1: ─ Eu me choquei. Zona de conforto, sabe? Então, não.
2: ─ Eu me choquei feito dedo na tomada, melhor, feito chave de fenda dentro da torradeira ligada e os pés descalços, no chão, e os pés molhados, isso, molhados de banho. Se bem que isso é pior do que pelo o que passei, porque, quem faz isso, morre. Próximo.
3: ─ Sim, eu me choquei feito um para-raio se choca com o raio da tempestade, se bem que, sim, bem, isso é metafórico demais, e eu me jurei, eu me jurei ter mais pé no chão, embora haja em si um paralelo com o para-raio; opa, acho que eu fiz uma piada. Toma nota.
4: ─ Quero ouvir, quero ouvir sua voz de novo pra saber que ela existe ainda, mas isso não me impede de querer calá-la dos meus pensamentos, dos meus passos vagos, dos meus calos nos dedos de te aprender a escrever uma carta com a mão esquerda. Quanta palhaçada, sim, chega, me diga, quando, quando eu caí nesta de calar sei lá o que no calor do que há de dentro da cabeça e quando? Que perna manca me fará ter passo torto o quê? Chega de cerveja por hoje. Mas, sim, quando chegam as quartas-feiras, quando chega aquele tédio depois do serviço, quando ligo a Netflix e desligo pra fazer um chá, camomila, porque, você lembra, chá preto me tira o sono. Tudo isso, sim, pra passar 2 horas antes de dormir na frente do computador, quando me pego ouvindo alguma coisa da Mercedes Sosa; sim, eu admito, sinto falta de ouvir novamente a sua voz, fanha, nasal, não da Mercedes, a sua; mas essa falta que me faz só de ouvir pra me lembrar, só pra me lembrar, verdadeiramente, porque ela me irritava tanto.
5: ─ Botei um ovo, quebrei uns outros.
6: ─ Sim, é óbvio me apaixonar por você. Por seu nariz pontiagudo. Pelos olhos verdes, não-óbvios, pelo sorriso dos dentes tortos que causam assovios involuntários de vez em quando, pela pele com manchas de Sol, pela vontade própria, pela rebeldia que seu cabelo tem, por sua voz meio rouca, pelo sotaque meio carioca, meio mineiro, pelo seu jeito irritante e adorável de sempre ter assunto, de falar com mesmo despojo sobre os índices de inflação da América Latina durante a década de 90 e sobre o quanto seus gatos insistem em mijar fora da caixa de areia. Ridiculamente óbvio enlouquecer por você me mordendo os dedos do pé. Menos óbvio seria ser especialista na obra de Gustav Mahler, Glenn Branca, Sérgio Sampaio, colunista da Pitchfork e de outras coisas que se precisa consultar uma enciclopédia pra entender o assunto. Mas estou óbvio e mais para final de novela das oito, pelo visto.
7: ─ Cada vez que lhe escrevo uma carta de amor, e eu só me tomo essa liberdade de fazer isso dentro da minha cabeça, eu me repito "chegando em casa passarei a limpo, à mão!"; bem, cada vez que isso acontece, não acontece, porque sempre tenho as ideias mais brilhantes, espontâneas, enfim, sempre que a inspiração vem eu estou no chuveiro, ou atravessando a Avenida Presidente Vargas, ou correndo da polícia, no meio de uma pista de dança qualquer, com álcool demais na cabeça para conseguir anotar ou lembrar depois. Por isso nunca lhe escrevi uma carta de amor; por isso o que houve de mais de romântico que lhe dediquei em palavras foi aquele bilhete na geladeira pedindo para você comprar açúcar mascavo, e bem que isso poderia ter se tornado uma poesia, se eu tivesse o talento, mas, veja bem, a palavra "mascavo" não se usa todo dia, e os "beijos", com um coração mal desenhado ao final do bilhete, foi fofo, vai? Ah, essa é na minha humilde opinião.
8: ─ Esse já é o terceiro furo na orelha que faço. Cada vez que você foi embora eu fiz um furo novo no corpo. Nessa moela aqui do nariz, no bico dos mamilos, fiz, devem ser uns 7 ao todo. Iria fazer tatuagens, mas prefiro furos. Pelo simbolismo. E porque depois de um tempo sem ser remexidos, se fecham.
9: ─ Tem tanta coisa pra comer na geladeira que eu tive que fazer um cardápio. Alerta de metáfora:
10: ─ Acontece que a idade me pegou. Já estão chegando os 30, metade dos meus amigos estão bem sucedidos. Sem famílias formadas, a maioria, certo. Muitos planejam ter filhos por volta dos 50, 60 anos, quando terão tempo e dinheiro para se dedicar à prole. Mestrados, doutorados, carreiras brilhantes. Na verdade a maioria deve estar se sentindo tão velha e atrasada como eu, mas prefiro pensar que eu que tô ficando para trás, de fato. Assim eu me desespero, não durmo, ou melhor, vou dormir às 4 da manhã em plena terça feira, tendo que chegar no escritório às 8, e lá vai reunião. Assim, depois da ansiedade, me solto e extravaso com mais prazer nas gafieiras da vida, nas poucas que sobraram nesta cidade: duas. Assim eu me engasgo e morro no sono. Assim fico filosofando, dramaticamente, tudo isso, veja bem, tudo isso porque esqueci de comprar pó de café, e o boteco da esquina tava com a máquina de quebrada, e agora tenho que aturar esse metrô lotado, em pé, morrendo de sono. Deixa que depois da sobremesa e da happy-hour o otimismo volta um pouquinho.
11: ─ Por que que gatos insistem em assistir a gente fazer as nossas necessidades no banheiro?
12: ─ Você sempre pode voltar a pé pra casa. Não é uma metáfora.
13: ─ Tatuei semana passada a frase "sei que nada será como antes: amanhã" nas costas. Sacou? É porque amanhã a tatuagem ainda vai estar nas minhas costas. Você riu? Evitei gaivotas de adorno.

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