domingo, 3 de agosto de 2014

A Metalinguística do Silêncio (ou "Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Cinco")

Comece o dia leve, quão leve quanto acreditamos serem leves os pombos. Para fins de coerência mantenha no sangue a adrenalina do primeiro beijo pelo resto dos seus dias. Suíngue bom pra suingar logo cedo esse aí o seu. Rime tatuagem com malandragem, teto e eternidade com (papo) reto e com quantos dentes se faz uma cidade. Samba com bamba, repente com (desejo) latente, bluegrass ou jazz com maionese mineira, "maionézz...". Evite a nostalgia ou economize apenas para casos extremos. E lembre-se: tristeza não rima com cerveja. Mas se for rimar, faça com moderação. Tente fazer a mesma coisa que fazemos todas as noites: conquistar outra constelação. Cola seu rosto juntinho do meu e entorta minha cara pra próxima foto, pro próximo trago. Não deve haver violência maior que a eternidade. Faça um filho meu em mim, só cuidado com meu umbigo. Tente falar "com o umbigo" em voz alta e rapidamente sete vezes seguidas e me ligue cantando se conseguir.

Precisava dizer seu nome, mas eu não vou, e não vou porque não posso, não vou porque isso de ir quando se já 'tá voltando e de se fazer as duas coisas ao mesmo tempo, se você repara bem, é simplesmente não sair do lugar. Não sair do lugar, repito, e respeito quem prefere, mas é preciso esclarecer, e de roupa suja eu já tô lavado, tanto já tô lavado quanto elas já estão no varal e quase secas. A palavra "recreio" desperta diferentes sensações nas pessoas. Pronto, usei essa frase, ganhei a aposta, me deve dois gengibres e um meio maço. Hoje acordei meio retrô, visitei uma amiga, levei uma fita K7 recheada de músicas que eu tive que ouvir até o fim para gravar. Me empurra no balanço, vai. Esquece, eu ainda sei me empurrar sozinho. Você inclina a coluna, assim, espera que eu vou lembrar, isso: você dobra a perna pra trás e inclina a coluna pra frente, e depois inverte: quando for pra trás, as costas, as pernas vão também pra frente. Repita o procedimento até atingir a altura desejada. Da última vez eu tive que parar porque umas nuvens me embaçaram os óculos.

Ainda tô com o gosto da areia na boca. Ainda tô com gosto de noite na boca. Ainda tô com o gosto do teu pescoço na boca. A metáfora e a mercantilização do amor na catraca dos ônibus: Quer troco pra quanto? Tem menor não? Quem é que morre só pra avisar que tava morrendo? Os sistemas de hoje em dia te avisam para tomar cuidado porque você está se agravando enquanto te agravam cada vez mais para te alertar que você não pode se agravar. Isso pouco importa. Só não vá morrer numa noticia de jornal. Nem o contrário. Como é que se vende metalinguística? Me ofereceram ontem na Lapa, mas a gente só ia saber se desse a grana, o pagamento era adiantado. Tem sujeito que banca mas não nasceu pra ser hippie, um ideal tão caricato que já virou, o que se pode dizer, de o palhaço da modernidade nos grandes centros urbanos. Existem tantas pessoas que gostam de mim que eu só posso estar errado ao meu respeito.

O meu amor tem um jeito agridoce que é só seu. Que me batata frita. Me salga a saliva, que me adocica, doce de leite na minha virilha. O meu amor não cabe numa penteadeira, nem numa geladeira, nem lhe atrás da orelha. De todo meu tesão serei atento. Os pareceristas estão chegando. Beba Jeropiga. Ouça Marcus Tardelli. Cultura não é só o que você acha que é bom. Mas não sou eu quem disse isso. Nunca procure os cadáveres dos bichos de luz, pois não encontrará. Desafio alguém aqui achar cada um desses 50 minúsculos corpos inanimados espalhados pelos cômodos. Se conforme com o que acaba. Se confirme com o que nasce. E vice e versa. Poderia viver só com a boca cheia de você. Poderia estar respirando, matando aula, fazendo baldeação pra Rio das Ostras pra economizar quinze reais no feriadão, esfaqueando caixas de Lego pra pegar umas peças, arremessando pacotes de chocolates roubados das Loja Americanas do trigésimo quarto andar de um prédio na Rio Branco. Mas contrario. Ponho um silêncio ali que não é de ninguém, como desses arco íris que nascem de dia nublado.

Hoje morreu mais um dia. Na volta do bar, na beira da avenida. Um cigarro gentil concedido pra travesti que pediu. A cachaça que bateu só agora. A friagem que só se sente em casa. O samba que só sai do corpo se nunca ele entrou. Nasceu outra vez aquela afta. Só hoje já morreu três dias. Como despedir essa cidade? Até onde aprendi: o céu vai bem além do teto. Também. Respire depois de beijar. Insulto não é argumento. Goze antes de dormir. Lugar de felicidade é no boteco ao lado. A metafísica do meteoro, a metalinguagem do silêncio. Já disse. Paixão gratuita de vez em quando faz bem. Se eu te aperto num troço, te esvazio o copo, te puxo o cobertor. Te deixo nostálgica, questiono tua lógica, faz parte do que eu sou. Acendo o escuro, confesso, te espero do avesso destilando cada minha cor. Calculo o cateto, hipotenusa. Soneto, dodecassílabo, já passou.  Plagio o Cazuza, mordo a métrica e a nuca, te mastigo como um alfajor. Te faço uma filha, menstruo um útero, uma ilha, descubro toda sua dor. Neste rap concreto, sobre o terror desconexo, debaixo de seu rosto ator. A noite cai e levanta, minha fome é sua janta, me devore em todo seu calor.

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