sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Rua Sete, Casa Dois

Estava chovendo quando cheguei em casa,
A vanguarda já havia revolucionado, esteticamente,
Todos os cantos e móveis onde eu morava.
Os quartos, sem janelas, davam pra porta da rua,
Seu asfalto cruzava o meio da sala,
No lugar da TV havia um semáforo,
No lugar dos sofás, dois bueiros
(Um para os esgotos humanos, outro para os desumanos),
A cozinha dava para as telhas, e se chovia, teríamos sopa pra janta.

Não importavam mais os toaletes,
Ou as lembranças de infância espalhadas no quintal,
Ou cheiro de sexo pelos corredores,
Ou o resto dos brigadeiros pelas panelas,
Ou as horas perdidas nos cochilos da tarde,
Ou a saliva já seca nas colchas e lençóis,
Ou a sombra das árvores que amputei,
Ou a rede balançando parada, dobrada no armário,
Ou as hortaliças e os trevos, brotando do cimento, nos fundos,
Ou as roupas e os lençóis no varal, endurecidas de Sol e pouco amaciante,
Ou a alergia pela poeira em tufos pelas frestas,
Ou o ventilador quebrado (ar-condicionado nunca pudemos bancar), em pleno Verão,
Não importavam mais as janelas quebradas num cruzamento errado de bola,
Ou o rádio, o pagode alto, incomodando os vizinhos,
Ou o quarto divido pelos três irmãos (dois roncavam),
Ou o amigo que pediu pra levar o namorado pra passar a noite e transar no beliche de cima,
Ou a piscina de plástico com seus primeiros furos remendados com borracha e cola de sapateiro,
Ou os fogos de artifício na madrugada ─ os alertas e festas nas bocas de fumo,
Ou as moedas (era Cruzado Novo) perdidas atrás do botijão de gás,
Ou os brinquedos cantando canções de exílio do telhado,
Ou ter acordado de madrugada sem sono para ouvir sem querer os pais se enroscando,
Ou aquele dia que entrou um rato pela pia,
E que seu irmão do meio lhe gritou pra ajudá-lo e pegar uma vassoura.

No lugar da minha cama (os vanguardistas) deixaram um arbusto para fazermos amor,
No lugar da minha parede, minha irmã mais velha fazendo gargarejo,
No lugar do pote de café, um pote maior,
Onde ficavam os talheres, encontrei um panfleto sobre os benefícios de se comer com as mãos,
Depois de dois dias, a chuva passou e notei uma laranjeira brotando no quarto,
Notei também que deixaram um pouco de tabaco com seda em cima da cômoda,
(Peguei dengue hemorrágica dos mosquitos que entraram por ser impossível evitá-los, mas,)
No lugar do shampoo anti-caspa, um condicionador do Snoopy,
Nas marcas de tiro dos muros, coloriram adereços para o Carnaval
Do lado da viola me encostaram um trompete (com o bilhete: "você deveria aprender Frevo!"),
No lugar do teto (já mencionei?) deixaram umas estrelas,
E um livro de Saramago ficou no lugar da Bíblia.

Se passaram duas semanas até eu notar que morava em um terreno baldio,
E que (mané) vanguarda que nada!
Um aglomerado de galáxias agora era visível no Céu
Porque alguém teve o bom senso de retirá-lo do bolso de trás da calça.
Antes que voltasse a chover
Ou que as autoridades nos removessem para outro canto da cidade,
Decretei feriado prolongado,
Bebi mais café,
E perguntei (como quem não quer nada): "você ainda quer morar comigo?"

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