Neste instante, num mercado na Praça da Bandeira, alguém passa o equivalente a 500 reais em compras de caixa de cerveja. A atendente do caixa julga com olhos de quem vai passar o final de semana no serão ou vigília da Igreja, embora seja menos assídua do que costuma vender. O comprador olha com a cara de quem tá prestando atenção em outra coisa, com o fone de ouvido ligado no rádio AM, com jeito e trejeito de quem deve ter erguido as mãos pros céus no momento que perguntou pro camelô e ele confirmou o fato abismado de ter encontrado um celular que ainda capta ondas de rádio AM. Ela pensa nas panelas sujas guardadas dentro da geladeira, oxidando, ansiosa, ela, em voltar pra casa e retirá-las, pois o celular descarregou, não tem como avisar quem ou alguém deste acidente por sua pressa mais cedo, sorte que hoje o turno acaba meio dia, mais 30, 40 minutos pra fechar o caixa, embora o movimento hoje esteja fraco, molenga, em parte provável pelo calor inesperado, estamos em agosto e parece dezembro, pensa num repente, quem sabe consegue fechar as contas em tempo recórde para já adiantar o almoço, quem sabe consegue até transar rapidinho com o marido, porque os meninos só voltam depois da tarde, hoje tem reunião do coletivo da igreja, antes das 17h certeza que não pisam em casa, talvez até dê tempo de testar aquele brinquedo que ela mesma arranjou com aquela colega, e que mostrou pro homem mas que desconversou e disse que tava com sono, mas que ela conhece o figura com quem trocou aliança e jurou amar e sabe que de tanta coisa uma coisa que com certeza ele é: é curioso. Domingo Deus fez pra gente testar nossa fé na vida e descaralhar esse tédio, essa birra, pensa consigo mesma e ri. Sai de mim carapuça, pensa ele, ouvindo do rádio a descrição dos placares do dia anterior da série B, já pensando no hipotético desempenho de seu time no próximo ano, mas se arrepende do pessimismo, e estala os lábios como quem fecha a porteira. Aproveita e pensa no presente também, calcula brevemente o placar de logo mais, se pergunta de quanto o time hoje vai perder, sua expectativa inicial espera que apanhe menos do que da última vez, embora se pudesse desejar desejava que essa má fase passasse logo, e também, se pudesse, se não fosse pecado, pedia que o chefe se jogasse de vez da ponte Rio e Niterói pro negócio do bar passar logo pros sócios que estão loucos para vendê-lo praquela cervejaria aí que tá dando na TV agora. Lugar bem localizado, choveu proposta, mas o velho é teimoso e fica. A cerveja, claro, neste caso seria pra outra oportunidade, além daquela tarde, para o serviço do dia seguinte, deixaria no comboio que fica ali perto. Mas um fio de esperança lhe faria desviar pelo menos três latinhas daquele engradado que já veio aberto e guardá-las naquele canto mais gelado da geladeira, torcendo para o milagre do imprevisto surpreender sua tarde, na verdade, seu Domingo todo.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
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