sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Desaparece em Agosto (também identificável como "Monólogo em Areia e Dedo: Trinta")

Vide o título, em agosto desaparecem os oceanos dos mapas, as aftas da boca, os vermes das frutas, os corpos dos vultos, a chuva deitada, o traço das sobrancelhas, os filmes analógicos das retinas, as nuvens de Sol, noites de gaguejo, o pé dos cacos, as remelas carameladas das pálpebras permanecem, mas desaparecem os estetoscópios dos pescoços, a seca do corpo, as cáries do peito, as unhas das costas, o tendão do calcanhar, o passo do descompasso, o amarelo do riso, o verde da estrada, a lição da esgrima, o ponto da vírgula, os rascunhos dos entulhos, o maremoto, o ranço do peito, o ouro da pele, a saudade da cama, o encontro do acaso, o teto da casa, o firmamento do teto, as aeronaves da estante, o susto do novo, a fuga do nojo, o leão do quarto, a memória do abraço, a anemia falciforme permanece no sangue, mas desaparecem o azul marinho da noite, o azul turquesa do dia, a tinta das palavras, as cicatrizes das paredes, desaparece a poesia da casca, a casca das feridas, as feridas dos bares, os bares da cidade, a cidade dos homens, os homens do manicômio, os manicômios de qualquer parte. Desaparece o que há de cheio nos copos, o que há de vazio em mim. Desaparece até sua vontade de dormir, engasgar, soluçar, enfartar, e minha obrigação de fugir, tropeçar, fingir, confessar, mentir, apagar, escrever e transar. Desaparece a verdade. E também o bom senso, inclusive, porque esse ano já tentaram cancelar agosto pra ver se a Primavera chegava mais cedo e não desaparecia dos dentes. 

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