sábado, 23 de agosto de 2014

A Metalurgia da Lágrima (ou "Monólogo em Areia e Dedo: Vinte Oito")

Ontem morreu Yolanda. Carrego comigo o que ela levava consigo e cado mais de memória, rascunhos, munido de abraços, de flechas e alvos. Estamos no Hemisfério Sul de chamas e manchas, amarelos são nossos desertos, amarelos são nossos dentes, negra é a cor da minha pele e da esperança, branca é saudade em todos os idiomas possíveis. Meio Sol amarelo para uma estrela inteira. Estamos somos esse espaço de vento e vácuo entre a tradução do que disseram que nos dizem e a palavra que eu improviso para te fazer crer no novo acordo gramatical da língua portuguesa e sua constante teimosia em não banir de vez a existência dos hifens. Somos o glóbulo ocular dilatado no escuro e o hemisfério direito do cérebro que nos orienta politicamente pra esquerda. Somos o mistério dos vultos logo pela manhã e dos amores que cabem no buraco do dente. Esperamos anoitecer para chegar na Urca e arriscar a Lua. Queria este tal de amor bandido porque deve ser o único tipo de crime que ainda não cometi. Acabei de criar uma estrela e ela te cabe atrás da orelha. Sou o meio termo entre o sim e o não, por isso pairo no ar alguns bons segundos antes de me estabacar no chão. Mantenho suas fotos bem perto de mim que é pra me lembrar que eu preciso do seu céu nublado pra sair assim no Centro da cidade e fazer compras ou simplesmente passar na tabacaria e discutir a metafísica. O que os deuses nos dizem para vestirmos no templo de São Salomão? Pregam a nudez. Se seu coração tá frio basta misturar Feijão porque o Feijão tá quente.

Você que me elogiava o sorriso mas que eu sabia cada seu jeito de pedir perdão. A foto mais esquecida que rasurada. Pouco te culpo porque também mantenho portas abertas. Lembro de ti na beira da janela, na beira da minha boca (mas como esse rapaz gosta de falar de boca, eim?). Que me elogiava os dentes, o formato do nariz, minha coleção de calendários passados, mas que eu sei que estava apenas me estendendo seu cartão de visitas. Cantávamos: Música pra ser diferente. Música pra roer os dentes. Música pra contar os gametas. Música para explodir o planeta. Música de colorir o horizonte. Música pra minha tempestade adiante. Voltávamos três a quatro vezes às frases desconexas: Gosto de azeitona caindo bem ao paladar é sinal da idade. Rasgada a pele ainda resta o terremoto. Admito aqui e publicamente que sou cego do olho direito. Uma das melhores coisas que o homem pode aprender a fazer na vida é gostar de samba. Batucando nos dentes, mesmo se pés de barro, morro dos prazeres que você me dá. Ninguém faz samba de amor no juramento, só sobre política. Escrevo seu nome no arroz por dois reais ou por qualquer contribuição. A Assimetria do Beijo. Meu anjo, minha anemia congênita é o que há de mais chique em mim. A tentação de queimar todos os aparelhos celulares da cidade em uma só grande chama tóxica. A saudade é cor que dá e passa. Sinto sua falta como se a Rosa de Hiroshima me fosse o despertador pela manhã e hoje fosse segunda feira. Embora sábado.

Escrevo boa parte disso enquanto ando, a esmo, mesmo, resmo, torremos, enquanto ano pela rua, década passada. Se deserta demais quando o verso vem, adentro um café, quero dizer: gostaria de dizer que adentro um café, um pub, uma biblioteca, mas a verdade é que adentro o que tiver para adentrar. Agora, por exemplo: estou em um açougue, muito embora vegetariano seja. Adentro botecos, casas com portões abertos, evito só delegacias. Vou dizer algumas frases só pelo prazer de saber que você nunca ouviu nenhuma delas anteriormente: Joguei um grampeador no sanitário. Outra? Escovar os dentes de cabeça pra baixo. Um elefante atrás da geladeira. Adoro quando percebo que decorei o som dos passos de alguém. Te quero banhada de vinho barato que custe menos de 10 reais porque não acreditamos na indústria do consumo, embora agora Nike e Adidas. Odeio quando me dão bom dia. Sabia que você ia compartilhar da minha velhice. Nem todos os dias se leva na carteira um parabrisas, nem todos os dias se amanhece um parasol, nem todo céu que calha azul é paraíso. Eu era do tipo que chegava mais cedo só pelo prazer de te esperar fumando um cigarro.

Sonhei-me plena Uruguaiana madrugada passada, rindo, falando alto, mastigando Mentos de maçã verde, gravando mensagens de voz e enviando as de texto para meus amigos no celular, era feriado, era madrugada mas a sensação era de final de tarde, clima campestre pleno deserto do centro da cidade, de qualquer forma, veio uma pessoa estranha, branca pálida e vestida de luto, me perguntando: que que você tá fazendo aqui? E eu nesse instante digitava nomes de frutas diversas para o outro com quem conversava por mensagens e me interrompi, pedi que repetisse e repetiu: o que caralhos você tá fazendo aqui? E eu, estou voltando pra casa, desculpa, e ela: vai, vai embora logo que você tá atrasado, atrasado pra cacete, some da minha frente, limpa esse dente, encara essa torpente, foge pela tangente, me esquece que fui gente, me empurra de constante, me esquece elefante, e eu, assustado com a falta de sentido do que ouvia, as rimas, corri, atravessei a Presidente Vargas, nenhum carro vinha, de ambos os lados, atravessei a pista um, a pista dois, correndo, a pista três, e na pista quatro, um ônibus vermelho gigante freia, inclusive os vidros eram vermelhos com pontinhos pretos, parecia uma grande joaninha sob quatro rodas, e eu observo minhas mãos, carregando o celular ainda, que não me foi roubado, mas acontece que ele se trata de um Nokia Mobira Cityman 150, modelo do final da década de 80 que, além de ser maior que um pote de sorvetes, definitivamente não acessa a dispositivos remotos ou tem conexão direta à Internet, e eu encantado com o espanto acordo com a buzina que finalmente é tocada e soa, ou fica aqui apenas minha impressão de ser, como uma explosão de granada direto no peito.

Remarcaram a data do Armagedão final da humanidade. Nem tava com tanta tempestade assim. Segue a doçura em anexo pra cada pedaço que restar de paz aqui. Lembro-me que quando terminei a Baía de Guanabara, restava uma saudade submersa querendo um amor que me matasse a fome e me matasse a dúvida do que comer. Estudos afirmam que a quantidade de pressa na vida de um ser humano é diretamente proporcional a quantidade de desertos se formando nos espaços dos dentes, nas salas de cinemas em dias de estreia e nos armários deslocados dos terrenos baldios. Assim que se explode a usina nuclear na mão, segundos distante de se chocar com a muralha do patriarcado. Que não seja a nossa mão dilacerada embora assim que se morra pela revolução. Como a gota de chuva solitária caindo na lagoa intacta, só se vive ressoando por todas as partes. Agora: imagina às centenas de milhares?

Para todos os efeitos, ninguém chega na hora. Para todos os efeitos, vertigem alguma. Só se morre antes do outro lado do espelho. Para toda metalurgia existe uma lágrima, para cada metáfora, a fusão do metal quente derretendo a pele mole feito a manteiga se derrete na sua virilha. Você não está entendendo nada do que estou dizendo. Eu quero catapora, eu quero abrir uma escola. E quero que você se esqueça, por cinco minutos que seja. Não vamos falar de ratos, de boatos, vamos rimar quando der na telha e se der que dê gostoso, que dê bem dado, por cima, embaixo, de bruços, de lado. Que se é pra cantar é pra cantar na beira do rouco, se é pra respirar que se ofegue como se fosse o fim do mundo. Fenhoso, frivolento, esculpo adjetivos, tempero a paisagem. Me nasço dentes nas palmas da mão e te mordisco o corpo no aperto. Mesmo as paredes dessa casa estão desgastadas do relacionamento entre eu e Frida Kahlo. Tentei te ilustrar uma imagem que te chocasse mais mas mais chocante que o cenário diante de nós agora não há, foca e imagina: a cidade está em chamas sendo invadida por 250 milhões de vespas e a estrela que nos rodeia despedaça pedaços de plasma que caem e cortam nossa atmosfera como lençóis coloridos diversos, parangolés pamplonas sendo jogados de revoadas de aeroplanos e prédios de 90 andares. Presenciando a história por intermédio de suas telas, a multidão atônita registra o momento derradeiro da humanidade em suas câmeras celulares.

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