sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Quatro

Dentre seus dentes de leite havia uma rachadura, dentre a rachadura havia luz, dentro da luz havia alguém se ofuscando, dentro do ofuscar haviam ciscos e vistas que ardiam, dentro da lágrima e ardência havia vermelho fosco, dentro do vermelho havia sangue não coagulado, dentro do sangue havia alguém parecido comigo, estabanado, rindo alto do que não devia; dentro desse desespero havia um peito tossindo forte, perto a respiração fazia um terremoto, perto do chão havia alguém que, de perfil, parecia contigo, perto estávamos ambos reclamando do frio, perto estávamos longe de casa, perto estava um pedaço de Giz no lugar da voz, perto eu te gozava devagar como limonada no Verão e bastante gelo, como abraço por trás no Inverno, como o gosto bom que dá no canto da boca depois de beijar muito alguém de quem se quer;

(respira.)

perto e de dentro do buraco que o céu deixou quando saiu para atender o portão pra você nasceu um estranho, com olhos divergentes dos meus ou dos seus, dentro do estranho eu estava perto, perto de mim estava dentro, e um tempo, dentro e tempo estava perto e ambos; esqueci o que ia dizer e passou você como um grito vindo do portão de casa me chamando para brincar de correr, correndo perto estávamos dentro mas o estranho se tornou um abraço, o abraço se tornou silêncio, de quieto passei a fazer barulho por nada, por nada passei a ser violentamente feliz, ferindo matou o tempo e a cicatriz se fechou com o dedo dentro: perto eu seria o primeiro; primeiro, sequer te fiz visita; estranho, nem lembro quem mais dentro; dodecafônico, afta, mordi a garganta errada; afiada, no meio de alguém, a chuva. O buraco que o céu deixou quando saiu pra te procurar ficou longe e vazio: dentro dele um avião de propaganda voa com uma faixa repleta de pedidos de desculpas. 

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