Não é porque algo é infinito que vai abarcar toda a realidade. Por exemplo, posso dar infinitos exemplos do porque e o quanto quero que você durma na minha cama hoje, e nem por isso precisarei discutir todo o processo de reprodução de anfíbios, ou começar a recitar cada um dos 718 Pokémons que existem. É, sim, esse é o número. E sim, eu sei, isso nunca vai funcionar. A saudade tem muitas faces. Uma delas é a sua, por aquele cara. A outra era que "Condin" fazia, quando a gente chegava da rua, "Condin", meu cachorro vira-lata falecido. As coisas que eu escolho te omitir te dizem tanto sobre mim, as coisas que eu escondo, de você, pena que não vou dizer. Mas isso aqui não é metalinguística, é metafísica. A metafísica do beijo, por favor, larga esse celular. Por favor, fecha esse livro, que você nem abriu ainda, que tá aí, dentro da bolsa. Larga e me responde: que há de mais certo além do pôr-do-Sol? Por favor, fecha essa janela, me cobre com esse cobertor. Que há de mais certo que a noite chegar e nos ocupar metade do dia? Não é que eu não possa estar errado, mas há pouca ou nula possibilidade de você estar certa.
Às vezes me vem umas coisas na cabeça e eu começo a recitar assim mesmo, falar desse jeito. Poesia pra mim é todo dia, toda hora. Já era pra você ter se acostumado, não? Ó, os dias passam como vagalume, meu corpo cai de febre e você me diz que não sabe o nome de nenhuma estrela? Como assim não sabe o nome de nenhuma estrela? Antares! Como assim, o que é Antares? Ó, outra: Alpha Centauri, terceira mais brilhante à noite, à olho nu. Até o olho tá nu e a gente aqui. Brincadeira, não vai embora, não.
Não é que eu te queira bem, eu te quero mal. Te quero morta. Calma, digo, calma. Sim, falei em morte porque tava pensando... Se eu quero que você morra, eu quero, agora, o que há de acontecer fatalmente algum dia. Por isso, tô dizendo, querer a morte de alguém é querer essa pessoa não viva. Por mais que pareça óbvio meu pensamento, isso que eu tô dizendo, é menos do que parece, muito embora eu assuma uma certa ingenuidade e superficialidade no que digo, humildemente assumo, logicamente, medindo nossos níveis etílicos. Mas é isso, é se querer que a pessoa não viva, principalmente se você for ateu e não acreditar, piamente, que aquela criatura vai pro paraíso orar pra Deus ter piedade da alma do assassino ou do presidente em quem ela votou. E mesmo que você seja ateu, descobrir que esse tipo de coisa acontece deve ser das coisas mais irritantes que podem acontecer contigo, cara. Se liga nisso aqui.
Escrevi isso enquanto ando, e é literalmente, abri um bloco de notas, entrei num bar e fingi que tava vendo o mostruário, deviam achar que era fiscal de qualquer coisa, escrevi a ideia que me veio, que é exatamente esta, de dizer que eu estou escrevendo andando, embora isso seja metalinguístico, e eu prometi, na hora que a gente sentou aqui, de falar de metafísica. Prossegui a viagem. Escrevi andando também que lembrei de sua família em São Paulo, que vota mal mesmo sem água. Mas vamos evitar falar de política, vamos falar de você. Melhor ainda, vamos falar de mim, o meu dia foi maravilhoso, ó só. Melhor ainda, vamos falar nada:
Um minuto de silêncio, durante, usei esse tempo para lembrar daquela vez, a gente no ponto, você tava pensando, sei lá, naquela lasanha morgada que você tinha guardado do dia anterior, que você ia chegar então em casa e esquentar e ter uma janta diferente. É, e enquanto você estava distraída, não sei se te disse isso, mas tinham dois ou três marmanjos espiando seu decote, que, se me permite dizer, estava muito bonito aquele dia, e eles se aproveitando do acento elevado do ônibus, sabe? Deve ser difícil ser mulher. Nunca te perguntei, você é gaúcha de Pelotas? Abre seu olho que tem gente que vai se aproveitar desses papos feministas pra te levar pra cama, eim? Tem cigarro aí? Não fuma? É, eu sei, esqueci.
"Conheci uma pessoa ausente de qualquer predicativo positivo." "Você, meu amor, é tão status quo; sabia que o purê acabou?" Esses dois escrevi hoje cedo. Às vezes faço esses haikais. Mais: "Ainda teve a cara de pau. Não, não seja tão radical. Não acredito nessa de se não te quis de primeira, não te quero nunca mais. Ainda mais eu. Sou uma pessoa de mudar de ideia." É, não estou nos meus dias mais criativos, juro que sou mais interessante que isso. Vim trabalhando também num roteiro, vou passar pros meus amigos de cinema, vai quê? Ele se passa na rua Uruguaiana, é uma pessoa andando, daí ela repara tudo, tem tudo, o cara que distribui bolha de sabão gratuita na esquina com a Sete de Setembro, o palhaço, mímico, seguindo pessoas e pegando dinheiro da carteira, constrangendo, o cara que vende um pedaço de plástico, que é tipo uma corneta, que faz barulho agudo alto pra caralho, e dá pra falar e a voz sai como de bebê. Nunca acredito que alguém compra aquilo. O cara tocando guitarra, aliás ele toca bem, esse já é na Carioca. O cheiro de camarão, que é um dos piores cheiros que eu já senti na vida, e isso precisa ser ratificado aqui. Ah, e os hippies e as miçangas, ridículos. Isso daria um bom título: "Hippies e Miçangas". Que papel é esse ai? É seu? Posso ler?
Nome: nome é coisa que dá e passa. Fome, fome é coisa que se dá e mata, quando possível. Saudade, a cara da saudade é a cara que eu tô fazendo agora mas você não pode enxergar porque é cego. Mentira. Fome, coisa que eu te dei e te engasgou. Nome, coisa que eu esqueço ou troco. Fome, coisa que se chama em voz alta pela janela. Nome, aquilo que fica enroscado no dente, juntando cáries. Saudade, em muitos outros idiomas se escreve saudade. Em polonês, em alemão. Verdade, só dois. Desculpas, em todos os idiomas se escreve desculpas. Foda-se. Fome, que irrita, que soa como ofensa, que quase nunca usa cedilha. Nome, que embrulha o estômago, que aumenta o colesterol do sangue. Nome, de novo, porque tem gente que nunca sentiu. Fome... qual é o seu mesmo? Saudade, a fome, desculpa, o nome. Que é isso tudo diante daquela estrela explodindo agora? É, você não sabe e nem vê, mas não posso deixar de dizer, meu amigo. Diariamente uma coisa nova vai acontecer. Ou aos finais de semana? Quem sabe a periodicidade? 'Má vez por mês, ao menos, eu sei, em algum lugar da cidade.
Me lembrou alguma coisa que li outro dia. Mas gostei, e não é que deu fome mesmo? Vamos pedir uma batata?
Às vezes me vem umas coisas na cabeça e eu começo a recitar assim mesmo, falar desse jeito. Poesia pra mim é todo dia, toda hora. Já era pra você ter se acostumado, não? Ó, os dias passam como vagalume, meu corpo cai de febre e você me diz que não sabe o nome de nenhuma estrela? Como assim não sabe o nome de nenhuma estrela? Antares! Como assim, o que é Antares? Ó, outra: Alpha Centauri, terceira mais brilhante à noite, à olho nu. Até o olho tá nu e a gente aqui. Brincadeira, não vai embora, não.
Não é que eu te queira bem, eu te quero mal. Te quero morta. Calma, digo, calma. Sim, falei em morte porque tava pensando... Se eu quero que você morra, eu quero, agora, o que há de acontecer fatalmente algum dia. Por isso, tô dizendo, querer a morte de alguém é querer essa pessoa não viva. Por mais que pareça óbvio meu pensamento, isso que eu tô dizendo, é menos do que parece, muito embora eu assuma uma certa ingenuidade e superficialidade no que digo, humildemente assumo, logicamente, medindo nossos níveis etílicos. Mas é isso, é se querer que a pessoa não viva, principalmente se você for ateu e não acreditar, piamente, que aquela criatura vai pro paraíso orar pra Deus ter piedade da alma do assassino ou do presidente em quem ela votou. E mesmo que você seja ateu, descobrir que esse tipo de coisa acontece deve ser das coisas mais irritantes que podem acontecer contigo, cara. Se liga nisso aqui.
Escrevi isso enquanto ando, e é literalmente, abri um bloco de notas, entrei num bar e fingi que tava vendo o mostruário, deviam achar que era fiscal de qualquer coisa, escrevi a ideia que me veio, que é exatamente esta, de dizer que eu estou escrevendo andando, embora isso seja metalinguístico, e eu prometi, na hora que a gente sentou aqui, de falar de metafísica. Prossegui a viagem. Escrevi andando também que lembrei de sua família em São Paulo, que vota mal mesmo sem água. Mas vamos evitar falar de política, vamos falar de você. Melhor ainda, vamos falar de mim, o meu dia foi maravilhoso, ó só. Melhor ainda, vamos falar nada:
Um minuto de silêncio, durante, usei esse tempo para lembrar daquela vez, a gente no ponto, você tava pensando, sei lá, naquela lasanha morgada que você tinha guardado do dia anterior, que você ia chegar então em casa e esquentar e ter uma janta diferente. É, e enquanto você estava distraída, não sei se te disse isso, mas tinham dois ou três marmanjos espiando seu decote, que, se me permite dizer, estava muito bonito aquele dia, e eles se aproveitando do acento elevado do ônibus, sabe? Deve ser difícil ser mulher. Nunca te perguntei, você é gaúcha de Pelotas? Abre seu olho que tem gente que vai se aproveitar desses papos feministas pra te levar pra cama, eim? Tem cigarro aí? Não fuma? É, eu sei, esqueci.
"Conheci uma pessoa ausente de qualquer predicativo positivo." "Você, meu amor, é tão status quo; sabia que o purê acabou?" Esses dois escrevi hoje cedo. Às vezes faço esses haikais. Mais: "Ainda teve a cara de pau. Não, não seja tão radical. Não acredito nessa de se não te quis de primeira, não te quero nunca mais. Ainda mais eu. Sou uma pessoa de mudar de ideia." É, não estou nos meus dias mais criativos, juro que sou mais interessante que isso. Vim trabalhando também num roteiro, vou passar pros meus amigos de cinema, vai quê? Ele se passa na rua Uruguaiana, é uma pessoa andando, daí ela repara tudo, tem tudo, o cara que distribui bolha de sabão gratuita na esquina com a Sete de Setembro, o palhaço, mímico, seguindo pessoas e pegando dinheiro da carteira, constrangendo, o cara que vende um pedaço de plástico, que é tipo uma corneta, que faz barulho agudo alto pra caralho, e dá pra falar e a voz sai como de bebê. Nunca acredito que alguém compra aquilo. O cara tocando guitarra, aliás ele toca bem, esse já é na Carioca. O cheiro de camarão, que é um dos piores cheiros que eu já senti na vida, e isso precisa ser ratificado aqui. Ah, e os hippies e as miçangas, ridículos. Isso daria um bom título: "Hippies e Miçangas". Que papel é esse ai? É seu? Posso ler?
Nome: nome é coisa que dá e passa. Fome, fome é coisa que se dá e mata, quando possível. Saudade, a cara da saudade é a cara que eu tô fazendo agora mas você não pode enxergar porque é cego. Mentira. Fome, coisa que eu te dei e te engasgou. Nome, coisa que eu esqueço ou troco. Fome, coisa que se chama em voz alta pela janela. Nome, aquilo que fica enroscado no dente, juntando cáries. Saudade, em muitos outros idiomas se escreve saudade. Em polonês, em alemão. Verdade, só dois. Desculpas, em todos os idiomas se escreve desculpas. Foda-se. Fome, que irrita, que soa como ofensa, que quase nunca usa cedilha. Nome, que embrulha o estômago, que aumenta o colesterol do sangue. Nome, de novo, porque tem gente que nunca sentiu. Fome... qual é o seu mesmo? Saudade, a fome, desculpa, o nome. Que é isso tudo diante daquela estrela explodindo agora? É, você não sabe e nem vê, mas não posso deixar de dizer, meu amigo. Diariamente uma coisa nova vai acontecer. Ou aos finais de semana? Quem sabe a periodicidade? 'Má vez por mês, ao menos, eu sei, em algum lugar da cidade.
Me lembrou alguma coisa que li outro dia. Mas gostei, e não é que deu fome mesmo? Vamos pedir uma batata?

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