sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Joanetes

Tu és radical nos sentimentos e atos, nem tanto nas intenções. Processa as distâncias como quem se sara um câncer. Degusta os abismos com o mesmo cuidado que mergulha os pés em uma bacia morna pra aliviar joanetes. Teu compasso sincopado, teu calor vazando pelas esquinas e curvas do corpo, te encontro em todos os cantos, como um sorriso só em diferentes cantigas e rostos. Por ver em ti tamanho alumbramento, os Verões da província se apressam e as frutas cítricas da estação te acontecem mais cedo, kiwi, acerola, seriguela, limão, contudo, presam por tua gastrite. Ainda decorada de tanta alegria o que me cativa de fato em ti é teu ódio. Cativa-me a forma como rasuramos os muros racistas e brancos que historicamente censuram a senzala e o grafite, trilhas de asfalto mal sinalizadas que se estendem ao longo do caminho menos óbvio entre a viela, o boteco, a doceria e o lençol molhado no teu quarto. Fazemos amor pelos terrenos baldios espalhados nesta capital oriundos da especulação imobiliária. Desejo-te a embriaguez logo cedo, te quero tão bem que te imagino vestida de anil, de firmamento, calçando o chão de terra batida pra combinar com a vestimenta. Desenho-te esculpida em palavras aqui, mulata de café, caucasiana de açúcar. Doçura esta derretida apenas na língua que ela quer.

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