O despertador tocou na hora certa, Roberto levantou da cama antes de abrir os olhos. Não calçou os chinelos porque não os encontrou. Escovou os dentes só com água e escova porque acabara a pasta. O Sol de 10 de janeiro já estava impiedoso às 8 da manhã e mesmo debaixo da água do chuveiro começava a sentir o princípio de abafamento. Acabou o shampoo. Saiu, secou-se, passou na cozinha, pegou o resto de café velho da garrafa térmica. Aqueceu durante 20 segundos no micro-ondas da década de 80 que herdou dos pais. Procurou qualquer roupa pra se dirigir ao seu emprego de atendente das Lojas Hering, que conseguira na época do Natal como temporário mas que ainda mantinha. Tanto por acomodação quanto por necessidade. O colega com quem divide apartamento não dormira em casa esta noite. Quase vestido, ligou a televisão para acompanhar alguma notícia sobre o trânsito. Não que dirigisse ou tivesse carro, mas a fim de se preparar psicologicamente para as próximas horas, que passaria em pé no transporte coletivo. A TV emitia chiados, com interferência que não via desde os tempos de UHF (inclusive, por um instante, quase se pegou tentando ajeitar uma antena que não existia). Estranhou a situação mas se jogou à sorte.
No corredor, chamou o elevador, que emitia um ruído alguns andares acima, sem se locomover. Desceu de escadas. Na portaria, o porteiro também estava ausente. Imaginou que estava desfrutando de uma nova ressaca fora de época, não seria a primeira vez, ou se tratava-se apenas de um caso de toalete. Se dirigiu para debaixo do painel deste, onde se encontrava o interruptor que acionava a tranca do portão do prédio. No ponto de ônibus esperou cerca de 20 minutos. Até concluir que este não passaria. Assim como não passava nenhum outro tipo de veículo, particular ou coletivo, por aquela rua. Com mais calma e atenção às suas adjacências, também concluiu que não havia passado nenhum transeunte durante este período. Um cachorro se aproximou, cheirou seu tênis manchado de alguma noitada da Lapa. Um gato o ignorava no muro mais próximo, enquanto mirava uma revoada de pombos. Mas não haviam pessoas. Morava em uma rua de passagem entre dois movimentados bairros da cidade. Tentou se lembrar se por acaso era Domingo, mas se recordou que ontem fora dia de pagamento, este que caiu em sua conta em uma terça-feira, quando calculou a demora de três dias, 6 horas, 40 minutos e 17 segundos para poder se embriagar novamente. Não havia erro, era quarta, meio da semana. Começou a descer a rua. Uma, duas, três quadras depois, o cenário se mantinha constante. Ruas vazias, silêncio a não ser pelos animais e o vento batendo nas poucas folhas das poucas árvores ainda cultivadas ali. O celular que esqueceu dentro de sua calça estava sem cobertura de sua operadora. A bateria estava carregada.
Retornou ao seu prédio, começou a interfonar para os apartamentos, ninguém o atendia. Pouco depois de entrar em casa e verificar se o gás estava fechado, a luz acabou. Angustiado, na beira da janela, não teve certeza se começou a chorar ou era apenas o suor pelo ventilador desligado. Olhou para o térreo, morava no décimo primeiro andar. Concluiu o óbvio: a humanidade inteira o deixara para trás. Logo estudou a possibilidade de cometer suicídio. Imaginou seu corpo caindo no meio do estacionamento. Relembrou no assalto que sofrera na semana passada, em alguma ex-namorada que decepcionou. Pensou no quanto odiava sorvete de chocolate. Via, enquanto isso, o pedaço de céu azul que lhe permitia sua janela, rodeada de edifícios comerciais e quartos ocupados, todos silenciosos. Até que um arrepio lhe cortou a espinha. Começou a respirar mais forte. As mãos tremeram, suadas, embora o suor talvez se devesse à falta de exercícios físicos alinhada ao conjunto de escadas que teve que subir. Rangeu os dentes, mordeu a língua, embora isso talvez se devesse ao siso que lhe deixara a boca torta e que ainda não removera por seu medo de dentistas. Mas, ainda assim, um sorriso começou a esboçar no rosto. Gargalhou e gritou uma interjeição que nem lembrava mais saber. Encheu-se de uma esperança e fulgor que não sentia desde que o Flamengo ganhara o Tricampeonato estadual sobre o Vasco, em 2001. Por quê? Roberto se lembrou que seu nome acabara de sair do Serasa (vide tal instituição não mais existir). Resolveu mudar os planos para o seu dia: caminhar até a praia. Torceu encontrar uma cerveja no meio do caminho.

Nenhum comentário:
Postar um comentário