Cheguei na surdina, com cheiro de talco de barbeiro no cabelo novo, naquela mancha azul levinha onde antes tinha um bigode, fechei a porta sem a chave pra fazer menos barulho, o portão já tava trancado. Coloquei o buquê, nunca soube como se escreve essa palavra, aliás, será que é estrangeira? enfim, coloquei o buquê com água numa jarra de suco vazia que tava lavada em cima da pia, comecei a fazer o café da manhã, apesar de já estar para dar meio dia. Podia aqui fazer uma poesia, né? no guardanapo mesmo, mas acho que só faço rima sem querer: é que nem se tropeça, ninguém sabe tropeçar querendo. Ela tava dormindo pesado, roncando de barriga pra cima, sempre foi de levantar tarde em dia de folga, esse emprego fé-la-da-pu! que suga a vida dela, onde já se viu, folgar na terça-feira e trabalhar final de semana? Ela que me ensinou não usar esses palavrões machistas, mas às vezes é difícil, sabe? Preparei o café, fiz um pão com margarina, que é o que tinha, dei uma torrada com a frigideira no fogo, pra ficar fresquinho, nunca sei onde ela guarda a torradeira. Enquanto esquentava, deixei o vestido que comprei pra ela em cima do ventilador, no calor que tava, pisava um pé na sala ela ia ser a primeira coisa pra fazer, ligar, melhor deixar um bilhete, né, eu pensei, e escrevi só "pra você, amor". O meu garranchão era inconfundível. Voltei pra cozinha, não dei duas batucadas na mesa o café cuspiu pra fora, peguei, o pão queimou, mas não muito, dava pra comer, coloquei tudo no prato, digo, a caneca ficou na xícara, e fui levando pro quarto antes que ela acordasse dessa barulheira que eu devia estar fazendo. Tirei o sapato, sapato não, tênis velho, não usava mais sapato, e fui chegando de meia, café e pão na mão, no silêncio da manhã, dava um poema também disso, silêncio, manhã, mas sempre fui de buzinar, de meia noite, então, de meia eu tava, ela tava pro canto da parede, agora tinha virado de lado, mas roncava do mesmo jeito, nunca vi criatura pra roncar que nem essa, e eu sentei bem leve no espaço da cama que um dia já deitei.
Bonito, cutuquei de leve, e disse, "levanta, amor", e ela meio que ignorou, continuou de lado, eu olhei pro relógio, mas já era mais de 11 e meia, nunca fui de usar relógio de ponteiro, devia ser isso, tava na hora de levantar, que ela gostava de levantar por aí, porque sempre comentou que se dormia pra depois do almoço parecia que tinha perdido o dia todo, então, cutuquei de novo, mais leve ainda agora, só que dessa vez ela se virou já de olho aberto e fez uma cara de susto sem falar nada. Daí eu disse "voltei", e ela, "como você entrou em casa?" e eu "sempre tive uma cópia, lembra? você que me deu!" e ela "nunca te dei cópia de nada, você deve ter pegado escondido, ah, que cheiro é esse?" e eu, "é talco do barbeiro", e ela, "que barbeiro o quê se tu nunca teve barba?" e eu, "fui aparar o cabelo e tirei as penugens aqui da frente, cê sabe que me incomodo", e ela, "você sabe que tem que tirar com cera, vai ficar marcado, machucado, buço não se tira assim, pensa que é macho pra ficar passando navalha, por isso fica toda marcada, machucada, depois" e eu, "desculpa, mas olha só o que eu trouxe", e ela "ah, tu fez café, obrigada" e depois de seis segundos, quando já tinha começado a comer, "o pão tá meio queimado demais, né" e eu, "sim, desculpa, mas o café tá direitinho, não deixei ferver dessa vez" e ela, "também, na cafeteira italiana, é muito mais fácil acertar, onde tu achou um barbeiro pra lhe aparar o buço?" e eu, "ah, o Denilson, daqui da rua mesmo, já é conhecido, a gente faz piada até", e ela, "que bom que você passou, sonhei com você esses dias, não hoje, mas dia desses", e eu, "sonhou o quê?" e ela, "sonhei que eu casava com você e com Venâncio, ninguém me enchia o saco e a gente morava junto numa casa ali na Boulevard. Tenho saudade de morar em Vila Isabel".
Tentei ficar quieta um pouco, enquanto ela mastigava, mas acabei soltando aquela frase que eu sempre acabo dizendo quando vejo ela: "ainda tá saindo com esse cara? Você não aprende?" e ela, "o meu problema é meu, né? Por isso se chama assim, 'meu', e você, eu podia te processar por invasão de domicílio..." e eu, "mas não vai" e ela, "talvez eu vá, Venâncio começou a fazer direito, sabia? ah, vamos mudar de assunto, ele tá um saco esses dias, querendo controlar minha vida", e eu, "que que ele te fez?", e ela, "fazer fez nada, aquele se pisa em pata de cachorro pede desculpa chorando pro bicho, mas tem aquelas coisas dele, filho único, mimadinho, me enche o cu do saco se eu não atendo o telefone, se não quero passar todo dia de folga com ele, essas coisas de homem machistazinho de bosta", e eu, cortando ela, "você devia largar esse viado, eu que te amo, poxa", e ela, "mas ele não é sempre assim, só quando tá estressado com as coisas lá do pai dele, todo metido a empresário, perturba o garoto, enfim, se ele fosse babaca mesmo eu já tinha cortado logo, né? No mais, mesmo sonhando com essas coisas, eu não quero casar", e eu, cortando ela novamente, "e comigo, você casa?" e ela, "nem com ele, muito menos com você! Zeus que me livre! Você tentava me controlar o triplo do que ele tenta! Ele mal ou bem aceita o meu jeito, é até engraçado, ele sofre, mas aceita, daqui a pouco ele desiste, claro, como você desistiu", e eu, cortando pela terceira vez, "você que terminou!" e ela, "terminei porque você desistiu de ser razoável, me controlando, me vigiando, perguntando com quem eu tava, me esperando na porta da faculdade com flores na mão, sim, é bonitinho, uma, duas, agora, dezessete vezes no mesmo mês, não dá, né, Nádia? Você nem ganhava bem pra isso tudo, e eu nunca pedi, sem contar da vez, que você lembra bem, você queria descer a mão na cara da Virgínia", e eu, "mas ela ficava dando mole pra você na minha frente, me provocando!" e ela, "sim, eu admito, ela era chata, pior que a gente nunca nem se pegou, mas daí pra você partir pra cima da moça, eu ter que te segurar no meio do bar, que vergonha, sabe? Já tava bêbada. Lembra que você tentou me dar um tapa, não lembra? Não pegou, muito mal tirou um fio de ar do meu nariz, mas tentou. Enfim, já tivemos essa conversa antes e você lembra. Você sabe. Obrigada pelo café."
Me virei pra tentar roubar um beijo mas ela me deu só um selinho e abraçou minha cabeça com as duas mãos. Odeio quando ela fazia isso depois de me pagar um esporro ou me negar um beijo sério. Roçou o nariz no meu e largou. Já enquanto eu ajeitava a bandeja virou pro lado, voltando a dormir quase instantaneamente. Levei as coisas pra cozinha, lavei a louça que sujei, lembrei que tinha esquecido o buquê de flores bem ali, e já ia levar pro quarto quando, mesmo da portinha, percebi que ela já havia começado a roncar de novo. Deixei a jarra perto do vestido, na cômoda da sala, tentei achar meus sapatos, cadê meus sapatos? "Eu não vim de sapato." Costume, acontece. O tênis tava na beira da cama, calcei ali mesmo, de pé, deixei pra amarrar o cadarço na rua, me recompus, dei mais duas olhadas nela e fui me saindo assim. Foi a última vez que vi a cara dela, pelo menos até hoje. O que me alivia é que, pelo que ouço, ela nunca casou com aquele cara lá, esse noivou com alguma menina crente, acho que é de pentecostal, enfim, galera é fofoqueira. Evitei procurar saber mais dela. Ah, antes de sair, abri a janela pro Sol entrar, refrescar aquele abafamento. Aliás, minto, a última vez que vi a cara dela foi quando ela me segurou a cabeça com as mãos. O momento final mesmo, derradeiro, se escreve assim? derradeiro, que vi algum pedacinho dela, foi de costas, virada pra parede. Dramático, né? Mas hoje eu tô melhor. A gente se conforma. Amar é que nem tropeçar, ninguém cai, se estabaca no chão, querendo. Minha mãe que dizia isso. Aliás, "derradeiro" me lembra "saideira": 'bora pedir mais uma?

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