizem que é o bicho mais higiênico que existe. Levantei pra mijar, olhei o telefone, nenhuma ligação. Carol não ligou de novo. Eu quero meter, cacete! Bati uma punheta lembrando dela de quatro de camisola e voltei a dormir. Carol, essa vaca. Se um dia a gente voltar, quebro dessa vez as duas pernas dela, pra ela não chegar longe nessa vida, pra não passar nem da porta do quarto. Pra aprender que não pode viver sem mim. Não me retorna, não responde mensagem. Ligo pra casa, só secretária. Esses dias passei na casa dela, diz o porteiro que se mudou, mas não acredito não, deve ter dado um troco pra ele mentir. Eu juro que se pego ela falando de novo com aquele Valdir, nossa, até o nome é escroto. Eu juro. Próximo quinto dia útil: partiu VM? Já são 2 meses sem dar umazinha, ficando puto, sabe? Eu sei, é foda, mas tô duro pra pagar uma puta que preste. E essa anta humana ainda me some. Depois diz que me ama, depois diz que me quer.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Um

1: ─ Eu me choquei. Zona de conforto, sabe? Então, não. 

2: ─ Eu me choquei feito dedo na tomada, melhor, feito chave de fenda dentro da torradeira ligada e os pés descalços, no chão, e os pés molhados, isso, molhados de banho. Se bem que isso é pior do que pelo o que passei, porque, quem faz isso, morre. Próximo.

3: ─ Sim, eu me choquei feito um para-raio se choca com o raio da tempestade, se bem que, sim, bem, isso é metafórico demais, e eu me jurei, eu me jurei ter mais pé no chão, embora haja em si um paralelo com o para-raio; opa, acho que eu fiz uma piada. Toma nota. 

4: ─ Quero ouvir, quero ouvir sua voz de novo pra saber que ela existe ainda, mas isso não me impede de querer calá-la dos meus pensamentos, dos meus passos vagos, dos meus calos nos dedos de te aprender a escrever uma carta com a mão esquerda. Quanta palhaçada, sim, chega, me diga, quando, quando eu caí nesta de calar sei lá o que no calor do que há de dentro da cabeça e quando? Que perna manca me fará ter passo torto o quê? Chega de cerveja por hoje. Mas, sim, quando chegam as quartas-feiras, quando chega aquele tédio depois do serviço, quando ligo a Netflix e desligo pra fazer um chá, camomila, porque, você lembra, chá preto me tira o sono. Tudo isso, sim, pra passar 2 horas antes de dormir na frente do computador, quando me pego ouvindo alguma coisa da Mercedes Sosa; sim, eu admito, sinto falta de ouvir novamente a sua voz, fanha, nasal, não da Mercedes, a sua; mas essa falta que me faz só de ouvir pra me lembrar, só pra me lembrar, verdadeiramente, porque ela me irritava tanto.

5: ─ Botei um ovo, quebrei uns outros.

6: ─ Sim, é óbvio me apaixonar por você. Por seu nariz pontiagudo. Pelos olhos verdes, não-óbvios, pelo sorriso dos dentes tortos que causam assovios involuntários de vez em quando, pela pele com manchas de Sol, pela vontade própria, pela rebeldia que seu cabelo tem, por sua voz meio rouca, pelo sotaque meio carioca, meio mineiro, pelo seu jeito irritante e adorável de sempre ter assunto, de falar com mesmo despojo sobre os índices de inflação da América Latina durante a década de 90 e sobre o quanto seus gatos insistem em mijar fora da caixa de areia. Ridiculamente óbvio enlouquecer por você me mordendo os dedos do pé. Menos óbvio seria ser especialista na obra de Gustav Mahler, Glenn Branca, Sérgio Sampaio, colunista da Pitchfork e de outras coisas que se precisa consultar uma enciclopédia pra entender o assunto. Mas estou óbvio e mais para final de novela das oito, pelo visto.

7: ─ Cada vez que lhe escrevo uma carta de amor, e eu só me tomo essa liberdade de fazer isso dentro da minha cabeça, eu me repito "chegando em casa passarei a limpo, à mão!"; bem, cada vez que isso acontece, não acontece, porque sempre tenho as ideias mais brilhantes, espontâneas, enfim, sempre que a inspiração vem eu estou no chuveiro, ou atravessando a Avenida Presidente Vargas, ou correndo da polícia, no meio de uma pista de dança qualquer, com álcool demais na cabeça para conseguir anotar ou lembrar depois. Por isso nunca lhe escrevi uma carta de amor; por isso o que houve de mais de romântico que lhe dediquei em palavras foi aquele bilhete na geladeira pedindo para você comprar açúcar mascavo, e bem que isso poderia ter se tornado uma poesia, se eu tivesse o talento, mas, veja bem, a palavra "mascavo" não se usa todo dia, e os "beijos", com um coração mal desenhado ao final do bilhete, foi fofo, vai? Ah, essa é na minha humilde opinião.

8: ─ Esse já é o terceiro furo na orelha que faço. Cada vez que você foi embora eu fiz um furo novo no corpo. Nessa moela aqui do nariz, no bico dos mamilos, fiz, devem ser uns 7 ao todo. Iria fazer tatuagens, mas prefiro furos. Pelo simbolismo. E porque depois de um tempo sem ser remexidos, se fecham.

9: ─ Tem tanta coisa pra comer na geladeira que eu tive que fazer um cardápio. Alerta de metáfora:

10: ─ Acontece que a idade me pegou. Já estão chegando os 30, metade dos meus amigos estão bem sucedidos. Sem famílias formadas, a maioria, certo. Muitos planejam ter filhos por volta dos 50, 60 anos, quando terão tempo e dinheiro para se dedicar à prole. Mestrados, doutorados, carreiras brilhantes. Na verdade a maioria deve estar se sentindo tão velha e atrasada como eu, mas prefiro pensar que eu que tô ficando para trás, de fato. Assim eu me desespero, não durmo, ou melhor, vou dormir às 4 da manhã em plena terça feira, tendo que chegar no escritório às 8, e lá vai reunião. Assim, depois da ansiedade, me solto e extravaso com mais prazer nas gafieiras da vida, nas poucas que sobraram nesta cidade: duas. Assim eu me engasgo e morro no sono. Assim fico filosofando, dramaticamente, tudo isso, veja bem, tudo isso porque esqueci de comprar pó de café, e o boteco da esquina tava com a máquina de quebrada, e agora tenho que aturar esse metrô lotado, em pé, morrendo de sono. Deixa que depois da sobremesa e da happy-hour o otimismo volta um pouquinho. 

11: ─ Por que que gatos insistem em assistir a gente fazer as nossas necessidades no banheiro?

12: ─ Você sempre pode voltar a pé pra casa. Não é uma metáfora.

13: ─ Tatuei semana passada a frase "sei que nada será como antes: amanhã" nas costas. Sacou? É porque amanhã a tatuagem ainda vai estar nas minhas costas. Você riu? Evitei gaivotas de adorno. 

sábado, 4 de janeiro de 2014

Repente Natal

Um dia depois de me rachar
perdido, c'um calo n'umbigo,
fui pro canto mais sozinho,
que me indicou o cupido,

dois dia antes, eu digo,
te trepei,
tu me trepou,
se embaralhamo, e
quebramo uns ovo
risco ferrado, mais
duas vez depois:
te quis de novo.

Dois mês depois de te perder:
me engravidei você,
me perdi as parede,
me renasci um par de gêmeo.
Parto normal,
um pra te esperar o verde,
outro pra avançar sinal.